Tem nego que é blogueiro, twitteiro, tem tumblr, responde formspring, ainda entra em comunidade do Orkut pra responder tópicos e conversa com Deus e o mundo sobre tudo e todos. Discutir é saudável, discutir é debater, trocar ideias, aprender diferentes pontos de vista. Só que algumas pessoas não sabem brincar disso.

No twitter, eu só sigo quem concorda comigo. Ôpa, nego deu retweet, deu reply falando que curtiu, que é isso aí mesmo, eu sigo. Fulano foi contra? Sai de perto de mim. E nessa brincadeira, a gente acaba juntando em volta de nós só quem concorda conosco, ou se abstém de comentar, o que não é nem um pouco saudável.

Hoje, discordar de alguém virou sinônimo de imaturidade – quiçá hipocrisia. Ontem mesmo fui acusado dos dois por ter entrado numa discussão qualquer.

Já reparou em como algumas coisas sem importância se tornam valiosas pras pessoas, e quem não está acostumado com esse ‘valor’ acaba se assustando com o que pra ele era banal?

Foi o que aconteceu quando os aborígenes americanos viram sua imagem refletida num objeto sólido – algo que pra eles só acontecia na água; quando tribos africanas descobriram o valor de uma pessoa domada (aka escravo); e muitas outras coisas com o passar do tempo.

E, geralmente, quanto mais banal a coisa, mais intrigante fica saber que alguém a considera valiosa; pessoas em todo o lugar acham bizarro o conceito de não transar com alguém – alguns ficam tão chocados que não se convencem que aquilo pode ser verdade, outros aceitam, e até acham interessante, embora digam não ser para eles.

Panfletagem, blogs evangélicos, twitter, e-mails em massa, scraps coletivos, outdoors, adesivos para carros, camisetas, repentinamente, pregar o evangelho se tornou algo mecânico.

Assim como aqueles que falam as mesmas palavras vazias em funerais e em aniversários, transbordando de insensibilidade, os panfletos evangelísticos são tudo aquilo que Cristo pede para que não sejamos: frios, desconectados da realidade, e vazios.

Se a Igreja é relacionamento, e o corpo de Cristo é comunhão, o evangelismo não é alistamento militar – requer tempo, disposição, e muitos, muitos abraços.

Porque abraço? Você não abraça um desconhecido. Você não abraça – não de verdade – quem não é íntimo de você. E não existe uma metodologia, uma regra, uma fórmula de se tornar íntimo das pessoas, a não ser gostando delas. Se importando. Entrando na vida delas, não de surpresa.

Mas como qualquer pessoa entrou na sua. Por isso é importante a vida fora dos cultos – há vida fora da igreja, eu juro.!

A gente se apega às coisas que estão conosco no dia-a-dia. São coisas simples, como a lapiseira que escrevemos, o livro da escola, ou aquele lugar da biblioteca que a gente sempre senta pra estudar. À medida que o tempo passa, as coisas evoluem. Passa a ser o nosso notebook, o nosso meio de transporte, o que usamos pra trabalhar.

Querendo ou não, nós sempre enchemos as nossas coisas de emoções. Não é simplesmente um notebook, é aquele que eu usei pra digitar toda minha monografia. Não é uma caixa, é a caixinha do anel de noivado.

Inspirei, e tinha algo estranho no ar. Não é que algo cheirava mal, ou parecia queimado. É aquele alarme que começa a piscar quando há alguma coisa de errado nas entrelinhas. Como estava na cozinha, fui ver o fogão – tudo normal, desligado. Abri a porta da geladeira, e a crosta de gelo que tinha nascido na parede nos últimos meses me encarou, solitária, me censurando por não haver produto algum fora as últimas garrafas de Coca-Cola; até a cerveja já tinha acabado.

Respirei novamente, tentando entender o que acontecia, passei pela sala, impecavelmente bagunçada – os livros e todo material da pesquisa revirados, mas nada que fosse estranho, o apartamente já tinha se acostumado com aquele estado das coisas, no corredor não seria possível que fosse a lâmpada.

Temendo o pior, não quis passar perto da porta do banheiro, seja lá o que poderia haver lá dentro, fui direto ao quarto. Impressionante como a sensação de algo errado aumentava a cada passo. A escrivaninha, com a mochila, e nada dentro dela; as estantes com algumas revistas e os livros que ainda não tinham sido sequestrados pela mesa de estudos improvisada da sala.