Quem já pisou numa reunião de culto, de qualquer religião já cansou de ouvir: o problema do mundo são as pessoas – e não apenas as pessoas, mas o egoísmo relativo a elas. Invariavelmente, nós buscamos nas religiões um caminho a se seguir para fugir dos problemas que esse egoísmo gera, em nós e nos outros.

O nosso egoísmo vai além daquele conceito de ambição que está em moda hoje. Na verdade, o nosso problema está além do nosso próprio egoísmo. A nossa prepotência é tão grande, que qualquer assunto que não nos atinja diretamente não tem importância.

Minha formação teológica vem de Dostoiévski; das letras de música de Andrea Bocelli. Minha completa percepção de meu afastamento de Deus é expressada na agonia de Piotr Pietróvich, cuja consequência foi o suicídio. Minha melhor expressão de amor divino vem de letras pagãs italianas clássicas, que misturam amor com Amor – até porque o Amor sem amor é vazio.

Minhas falhas são expostas por sociólogos e o meu método de lutar contra elas sai de cientistas políticos. Minhas reflexões são baseadas em perguntas de filósofos, e minhas indagações foram feitas com apoio de psicólogos.

Minha formação teológica pura é nula. Sei tanto das diferenças entre arminianistas e calvinistas como sei diferenciar marcas de leite em pó em potes sem o rótulo. E não me arrependo disso. A minha formação intelectual é totalmente carnal, não pretende cobrir todos os aspectos da dinvidade nem se põe num lugar de soberano entendimento.

Eu não sou servo de Deus, sou amigo. Não sou servo porque não obedeço todas as vezes que Ele manda. Sou amigo porque sempre faço muita besteira, e Ele sempre me desculpa. Sou amigo porque a nossa relação não é tão boa quanto Ele gostaria ou se empenha, mas mesmo assim não desistimos dela. Não sou servo porque o senhor usa o seu servo, e na verdade, nós nos gostamos tanto, que chegamos a nos amar – da maneira mais heterossexual possível.

Eu não sou servo de Deus porque eu não sirvo para isso. Não sirvo para fazer algo de útil – quem dirá fazer o bem, para trabalhar pra Ele. Por isso sou amigo, porque eu preciso da ajuda dEle pra fazer qualquer coisa que preste. Eu preciso dEle pra reafirmar todo dia meu amor pela minha namorada. Eu preciso dEle para olhar à minha volta e não sair correndo pra Maringá e arruinar tudo isso que a gente construiu nos últimos meses – isso porque de vez em quando eu causo algumas rachaduras na nossa fundação. Eu preciso dEle pra olhar pro Corsa que me fechou e não sair correndo atrás do motorista pra passar um susto –daquele jeito que só motoqueiro sabe dar.

Eu sou amigo dEle, não por mérito meu, mas exatamente por todas as minhas falhas. São elas que me guiaram à inevitável amizade, pois se ele não se importasse com o meu amadurecimento, com a minha vida, eu seria apenas um servo.

Para entender mais do conflito entre PM e Estudantes na USP,

acesse o PseudoDoutor.

A polícia é má. É truculenta. Eles só ‘quer’ te controlar. Eles ‘tem’ o poder. Os ‘home’ não quer saber se você é de bem ou de mal, eles só ‘quer’ o dinheiro. Não isso, não é uma letra de rap, saída de um presídio ou de uma comunidade que beira a miséria, embora coubesse perfeitamente nesse contexto. Essas frases, ou pelo menos algumas delas e muitas outras parecidas ecoam na boca de lideranças estudantis.

Lideranças estudantis que combatem a classe rica e chamam de ignorantes as classes médias – daonde eles mesmos vieram. Lideranças que não tem identidade, e escondem-se em fatos mal-arrumados, justificações falhas e propósitos vazios. A questão é que muitos vêem na luta contra a ditadura uma vida tão romântica e épica, que tentam reconstruí-la atualmente. Só que não há uma ditadura.

Após passar alguns anos em liderança de igrejas, eu vi, ouvi, participei e pensei muita coisa. E deu pra imaginar bastante o que seria uma igreja ideal e como chegar até lá (porque não adianta fazer crítica vazia, e esse não é o único caminho, na verdade nem se esse é um caminho, mas é o que eu acredito que seja).

Eu não sei quem começou com essa história, se foram os ateus ou se foram os crentes, mas o fato é que os dois dizem que a igreja é uma empresa – um diz que só se querem os lucros, o outro diz que é um modelo de gestão eficaz. Hm, gestão e eficácia.