O que você quer é isso em larga escala. Nós sabemos.

Morar sozinho dá trabalho, todo mundo sabe. Se não fosse tão trabalhoso, a gente não entraria entre crise em sair da casa dos pais e todas as facilidades e problemas que isso traz e arrumar logo um canto pra fazer nossas porcarias em paz – e não venha com essa, nós sabemos que é assim.

Só que existe uma coisa pior do que morar sozinho e ter que se virar – quando você mora sozinho, toda menina que você fica enrolado quer se mudar pra sua casa. E não é aquela história bonitinha da menina arrumadinha, que vai se integrar perfeitamente ao caos que você criou e que se dá bem – afinal você descobriu que a privada sem tampa é muito mais prática (tanto para fazer xixi de madrugada como para vomitar logo depois da balada) do que aqueles pedaços de plástico que insistem em ficar no meio do caminho quando a gente tá tentando fazer algo sem ver direito (aplicável nas duas situações, portanto).

Afinal, quando uma menina decide que quer morar com você (e isso vai acontecer em algum ponto do relacionamento, mesmo que seja nos primeiros cinco minutos de conversa com ela enquanto você tentava na verdade fugir dali o mais rápido possível – mas é educado demais pra deixá-la falando sozinha), ela age da mesma maneira que quando ela está afim de você.

Ela não te dá uma flor e te pede em namoro. Ela vai devagar, esperando que você veja, e a convide formalmente (por mais que você esteja almoçando com ela todos os dias há mais de 3 meses e que ela saiba os números da sua agenda do telefone de cor (principalmente do sexo feminino). Então, ela vai dormir na sua casa – uma vez. E acaba ficando outra noite. E outra – e outra.

Quando você para pra pensar em como aqueles pares de meia foram parar no cano do chuveiro e que você não tinha tantos shampoos assim, você não vai conseguir se lembrar de quanto tempo realmente ela está ali, no seu quarto.

E aí são programas cancelados com os amigos, são móveis rearranjados e cada dia mais uma peça de decoração especial que você não esperava ali. Se a sua geladeira tinha todos os tipos de fast-food que você não tinha conseguido digerir durante a semana, agora ela vai ter iogurte do pior tipo (aquele que te faz cagar) e ceras de depilação estarão presentes no seu micro-ondas (sim, no lugar sagrado de esquentar a comida de ressaca).

Seu quarto num futuro bem próximo

E nessa hora, quando você vai colocar o seu hot pocket de bacon feito de isopor no microondas, enquanto decide se vai beber um suco intragável de uva ou maçã e dá de cara com uma cera de depilação, você conclui – essa garota precisa sumir.

Não é que você não goste dela. Mas você saiu da casa dos seus pais pra ter as suas coisas, poxa e não com uma menina aí enchendo. Afinal, não é todo dia que vocês se dão bem. Quer  saber como tirar ela da sua casa, sem provocar drama, brigas ou desentendimentos?

Faça como faria com qualquer outra praga – deixe passar fome. Bróder, geladeira vazia, pé na tábua pro trabalho antes da menina acordar e voltar de noite depois de ter comido, ela volta pra casa dilma vez.

Agora se você chegar em casa, e a mina tiver feito compras e enchido a geladeira, bróder – cê tá lascado. Mas é uma menina que vale a pena, se ela gastar dinheiro com isso.

Vou jogar o segredo de conversar com a mina que você gosta: CONHEÇA ELA, INFELIZ. É o melhor caminho pra não dar nenhuma rata, não falar nenhuma besteira ou citar como o pai dela deve ser ciumento – logo antes de descobrir que o velho está internado em estado grave na UTI, com câncer no estágio 4 (acontece mais do que você imagina).

Conheça a garota, saiba que ela gosta de Avenged Sevenfold, antes de você falar que é metaleiro e ela fazer você ouvir o metal mais leve do mundo pelo resto da sua vida (ou por um futuro assustadoramente próximo); descubra se ela é cristã ou não e qual o nível da tradicionalidade dela – se ela namora de mãozinha dada depois de orar por 03 anos e uma pomba branca revelar que você sim, é o enviado de Deus, ou se ela é porra-louca e teve umas quatro ficadas gospel nos últimos três meses.

“Mas Abigo, como eu vou fazer isso? Pergunto pros amigos dela?”

PELOAMORDEDEUS, se você quer ter alguma chance com essa garota NÃO – não pergunte a nenhum amigo dela (aliás nem os trate como se fossem seus amigos logo de cara, isso não é legal). Como você vai saber? Pergunte – entre numa conversa, e pombas, como você foi se apaixonar por uma garota e não sabe nem o gosto musical dela? Cê tem problema? Mano, ignore os quatro sobrenomes dela, a ascendência russa, o número do sutiã – ignore até mesmo o curso que ela quer fazer (ou faz) na faculdade, mas saiba qual o gosto musical dela.

Essa informação é muito mais importante e preciosa do que qualquer outra coisa – e mesmo se ela curtir Biquini Cavadão e Los Hermanos, isso é muito mais fácil de se puxar uma conversa do que ‘você viu que a Universidade Federal de Monte Carmelo abriu curso de Engenharia de Agrimensura esse ano?’. Com o bônus que você não vai parecer tão idiota assim (mas ainda há chance).

“Mas Abigo, eu falo com ela e ela não responde”

Você já considerou que pode estar fazendo isso errado? Principalmente se dizer ‘oi’ logo que ela pula online no MSN religiosamente nos últimos quinze dias, mesmo que ela entre umas 3 ou 4 vezes por dia?

Já considerou que chamar ela de ‘linda’, de ‘meu bem’ e outras variáveis requerem um nível de intimidade que você não tem (e vai continuar sem ter)? Já considerou que chamá-la de ‘moça’, de ‘mocinha’, ‘menina’ já dá na cara praonde vai essa conversa, antes mesmo de você mostrar como é legal e vale a pena te dar uma chance (mesmo que seja feio pra burro)?

Pra você ter noção, quem me falou essas palavras foram elas, cara. Tá mais batido que carro do Senna.

A questão é ser criativo. E criatividade não vem de ler textos, de revirar manuais ou decorar passos. Não é um curso que vai te fazer conquistar a mulher que você gosta, vai ser você tentar – mas tentar como homem, não como menino.

Agora chega desse papo de adolescente cheio de espinhas.

Foi aquele dia que viraram pra mim e falaram: “Você vai trabalhar com o Henrique”. Beleza, tranquilo. Olhei pro Henrique, um senhor já, com seus cinquenta anos, usa sempre a mesma camisa social, cabelos mais brancos que grisalhos penteados, uma postura de servidão que só não era maior porque ele era chato – foi o que me disseram.

Henrique em sua juventude divertida.

Já preparado para encontrar o chato, na primeira semana de trabalho nós tivemos um problema: e realmente era chato. Mas não era pouco. Quer sacar qual a vibe da chatice dele? Sente o som:

Ia ter um evento, que a chefia ia organizar – e o prédio que a gente trabalhava tinham duas entradas, por duas avenidas. Não existia uma entrada principal – eram entradas diferentes para pessoas diferentes.  Eu ia ficar na entrada de lá e o Henrique na entrada de cá.

_Mas eu que tenho que ficar na entrada de cá. Eu conheço fulano, beltrano, conheço todo mundo. Você fica na entrada de lá, e eu fico na de cá.

_Henrique, quem mandou foi o Chefe. Quer discutir com ele a portaria que você vai ficar?

_Não, eu só vou ficar na de cá, e você na de lá.

_Peraí, eu vou ligar pra ele e você diz isso – eu não tenho paciência mais pra ele, sério.

Cada dia é um problema – e se alguém me pediu pra ficar do lado de cá, porque raios eu não posso ficar no lado de lá? Se ele quer comprar briga, que compre. Quando o Chefe atendeu, Henrique falou baixinho, pra eu não ouvir todos os principais e obscuros motivos que obrigariam-me a ficar na outra porta. É claro que o Chefe disse não, e ele resmungou pra mim

Meia hora depois, ele vira e diz:

_Eu vou ficar de cá, então.

Tem mulher que é assim, né. Quando fica solteira, já tem cinquenta amigos chamando pra balada, o celular não para de tocar e tem mais ombros amigos que vereador montando seu gabinete. E o ex-namorado geralmente acha que isso é uma prova da moral da garota – vou te dizer a verdade: não é.

Não deve ter coisa mais inconveniente que postar uma foto no facebook e receber 15 comentários instantâneos de sujeitos com bigode por fazer e boné de lado (nada contra quem gosta, afinal, livre arbítrio taí, pra ser abusado) tentando elogiar respeitosamente – e falhando miseravelmente.

Não deve ter coisa mais chata que desabafar algo que está machucando e receber comentários do estilo ‘você é linda demais pra ficar triste’, como se houvesse alguma causa-efeito nessa frase que fizesse sentido em algum lugar do universo.

Não deve ter coisa mais entediante que conectar na internet e ter sete janelas de conversa pulando, com frases que vão do genérico ‘oi, meu bem’, até conversas sobre como é inconveniente que você converse com seu ex-namorado, afinal tem um bróder meu que é super afim de você, mas tá esperando a hora certa de chegar em você.

E a partir daí, fulano se torna feio demais para você; o outro já é esquisito e não faz a barba; e aquele terceiro lá só se o cara for muito bom – porque um certo tipo de mulher não pode ter vida própria.

Porque acontece isso com elas? Que tipo de mulher é esse? É aquele que você sempre quis ter mas nunca criou coragem de investir – decerto talvez porque você era o amigo que estava esperando a hora certa, quando ela estivesse muito mal, mas tão mal que até aceitaria algo com você.

E aí você joga esse tipo de frustração na garota. E quando ela não corresponde às suas expectativas sobre o que ela deveria fazer – como se houvesse um manual de ser bonita. Culpa de quem que você é o eterno amigo friendzoned? Sua, porque você é um idiota.

Você puxa então papo, concorrendo com outras oito janelas iguais no MSN. Quando elas não respondem, ou quando fazem, fazem com pressa, elas que não sabem reconhecer como você é especial. Especialmente idiota.

Numa pesquisa[bb] sobre o que o cidadão achava que poderia melhorar no bairro,
alguém escreveu "Precisamos melhorar a violência"

É, vamos melhorar a violência – ela está fraca demais. Uma violência como essa nunca seria aceita nos dias de antigamente. Os violentos não violentam mais como violentavam no passado.
Essa violência precisa ser melhorada. Precisamos voltar à violência de raiz, à violência moleque, à violência de várzea.
Essa violência de hoje não tem mais respeito por nada ou por ninguém, só pensa nela, no seu egoísmo. A violência antigamente era aquela violência democrática, não fazia distinção entre classes sociais, entre sexo ou raça, ela atingia todo mundo.
Vamos melhorar a violência, falou alguém numa campanha.
É. A crise tá feia. No terceiro mundo até a violência tá precisando de uma ajudinha.

Todo mundo sabe que trabalho[bb] é uma coisa bem delicada – até vendedor de balas no sinal sabe disso, e não sai falando qualquer coisa pra qualquer um (‘Paguei 30 centavos em cada Halls[bb] dessa e revendo por 2 reais, acredita?’ não é bem o que se fala pra um cliente em potencial); mas parece que até essa regra tem suas exceções.

Sim, esse trabalho existe.

Mesmo que você seja um profissional autônomo[bb], trabalhando sozinho e com mais ninguém, vai ter que interagir com pessoas, mesmo que na frieza de um e-mail ou de uma caixa de mensagens; mesmo que você trabalhe numa linha de produção, cortanto bicos de frango ou retalhando pedaços de bacon, você vai ter contato com a galera do RH, principalmente se você sair por aí perguntando se aquelas facas cortam ossos humanos.

O fato é que existe uma etiqueta básica, seguida desde o mais burocrático milionário ao mais simples faxineiro do bar da esquina – e o fundamental é: não se enche o saco de quem não se conhece.

E há gente que não consegue entender isso.

Comecei a trabalhar há uma semana e já não suporto o ser que divide a sala comigo porque ele simplesmente quer me inteirar de toda a vida dele (desde a adolescência de Moisés), na qual, claro ele é um completo herói. Mas ele é tão bom, mas tão bom, que taí até hoje, na mesma.

Não, não é desse puxa-saco que estamos falando.

Sabe aquelas pessoas insuportáveis, que estão sempre ‘pegando informações’, tem as ‘últimas notícias lá de cima’, e está sempre buscando puxar o saco de alguém? Então, aí vai uma lista de dicas para evitar ao máximo esse tipo – não é 100% efetivo, mas pelo menos vai te livrar de 5 das 8 horas diárias que você passa com esse ser, pra você que trabalha no computador – e esta vai ser sua principal saída.

Assim que ele começar o seu discurso, concentre-se fixamente no seu computador – mesmo que não haja nada além de um jogo de paciência e um documento em branco do Word (ou BrOffice). Concentre-se como você se concentrava na terceira série durante uma disputa de quem piscava primeiro (se conseguir permanecer sem piscar, melhor ainda), enquanto ele estiver falando, até que:

– Ele te chame a atenção: finja não ouvir até a terceira vez que te chamar, e responda com um ‘hm’ evasivo, sem desviar os olhos do computador;

– Ele te cutuque: continue olhando por 15 segundos, antes de virar para ele e pedir só um segundinho (é claro que você não vai dar atenção para ele até que ele arrume uma nova maneira de te perturbar);

– Ele desista temporariamente.

Ótimo – até aí foram pelo menos 20 minutos do horário de trabalho (tirando os 10 que ele chega atrasado e mais os 15 que ele ficou tomando café, já são quase 9 horas). Logo que vir ele abrindo a boca, atenda o telefone. Qualquer telefone (menos o celular, ou um que esteja chamando).

O senhor já tentou reiniciar o sistema?

Simule uma conversa, desde não entender o problema da pessoa até resolvê-lo completamente, o que demorará por volta de 10 minutos de ouvir o silêncio a interagir com algo fictício, inventando problemas e dando cliques esparsos no computador (seja trabalhando ou resolvendo aquela crise no Mahjong que você não conseguiu durante a insônia pós-balada) – e depois de desligar, termine um relatório imaginário sobre o atendimento que você acabou de (não) prestar. Com isso tudo já foi mais quase uma hora – para chegar às 10 horas são e salvo, sem maiores irritações, vá ao banheiro lavar o rosto.

Parabéns – já foi 25% do seu horário de trabalho e até agora você conseguiu trabalhar (ou não, dependendo de como é a sua falta de trabalho) sem passar do ‘oi tudo bem’ sem prestar muita atenção na resposta.

Ao voltar pra mesa de trabalho, coloque imediatamente fones de ouvido (dependendo de onde trabalhar os dois ou um só, tá bacana) e trabalhe o que tem que trabalhar até o horário de almoço (mesmo que o trabalho seja zerar paciência no menor tempo possível do cronômetro).

Se até aí já foi metade do dia, a outra metade é muito mais tranquila – afinal, o puxa saco tem que puxar o saco de alguém, e se você está lendo esse blog, presumo que esse alguém não é você.

O fato é que nessa brincadeira, você já comeu a parte que costuma ser a mais improdutiva do seu trabalho, e agora vai voltar para o resto do trabalho com uma dor de cabeça muito menor.

Coloquei o copo vazio no balcão, já meio cansado. Não sabia se estava muito ou pouco cansado, o estado das coisas não me deixava perceber muito isso – só sabia que estava cansado. Guilherme, o barman, riu de mim e perguntou se eu queria mais uma. Já não dava mais; sinalizei que não, e sentei em um dos bancos, enquanto meus amigos continuavam a dançar naquela rodinha bizarra que eles sempre faziam. Não, também  não.

Me virei de costas para o balcão, para poder vê-los sem ficar dobrando o pescoço (acho que estava mais cansado do que pensava), quando ela chegou, me encarou e começou a falar. Não entendia tudo que ela estava falando, mas estava perto demais, quase desconfortável, e gesticulava como se tivesse fechado três comandas no bar.  Ela tinha uma maneira toda de encarar minha roupa que achei um pouco estranho, mas, bem, enquanto ela só falava e não se importava se eu estava prestando atenção tudo bem.

Dizia algo sobre faculdade, o curso dela, a ex-namorada (nesse ponto um alarme começou a tocar na minha cabeça) e como que todos a chamavam de Duda. Duda, poxa, bacana. Se bem que Eduarda… Bom, ela tinha uma ex-namorada, isso já dizia tudo. Eu e meu preconceito com nomes – e dei um sorrisinho por causa disso.

Nessa hora, ela encostou no meu braço – talvez eu não devesse ter sorrido, ou sorrido na hora errada, quando ela falou algo especial, vai saber. Me afastei um pouco, coçando a cabeça com a mão da aliança, mostrando um suposto compromisso que tinha acabado há mais de três meses (o que ela não iria saber, afinal).

Suspirei, olhei pra ela e ia começar a fazer um discurso sobre ‘mina-na-moral-não-quero-nada-contigo-mas-não-leve-pro-pessoal’, quando vi que ela tinha traços masculinos – até demais, mesmo para que tinha ex-namorada.

_ Tem namorado?

_ O que?

_ Ué, tá de aliança e tudo – e ela sorriu, mostrando o aparelho nos dentes, que brilhava quase tanto quanto o piercing no nariz.

_ Namorada, né, dona?

_ Dona? Que isso, cara, vamos devagar… Estamos conversando na moral – e veio ela com aquela mãozinha de novo, roçando no meu braço, e foi quando eu vi.

Aquela garota… com aparelho nos dentes, traços meio masculinos, e com ex-namorada… Não era bem uma… Uma… AAAAAAAAAAAAAAAAAAH

Dei um pulo sobressaltado – onde estava? Que… peraí… Ah, foi um sonho. Que bizarro.

Virei pro lado e voltei a dormir, sem encontrar mais nenhum(a) Duda.