Quando eu fazia faculdade, surgiu um termo numa aula de Direito Penal[bb], meio de esquina assim, comentado, que logo depois, na próxima aula, foi dito por três pessoas. No outro dia, já eram 5, afirmando a importância de considerá-lo. Em uma semana, se tornou difícil assistir aula de alguma coisa sem que alguém comentasse. Sociedade de Risco.

Nós somos muito tensos. Acordamos com os nervos à flor da pele, achamos que todas as pessoas (que não são nós mesmos) que estão caminhando à noite nas ruas são ladrões ou bandidos em potencial. Todos nossos amigos só querem nos usar – e todo mundo que se submete a um relacionamento só quer se aproveitar de nós.

Com isso, criamos uma barreira entre amigos[bb], desconfiamos até mesmo daquelas pessoas que juramos amar para sempre. Temos medo delas, e mesmo que a gente se entregue, ainda há um pé atrás em todas atitudes.

Nós não gostamos nem de surpresas. Frio na barriga? Emoção de alguém ter lembrado de nós e comprado alguma lembrancinha boba, mas especial? Detestamos tudo isso. Odiamos ficar curiosos, e a insegurança que isso dá. Não sabemos que mal poderia haver em alguém nos dar uma lembrança, mas o nosso receio é a pessoa tirar dali uma arma e nos dar um tiro, de tanta tensão.

Fazemos uma prova, e morremos de gastrite até sair o resultado; parece que vai abrir um buraco no nosso estômago antes de qualquer entrevista de emprego. Na hora de falar em público então? Todos os cursos e treinamentos nunca serão suficientes para tirar aquela tensão e tremedeira.

Porquê? Medo da plateia odiar, e jogar tomates e ovos? Medo de se expor? Não sei.

Eu só sei que gosto de surpresas. Gosto de esperar resultados[bb], e de sentir aquele frio no estômago ao abrir a porta da sala do entrevistador. Gosto daquele arrepio, ao abrir a prova que a gente tanto estudou e ler a primeira pergunta.

Eu gosto de ter a certeza que amo a pessoa e falar isso – e esperar a sua resposta.

Seguindo o sucesso da Escala Pavê, elaborada na sexta, temos hoje mais uma Escala a lhes ajudar – A Escala Meme!

Assim como a Escala Pavê ajuda a classificar as piadas sem-graça dos tios que aparecem por aí na vida, a Escala Meme ajuda a classificar a BABAQUICE das pessoas à sua volta. Ladies & Gentlemen…

Utilidade Pública: agora você pode classificar os comentários infelizes de seus amigos de trabalho segundo a Escala Pavê, que vai de 0 (engraçado) a 10 (pelo amor de Deus, alguém me empresta uma arma)


Não entendo a necessidade de se provar que existe algo errado. E geralmente, esse algo errado é uma coisa que está longe de nós, provavelmente feito há muitas gerações e que mudar seria pelo menos muito difícil.

Acho impressionante como as pessoas culpam o sistema, sem saber de onde ele saiu. É fácil falar que o problema da política é o sistema político, se você nunca estudou história e ciência política, aí de repente, o modelo político dos EUA, da Dinamarca e outros países ~prósperos~ realmente parece perfeito. Só que você não vê que um dos candidatos às eleições presidenciais dos EUA vem da extrema direita que quer acabar com os direitos dos homossexuais.

É fácil falar que as igrejas tradicionais são muito engessadas e que ignoram os jovens e a sociedade, se você não estava lá enquanto elas se mantinham fortes enquanto outras caíam em teologias de prosperidade e avivamentos duvidosos, porque foi isso que os anos 80 e 90 gritaram.

É fácil falar que as leis são uma porcaria e defendem bandidos quando não são feitas prisões preventivas, mas é mais fácil ainda falar que a lei é dura quando estudantes em protestos pacíficos são presos e apanham de policiais. Ué, não eram esses mesmos universitários que apoiavam a política de atirar primeiro e perguntar depois das tropas de elite?

É fácil reclamar que não existe produção de conteúdo, que o humor se perdeu, que a música é repetição quando você se fecha e diz que sertanejo, funk e qualquer ritmo que você não se agrade não seja música. Antes de falar que funk é só mulher seminua conheça o passinho – você é tão preconceituoso como quem diz que metal é satanista.

É fácil reclamar que está tudo errado e o mundo não vai pra frente. Que as pessoas não sabem mais conversar, que a igreja não faz mais seu trabalho, que o mundo é mais egoísta. É legal escrever isso, desenhar sobre isso, até cantar sobre isso.

Sabe poque é legal? Porque tira a sua culpa do processo. Você se sente aliviado por ter denunciado o esquema, e pode seguir sua vida, com fone de ouvido pra não ser incomodado.

Ela nunca vai saber que aquele dia que fui buscá-la, era a primeira vez que usei aquele par de tênis – e nem que a última vez que a vi, era ele que eu calçava. Ela nunca descobrirá que esses mesmos tênis estavam nos meus pés quando eu sofri aquele acidente – nem que ela tomou posse completa dos meus pensamentos enquanto eu tentava me levantar do chão.

Afinal, não importa mais se foi agoniado pela futura preocupação dela que eu consegui juntar forças pra levantar, carregar e empurrar a moto dali. Nem vem mais ao caso que eu tentei ligar pra ela, sem conseguir dormir pelas dores no meu corpo.

Nunca alguém se importará que a possibilidade dela estar online me fez acordar sobressaltado e ligar o computador num desespero gigantesco, que só era superado pela frustração de sua ausência.

Porque eu a magoei antes que ela pudesse apreciar tudo isso. Pois este sou eu. E todas essas coisas são como desenhos feitos com a névoa da janela.  Vazios, sem ela. Inúteis, se não houver ela pra dividir e compartilhar.

As palavras sempre foram meu refúgio, meu livramento. Sempre fui covarde, e quando vi que estava perdido, fugi pro meu esconderijo. Foram nas maiores dores que escrevi os meus melhores textos. Foi nos momentos de mais agonia que eu expressei de uma maneira praticamente perfeita tudo o que eu queria, e foi em momentos como esse que eu encontrei pessoas que se sentiam assim como eu, e fiz as mais fortes amizades.

Quando comecei a sentir a agonia dos últimos dias, logo corri e comecei a escrever. Só que não contava que eu iria perder isso. Já era tão difícil conseguir escrever de modo a acompanhar meus pensamentos, que comecei a digitar. Digitar cada vez mais rápido, digitar num suspiro agoniado, que fazia o corretor do Word trabalhar de forma que quase travava o programa. Digitar sem pausa pra respirar, sem tempo pra olhar pontuações, sem ler o que saía. E apertar o enter para publicar, como dar a descarga e mandar toda aquela lista de pensamentos embora, para não sentir as náuseas que aquele fedor do desespero das minhas palavras me provocava.

Só que a vida tem todo um jeito trágico, se não fosse cômico de lidar comigo. E, ao mesmo tempo que me deu situações que me fazem desesperar para escrever e desafogar todo esse ímpeto de palavra que existem dentro de mim, me tirou, mesmo que temporariamente, a velocidade. Não estou só com a mão direita imobilizada. Eu estou sem a válvula de escape. E com pressão me apertando de todos os lados – não resta mais nada a não ser contorcer.

E tentar liberar tudo o que está em mim com o mínimo que eu tenho disponível. Quase nada. Uma medida inútil, desesperada. Mas é tudo o que eu tenho.

John Noarms gosta de medir os riscos. Não prestou vestibular pra um curso que as chances de passar eram poucas, segundo seus hábitos. Nunca pulou de pára-quedas, porque sua vontade de aventura não era tão grande quanto o medo. Medo de altura, de morrer? Não, medo das prestações do curso, caso ele perdesse o emprego, ou alguém ficasse doente. John calculava o tempo para pegar transporte público ou táxi, conferia a previsão do tempo e ainda andava com o twitter ligado para receber informações sobre o trânsito, a lotação da linha violeta da CPTM e a linha vermelha carioca, sempre ligado e construindo mentalmente rotas alternativas.

Não comia palmito de feira, nem maionese de lanchonete. Desistiu dos cachorro-quentes de carrinhos quando pesquisou sobre doenças, parou de beber sucos concentrados quando descobriu o processo de produção e parou de usar plástico quando lhe falaram sobre câncer. Não passa nem perto de microondas, se sente incomodado de estar perto de torres de celular e tem arrepios em passar por raios-X de tanto que ouve falar em radiação.

Celular só com fone de ouvido, fone de ouvido nunca intraauricular e mesmo assim com volume abaixo de 50%, afinal, John não quer ficar surdo. Não sai depois das 22h, porque tem medo de assaltos, se esconde da polícia porque tem medo do noticiário, paga os impostos e anda com cinto de segurança pra não ter problemas. John calculou todos os riscos. Não quer se surpreender.

John, quando se apaixona, é frio, é racional. Segue toda a lista de recomendações dos mais variados especialistas, psicólogos e sexólogos. Faz listas de prós e contras, busca conhecer os valores (cristãos ou não) da pessoa e ainda procura saber todos interesses e gostos musicais e artísticos (afinal, não quer correr o risco de ficar preso numa sala de cinema alternativa com filmes iraquianos, ou pior, numa comédia romântica do Adam Sandler).

Ao começar um relacionamento, segurou as demonstrações de amor, foi comedido nas palavras e não se entregou a tudo aquilo que sentia, com medo de ter seu coração despedaçado. Segurou-se, não se entregou, e nas primeiras brigas e discussões, já refez todos aqueles cálculos do começo. Valia a pena? Ele estava disposto a passar por aquilo? Não sabia. Reviu todos os vídeos e entrevistas. Reavaliou seus valores. Refez as listas. Continuava sem saber. Consultou seu terapeuta, que não deu respostas conclusivas. Assistiu palestras no Youtube, releu os livros e fez testes da Capricho, pra descobrir se estava apaixonado e se ela era sua cara-metade. Nenhuma resposta conclusiva.

Entrou em crise – estava em dúvida. Nunca tinha passado por isso, nem mesmo na hora de escolher o curso da faculdade, ou o emprego. Não teve dúvidas na hora de escolher um parceiro no estágio, ou em qual mictório se satisfazer no banheiro do shopping. Escolhia sabonete com uma precisão mecânica, e tinha a marca de shampoo que nunca iria deixá-lo com caspas, problemas de calvície ou ainda com cabelo seco. Tinha quatro escovas de dentes estrategicamente posicionadas para situações de emergência, e sempre tinha uma lista com telefones de restaurantes que entregavam (os melhores motoboys, condições de higiene e refeições que não estragariam sua flora intestinal). Tinha planejado seu futuro até depois de sua morte, com o seu lugar no cemitério reservado, lápide escrita e caixão construído. O testamento estava escrito em quatro vias, um lacrado com o advogado, outro registrado em cartório, um terceiro num cofre e o quarto em um arquivo criptografado na nuvem.

Mas não conseguia decidir se deveria continuar naquele relacionamento. E não estava acostumado com a dúvida. Por fim, desistiu. Largou todos os planos, todo o futuro construído com ela, e jogou fora. Reuniu todos os manuscritos, tudo aquilo que pensara, imaginara e guardara para si e fez a única coisa que ninguém esperava – disse para ela.

John Noarms arriscou-se como nunca tinha arriscado na sua vida, e descobriu que ficar sem ar de tanta expectativa podia ser bom.

Claro, levou o maior fora da sua vida. Mas viciou-se em assumir riscos. A partir dali, ficou conhecido como John Armstrong. Não era mais o pobre Joãozinho sem-braço que estavam acostumados a ver.

Eu gostaria de entender algumas coisas da humanidade. Há algumas coisas nessa gente que eu não entendo. É muito fácil apontar o dedo e dizer que está tudo errado, sendo genérico. É muito fácil assistir meia dúzia de noticiários, ver sérios candidatos à Datena esbravejando em jornais locais, e ler editoriais de revistas semanais e jogar tudo pra cima e desistir.

Não tá fácil acreditar que temos muito futuro. São todos os tipos de crise, entre homens, entre homem e natureza, entre homem e universo, entre homens e o cosmo. Até mesmo Seiya teria problemas pra elevar o cosmo no seu coração se lesse um jornal de capa-a-capa, o Capitão Planeta entraria em depressão, e os Ursinhos Carinhosos fugiriam com medo da extinção.

Mas eu não entendo o que faz uma pessoa, no meio de todas as crises, todas estatísticas de roubos, assaltos, estupros e mortes por motivos fúteis (ou sem qualquer motivo), parar a moto, numa madrugada de sexta feira, pra perguntar pra algum desconhecido, alto, de jaqueta e mochila, que está segurando uma moto, se está tudo bem e precisa de alguma ajuda. Pode ser alguém que roubou a moto e ela deu chabu, pode ser alguém fazendo uma pegadinha pra assaltar, pode ser um cara que acabou de ver a mulher chifrando-o e está louco pra caçar confusão, ou pode ser um E.T. que vestiu a primeira roupa de ser humano que encontrou no caminho – ou qualquer outra coisa que ouvimos falar durante toda nossa vida.

Mas não, é só um cara que saiu do trabalho e ficou sem gasolina, porque a moto está sem marcador.

Eu não sei o que faz um cara, no meio da estrada, ao encontrar um carro com três homens tatuados, de portas abertas, com todos sentados e deitados no asfalto, parar e ver se precisam de algo. Pode ter acontecido uma briga, pode ter sido confusão por causa das drogas que carregavam, pode ser um acerto de contas, ou até mesmo uma isca para sequestro – quem garante que não é a hora que vai aparecer um caminhão com motorista furioso cujo único objetivo de vida é atropelar todos e torturá-los durante dias e dias numa casa escondida no meio do nada?

Mas não, é só um grupo de amigos que furou 2 pneus no meio da estrada, e não tinha sinal de celular pra pedir socorro.

Não sei o que acontece com a humanidade, não faço realmente a menor ideia. Só sei que, enquanto essas coisas acontecerem, há trabalho para a Igreja, há esperança para as almas perdidas e ainda há uma janela de tempo antes do apocalipse. Essa é a minha fé. Esse é o motivo pelo qual trabalho.

Não adianta, se as pessoas querem vender seus valores, elas vão vender, independente do obstáculo que você coloque. Veja advogados, por exemplo. Advogado não pode fazer propaganda na TV, não pode distribuir panfletos, não pode anunciar serviços jurídicos de qualquer forma, não pode divulgar preços (quem dirá fazer promoções), não pode mercantilizar a profissão de forma alguma em nome de uma honra que… não existe.

Todos impedimentos, obstáculos, dificuldades impostas não conseguiu acabar com a má-fama de advogados, assim como não proibiu a entrada de espertinhos nos quadros da OAB (que são responsáveis por tudo aquilo que falam dos advogados – se são maioria ou minoria ninguém sabe dizer).

Não adianta você tomar relatórios, vigiar alguém na internet, as pessoas que ela tem contato, a vida profissional, fazer orações diárias com a pessoa e tentar circundá-la com todos cordões, proibindo-a de ouvir músicas que fariam mal, de se relacionar com pessoas de fora da igreja, ou até de namorar alguém que não seja pré-aprovado por um conselho. Se ela quiser fazer outra coisa, e jogar todos esses valores que você forçou nela no lixo, ela vai jogar, sem pensar duas vezes.

Jogue fora as rédeas, o controle remoto e pare de se iludir. Lembre-se que você também é uma ovelha.

Ontem foi o dia internacional de se encomendar flores, hoje talvez o dia internacional dos motoboys e garçons de restaurantes chiques, aquele dia em que você planeja um restaurante francês e, por causa das enormes filas que encontra, acaba comendo um hot dog do Paulão, que parece que tem um primo que veio da França. Ou de Franca, o Paulão é meio fanho e você nunca entende direito o que ele quer dizer.

Mas é o dia dos namorados, afinal. Em meio à todo mimimi dos namoradinhos, e dos solteirões convictos (por convicção dos outros, claro), muita coisa sempre é diferente – mesmo que seja um diferente parecido.

Não importa há quantos anos você tenha um relacionamento, não importa quantos relacionamentos você tenha tido, você acaba parando pra pensar em tudo que já rolou dali pra trás – e até lembra daquela negra época de sétima série que você foi quase aplaudido de pé pelos colegas de sala ao trazer uma flor e dar pra menina da oitava que você era apaixonado. Quase aplaudido de pé porque você amarelou na última hora e pediu pra alguém entregar por você, e no desespero, esqueceu-se de assinar.

Mas aí estão todos. Na fila da floricultura, tentando descobrir um meio-termo entre os quinze reais que gostaríamos de gastar e o buquê cinematográfico de flores que custa três facadas e meia – e acabando com um insosso arranjo com 4 botões que custou impressionantes trinta e sete reais (ou 370 dadinhos, como seu cérebro insiste em te lembrar); e a lembrança de ser simples ano que vem. Que se repete desde sempre.

Seja simples, de verdade. Gaste tempo, é mais útil que dinheiro. Seja todos aqueles defeitos que você sempre foi. Eu tenho sido assim já a quase 48 dia dos namorados, mesmo antes de namorar.

A ruivinha me fez entender isso.

O casal da  foto é o Filé e a Jack, por acaso.