Não quero ser conhecido como o cara que seguiu a Cristo e cujo bom-coração era completamente fiel a Deus. Não quero ser lembrado como um ícone, um referencial da fé, um verdadeiro mártir.

Porque é mentira. Se eu for conhecido como um ícone, é porque muitos me viram, mas ninguém chegou a conhecer a minha intimidade. Se eu for tido como um cara bom, é porque eu consegui esconder a minha hipocrisia pra debaixo do meu tapete, e não tive que lutar o bom combate.

Eu quero continuar a ser visto como o cara que sempre tá envolvido nas tretas e que tem tanta culpa no cartório que é mais fácil desconfiar de mim do que me proteger do que eu mesmo possa ter me feito. Quero continuar a ser pressionado, lapidado, criticado, e justamente impelido pro Caminho e para a Verdade e não ficar estagnado em meio a um floreio de coitadismo.

Sou eu, sou podre, carnal, e vivo pela misericórdia que se renova todos os dias. Sou vivo, sou humano, pecador e arrependido. Sou inconstante, sou guerreiro, caio tantas vezes quanto for preciso.  Faço minha luta para tentar ser digno, enfrento as minhas tretas e meus problemas para tentar ser limpo – não que eu vá conseguir, mas porque eu não me aguento.

Eu quero ser conhecido como mais um. Mais um dos tantos anônimos que não converteram multidões, não espalharam unções e não expulsaram toda sorte de espíritos. Mais um dos anônimos que são pilares desta fé. Desta Igreja. Deste Caminho. Mais um, não dos que portam trombetas, mas que está agarrado fortemente a uma ou outra dúzia de pessoas, verdadeiros amigos que sabem quem eu sou e para onde vou. E que queiram não só me acompanhar, mas me ajudar e me guiar até lá.

Quero ser útil. Em todos os meus defeitos.


Eu pensei em escrever um post no Facebook, mas logo ele cairia no esquecimento, e não é bem essa minha intenção – esquecer ou deixar pra lá um só detalhe do que foram os últimos dias. Passei 21 dias fora. Londrina, Suzano, Sampa, Cubatão, Santos e Curitiba. E isso foi o que vivi.

Isso não é bem um relato do que foram os últimos dias, viajando, trocando ideias e trabalhando, tanto na help! como no CNUC. E eu não sei dizer como foi bom, acho que cada um que esteve comigo já sabe disso, e como foi agradável fazer parte disso tudo.

Em Londrina, eu não tenho palavras pra agradecer ao Júnior Souza, o Cristiano, Cleber, Coyote e Jonathan, que abraçaram o projeto help! mesmo com o vazio do evento – o Ronnedy então nem se fala, me recebendo em casa e lidando com quase tudo sozinho pelo sumiço da equipe local. O cara aguentou o tranco praticamente sozinho, e ainda tendo que trabalhar, dormir e cumprir com as obrigações eclesiásticas durante a semana.

De lá parti pra Suzano, onde fui encontrar o Filé com a Jack e conhecer a casa deles em Itaquá – um dia e uma noite de muitas risadas, conversas e memórias partilhadas; corremos logo pra Sampa encontrar a Priscilla do Cosmetic Dreams e sermos resgatados pelo Thalys naquela selva de prédios e seres semi-zumbis que é São Paulo. De lá, eu e o Thalys simplesmente não só tomamos posse da sala de controle do Fih, como conseguimos aprontar várias bagunças para e com o Sudré e o Ronei Jr, que até fez aniversário no meio do rolo todo, com direito à Gengibirra e vinho gasoso. De lá, aconteceu até a fundação da The Frauders com o amigo Paiva, companhia a qual me levou pra Cubatão, conhecer a sua digníssima Aline Paiva, até quase morrer nos meus braços em Santos (ele, não ela).

Um pulo e eu quase voltei pro meu primeiro destino, indo pra Curitiba, ver o Cleber e passar uns bons dias aprendendo tudo que deveria ter sido feito em Londrina, além de conhecer pessoas maravilhosas, algumas já antigos de Twitter (Micaella, Maicon, Fayson, sintam-se citados) e outros novos, lá da CENA (a dona Giovana – digníssima do Cleber,  Dieila e o Werikson), além de toda a equipe que já tinha visto trabalhar no institucional da Igreja. Obrigado Kadu por me hospedar de surpresa, e preparar com 20 reais uma noite muito bacana e cheia de risadas, além de andar comigo pra cima e pra baixo por toda a Curitiba. Valeu Marlon por me receber no meio de toda a confusão do fim de semana, e por ainda levar um rala por culpa minha.

By, obrigado pelo sorriso e pelo ouvido que sempre me faz falar tudo que eu não sonhava nem em comentar em voz alta sozinho. Sem a sessão de terapia, acho que minha cabeça estaria ainda muito confusa; Fran valeu a tentativa de me ver – eu sei como o coração queimou.

Seria no mínimo injusto terminar aqui sem ainda agradecer a quem esteve de longe, acompanhando, orando e dando forças em todos os momentos – obrigado Mayara, pela força quando a help! ainda era só um sonho meio torto e não muito planejado, obrigado Verônica pelo acompanhamento diário e por me lembrar de comer mais de uma vez por dia; ainda nem sei como dar todos os sorrisos que a Monica merece por estar umas três vezes por semana dando oi e perguntando como iam as coisas todas. Valeu a todos que acompanharam pelo Facebook e se dispuseram a fazer algo, por menor que fosse, a todos que divulgaram em seus perfis as fotos e divulgações da help!, e aos sorrisos e vozes de apoio dados. A todos que acompanharam no Facebook e à preocupação diferente (pra dizer o mínimo) quando dei um sumiço da internet.

Com eles, fizemos o melhor evento da help! até então, e conheci de perto a realidade da Vila das Torres. Estupefato. Impressionado. Maravilhado. Animado. Extasiado. Esse sou eu, depois desses 21 dias fora de casa.

Encontrei um pastor/missionário há alguns dias atrás, quando estava organizando um evento da help!, e ele sentiu que precisava me dar uma bênção. Aprendi há muito tempo que bênção não se recusa, e depois de algumas conversas no debate help!, resolvi dar a cara pra bater, e sentei-me com ele.


Ah, se eu soubesse como eu tinha sido profeta no dia anterior (afinal minha palavra tem poder, amém, Igreja?) , quando twittei que algumas pessoas só serviam para reforçar preconceitos! Foi muito impressionante tudo que aconteceu, e foi este um dos primeiros momentos nessa viagem que eu tive a convicção de que eu precisava fazer um curso de teologia.

É impressionante como a falta de interpretação de texto traz alguns erros de hermenêutica bíblica que nenhum seminário, curso ou faculdade vai curar – afinal, se hermenêutica é a interpretação da bíblia como um sistema, e a pessoa não consegue nem interpretar duas frases em conjunto, quem dirá um livro tão complexo e cheio de detalhes como a Bíblia?

Daí surgem determinações, palavra tem poder, você é um novo homem que merece tudo, toma posse, sacode a poeira e pisa na cabeça do diabo, não brinca com Deus, o inimigo é perigoso, amarra, afoga e batiza no Espírito Santo pra falar em línguas, traz pra igreja, vem pra igreja, seja igreja, dízimo profético das primícias, labashurias no twitter, canta que os males espanta, cabeça vazia é oficina do tinhoso e tantas outras coisas que se tornaram comuns no dia-a-dia protestante cristão evangélico que a gente não sabe nem por onde começar a expulsar os demonhos.

Sinto falta dos que queriam ensinar essas pessoas, e não criticá-las. De discípula-las, e não marginalizá-las. Gastar tempo quebrando doutrinas vazias e sem fundamento, e não rindo. Sinto falta de querer ser assim.

Um grupo de pessoas que se junta para… se bater. Lutar, socar, extravasar todas as tensões do dia, de uma sociedade feminina. Exercitar a testosterona dentro de um ambiente controlado, onde é só levantar a mão, ou pedir pra parar que tudo volta ao normal, apenas para uma pessoa – uma forma de escapismo da sociedade, opressiva com o homem.


Parece o roteiro de um filme cult, mas esse não foi gravado no final dos anos 90 – na verdade esse filme foi realidade em alguns lugares durante toda última década do séc. XX, só que sem uma personalidade forte (e que não fosse perseguida pela polícia), virou bagunça, com uso de armas indiscriminadamente – e assim como começou, tudo se acabou. Mas ainda assim, foram quase 7 anos de lutas, sangue e satisfação. Mas ao mesmo tempo, ódio pela sociedade.

Como assim? O Clube da Luta não é o filme cult mais amado pelos hipsters? – Isso não quer dizer que um terço das pessoas entraria na pancadaria. E é a máxima de sempre: todos querem um ideal, mas assim que ele vira realidade, ninguém quer entrar no meio. É tipo filho dos outros (se for de estrangeiro então!) – é bonito, é lindo e perfeito porque ninguém aqui tem um.

Quer seu próprio Clube da Luta? Furacão 2000 organizou os primeiros. Lado A x Lado B, pessoas que eram divididas numa linha imaginária no meio do baile e era um grupo contra o outro. A pancadaria A x B rolava noite adentro, e pra desistir, era só levantar a mão e abaixar a cabeça (e sair do baile bem de fininho) – no baile da outra semana, a divisão acontecia de novo, e antigos inimigos lutavam lado a lado, e se protegiam como irmãos.


Mas pancadaria da favela é feia. Bonito era Tyler, que morava numa casa invadida, pichada e não trabalhava – só que como falava inglês, era chique.

(a imagem é meramente ilustrativa)


Hoje é dia de pegar a estrada, de juntar numa mochila tudo que acho que eu vou precisar até o final do mês e me virar com isso. É sair da vida e poder olhar de uma perspectiva de fora. É poder ver o sol nascer em um outro lugar e ver que o mundo é essencialmente o mesmo, mas as pequenas diferenças são gigantescas pra quem é pequeno como eu.

É tentar esquecer o ego e toda a mistura ruim que se formou dentro de mim, lembrar do rumo da minha vida, e traçar o melhor plano para voltar ao justo. Reparar provisoriamente os danos que causei, e dar o tempo necessário pra que tudo volte a circular como já um dia circulou.

Tempo de juntar as emoções pra jogar bola – tocar uma pelada, beber um refrigerante ruim que ninguém há mais de 500km tenha ouvido falar, conversar e entender todas elas,  e quem sabe conseguir compreender meus últimos dias, meus últimos suspiros e os últimos pesares do meu coração.

Hoje é dia de pegar a estrada, de respirar ares novos, lembrar daqueles lugares que já passei, dos sorrisos que eu já dei, das lágrimas que no meio do nada eu já despejei e de quem eu sou e o que raios estou fazendo por aqui.

É hoje.

Não é só menina que quer fazer fama e ter seguidores que segue estereótipos forçados não. Muitos homens seguem esta mesma linha, mas ao invés de fama ou de uma lista de fãs, buscam só uma coisa – um pouco de atenção do sexo oposto. Se isso é válido, forçado ou fingimento, só em cada caso pra se avaliar, assim como no caso das punks que pintaram o cabelo de azul e se deram bem na vida por isso.

Assim como quase todo mundo gosta de um patinho feio, quase toda mulher após algumas desilusões procuram amigos mais sensíveis, que sempre mostram estarem chateados e com o coração quebrado de um relacionamento – bem parecido com elas mesmas.


Todo mundo conhece um dramaking. São aqueles que falam que mulheres querem um tipo de homem xis, que tentam convencer o mundo de que está tudo errado e só a visão deles está certa. Fatalistas, pessimistas e sem a menor autoestima.

Porque essa combinação dá certo? Porque é exatamente assim que elas estão se sentindo naquele momento. Agora se os opostos se atraem, se distraem ou os dispostos fazem alguma coisa que presta eu não sei – mas duas pessoas carentes se enrolam. Se dão bem, se satisfazem em suas carências e começam a ver o outro com muito mais carinho.

Mas é claro que tudo termina mal. Quando o relacionamento está para evoluir, alguém quer manter o pé atrás – seja por cansaço, por medo de evoluir, já que nunca passou daquilo, histórias mal-resolvidas pra trás ou até mesmo por ter entrado naquela história só pra se sentir bem, já que tava com a auto-estima lá embaixo.

Termina mal, todo mundo termina magoado e ele já parte pra outra com mais uma história de como foi rejeitado, maltratado e nenhuma menina no mundo é pra ele.  A tristeza do final de um relacionamento é só a isca para outro. Se é que pode se chamar isso de relacionamento.

E tudo começa de novo.



O silêncio consumiu a vila aquela noite como há muito tempo não o fazia. Lá fora os grilos pareciam todos terem desaparecido no meio da tensão, enquanto se sentia no canto das cigarras um QUÊ de desespero. A mãe abraçou pela última vez os meninos, antes de virar-se e aconchegar ao seu homem, buscando o conforto e a segurança que ela não tinha para passar aos seus filhos.

Estamos em Né-e, alguns anos antes do homem branco chegar com sua pólvora, espelhos e todo o tipo de bugingangas, procurando indianas, indígenas e mais uma pá de coisas que não seriam capazes de encontrar naquela terra que ainda não tinham descoberto – nem destruído.

Mas antes do homem branco, os habitantes de Né-e conheciam outra ameaça – e podiam farejá-la aquela noite; assim como há exatos três ciclos o sentiram, e foram deixados no meio de um raio de destruição que ainda tentavam se recuperar. Enquanto as folhas faziam seu alvoroço no meio do vento, rezavam para seus ancestrais, para os espíritos e para qualquer outra coisa que poderia haver por aí que os pudesse proteger.

Essa noite não – essa noite estavam abandonados à sua própria sorte. Os mais fracos caíram no sono na primeira hora de silêncio. O resto foi se acomodando e relaxando com o tempo – até que sobraram uns três ou quatro, sozinhos, em suas tendas, olhando pelo que sentiam que seria a última vez a carne da sua carne, o sangue do seu sangue descansando suavemente.

Aconteceu tudo muito rápido – as folhas silenciaram por não mais do que meio segundo, e antes que pudessem reparar que algo estranho estava acontecendo, onde havia o teto de suas cabanas – havia só a imensidão negra do céu estrelado, onde havia o silêncio sepulcral – o grito das árvores se quebrando; crianças correndo pela floresta, homens chorando como meninos e mulheres em estado de choque. Matintape’re. O demônio.


Não acho que essa seja uma geração apática. Pelo contrário, nunca se discutiu tanto sobre tanta coisa como no Facebook e Twitter – nunca tantos jovens se engajaram a falar tanto sobre tanto como nos últimos anos. Sexo, religião, música, cultura, demarcação de terras indígenas, eficiência e eficácia do Judiciário, qualidade de programas de TV, desenvolvimento de tramas, livros em geral, adaptação de vários tipos de artes, costumes internacionais, desastres naturais e humanos – tudo vira discussão nas redes sociais.

Fazemos até metadiscussões – uma discussão sobre porque discutimos um assunto discutido. Então porque esse estigma de geração sem valor, apática, perdida? Eu tenho uma teoria pra isso, e para falar sobre ela, precisamos revisar um dos maiores ícones do brega brasileiro – Falcão.

Com o seu tipo de completo ridículo, Falcão representou o absurdo no começo dos anos 90, quando o Brasil enfrentava uma de suas maiores crises, que culminou no primeiro impeachment (numa fase que não se sabe se os jovens eram completamente alienados e obedeciam cegamente à Globo; ou se eram os últimos jovens extremamente ativos e por isso derrubaram o presidente e toda uma forma de governo ultrapassada – chegaremos nesse mérito em breve), trazendo o que hoje chamam de cultura inútil, fazendo troça e ignorando os maiores temas políticos que aconteciam na época.

(O interessante é que do mesmo modo que Falcão fez sucesso e os Mamonas Assassinas estouraram no Brasil inteiro fazendo humor e troça de várias maneiras politicamente incorretas que nem se imaginava existir, ignorando as necessidades e aspirações político sociais de todo o país, vários artistas da década de 80 são criticados e tidos como alienadores (assim como a própria TV) por não sustentarem uma posição contra a ditadura.)

Mas o que ninguém se lembra é que Falcão foi o maior profeta do que se tornariam as discussões dessa bela rede mundial de computadores. Com sua retórica insuperável, uma construção lógica indiscutível e um raciocínio pra nenhum debatedor pôr defeito, Falcão propõe algumas premissas que não se vê falha argumentativa alguma – e premissas essas que podem ser colocadas como conclusões sem nenhuma perda científica relevante.


Homem, meu caro leitor, é homem. Menino – é menino, sem negar o fato de que viado é viado e isso não se discute.

O problema é quando todos os argumentos giram em torno disso. Você não consegue ter uma discussão política sem discutir meia hora sobre o que é direita, o que é esquerda e a pessoa enfim conseguir desviar o assunto de tal maneira que depois que ela vê que o assunto não era nem esquerda nem direita, e que ela até concordava com você (a crise era se você era de direita ou de esquerda, como se isso alterasse a validade do seu argumento).

Aí o problema não é só política – é religião, futebol, música, cultura, leis, sociedade –tudo, cara, tudo é a máxima de homem é homem. Quando a pessoa não vira e fala – mas isso é SUA opinião. Amigo, meu blog, meu facebook, meu twitter – eu vou colocar opinião de quem?