Não temos pena de morte no Brasil. Na verdade até temos, em casos muitíssimo raros (durante uma guerra externa, de fato). Mas porque, apesar dos apelos de uma classe média estudada, porém inconsciente, que expressa seus desejos através de comentaristas de jornal cada vez mais ríspidos e menos compromissados com a lógica, a pena de morte ainda não foi instituída.


Ah, dizem os juristas, isso é porque no Brasil, o Direito considera a vida como o bem jurídico mais sagrado. Eu discordo. Não, o direito não protege a vida acima de tudo, e não é por exceções que estou dizendo isso –as exceções do direito à vida só provam o que estou a dizer: não é a vida o bem mais sagrado para o direito brasileiro.

O dinheiro vale mais que a vida na sociedade – por isso ladrões são linchados. O dinheiro vale mais que a vida – por isso o policial pode atirar e tirar a vida de um bandido que está fugindo e recusa-se a se render. O medo vale mais que a vida – por isso você pode matar alguém em legítima defesa. A religião vale mais que a vida – por isso você pode negar ao seu filho uma transfusão de sangue. A dor vale mais que a vida – por isso, homicídios passionais podem ser relevados. O engano vale mais que a vida – por isso, caso você acredite que alguém ia te matar, você pode matá-lo. A ameaça vale mais do que a vida – por isso você pode tirar a vida de alguém caso um terceiro te ameace.  A honra vale mais que a vida.

Qualquer coisa pode valer mais que a vida, sabe por quê? Porque o direito não protege a vida – protege o status quo. O direito se importa com a letra. É objetivo. Morreu. Mas morreu porquê? E daí, quem morreu? Não importa para a lei, e para a maioria dos seus aplicadores, o sujeito. O morto. O de cujus. A família dele, os filhos, os pais, vizinhos e amigos. Isso é problema do assistente social. Isso é problema do psicólogo, do bolsa-família, do sistema de pensões.

E vocês ainda vêm me falar que a sociedade evoluiu. Para onde, eu não sei. E ainda chamar de Justiça, com jota maiúsculo um sistema que não se importa com as pessoas – por isso, talvez, a Justiça (de fato, de verdade, divina), seja tão incompreendida pelos homens, tortos a contemplar sua própria indiferença maquiada de bem público.

Vão lá, proteger vidas.

Dizem que a verdade é relativa, porque ela depende dos olhos de quem vê. Talvez seja verdade, talvez seja apenas uma desculpa de acomodados para não reconhecerem que estão errados, não sei.

O que eu sei é que muitas das definições e princípios que temos para nós mesmos são frutos de uma visão de mundo muito pequena, tão ínfima que chega a ser desprezível. Julgar como deve ser uma situação, e qual a melhor resolução possível é muito agradável, quando eu quero satisfazer apenas o meu campo de visão.

É muito fácil, como pedagogo, psicólogo ou jurista, sentar numa cadeira estofada com rodinhas numa sala com ar-condicionado e escrever tratados científicos que vão nortear a produção de leis. É muito fácil, como pai consciente, como cidadão do mundo, com medo da violência, querer evitar o máximo de perigos possíveis, por mais drástica que seja a atitude a ser tomada – para que ele não sofra nenhum mal.


É muito fácil, para um juiz, sentado, usando a sua fantasia de dono do mundo, olhar pra cara de uma pessoa, colocar a emoção de lado e fazer contas de positivos e negativos para decidir qual caminho seria o melhor a tomar, com bases práticas. Mas a verdade é relativa, e depende dos olhos de quem vê.

E existem pessoas, existem momentos, existem situações que são exatamente você contra o mundo. E nessas situações, não há quem ajude, não há quem ofereça um conforto ou quem lute ao seu lado. É nessas horas que as pessoas abaixam a cabeça e tentar sufocar seus gritos de desespero com o mantra de é para o bem comum.

Mas sentir o desespero da mãe, viciada em crack, com risco de perder a única coisa que ainda tem, a única coisa que a faz lutar por comida depois de ter perdido o emprego, a casa, a vida – e ao mesmo tempo sentir a agonia do filho de perder o único ser que o amou em um mundo que até hoje só apontou o dedo e o maltratou, olhar nos olhos dessa criança ao ver que a única pessoa que, apesar de todos os defeitos, sempre cuidou dele e tentar repetir algum mantra vazio… isso é covardia.

No fim das contas, essa pode ser apenas mais uma dentre tantas outras verdades. Mas é uma verdade que eu custo a engolir.

Na quatro por quatro, a gente abençoa,
óleo e shofar, só unção da boa.
hahaha, ui, o louvor foi sério,
vai rolar uma reunião de presbitério

Sou crente fanático, para homossexual não dou paz
eles vão pro inferno e jamais
terão a salvação do meu Pai
Ele sabe o que Ele faz


É uma coisa louca
que está dentro de mim
A unção do Espírito
que me unge até o fim

Quando estou no culto, ah, que coisa boa
pastor, que delícia
hahaha, que unção boa
ui, o louvor tá sério, vai rolar uma reunião de presbitério


Vou para o inferno por causa deste post?

Ao interpretar a lei, antes de falar qualquer burrada que vier à cabeça, lembre-se dos cinco anos que você passou com o nome na lista de presença da faculdade (já que pelo visto não estava em sala de aula, muito menos prestando atenção) e lembre-se ainda de manter suas convicções PESSOAIS longe da fiel interpretação da lei – assim como você diz mantê-las fora da sua interpretação bíblica.

Pensando nisso, lembramos também das aulas de Direito Constitucional nas quais professores, muitas vezes bizarros (devo confessá-lo) diziam que a lei (lato sensu, incluindo todas disposições normativas estatais e paraestatais assim consideradas) é o instrumento garantidor de direitos dados pela Constituição.


Não só isso, mas vamos também recordar daquelas longas e entediantes aulas de Direito Administrativo, que sempre eram dadas em grupos de três ou mais pra matar o dia de qualquer jurista, no qual, em algum momento, devíamos ter percebido que são raras as hipóteses que a lei confere o poder discricionário (ou seja, a liberdade de ação) a funcionários públicos – e mesmo assim, essa discricionariedade deve obedecer alguns parâmetros: conveniência (o que for mais fácil) e oportunidade (o que for melhor) – para a COLETIVIDADE.

Desta forma, queria acrescentar ainda que um funcionário público, no exercício de suas funções que negar a um cidadão o exercício de direito garantido em norma jurídica comete um crime – abuso de autoridade.

Pensemos, pois, que um escrivão cartorário vá fazer a escritura de uma doação de um terreno para uma igreja X (considere X como a sua religião/comunidade/Jesus-porque-Jesus-não-é-religião favorita). Vendo que a doação vai para uma instituição religiosa o nosso amigo escrivão se nega a passar a escritura (ou seja, no exercício de suas funções, nega o exercício de um direito garantido em norma jurídica), porque, por ser ateu, acredita que instituições religiosas servem apenas para lavagem de dinheiro.

É claro que esse escrivão está cometendo um crime – ele está sendo contra a liberdade religiosa daqueles que tem o direito de cultuar ali, e que cumpriram todos os requisitos da lei. Não existe como o escrivão se recusar a isto em nome de uma crise de consciência ou de crenças (ou descrenças) pessoais.

Então amigos, quando um escrivão que é cristão se nega a casar homossexuais, ele está cometendo um crime. Não, ele não tem a liberdade religiosa pra fazê-lo, porque no exercício das suas funções ele não é Fulano, cristão, com X anos. Ele é a própria Administração Pública personificada.

Quem condena à prisão não é José da Silva, 45 anos, presbiteriano. É o Estado. Quem os declara casados não é William Resende, cristão neopentecostal. É o Estado. Se o tal escrivão Fulano, cristão, enquanto escrivão, não quiser realizar casamentos homoafetivos, ele deve sim, ser preso, julgado e condenado – assim como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.


Ao menos, eles tinham total certeza do que estavam fazendo, e pra eles, mesmo que morressem na fornalha, estavam com a sensação de dever cumprido – não pediram direitos de religião, não pediram habeas corpus nem falaram que Deus ia condenar o mundo. Sequer foram jogados na fornalha – andaram por si só até lá.

Desta forma, se um escrivão cristão não quiser ser processado, julgado e preso, deve pedir para ser realocado em outra repartição. Simples assim.

Pegue Sócrates e Jesus, vamos manter nesses dois caras. Os dois foram expoentes que mudaram completamente as suas áreas. Sócrates modificou totalmente a filosofia com seu método didático de produzir conhecimento, Jesus revirou a teologia dando uma nova percepção à lei judaica.

Mas as semelhanças não param por aí – ambos sabiam que o que estavam propondo era além do que os sábios de sua época iriam aceitar, e nem perderam tempo escrevendo ou teorizando justificativas para suas proposições. Ao invés disso, a praticaram – mas se não escreveram teoricamente nem deixaram um passo-a-passo do que pretendiam e como chegar lá, como sabemos hoje do Messias cristão e do método socrático, como podemos conhecê-los cientificamente, já que tudo que temos são relatos de pessoas impressionadas com o absurdo que estavam a ver e ouvir?


Não temos. Tanto para Sócrates como para Jesus, tudo o que temos hoje é mais pessoal do que científico – por mais que os discípulos de Sócrates tentassem manter a racionalidade e o método a dissertar sobre seu mestre tagarela. Tanto os discípulos de Sócrates quanto os apóstolos escreveram sobre o que viam de seus respectivos mestres de uma maneira pessoal, tangível, carnal – humana. Não imparcial e genérica como se propõe a ciência.

O que eu quero dizer? Que a filosofia de Sócrates e a teologia cristã não são ciências? Claro que são. O problema é que o método científico não basta, não é suficiente para apreender todo o conhecimento filosófico e teológico.

Tanto a filosofia como a teologia tem por fim mudar o homem – uma a partir de uma reflexão sobre si mesmo partindo para todas as coisas(de dentro pra fora), outra a partir de uma reflexão sobre todas as coisas e seu surgimento para si mesmo (de fora para dentro).  Ambas visam mudar o seu objeto – que por acaso, é o próprio pesquisador/pensador/observador.

E isso é mais do que ciência.

Diga o que quiser, e olha que eu escrevo isso vestido com a minha camisa vermelha (mas sem a cachaça na mão) do Inter, mas foram os corinthianos que mostraram pro resto do país o que era ser torcedor de futebol.  O choro no rebaixamento, a torcida constante no estádio durante a série B, os gritos, o orgulho de usar a roupa de uma grife que estava à beira da falência.

Não, o Corinthians não é o único time com torcedores que beiram (e ultrapassam) o fanatismo. Não, o Corinthians não é o único time que movimenta cidades, pessoas e traz todos os tipos de choros possíveis para seus torcedores – mas definitivamente, eles tem a maior massa – e por isso foram notados.


Graças ao Corinthians, podemos entender porque, apesar de toda a frustração brasileira com futebol, com a Seleção e com a violência (que antes era restrita aos estádios, agora está em todos os lugares, basta se declarar torcedor), o Brasil ainda é o país do futebol.  Você pode não gostar de futebol. Pode evitar conversas sobre futebol – mas você não será capaz de ignorá-lo completamente.

O futebol é uma festa, é dor é sofrimento. O futebol é como a gente. Os times são mais parecidos com a gente do que imaginávamos – até o Corinthians entrar em cena.

O Corinthians decepciona – o Corinthians erra, o Corinthians frustra. O Corinthians é extremamente humano, real, tocável, porque tenta jogar seus amigos contra os outros pra ele parecer maior e melhor. O Corinthians não aceita suas derrotas, e sempre tem alguém pra culpar pelos seus erros, posando como vítima pra quem aparecer – eles mesmos, que se acham marrentos como o filho da classe média baixa que acha que é da comunidade, mesmo tendo a bola original da Topper, que não custou menos que 80 pratas.

O Corinthians é aquele pré-adolescente que gosta de ser chamado de gente grande, que gosta de ter a atenção toda pra ele e acha que tem a maturidade toda do universo – enquanto o resto dos times é um bando de criancinhas inocentes – a não ser o Palmeiras e o São Paulo.

É, o Corinthians é mais humano do que muitos de nós. E ver como os times são parecidos com a gente nos faz gostar mais ainda desse tal de futebol.  Enquanto isso, o brasão parece bater junto com o meu coração no meu peito. Glória do desporto nacional.

A crença de que conversão é algo mágico e que a nossa oração vai converter o mais cínico dos agnósticos é que coloca todo o Evangelho em cheque. Sabe o que a oração ungida, de fé, feita no alto do monte, no pé da goiabeira ou no escuro dos eu quarto faz? Isso mesmo: nada.


A oração é uma ferramenta pra nos tornar menos estúpidos, um momento que pedimos para Ele nos revelar o porque estamos passando por aquilo, e como estamos passando, além do o que devemos fazer. Utilizá-la pra qualquer outra coisa é inútil como usar amaciante em pó pra matar formigas: gasta tempo, gasta dinheiro e não resolve nada (mas deixa tudo macio e cheiroso).

“A oração move a mão de Deus” – move é minha mão pra dar um tapa na sua testa. As características onipotente e onisciente e o Amor de Deus já trazem pra nós que as Suas ações para conosco são as melhores que podemos ter. Falar “a oração move a mão de Deus” é dizer que:

(1) a vontade dEle é mutável;

(2) a vontade original dEle era ruim;

(3) conhecemos mais que Deus;

(4)sabemos pedir bem.

É de uma arrogância e prepotência impressionante. E aí. Já moveu a mão de Deus em seu favor hoje?

A sociedade avança, né? Aprendemos a conviver com várias coisas desde que a humanidade surgiu, desde que nós nascemos, crescemos e (alguns de nós pelo menos) amadurecemos. Evoluímos, fomos pra frente, estamos em outro nível.

Nossa sociedade evoluiu. Nossa vida evoluiu. Transporte, saúde, comunicações, educação, política, estamos em um nível de desenvolvimento que a ficção científica a 20 anos atrás não conseguia nem supor – assim como há 5 anos atrás não nos víamos aqui, nessa posição de responsabilidade que temos hoje.


Nós mudamos. O mundo mudou. Mas continuamos no mesmo lugar. Por mais que tenhamos abolido a escravatura, achemos um horror pessoas vivendo em condições subumanas de miséria, nossas leis, nossos costumes nada mais são do que o talião revestido de uma burocracia gigantesca.

O que vale mais, o direito à vida ou o direito à propriedade? Depende. Em flagrante, se um ladrão estiver armado assaltando uma casa, o proprietário pode fuzilá-lo, caso se sinta ameaçado. Dente por dente? Não, involuímos.

Regredimos. Pedimos pelo caos. Esperamos que alguém pise na bola pra descontar toda a nossa frustração de vida em cima de um pedestre que demorou cinco segundos a mais pra atravessar a rua.

Detestamos atrasar mais três segundos pra diminuir a velocidade quando um carro quer atravessar a pista, porque nós esperamos mais cedo por mais de quinze minutos pra conseguir atravessar aquele mesmo ponto. Não, não somos fraternais. Esperamos que o Estado, a Igreja, o Grande Irmão o seja, nós não temos tempo para isso.

Quando nosso pneu fura, maldizemos a décima geração dos motoristas que passam insensíveis, mas nunca olhamos com compaixão ao dono do palio que o motor fundiu na pista do meio. Vivemos para desejar o mal, passar o mal, torcer pelo mal. E nos surpreendemos quando descobrimos a nossa própria infelicidade.

O talião se volta contra nós quando menos esperamos.