Hoje, enquanto você trabalhava, uma coisa inédita aconteceu no esporte brasileiro: pela primeira vez o Brasil ganhou uma medalha de ouro no campeonato mundial de judô. Se você acha que não tem nada a ver com isso,  eu digo você conhece essa história há muito mais tempo do que pensa. Você pode não conhecer ou ter ouvido falar da Rafaela Silva até hoje (ou até as Olimpíadas de Londres, pelo menos) – mas você conhece o lugar de onde ela veio.


Sabe quando dizem que tudo passou tão rápido que mal dá pra ver? Foi exatamente isso que aconteceu nessa luta histórica de hoje, mas foi exatamente mesmo. Em pouco mais de 30s o Brasil ganhou a sua primeira medalha de ouro e abriu caminho pra uma luta que começou há muitos anos.

Rafaela, uma guria com 21 anos não se destacaria no Rio de Janeiro, de aparelho com borrachinhas verde-amarelas, não precisou sair de sua casa para  conseguir seu ouro mundial, ela é uma daquelas crianças que poderia estar no set de filmagem de Cidade de Deus, lugar que ela nasceu e onde conheceu o Instituto Reação,  e daquela vida que todo mundo já ouviu muito falar mais poucos foram de fato ver como é na comunidade, Rafaela hoje se sagrou campeã mundial, pelo treinamento no Instituto Reação, que eu, pessoalmente, não tinha ouvido falar até hoje.

Tão emocionante quanto vê-la desabar no choro depois da confirmação de sua vitória, vou ouvir o choro de um dos comentaristas do SporTV, que acompanhou sua trajetória desde que ela ainda tremia nos tatames da comunidade. Acompanhar um crescimento, uma evolução, uma mudança de vida assim é para poucos.

Me mandaram fazer outra coisa, por quê o judô não era o meu lugar.

(Rafaela Silva, sobre a eliminação nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012)

Eu fico muito chateado quando eu vejo pessoas que dizem que ensinar artes marciais nas comunidades, nas favelas é perda de tempo – quantas vezes você já não entortou o nariz pra mais um projeto que queria ensinar capoeira, porque isso não dá futuro? Essa questão de dar futuro é muito intrigante, porque percebe-se que a gente não quer que a comunidade seja melhor, a gente quer que a comunidade nos sirva bem.

Não queremos que os pobres, os marginais se deem bem na vida, nós queremos que eles parem de roubar, matar e destruir e façam um curso técnico pra trabalhar em algumas fábricas pra que possamos ser seus chefes e andar mais uma vez com as janelas abertas sem aquele bando de pedintes. Rafaela inclusive, diria uma jornalista no Facebook, poderia ter cara de doméstica. Nós somos muito podres, e isso porque nem temos dinheiro direito. Imagina se tivéssemos.

Esse é um trabalho do Instituto Reação, na comunidade Cidade de Deus – mas existem vários outros projetos menores que tiram, ocupam, disciplinam e trabalham com crianças e adolescentes no Brasil inteiro, inclusive na Vila das Torres, em Curitiba, com o Cléber Sá. Não conhece a CENA? Descubra e saiba como ajudar. O que o mundo precisa é só um empurrãozinho na direção certa.

Agora pra quem acreditou em mim eu mostrei que posso estar em algum lugar

Rafaela S.


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Nasci nos anos 90. Somos um tipo de geração que não tem história pra contar. Não participamos de nada importante – o Brasil tinha um governo democrático, estava se estabilizando economicamente, a corrupção já fazia parte do sistema, as coisas já estavam praticamente todas encaminhadas. Somos uma fase de transição: não deu certo, mas ainda não deu errado.

Acostumamos então a não fazer nada, a esperar. Acreditamos que o amanhã será melhor, que a cura para a violência, a desigualdade e toda sorte de enfermidades será magicamente criada por uma solução genial que não vai causar nenhum impacto negativo nas nossas vidas, e nos opomos a tudo aquilo que nos tire do status quo que nossos pais conseguiram conquistar nessa classe média tradicional brasileira.

Nós acostumamos a olhar para baixo, para os mais pobres, marginalizados, mais fracos e mais desprezíveis, nos assustando quando eles começam a chegar perto, e quando a classe C, nova classe média, começa a consumir produtos e ter um padrão de vida que era restrito à nós e aos ricaços, nos assustamos e pedimos por ajuda: não porque queremos alcançar os ricos e melhorar o padrão de vida, mas porque os pobres estão chegando no nosso nível – e toda boa classe média de verdade tem horror a pobre.

O que fazemos, então, nessa vida medíocre e sem sentido? Ouvimos a história de quem lutou contra e a favor da ditadura, vemos os egípcios e sírios colocarem o país de cabeça para baixo lutando pelo direito de mandar nas próprias vidas e no próprio governo, vemos uma política de relações internacionais meio esquizofrênica do país e – ficamos carentes.

Nós queremos ter histórias para contar, queremos ser importantes, pelo menos por um pouco de tempo. Todo mundo tem histórias. Até o avô bancário tem histórias emocionantes pra contar de uma época em que as coisas eram mais difíceis e nós estamos aqui, vivendo um dia após o outro. Essa vontade de ter uma história pra contar é tão forte, e nos deixa tão carentes que molda toda a nossa vida.

Entramos em religiões buscando experiências sobrenaturais, ignorando o conhecimento científico da teologia a que dizem se filiar; fomos pra manifestações buscando experiências sociais e querendo participar de algo que fosse maior que a gente, seja lá o que for esse algo; viajamos e fazemos mochilão não para nos divertir, mas buscando experiências loucas e bizarras pra contar pra todo mundo e mostrar como somos diferentes; queremos preencher esse vazio – essa necessidade de parecermos importantes no mundo.

Isso nos traz consequências igualmente preocupantes quanto todo esse paradigma: na busca por nos encher com experiências, cada vez mais corremos atrás de ações que não nos enchem porque… não estamos lá de verdade. Estamos buscando um jeito de ir mais longe, de documentar que estamos ali, de buscar algo interessante pra poder aparecer, nem que seja para nós mesmos.

É triste ver que não temos futuro –e não temos porque não queremos.


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Esse material foi desenvolvido para uso virtual, embora seus princípios possam ser aplicados à discussões a nível pessoal, sejam nas reuniões de família, na hora do cafezinho no trabalho ou no ponto de ônibus com aquela senhora de bengala e tendências levemente racistas que insiste em te achar rude se você não tirar os fones de ouvido para concordar com ela.

A questão é: como separar os assuntos que simplesmente não vão dar em nada, e a discussão vai só te dar dor de cabeça, encheção de saco e falta de vontade de olhar pra cara da pessoa depois disso tudo das conversas entre seres humanos?

Vamos pensar primeiro: como acontece uma discussão saudável?

Numa discussão saudável nós temos uma proposição e um argumento provocador que a rechaça, por exemplo:

ð  Propositor: O São Paulo nunca foi rebaixado.

ð  Provocador: O São Paulo foi rebaixado no Campeonato Paulista de 1991.

Temos então, alguns pontos em comum: o tema da discussão é se o São Paulo foi ou não rebaixado na sua história, e sobre a existência/validade do rebaixamento de 1991 neste tópico – num decurso normal de discussão, que embora boba, é saudável (há troca de ideias, apresentação de fatos e discussão de fatores objetivos e da validade da percepção subjetiva dos envolvidos).

Já uma discussão viciada é aquela que, por diversos motivos, não consegue manter uma temática (seja por malícia ou por desídia):

ð  Propositor: O São Paulo nunca foi rebaixado.

ð  Provocador: O São Paulo foi rebaixado no Campeonato Paulista de 1991.

ð  Propositor: Olha quem tá falando! Pague a série B, fluzinho!

Numa discussão viciada, o argumentum ad hominem (atacar a pessoa, ao invés de seus argumentos – afinal, o que tem a ver os rebaixamentos do Fluminense para definir se o São Paulo já foi rebaixado?); falsas induções (mulher de minissaia é piriguete); aplicações errôneas de regras gerais (todo homicídio é assassinato); uso da terceira pessoa do plural desconhecida (dizem que usar o celular causa câncer) e vários outros indicativos do uso de malícia.

INDICATIVOS DE MALÍCIA:

Lembramos que um indicativo de malícia é um momento de alerta para a possibilidade de malícia: nem sempre que forem utilizados os recursos, haverá malícia:

1)      Generalizações excessivas;

2)      Lutas contra uma classe (empresários, trabalhadores, manifestantes, etc) de maneira genérica;

3)      Não responder as perguntas propostas, mas realizar outras por cima (e exigindo respostas das perguntas próprias);

4)      Trazer diversos assuntos relacionados sucessivamente, com intuito de tirar o foco da discussão;

5)      Atacar a dignidade ou a honra de quem discorda ou questiona as premissas lançadas;

6)      Personalizar os questionadores, levando para o lado pessoal toda argumentação contra suas proposições;


História do Sorvete


Você está exagerando, Yashar Ali. Sem correr o risco de ser rude ou cínico, você realmente exagerou em alguns pontos do seu texto – e esse é apenas um contraponto, para entrar na discussão.

Yashar Ali publicou, essa semana, um texto intitulado Por que as mulheres não estão loucas, a íntegra você encontra no Papo de Homem (e realmente indico a leitura). O texto entra numa discussão importante (como várias postagens do site) dentro dos relacionamentos – o choque entre pessoas emotivas e pessoas racionalistas. Combati, também há pouco tempo, o posicionamento racionalista que está na moda – os sentimentos e emoções são afogados e tidos como fracos aqueles que simplesmente não engolem algumas coisas.

Mas digo que você exagerou, Ali, porque muito (aliás, quase tudo) do que você disse é verdade (tecnicamente é isso que significa a frase, embora não seja bem esse o uso) – muitas mulheres são, de fato, oprimidas ao expressarem pensamentos e opiniões que não são importantes não só diante de seus namorados/maridos, mas diante de todas as outras pessoas, inclusive outras mulheres já calejadas pela pressão em ser racionalista (por gaislateadores) – você está exagerando, tem que focar no que é importante, no seu objetivo.

Esse pensamento maquiavélico (como eu descreveria o gaislatearismo proposto por você) pode ser fruto de uma sociedade patriarcal? Pode, mas eu não acredito nisso. Não é o patriarcalismo o culpado – assim como não são apenas mulheres que sofrem com as consequências dele. A meritocracia faz muito mais o seu dever ao impor objetivos e metas inalcançáveis de maneira sã, e é aí que entra a morte das emoções.

Mulheres não só podem ser, como de fato já têm sido, em número cada vez maior, responsáveis por essa mesma pressão sobre homens – sejam seus homens ou seus filhos.  A pressão para ser racionalista, ser objetivo e por uma miopia seletiva é um apelo social, não sexista.

 Quando digo que você está exagerando, Ali, é porque às vezes, as pessoas simplesmente estão exagerando. Não sei eu outra forma de alertar pessoas sobre comportamentos inconvenientes a não ser com este aviso (posso estar mal-acostumado), mas pensemos então na seguinte hipótese:

Um homem (só para variar um pouco e provar este ponto) tem uma crise em relação à mulheres. Acredita entrar em todas friendzones possíveis, e se considera vítima de um movimento feminino que visa apenas usar os bons homens como ele como alicerce entre um relacionamento falido e outro.

Casos assim estão cada vez mais comuns na sociedade, nos quais homens, emotivos, põem seu pensamento/bem-estar acima do das outras pessoas – um tanto quanto inconveniente, e que gera brigas, confusões, perdas de amizades e muita treta. Como mostrar para a pessoa a inconveniência de suas atitudes sem falar Cara, você está exagerando? Eu realmente não sei.

Da mesma forma, se fosse uma mulher – peguemos um caso tão comum quanto. Digamos que uma mulher ultrapassa qualquer limite saudável dentro de ciúmes. Coloquemos ainda um background: ela saiu de uma casa em que o pai traía a mãe repetidas vezes, viu seu irmão mais velho pisar em várias garotas que o amavam de verdade e com isso, desenvolveu uma postura amargurada em relação aos homens (um fator externo que pode tê-la oprimido, de fato, sem ser diretamente relacionado à ela).

Oprimida já quase que por natureza, em todos seus outros relacionamentos, ela entra em um namoro com uma postura passivo-agressiva como você descreveu em seu texto. O namorado, um dia, pega no celular e vai falar com uma garota qualquer, e ela explode em ciúmes – independente de ser a irmã ou prima dele. Como conversar com essa garota sem começar com um Calma, você está exagerando?

Concordo contigo, Ali, não se engane: existe uma forte opressão contra pessoas emotivas (independentemente de sexo), e o Você está exagerando é mal empregado (geralmente as pessoas usam sozinhas, sem dar uma justificativa ou entrar numa conversa mais profunda sobre os sentimentos e fatos relacionados ao suposto exagero) – mas não é o vilão da história, assim como mulheres não são as únicas vítimas.

Um abraço, Ali!


poetry?


Engenharia com poesia era o que me dizia
aquela propaganda que ele sempre fazia
enquanto me embriagava com seu calor

Cheguei lá procurando o aconchego, o amor
aquela poesia que traz dentro de si um calor
me responderam com frias curvas calculadas

Suas vigas pressionadas, curvas acentuadas
como se fossem todas estrofes engessadas
se havia poesia nesse prédio, desapareceu
Seu moço, engenheiro, arquiteto, construtor
não sei nem em que buraco vai esse elevador
ouça o que tenho a dizer, vai se surpreender
e essa história de poesia, você vai entender

Não são as três rimas que fazem duas arrimas
dois dedos de dor não constroem um corredor
desse jeito a poesia você nunca vai encontrar
ela vem quando o arquiteto senta pra desenhar

A poesia flui quando o mestre indica ao construtor
o caminho que ele deve pavimentar com a sua dor
se reforça quando vem o carregamento das fábricas
tijolos e a cerâmica que trazem histórias fantásticas

Para existir sua poesia com engenharia, seu moço
cada bocado desse prédio deveria suspirar por vida
trazer um tanto da história de tantos outros moços
que fazem dessa engenharia a base de tantas vidas


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Com a maturidade, o crescimento, ficamos racionalistas (racionalistas, não racionais). Tentamos justificar e agir da maneira racional, buscando respostas neutras e justificativas que nos deem base para andar com pés firmes, sem medo de cair.

Na dúvida, muitas vezes, nos calamos – é preferível manter-se calado a falar alguma besteira, a sociedade (e as redes sociais) nos ensina isso. Questionamos as bases de tudo. Se alguém foi preso, não queremos saber da vida da pessoa, do porquê ela poderia ter feito isso, qual o impacto para os seus dependentes (se é que tem) dessa prisão – só perguntamos: a prisão é justa? Se sim, ignoramos todo o resto da vida da pessoa, para o nosso próprio bem eles dizem.

Se, dentro do contexto religioso, alguém (Deus me livre!) peca, antes de saber algo sobre o que ela fez, antes de procurar lembrar do que a Bíblia diz acerca de pecado, vida e salvação, nos afastamos e ficamos extremamente frustrados com esses pecadores que estão no meio de nós.

Se uma pessoa se suicida, é mais fácil balançar a cabeça e dizer que ele era fraco ou covarde do que tentar entender a nossa omissão enquanto ela pedia desesperadamente por socorro, ou mesmo o que se passava entre um distúrbio psicológico e outro.

Somos muito absolutistas. Vemos o mundo em preto e branco, e se algo aparenta ter traços de cinzento, jogamos na vala comum do erro (seja o erro preto ou branco). Não gostamos do que nos traz dúvida, ou de quem traz a dúvida. Não gostamos de questionamentos levantados, nem daqueles que tem a ousadia de pensar diferentemente – a esses, o fogo do inferno da justiça divina.

Somos convencidos a conviver com uma dualidade entre justiça e misericórdia divina, como se fossem dois fatores independentes (Deus é bom mas é justo), sendo que a Justiça de Deus é boa – e misericordiosa.

Nos fortalecemos todos os dias para avaliar uns aos outros sob nossos critérios absolutos. E ai de quem errar conosco. E ai de  quem ser como nós, falhos e ignorantes.


Orange is the New Black

Orange is the new Black é conta a história de uma loirinha perfeita que vai casar com um escritor com potencial – até que os dois descobrem que ela vai ser presa. Nos próximos 15 meses, Piper (a loirinha) vai enfrentar a realidade quase paralela de uma prisão federal, com todos os problemas de assédio sexual, burocracia e corrupção que o sistema penitenciário pode oferecer, mas essas serão suas menores preocupações.

A série tem altos e baixos surpreendentemente fluentes, e não há aquele sentimento de chavão mexicano a cada topada da personagem principal, que age de uma forma completamente natural ao proposto. Claro, os estereótipos e estigmas são presentes, mas não atrapalham o mergulho que é entrar na vida de todas aquelas presidiárias.

O maior acerto da série, sem sombra de dúvidas é mostrar o background de quase todas personagens que aparecem na série, fazendo você se identificar e, em boa parte das vezes, torcer por elas, enquanto a trama se desenvolve e as personagens evoluem.

É um: com certeza, assista!


Orange is the new Black é uma série Netflix.

Annie :(


Um dia acordei depois de sonhar que não estava aqui
num dia sonhei depois de acordar sentindo você aqui
nesses dias confundi ida e volta do caminho a seguir
me vi perdido estando tão longe e tão perto de mim

Pensei que estivesse errado,
talvez eu até tivesse viajado
sua história tivesse forçado
Acordei sem acreditar em você

Um dia eu pensei que pudesse ser diferente
– num sonho eu fugiria dessa vida indigente
mesmo envergonhado eu seria da sua gente
Meu salvador, agora estaria tão indiferente?

Nesse dia acordei assustado
com pensamento embriagado
pensando estar abandonado
Se não fosse você, o que seria de mim?

Nesse dia eu orei tão desesperado, pedindo
desse sonho acordei tão frustrado, clamando
busquei você onde eu achava estar, sofrendo
e quando quase desisti foi que te vi, sorrindo
Me chamando para mais perto de ti

Um dia acordei depois de sonhar que não estava aqui
Num dia sonhei depois de acordar sentindo você aqui
nesses dias eu te busquei onde ninguém mais podia ir
e te encontrei, junto com a paz que eu tanto persegui

Você nunca foi embora
e nunca vai me abandonar
mesmo que eu sonhe
ou até deixe de acreditar
você estará comigo
até quando paro de sonhar


boo

Provavelmente você pode substituir CTBC por qualquer outra empresa que você tenha um SAC via telefone, assim, qualquer outra mesmo. Mas dentre todas as opções que eu já tive, até mesmo dentro da telefonia, a CTBC consegue quebrar todos os limites e parâmetros de ridículo já pré-estabelecidos em call-centers.

A saga começa quando você tem algum problema em qualquer um dos produtos da empresa: TV a cabo/satélite, telefonia fixa/móvel ou internet fixa/móvel. Como toda boa empresa coronelista, a CTBC faz questão de estabelecer um padrão medíocre de prestação de serviços, na qual a resolução de problemas não é vista como mera obrigação, mas a concessão de um presente especial a um usuário atencioso e paciente.


A primeira medida ao ligar para a CTBC é: esqueça. Simplesmente esqueça todos atendimentos prévios e tudo que você conhece sobre leis.

Tá certo, um ponto nós temos que dar para a empresa: você não vai ser transferido de atendente para atendente num ciclo infinito. Simplesmente porque você não vai conseguir falar com um atendente fácil assim.

Já no primeiro toque, você precisa escolher uma opção. A ou B. Fale com um atendente? Ainda não, rapazinho. Ah, mas a lei… Procure um concorrente – ou melhor, se mude para uma cidade há mais de 300km, porque, bom, não há concorrentes. Você escolhe uma opção. Ouve o protocolo de atendimento. Passa para a segunda fase: parabéns!

Até aí a voz de Google Translator da máquina não é tão incomodativa assim. E aí você tem mais uma escolha pra fazer: sete opções + um bônus de fale com nosso atendente. Como um bom jogador iniciante de RPG, você não desconfia da opção mágica por trás, e tecla OITO com uma ferocidade tão grande que parece que está escolhendo a resposta certa no Show do Milhão.

Com um sorriso estampado no rosto, você já prepara todo o discurso que vai fazer pro atendente, como será recebido, o que responder e já tem até as ameaças de cancelamento ou denúncia no Ministério Público na ponta da língua, quando é surpreendido por uma outra voz do Google Translator (deve rolar uma parceria aí, não é possível), que te diz os locais que eles estão tendo problemas técnicos (como se já estivessem pedindo desculpas antes mesmo de você reclamar), e todo aquele blá-blá-blá de solucionaremos o problema, a equipe técnica (quase um semi-deusa, de tão mística que essa equipe é) resolverá os problemas e a cidade de Townsville estará segura novamente.

Depois disso, uma nova transferência e… VOCÊ TEM MAIS UMA OPÇÃO PRA ESCOLHER! Você olha para os cinco caminhos que têm a escolher e… ué, não tem minha opção, e agora? Quero retornar ao menu inicial, quero falar com alguém, quero fazer alguma coisa – e tudo que você ouve é a primeira voz do Google Translator, com um tom quase malévolo de dígito não verificado. Opção não encontrada. Você é um trouxa, se fodeu e vai ter que ligar aqui de novo e começar do zero. há-há-há. Dígito não…NÃÃÃÃÃÃÃO!

Você desliga o telefone. Respira fundo. Lembra que a culpa não é do aparelho, e não adianta jogá-lo na parede. Se fizer isso, eles ganham. É uma guerra – uma guerra sua contra eles. Igual dos filmes de ação, que o Jack Bauer precisa enganar todo mundo e destruir o inimigo. Só que você precisa fazer isso pelo telefone.

Com esse pensamento Rocky na mente, você liga mais uma vez. Se lembra daquele vídeo (abaixo) dos belgas que deram o troco numa empresa telefônica de lá, e começa a pensar em como fazer isso lá na sede da Algar Tecnologia. Dando pulinhos em aquecimento, você liga de novo.

Não completa a ligação. Confere o número digitado – é aquele mesmo. Liga mais uma vez. Pronto, a primeira bifurcação. Como um atleta nos níveis inferiores de competição, você passa tranquilamente, com a certeza do seu caminho. Ouve o protocolo da ligação, e escolhe rapidamente a opção que quer (qualquer uma MENOS falar com um atendente). Ouve mais um menu, concentrado. É agora. Agora que você vai decidir se é ou não é. Pra ter certeza, espera a mulherzinha do Google Translator repetir as informações pra você marcar com sabedoria, com classe, com amor. Vai ser gol de letra.

Confiante, você escolhe a opção – e vai entrando cada vez mais nesse labirinto de sebes que é o tele-atendimento da CTBC (caso vocês tenham esquecido o nome da empresa local, tai a chance de lembrar), você se sente quase o Harry Potter em busca do Cálice de Fogo (sem a opção de que alguém pudesse alcançá-lo primeiro e resolver o problema de todo mundo) e vai se embrenhando naquele mundo obscuro. Quando pensa que não PUMBA!: aparece um atendente.

Conta todos os seus problemas pra ele. De como sua vida mudou antes da CTBC. Como você vivia num moquifo abandonado, com lixo subindo pelas paredes, e com cabelo desgrenhado. Assim que recebeu o serviço, você tomou banho, penteou o cabelo e não fez a barba porque as gatinha gosta, sabe, né, moço. Mas a sua vida mudou. Você já estava até pensando em comprar uma camisa da Hollister e um perfume Ferrari Black daquele seu ex-colega de sala muamb importador, que faz um precinho bacana. Mas agora, você está quase de abstinência. A desorganização voltou. A amargura voltou. As caspas voltaram.

Eu era um bêbado…

E tudo que você obtém como resposta é: enviaremos um técnico, quando ele chegar ao local, se não houver ninguém para atendê-lo ou se o serviço estiver funcionando normalmente, será cobrada uma multa.

Apesar da insensibilidade que parte seu coração, você entende. Entende que é apenas um mero mortal, descartável, uma colher de plástico no meio de uma grande galinhada beneficente – e quem te usa está fazendo um favor ao mundo.

E assim que você desligar, o serviço volta a funcionar.

MEU DEUS, TEM QUE LIGAR PRA CANCELAR A VINDA DO TÉCNICO! E começa tudo de novo…

(ressalva: eu adoro o pessoal das redes sociais da CTBC – são os únicos que resolvem os problemas, inclusive os problemas com o próprio callcenter.)


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Sim, vocês sabem, fui assaltado semana passada, rolou pancadaria, levaram meu celular, mas tô vivo. Como todos os informes da TV, internet, redes sociais e mães preocupadas, fui brincar: vamos bloquear o aparelho, certo? Certo! É fácil, eles diziam. É rápido. Sim, eu caí nesse conto, e liguei na operadora pra ter certeza do que precisava e a atendente informou: Você precisa do nº IMEI (que pra quem não sabe também fica na caixinha do celular) e do nº do B.O.

Ah, beleza. Fácil. Tranquilo. Até eu conseguiria fazer isso. Hoje fui pegar o nº do boletim, todo serelepe e quando penso que não, no atendimento já com a operadora a mulher me pede quase o número da minha cueca.

Então: já foi assaltado? Já perdeu o seu celular e nunca mais encontrou? Beleza, champs, acontece. Pra bloqueá-lo, você precisa de:


  •   Número do Boletim de Ocorrência;
  •   Local, data e hora do Boletim (consta nele);
  •   Delegacia que foi feita o Boletim (também consta nele);
  •   Tenha seu RG e CPF em mãos;
  •   Marca e modelo do aparelho para bloquear;
  •   Número do chip que estava no aparelho quando ocorreu a perda/assalto (independente de já tê-lo recuperado);
  •   Se a conta for empresarial, tenha também o CNPJ da empresa que tem o contrato (mesmo que o aparelho seja próprio);
  •   Número de contato

É isso – e mágica e imediatamente seu aparelho é bloqueado. Boa sorte pra vocês.