O Bom Senso FC trouxe uma nova cara a quem acompanha futebol mas não é fanático: a vida dos jogadores. Não aquela vida do EGO ou que os torcedores de organizadas insistem em querer proibir, tratando jogadores em balada como funcionários pegos se masturbando em local de serviço – mas a visão dos jogadores sobre aquilo mesmo que fazem.

O mais interessante é que a dinâmica na qual se encontra o futebol brasileiro agora não é uma crise que estourou repentinamente, nem um descontentamento que surgiu apenas por causa da Copa do Mundo – assim como as manifestações contra o aumento do passe em São Paulo, há algo muito obscuro por trás disso tudo, e que era socialmente aceito até então.


Antes de começar um juntado sobre o tema, faça o leitor questão de lembrar por instantes os papéis das instituições de classes (partidos, sindicados, etc) durante as manifestações de junho e o posicionamento deles até os últimos instantes.

Porquê o Bom Senso FC?

Conforme já se imaginava há muito tempo, a Copa do Mundo ser realizada no Brasil ia causar um congestionamento de datas de jogos – não somente por causa dos jogadores convocados, mas pelos estádios sendo utilizados, horários de transmissão disponíveis e até mesmo o bolso do torcedor, que não comporta tantos eventos de uma vez só.

Foi então na última sexta-feira que a CBF publicou o novo calendário de jogos, válido para o ano que vem – o estopim que se precisava para a crise final.

Neste belo ano de 2013, com a Copa das Confederações, o evento de teste da Copa do Mundo, muitos times tiveram problemas com o calendário, além de várias lesões de jogadores – Corinthians, Coritiba, Grêmio, Internacional e Botafogo foram alguns dos times que não puderam contar com suas estrelas por extensos períodos tanto por causa de convocações como por lesões causadas pelo excesso de partidas jogadas.

Caso consiga chegar até ao final das competições que disputa, o Corinthians chegará ao total de 79 partidas no ano – 16 a mais que o Barcelona – e o São Paulo pode chegar ao incrível número de 85 jogos em 2013, o que quer dizer um jogo a cada três dias. Situação tensa o suficiente para que em algumas conversas, os próprios jogadores sentassem pra conversar sobre a situação deles. O Trivela fez um comparativo entre o Coritiba, Corinthians, Chelsea e Barcelona (abaixo) que ilustra a quantidade absurda de jogos no Brasil e onde exatamente eles se encontram.

Comparativo de jogos entre times brasileiros e europeus em 2013.
Número de jogos de times brasileiros e europeus, e os campeonatos a que se referiam (Fonte: Trivela)

Assim que publicado o manifesto dos jogadores, alguns técnicos e clubes (entre eles o São Paulo, conforme noticiado pelo UOL) apoiaram o Bom Senso FC na luta por um calendário menos estrangulado – mas o que pouca gente até agora viu foi o posicionamento do Sindicato dos Jogadores.

A Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), assim que viu o manifesto do Bom Senso FC (e provavelmente depois de uma convocação de emergência de seus conselheiros), ligou individualmente para todos os jogadores que assinaram o documento para:

  • (   ) Apoiar a luta dos jogadores e abraçar institucionalmente a causa;
  • (   ) Perguntar quem eram aqueles jogadores que eles nunca tinham ouvido falar;
  • (X) Criticar a ação independente dos jogadores que não incluiu a Federação.

Não contente, o presidente da Federação, Alfredo Sampaio (cujos maiores feitos foram revelar o Ronaldo e brigar com o Edmundo), afirmou que alguns pontos discutidos pelos atletas não deveriam estar ali “Fair play financeiro não é um assunto que cabe ao atleta. Isso já me deixa um pouco preocupado”, afirmou, provavelmente esquecendo que o fair play financeiro nada mais é do que o controle de dívidas dos clubes – e um clube endividado não paga salários (quem pode afirmar isso é o plantel do Flamengo, atualmente).

A Fenapaf, como todo bom sindicato, depois de manter-se apático à quantidade já gigantesca de jogos desde que adotado o sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro (que vem causando o abandono dos times grandes aos estaduais, como o Internacional, Atlético-PR e outros que estão envolvidos em competições internacionais), estava, no começo da semana #chatiada por não ter tido a possibilidade de dizer “estaremos fazendo o possível” para os atletas insatisfeitos.

Engraçado que ao tempo que a Federação dos Atletas mantinha um pé atrás e o ego machucado (como os partidos de extrema esquerda durante as manifestações se sentiam porque estavam nas ruas desde antes das manifestações), a Federação de Técnicos (FBTF – Federação Brasileira de Técnicos de Futebol, recém-criada, menine de agosto desse ano) apoiou abertamente e mexeu alguns pauzinhos para que o Bom Senso FC fosse mais divulgado.

Magicamente, como Jesus transformou a água para o suco-de-uva sem álcool (ou como os petistas abraçaram as manifestações e levaram tambores, orquestra de metais e bandeiras), a Fenapaf abraçou, na última terça o Bom Senso FC de uma forma que ia além: propôs uma greve para as duas últimas rodadas e porque não a criação de uma nova liga ano que vem, desestruturando a CBF?!

Claro, porém que o posicionamento dos jogadores no Bom Senso FC (como o próprio nome aponta), não é esse. Os problemas que esse grupo enfrentará são pelo menos quatro gigantescos:

  1. O interesse da Globo em relação aos horários e dias de partidas para as transmissões, que tem exclusividade pactuada com quase todos os clubes da série A (se não forem todos),
  2. O interesse dos mandatários da CBF, que, se diminuírem os estaduais, conforme a proposta, perderão apoio para as eleições da entidade em 2014;
  3. O interesse de clubes como o São Paulo que já estão em pé de guerra com a CBF;
  4. O ego dos mandatários da Fenapaf, que já está deveras machucado, embora não tenham movido os traseiros;

O futebol é para quem? De quem? Qual deve ser o papel de cada um dos envolvidos? Quais são as competições que deveriam importar?

É muito mais que 20 cent o calendário de partidas. É sobre quem manda (ou deveria mandar).


Depois do show do Iron Maiden, da polêmica que todo show do Iron Maiden traz (banda satânica, cujos integrantes usam preto, cantam sobre o número da besta e comem morcegos vivos no palco*), começou a mania – ora, se a gente tá falando bem de alguém, necessariamente precisamos falar mal de outra coisa, senão o ciclo não completa, senão o universo entra em pane e Deus precisa reiniciar o universo e começar tudo de novo e tudo começou com o big bang BAAANG!

Então é claro, os cristãos reformados de Facebook, cujo Sola Scriptura inclui trechos descontextualizados de Calvino, Washer e porque não um pouco de Osho e sabedoria popular que ninguém sabe onde exatamente está na Bíblia, mas com certeza está lá em algum lugar? Esses mesmos, eu sei que você tem amizade com pelo menos um desses, se você não for, por sinal, resolveram que seria uma boa hora pra criticar o Rodolfo.


Afinal, Raimundos era uma banda que fazia parte da vida de quase todos os pré-adolescentes e adolescentes nos anos 90, e a saída de Rodolfo Abrantes foi o fim técnico da banda – que continuou (ou continua) como zumbi por aí. A conversão de Rodolfo ao protestantismo foi o fator determinante pra mudança na vida dele, e ele não achou espaço para a banda dentro da vida que se propôs a viver.

Então, parte do mundo, principalmente os crentelhos protestantes reformados metidos a besta, entendeu que o Rodolfo Abrantes se converteu, parou de fazer sexo, usar drogas, encontrou Jesus e falou pra todos os seus antigos amigos de mundo que eles todos iriam para o inferno.

Mas não foi lá bem isso que aconteceu, é claro que não. E é óbvio que nenhum dos crentelhos reformados de Facebook se dignou a pensar ou até mesmo (veja só) a consultar a Bíblia (pode até ser A Mensagem, cara) sobre o assunto porque, afinal, isso é o conselho que aquele seu (ex) pastor quadrado daria quando você ainda era um alienado que dava o dízimo.

Qual a diferença entre o baterista do Iron Maiden que se converteu e continuou a tocar na banda e o vocalista do Raimundos que se converteu e abandonou a carreira artística secular? Simples: eles são pessoas diferentes.

Vejam só, eu estou ruminando esse post desde que fui num show/pregação do Rodolfo Abrantes aqui em Uberlândia, se não me engano no final do ano passado (gratuito, por sinal).

O negócio é que o Rodolfo estava com a vida de ponta cabeça. Quase suicida, enfiado com a cabeça nas drogas, perdendo a mulher que amava (ou um dia tinha amado) e caindo na depressão (parece bem com alguém que morreu esse ano, né). O que ele precisava era respirar – e não tinha como respirar dentro do Raimundos – ou ele pulava fora ou teria o mesmo final do Chorão, pelo contexto que ele estava envolvido. Não é uma questão de religiosidade, mas de abstinência.

Ora, a Bíblia diz que somos livres – somos livres para fazermos as coisas que não resultem em pecado. Da mesma forma que, por exemplo, o meu limite de bebida é um limite X, o de alguém é dois goles de Heineken. E se esse alguém não consegue parar na primeira metade do copo de Heineken, burro seria de continuar indo em lugares e vivenciando situações que o levassem a consumir Heineken – ele não tem domínio próprio, não sabe se controlar ainda. E então o mínimo que essa pessoa deveria fazer, para não pecar, é parar de frenquentar o boteco da esquina com os amigos que conseguem beber a mais que ele e o incentivam a beber um pouco mais.

As cartas de Pedro falam muito bem sobre isso. Clamar por liberdade sem ter a responsabilidade para lidar com ela é ser escravo do pecado. Viva para ser livre, mas não use a sua liberdade para fazer o mal – seja aos outros, seja a si mesmo.

 Uma escolha. Se certa ou errada, acho que não há como definir. Uma escolha como todos nós fazemos, todos os dias. Algumas mais radicais que outras. Mas eu acho muito estranho um mundo no qual cristãos zombam de cristãos porque estes estão determinados a pecar o mínimo possível. Talvez nós pudéssemos Rodolfar um pouco, e nossa vida não fosse tão medíocre. Ou talvez, pensei que já tivéssemos parado de usar uns aos outros como parâmetros de vida para usar a Cristo – afinal todos nós somos medíocres igualmente, mas de maneiras diferentes, certo?

Discordo do Rodolfo em muitas coisas? Sim, claro. De sua teologia? Um tanto. De não gostar de tirar fotos com as pessoas e falar isso no microfone? Totalmente, acho babaquice pura. Por sair do Raimundos? Não.



*eu sei

Meu avô dizia que o mundo andava muito estranho – e eu preciso concordar com ele. Tenho visto muitas coisas nesses dias que dá vontade de jogar tudo pra cima e esquecer que um dia eu fiz direito e aprendi alguma coisa naquela faculdade.


Saí da faculdade em 2011 – não faz muito tempo, mas pelo menos até lá, a gente podia acreditar em uma coisa: bizarrices aconteciam, muitas, na primeira instância, mas no Tribunal e nos Tribunais Superiores as coisas eram diferentes, e tudo se acertava por uma lógica jurídica que fazia sentido, a despeito dos entendimentos no mínimo intrigantes dos juízes de primeira instância.

Aprendemos que o processo é aquele pré-adolescente que faz coisas que ninguém entende porque (juiz de 1º grau), mas alguns anos depois adquire certa maturidade e passa a ser um jovem processinho, com ideias melhores na cabeça (2º grau) e, às vezes, precisa de amadurecer um pouco mais para se tornar um processo razoável, digno (3º grau). O STF é um órgão político, desde cedo a gente aprende isso nas aulas de Teoria Constitucional. O porquê de sê-lo, para que sê-lo e como ele, assim como todo o poder Judiciário é destacado dos demais, acessível apenas por concurso público ou através de indicações depois de extensos exames e sabatinas, nas quais comprovar-se-ia o notável saber jurídico de seus membros.

O judiciário seria a luz da sanidade enquanto o legislativo continua cheio de representantes com interesses diversos do povo e o executivo bateria cabeça tentando ver se faria alguma coisa antes das próximas eleições. 

Mas nos últimos dias, tantas coisas tem acontecido, partindo de tantos lugares que a gente fica meio bobo – e perde a fé no sistema jurídico. E o que um advogado deve fazer quando perde a fé no judiciário? Eu não sei.

É construtora que exige assinatura de uma cláusula de não modificação do imóvel porque sabe que ele foi mal-construído e não pode mexer na sua estrutura senão tudo cai (e tá tudo bem); é policial prendendo pessoas por estarem de máscaras e juiz dando a liberdade provisória com exigência que não é estendida nem aos acusados de homicídio; é deputado querendo penalizar o uso de máscaras de maneira mais forte que é penalizado o estupro; é policial usando a força porque sim e proibindo a filmagem porque não; é juiz que não dá liminar contra plano de saúde porque a decisão poderia causar ruína à empresa a mesma que faturou R$33 bilhões ano passado; é casa do governo federal com fiação insuficiente pegando fogo em todos os cantos da comunidade e ninguém é responsável por nada, tá tudo uma loucura.

E tá tudo normal. Vou falar o quê pro cliente?

Você tá no prejuízo, foram injustos com você, e você pode perder a sua casa? Olha, a gente pode entrar com um processo, mas… é como rodar o peão do Silvio Santos. Você pode ganhar o que tomaram de você de volta ou pode perder tudo que tem e mais um pouco. Como? Justiça, senhor? Fazer o quê, é a vida…


[Começamos aqui e agora umx periodx de reflexão sobre x usx dx x nx literaturx, trazendo versxs, poesixs e textxs com x como definidxr de gênerx]


Amor é fogx que arde sem se ver;
É feridx que dói e não se sente;
É umx contentamentx descontente;
É dor que desatina sem doer.

É umx não querer mais que bem querer;
É umx andar solitárix entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar presx por vontade
É servir a quem vence x vencedxr,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nxs corações humanos amizade;
Se tão contrárix a si é x mesmx amor?



_Oi, boa tarde, eu tô fazendo uma pesquisa, você pode me responder algumas perguntas?

_Posso.

_Primeiro eu precisava saber seu nome, ou só um apelido, pra eu identificar suas respostas e separar das outras.

_Aninha

_Obrigado Aninha. Você sabe como é, nos últimos dias, tudo que se fala é sobre segurança, cuidados pessoais, como evitar assaltos, roubos e outras abordagens, principalmente quando se trata de mulheres né? (Continua falando um pouco sobre a insegurança pública, sociedade de risco e etc) Então eu queria te perguntar: você se incomoda com abordagens masculinas? Sim, não ou depende?

_Depende,

_De 0 a 10, sendo 0 totalmente aberta e 10 muito incomodada, como você se sente com desconhecidos te cantando?

_6.

_Certo, então você se sente levemente incomodada, né? Você diria que depende da pessoa que tá falando, do horário, como é?

_Ah, mais pelo horário e local. Aqui é bem movimentado, então não me incomodo muito, às vezes é até legal ouvir um elogio ou outro, não aquelas coisas de pedreiro, né? Mas eu moro num lugar mais afastado, não tem quase ninguém andando nas ruas, e quando começa a escurecer então, é meio assustador, seja quem for…

_Aninha, só pra confirmar então: você por aqui, no centro, saindo do trabalho, do trabalho, certo? E vem um cara qualquer, normal, como… Como eu, por exemplo, e te elogia. Tudo tranquilo, você não se sente assediada ou incomodada de alguma forma?

_Acho que não…

_Então queria dizer que você é muito linda, Aninha.

[Problema resolvido]


Saiu primeiro no Twitter, depois invadiu o facebook e aí sim passou para os portais de notícias: Traficantes evangélicos expulsavam os membros do candomblé (praticante do candomblé parece errado, imagina praticantes do arminianismo – se bem que aí faz sentido) porque… sim.

Sim, a maior parte das igrejas que entram nas comunidades são neopentecostais, sim, boa parte das doutrinas neopentecostais se baseiam, entre outras distorções no evangelho, em um preconceito com religiões diversas, principalmente as de origem africana, e que os neopentecostais se afastam bastante de outras denominações protestantes já é bem sabido e espalhado por aí.


Mas o engraçado é que nos rincões evangélicos das redes sociais, nos becos protestantes diferenciados, aqueles mesmos, os diferentes porque não usam terno, os que não escolheram esperar e acham que são superiores, entre outras manifestações claramente espirituais que os tornam mais e melhores que toda a massa crescente de lixo que se tornou o universo, resolveram focar a parte dos traficantes evangélicos.

Não foram dois ou três tweets, não foram meia dúzia de comentários, mas uma avalanche de críticas ao fato de traficantes serem evangélicos. Claro, porque quem se converte, nunca mais pecará. Porque a vida de alguém que conheceu a Jesus muda de tal forma que ela não peca, não erra e não faz nunca mais nada de errado. Com certeza esses traficantes não entenderam o evangelho como nós, diferenciados, seres humanos dotados de intelecto superior, entendemos.

Afinal, eu nunca mais errei. E saí de todos os meus pecados e vicissitudes (olha só) automaticamente quando confessei que Jesus Cristo era Senhor e Salvador da minha vida.

Por favor, né…


Nós não ensinamos os homens. Depois de rebater vários argumentos feminazis, de entrar em discussões que sempre achei sem nexo e relativizar muitas questões, cheguei à mesma conclusão que todas as feministas já chegaram:  nós não ensinamos os homens.

Foi a pesquisa “Chega de Fiu-Fiu” feita pela Karin Hueck, editora da Super Interessante, que me fez repensar um pouco e algo, que considerava exceção vi tornar-se a esmagadora maioria. Quem corre por aqui e pelo twitter já viu diversas discussões sobre a falta de postura dos homens, em relação, principalmente ao contexto evangélico e relacionamentos – mas mesmo assim, estamos falando de 20% do total de homens desse país – e mesmo nesse meio nós vemos abusos à torto e à direito cometido por membros que são abafados dentro da própria comunidade.

Se aos homens evangélicos falta iniciativa construtiva – no sentido de construir um relacionamento, de lidar com os problemas dele e de assumir suas responsabilidades, no homem-médio brasileiro não falta iniciativa destrutiva. O papo aqui nem é sobre relacionamento, responsabilidades ou cristianismo: é sobre vida mesmo.

Eu, pessoalmente, achei que quando o verbo pedreirar fora atribuído ao ato de mexer com desconhecidas todos nós (ou pelo menos a maioria de nós) já tivéssemos entrado em consenso que isso não se faz – apesar de todas implicações e generalizações más que isso traz com a classe dos pedreiros. Caso não tenha ficado claro, cantar, dar em cima ou elogiar desconhecidas não é algo agradável. Não deveria nem ser discutido isso mais.

Não é errado cantar uma amiga sua. Não é errado elogiar uma conhecida sua. Não é errado dar em cima de alguém. Claro que não. O problema é exatamente a contextualização da situação. Não é só com contextos literários que as pessoas tem problema, e não sabem interpretar um texto completamente – muitos tem problemas em contextualização social.

Mas por que exatamente pedreirar? Por que não lavrar, frentistar ou advogar? É simples: temos num imaginário social, o pedreiro como o nível mais baixo de moral – é aquele homem bárbaro, que anda sujo, não tem bens, ensino nem cultura. Ok, antes desse texto sair completamente do estilo de escrita do blog e recair numa vala de feminismo exagerado ou de politicamente correto (sobre o qual eu realmente acho que vocês deveriam ler esse texto), concluo: o pedreiro, assim como outros operários manuais, é aquele cara que não tem nada a perder.

Socialmente, ele não tem para baixo – tudo que vier é lucro. A figura do pedreiro, então, como aquele cara sujo, inconveniente e tarado é a visão que todo homem tem de seu próprio nível mais baixo. Porque mesmo que pedreirar seja o pior nível que um homem pode chegar, ele ainda é um nível tido como viável, dependendo das circunstâncias.

Ora, o que teria eu a perder ao elogiar uma garota bonita que passou por mim na rua? Nada, afinal, minha namorada, meus pais nunca saberiam – essa mina nem me conhece. Vai que ela sorri. O que teria eu a perder ao passar relando na guria no ônibus? O ônibus tá cheio mesmo, acontece, tô no lucro. Esse pensamento, meus caros, evolui.

Como uma mulher, indo sozinha do ponto de ônibus pra casa, à noite, se sente quando passa um homem e fala que delícia! (e olha que “que delícia” nem é tão mal visto assim)? Ela é um objeto pra ele – algo que ele gostaria de ter, que ele poderia ter se quisesse pra se satisfazer, e o que ela tem como garantia que aquilo é somente um elogio e ele não vai decidir que ele merece ter um pouco de prazer? Exatamente: nada. Por que? Porque ela não faz ideia de quem seja aquele cara.

O ser humano – e acrescento agora as mulheres nesse balaio – evoluiu? Nem um pouco. Fazemos o que é socialmente certo porque somos socialmente obrigados. E machucamos, exploramos e tornamos a vida para os outros o mais difícil possível o máximo que pudermos.

Afinal, para muitos homens, a mulher nada mais é que um cuspidor de esperma.

Uma das maiores maravilhas da internet é trazer à tona discussões com uma aparência inútil, mas cujo conteúdo consegue ser mais irrelevante do que a gente pensava – e, a cada argumentação, perde mais um nível no ranking de salvabilidade do tema.

Talvez pela revolta social, pelas manifestações que foram pra rua e voltaram pra casa, reacendeu-se,  por incompreendidos que cursaram cadeiras sociais como por aqueles bacharéis em direito que se orgulham em ser do povão, da esquerda e de lutar em movimentos sociais, aquela velha, chata e que ninguém (fora eles) tem saco mais para isso.

Se fosse só isso, tudo bem, sem problemas, por mim você é livre suficientemente para pular no esterco e passar a tarde nele falando como é legal estar num mar de cocô, realmente não me importa – mas chamar de hipócrita, babaca e pedante quem não quis pular no esterco com você é mau-caráter. Então, vamos avaliar essa situação de uma vez por todas, pra não ficarem dúvidas.


1)      Existe uma norma editada por D. Pedro I em 1827 que dá o título de Doutor a todos os bacharéis de direito.

Sim e não. Existe uma norma de 1827 que fala isso? Existe. Mas o título de doutor só é válido para os bacharéis em direito que, após obter o diploma, defendem uma tese na forma especificada naquela norma.

Ah, mas defendemos a monografia no final do curso. O problema é que a monografia é uma defesa de tese feita antes de obter o diploma de bacharel em direito, e não após ela. Os bacharéis de hoje, portanto, não estão, segundo o decreto imperial, cientificamente aptos a serem chamados de doutor.

E não só isso, ignorando a tempestividade da defesa de tese, considerando que a monografia sim, serviria como tese para a obtenção deste título de doutor, independente da data ou objetivo de sua defesa, em 1996, quase 170 anos depois do decreto de D. Pedro I, surgiu a LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, a qual define, entre outras coisas, a quem cabe o título de doutor – e adivinhe, bacharéis em direito e medicina não se qualificam.

Não há, portanto, justificação legal ou jurídica para manutenção do pronome Doutor na sociedade brasileira – embora Portugal conceda o título de doutor à concluintes de vários cursos de licenciatura.

2)      O título doutor não se refere apenas à titulação científica. No país, o termo ganhou um significado além, como pronome pessoal.

No cotidiano, doutor não é quem tem doutorado. Por mais que a raiz etimológica da palavra, linguisticamente, nos leve a esse raciocínio lógico, o seu uso social evoluiu, e doutor tem uma carga totalmente diversa da descrita originalmente, sendo utilizado para referir-se a pessoas de uma forma reverente, seja em relação à sua posição social ou econômica. Pessoas com subempregos, em posições econômicas mais baixas costumam referir-se aos seus chefes ou pessoas hierarquicamente superiores na estrutura empresarial como doutores.

Da mesma forma, quando você utiliza o pronome senhor ao se referir a uma pessoa, não está dizendo que aquela pessoa é sua dona ou tem a posse de sua vida, mas que considera-a digna de um tratamento respeitável, seja pela sua idade, status social ou posição de importância pontual, naquele momento.

Assim como senhor, portanto, o uso de doutor tornou-se uma convenção social, independente de lei, e cabe a cada um, na sua etiqueta social, utilizá-lo ou não.

3)      Conclusão: tanto faz, tanto fez.

Não é obrigatório ou proibido chamar alguém que não tem doutorado de doutor. É um tratamento de respeito que cabe a cada um avaliar as situações em que deve utilizá-la ou não.

Se fulano exige que lhe chamem de doutor, tendo ou não título de doutorado, o fato é que fulano é um babaca, e não existe nenhuma lei que proíba pessoas de serem babacas. Doutor, como tratamento de respeito, é concedido (dado por terceiros) não adquirido (conquistado por esforço próprio).

Numa discussão dessas no facebook, um guri sugeriu que a OAB e o CFM decretassem normas que proibissem advogados e médicos de serem chamados de doutor. Sinceramente, esse argumento conseguiu ser mais babaca do que quem exige ser chamado de doutor.


O problema das redes sociais já foi diagnosticado várias vezes como em sendo o excesso de informação sem qualidade, assim como uma pancada de pessoas sem conhecimento no assunto falando como se fossem especialistas.

Discordâncias à parte, é por esses argumentos que querendo ou não, a mídia tradicional (1.0, velha mídia, seja lá como preferir o nome) ainda é tida com um pouco de respeito apesar dos #GloboMente e outros gritos de guerra dos manifestantes sem partido – afinal, quem está na mídia tradicional, como jornalista, fez quatro anos de uma faculdade de jornalismo, teve aulas de redação, de neutralidade, de pesquisas e de como-fazer-uma-notícia-sem-ela-ficar-parecendo-um-texto-de-um-blogspot.

Ou não.


Em dois parágrafos que juntos não dão 5 linhas de Word, o UIPI resolveu toda a questão sobre quando começa a vida debatida tão ferrenhamente há sabe-se lá quantos anos pela medicina, teologia, filosofia e psicologia – e definiu que não só isso, mas a pílula do dia seguinte é abortiva.

Esse texto foi publicado ontem e ainda está no ar, como você pode ver. O interessante de uma reportagem que, como toda notícia deve informar, você pode reparar quais foram os especialistas que apontaram os reais efeitos da pílula do dia seguinte, assim como quais são esses reais efeitos da pílula do dia seguinte.

Ainda podemos ver, na continuação do brilhante estudo conduzido pelo repórter chamado UIPI,  que a notícia foi baseada num comunicado da Pontifícia Academia para a Vida (que, de uma maneira até engraçada, só tem maiúsculas nas duas primeiras palavras do seu nome).

Como você, meu leitor, já pode imaginar a PAPV  é uma instituição neutra como toda instituição científica deve ser com seus cientistas abertos a verificar os fenômenos de seus experimentos, fundada por um.. Papa!  – está aí uma instituição completamente neutra no tema vida e aborto. É quase como pedir um estudo ao Marco Feliciano sobre a homossexualidade – a diferença é que eles vão falar isso sem parecer babacas (porque eles não são).

Mais surpreendente que isso é que o último comunicado oficial (documento científico sobre o qual se baseia a reportagem do Portal UIPI, que faz parte do SBT) lançado pela egrégia PAPV foi publicado no ano de 2007 (como você pode ver aqui).

A coisa tá ficando estranha? Calma, ela piora: no comunicado oficial em pauta, que é este último de 2007 (em português, pode ler), a PAPV diz: “No campo da prática médica, uma menção específica merece o caso da “contracepção de emergência” (em geral, realizada mediante descobertas químicas), recordando em primeiro lugar a responsabilidade moral daqueles que tornam possível a sua utilização a vários níveis, e a exigência de recorrer à objecção de consciência na medida em que os seus efeitos são abortivos (antinidatórios ou contragestativos); é bom reiterar inclusive o dever moral de oferecer ao público informações completas sobre os verdadeiros mecanismos de acção e os efeitos de tais descobertas. Naturalmente, subsiste o dever de opor a própria objecção de consciência diante de toda a intervenção médica ou de investigação que preveja a destruição de vidas humanas.”

Ou seja: precisamos estudar mais, o que é bem diferente de pílula do dia seguinte mata, conforme diz a reportagem do SBT regional. Mas que isso cara – foram quatro anos de jornalismo. É a mídia tradicional. A informação de qualidade.

Às vezes eu que sou errado e acredito que as informações oficiais devam ser publicadas junto com as informações oficiais.