Foto: REUTERS/Kevin Lamarque

(texto de Jack Shafer, publicado originalmente em inglês na Reuters. Tradução livre)


O New York Times e o Wall Street Journal apostaram em fatos mutuamente exclusivos nessa última quarta-feira quando realizaram a cobertura do discurso de Obama sobre os militantes sunitas que tem alvoroçado o Iraque nos últimos dias.

Enquanto o Times estampou em sua manchete “Obama deve considerar ataques aéreos limitados contra militantes sunitas”, colocando o presidente como um guerreiro, o Journal pintou o presidente como parte da turma do deixa-disso ao publicar “Estados Unidos não consideram ataques aéreos: Presidente Barack Obama busca estratégias alternativas”.

Manchetes contraditórias aparecem em na maior parte dos jornais cotidianamente – as notícias acabam se chocando por várias razões, até porque dois canais podem interpretar diferentemente dados econômicos recentes ou até mesmo discordar nas suas análises mais profundas sobre um novo projeto de lei que está sendo votado. Mas na maioria das vezes, a solução é mais simples: alguém entendeu errado.

Mas nos jornais de quarta-feira não são os jornais que se contradizem – mas as suas fontes anônimas. Tentar precisar o número de fontes anônimas que são confiáveis tanto no Times quanto no Journal é como tentar encontrar contar o número de corvo s que aparecem nas cenas de “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock – um trabalho tanto excruciante como frustrante.

Os corvos que grasnam pelo Times incluem: “um funcionário sênior da administração” (citado seis vezes); “um funcionário sênior” (citado uma vez, embora possa ser o funcionário sênior da administração); “atuais e antigos funcionários da administração”; “um antigo general dos EUA no Iraque” (duas vezes); “funcionários” (particularmente pode ser qualquer pessoa, inclusive todos os citados anteriormente na história); e “atuais e antigos funcionários do Exército Norte-Americano”.

São pelo menos oito – talvez mais – fontes. O Wall Street Journal não é muito diferente:

“Funcionários”; “Um funcionário sênior da administração” (citado quatro vezes); “Funcionário do Governo dos Estados Unidos”; “funcionários”; “Um funcionário sênior dos Estados Unidos”; “atuais e antigos funcionários”; “funcionários do governo”; e “funcionários”.

Foram três fontes? Seis? Nove? Por favor, alguém me dê uma bebida, eu me perdi.

Agora, ou o New York Times ou o Wall Street Journal acertaram. O presidente não pode estar considerando ataques aéreos e os excluindo ao mesmo tempo, afinal de contas. Se fôssemos bastante compreensivos, poderíamos dizer que as histórias se contradizem porque os jornais fizeram a cobertura de dois momentos distintos – quando os ataques aéreos que não eram opção passaram a ser ou vice versa (embora eu duvide disso). De fato, ambas histórias podem estar erradas! O presidente pode estar viajando, num mundo igualitário, onde pensamentos distintos podem conviver em perfeita harmonia e planejando atacar e não atacar ao mesmo tempo.

Não me culpe pela teoria conspiratória de que as fontes anônimas do governo possam estar deliberadamente forjando histórias para os jornais de modo a confundir os líderes dos militantes sunitas, para que estes, no meio de seu café da manhã (ou chá da tarde) não saibam como proceder nas próximas semanas – se fechar em bunkers ou agir a céu aberto. Outras administrações já ganharam guerras diplomáticas ao fazer ameaças veladas através da mídia.

Qual história acreditar, afinal? Bom, você pode guiar sua decisão pelos seus sentimentos quanto a cada um dos jornais, ou quanto à credibilidade dos jornalistas que trabalham nele. Eu estou paralisado, pessoalmente. Quando as matérias são construídas baseadas em fatos dados por fontes anônimas que você não pode verificar por si mesmo, as coisas ficam arriscadas.

Nós não vamos saber quem está certo de fato até que alguém atire alguma bomba ou vá à público dizer de fato o que está acontecendo – ou mesmo que o Times ou o Journal prossigam e respondam quem ganhou. Agências de notícias que sobrevivem graças a fontes anônimas devem estar preparadas para morrer por elas, preferencialmente pelo corte da própria espada caso suas fontes as enganem.

(A Reuters, que me emprega, confia em fontes anônimas. A sua história sobre a possibilidade de ataques aéreos, “Estados Unidos considera bombardeios aéreos no Iraque, mas espera conversa com Irã” as inclui, mas cita a fala de John Kerry, secretário de Estado, que afirma que bombardeiros “são uma das opções”).

Talvez, ao invés de ficar murmurando sobre as manchetes contraditórias, eu deveria estar agradecendo ao Times e ao Journal por desmistificar quem exatamente são esses funcionários atuais e antigos, seniores e militares que deram informações anônimas. Afinal, depois dessas manchetes de quarta-feira, nenhum leitor com discernimento vai encarar fontes anônimas da mesma maneira.


Opinião

Foto: Alexander Mysyakin/AP



Final da fase de grupos dessa Copa do Mundo que tem se revelado uma Copa América versão estendida e com comentários do diretor e com as surpresas de eliminações e zebras conquistando o direito de entrar na carnificina que é a segunda fase, nos veio à lembrança uma notícia de algumas semanas atrás, nas vésperas do início desse fantástico torneio.

No dia 11 de junho, véspera do Dia dos Namorados do início da Copa, o DailyMail publicou uma lista com o salário anual dos técnicos que estavam dirigindo as Seleções Nacionais e, bem, como é de se esperar tendo em vista os resultados de jogos, tem muito treinador com salários altíssimos que já está a caminho de casa.

Na verdade, é pior ainda – os três técnicos mais caros da Copa do Mundo 2014 foram eliminados na 1ª fase. Sério, dá uma olhada aqui nessa lista:

Foto: SoccerBlog

(1º) Fabio Capello (RússiaR$ 25 milhões

Não bastou receber mais do que o dobro que o segundo mais bem pago dessa Copa, o italiano Fabio Capello, treinador da Rússia fracassou em levar seu time adiante. Talvez a culpa não seja só dele, de fato desde que se separou da URSS a Mother Russia tem acumulado resultados pífios em Copas do Mundo, tendo duas vitórias em três torneios disputados (nunca duas vitórias no mesmo torneio, por sinal).
A renovação que o ténico prometeu, excluindo medalhões como Arshavin (que, curiosamente, também é estilista, além de jogador), Pavlyuchenko (tem média de 1 gol a cada 2 partidas pelo Spartak no Campeonato Russo) e Pogrebnyak (artilheiro da Copa da UEFA em 2007/08) não surtiu muito efeito já que com a derrota para a surpreendente Bélgica, o insonso empate com a Coreia do Sul e a terrível perda da classificação aos 60′ de jogo para uma Argélia guerreira arruinaram quaisquer planos russos de chegar à segunda fase.


Foto: Telegraph

(2º) Roy Hodgson (InglaterraR$ 13 milhões

Ao contrário da Rússia, todos esperavam que a Inglaterra chegasse em algum lugar. Tudo bem que o último título da seleção inglesa já esteja quase fazendo bodas de ouro (foi lá no idos de 1966), mas nos últimos 20 anos a Inglaterra tinha pelo menos passado da primeira fase. Não há como cansar de repetir: Nesse grupo da morte, com Uruguai, Inglaterra, Alemanha e Costa Rica, a última era a única de quem não se exigia nada, mas a primeira a garantir uma extensão do seu visto. Como apontado por Douglas Sato do Esporte Lovers apostar quase que completamente em Rooney (que não está numa de suas melhores fases) no ataque inglês foi uma das grandes falhas de Hodgson, que somou-se a incapacidade inglesa de fabricar um guarda-redes sólido.
Mesmo com um empate com a surpreendente Costa Rica (a única a não perder para o país latino-americano) a Inglaterra não conseguiu lidar com a fúria uruguaia e a precisão cirúrgica de Balotelli e seus companheiros de ataque, deixando a Rainha Elizabeth um pouco mais triste, enquanto sua xará belga comemorava jogo a jogo a surpreendente história de sua seleção nacional.


Foto: 101GreatGoals

(3º) Cesare Prandelli (ItáliaR$ 9,5 milhões

A Itália. Ah, a Itália. Pois é. Não foi o maior vexame dessa copa graças à Espanha, mas Prandelli deve estar no cantinho do seu quarto, chateado pelas suas escolhas. No sonho de alcançar o pentacampeonato brasileiro os italianos só não conseguiram ir pior do que foram em 2010, quando saíram com um total de zero vitórias.
Não levemos Prandelli à mal, afinal a Itália chegou até o vice-campeonato na Eurocopa de 2012 por suas mãos. A extrema dependência de jogadores que já estão bem… pra lá da flor da sua idade não ajudou muito. Buffon e Pirlo, ambos bem pra lá dos 30 anos não tiveram fôlego suficiente para impor muita coisa e por melhor que seja, Balotelli não tinha como carregar uma equipe inteira nas costas. Resultado: três jogos, três pontos e um pedido de demissão. Não foi de todo mal: a Itália foi tão mal, mas tão mal que caiu até o presidente da Federação Italiana de Futebol. 


Pra quem se pergunta, Vicente del Bosque, o espantalho que assustava pombos do comando da seleção espanhola recebe apenas R$ 7,5 milhões o que lhe rendeu um não-tão glorioso 7º lugar nessa lista. Esperava mais?

Utilidade Pública

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Uma vez, era o Luciano Huck. Pinta de bom-moço, com alguma meia-dúzia de haters no bolso (mas isso é porque ele pegava a diva da infância deles), programinha de gincana estilo Xuxa na Globo com um quê de questionável, mas um cara sussa. Tranquilo, suave, não tinha falado mal de ninguém nem se envolvido em polêmicas. Tá, vamos ignorar o passado em programas apelativos, mas até aí convenhamos, nada que um trabalhador normal não faria pra garantir o leite das crianças e a cerveja do final-de-semana.


Mas isso lá vai uns quinze anos, o Caldeirão tá quase debutando e dançando valsa com papai-mamãe-titia-vovô e a pessoa que vai tirar sua virgindade (ou pelo menos vai poder dizer isso para todo mundo), e de lá pra cá, o bom-moço que queria fazer um programa legal em que ele ajuda as pessoas enquanto as faz de trouxas, uma diversão considerada muito saudável pela maioria da população brasileira, parece ter mudado um pouco seu estilo de vida.

Culpe o casamento, a sociedade, a pressão por metas e audiência ou a simples cultura da zuera o antigo bom-moço contratado pela Globo tem se revelado um Justin Bieber da meia-idade. Não foi apenas por toda a treta que o envolveu na demissão de Russo, que deixou a emissora com uma mão na frente e outra atrás depois de cinco pontes de safena (e foi receber ajuda da concorrência), ou as diversas tretas do Peixe Urbano que envolveram autuações do PROCON, ou pela desagradabilíssima ação de marketing que envolveu um negro, comer uma banana e lançar uma camiseta sobre isso.

Alguma coisa aconteceu de errado nesses últimos quinze anos – o apresentador do programa que estreou quase todo em gincanas beneficentes (e que inclui Russo, o que saiu pelas portas dos fundos, nas suas memórias) parece ter perdido o rumo de sua vida por aí.

Como toda mãe preocupada nos perguntamos: seriam as companhias? Teria o Luciano começado a ouvir aquelas bandas de rock pesado que incentivam os jovens a perderem a linha? Foram os videogames de violência? Será que o Huck está jogando Magic: The Gathering

Nem mesmo aquele tal cara que cheira bíblia pastor soube nos responder. Mas os novos fatos, o nosso amigo Daniel Vieira expôs no seu Facebook em termos que até mesmo os mais obtusos conseguiriam entender qual o problema.

Em tempos de campanhas contra Turismo Sexual e da tentativa de se conscientizar contra o tráfico humano, eis que o apresentador ex-boa pinta manda essa:


Escreve Daniel:
“atualmente temos um número absurdo de mulheres (e homens também) sofrendo com o tráfico de pessoas para exploração sexual. São pessoas que foram iludidas com falsas promessas, talvez promessas como essa feita pelo Luciano Huck, e são levadas para outros países para trabalhar com a venda do próprio corpo em função do dinheiro e prazer alheio.” (leia a íntegra e compartilhe essa mensagem)

Para não ficar apenas nesse vazio, indica-se a quem ainda tenha alguma dúvida ou queira saber mais o documentário brasileiro que tem sido apresentado nas sedes da Copa do Mundo FIFA pelo O Outro Lado da Moeda:

Opinião

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A Copa nem começou e já ganharam a Copa. Os croatas dançando Ai se eu te pego numa laje em SP, o mexicano que pegou ônibus no sentido errado e acabou fazendo um tour em Fortaleza, o guri de escola pública em Salvador que conheceu Podolski, o jogador alemão que foi homenageado em seu aniversário por Pataxós, os cariocas que viram os holandeses apanharem do mar em Ipanema. Já são milhares de histórias que ao contrário dos gritos de protesto, mostram que sim, a Copa é pra todo mundo.

A Copa do Mundo não é da FIFA, por mais que ela queira – a Copa é de todo mundo. E essa Copa acontecer no meio desse caos todo dentro da FIFA justo no Brasil é uma importante lembrança de que os cartolas não são donos do futebol. Seja os R$40 do Criciúma vs Chapecoense de quarta-feira seja dos R$5000 da final da Copa, o último lugar que o futebol é jogado é dentro de campo, me perdoem os narradores. O futebol não é a loja de shopping vendendo camisas oficiais do time por uma fatia gigantesca do salário mínimo.

O futebol é jogado dentro dos bares, o futebol é o camelô com a camiseta que nem disfarça ser pirata vendida a R$25 no camelódromo do centro da cidade. É o amarelo do sorriso sujo de cigarro do senhor de idade vendendo um apito verde-e-amarelo, é o vermelho da timidez de um chileno com a bandeira do seu país perdido no interior do Mato Grosso do Sul há mais de cinco anos e que é zoado por todos brasileiros à sua volta mas mantém orgulho das suas origens, é o grito de alegria do uruguaio que foi encontrar seu cachorro 2 mil km longe de casa.

Me desculpem os protestantes que dizem que não vai ter copa, mas já teve copa pra mais de metro. O que for feito dentro de campo é mero detalhe perto de tudo que já aconteceu e ainda vai acontecer entre um jogo e outro. Obrigado ao cobrador de ônibus que não sabe falar espanhol, ao camelô que toca vuvuzela incessantemente, aos protestantes e a todas as presepadas que estão tornando essa copa a Copa mais sincera.

Vai ter Copa, inclusive nas cidades em que vai ter copa.