Opinião

Já se faz um ano que eu vim para o Mato Grosso do Sul, e deixei a minha Minas Gerais, depois de passar por tantos cantos desse Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, o Distrito Federal. E nesses dias, eu nunca me senti tão vulnerável. É simples, não existe Estado no Mato Grosso do Sul.



Já precisei do Estado como advogado, no caso de uma grávida precisava de um remédio para sobreviver, ela e o bebê. Já faz três meses que o que era um feto se tornou um ser humano, nascido e vivo e, com uma liminar, um embargo de declaração e uma execução processual, ainda não se viu a cor do remédio – nem mesmo resposta alguma do Estado, ausente em todos procedimentos fora a contestação da inicial.

Não é só o Estado representado pelo Procurador – é o Judiciário Estadual, cujo juiz não move o processo sem que haja um pedido para fazê-lo. Não há o menor respeito pelo princípio da celeridade ou da economia processual. Não há a menor intenção de se fazer algo de ofício. Tive petições apagadas por acidente no cartório do Fórum, e mesmo com protocolo, ninguém soube me dizer o que aconteceu por uma semana com o pedido de uma medida liminar. Tive petições que demoraram mais de uma semana para entrar no sistema, que é completamente digital.

Já precisei do Estado policial, de várias maneiras distintas. Com uma oficina de som automotivo, cujo som era ensurdecedor a três quarteirões de distância, com uma denúncia de tráfico, com uma denúncia de violência contra a mulher, com uma denúncia de quadrilha de assaltos à mão armada. Uma das vezes, cheguei a ir no destacamento policial duas vezes. Na segunda, pra avisar que não havia mais necessidade – o sargento responsável teve a cara de pau de olhar no meu rosto e dizer que a viatura tinha se descolado para lá. Não, não tinha. Nem mesmo a denúncia de uma gangue realizando assaltos à mão armada provocou alguma resposta. A Polícia Militar afirmou que não era da alçada deles por estarem em rodovia federal, a Polícia Rodoviária Federal, que tinha um posto há 30 km do local não tirou o carro da garagem pra dar um rolêzinho e ver se cruzava com a galera. De todas as vezes que alguma polícia foi acionada enquanto estive presente, não dá pra contar na mão o número de vezes que uma viatura foi ao local: exatamente, zero.

Caetano cantava que o império da lei há de chegar no coração do Pará, mas bem que os bandeirantes da Constituição Federal poderiam fazer uma escala no Pantanal.



Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.