Opinião

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Toda profissão tem um pouco de corporativismo. Você raramente vê médicos denunciando erros ou ações de outros médicos, ou advogados criticando abertamente o trabalho de outros advogados. Jornalistas tendem a se proteger, assim como praticamente toda classe de trabalhadores aprendeu, com o passar dos anos, que o outro que está ali não é um concorrente, mas um potencial aliado.

Por mais que o corporativismo não seja bem-visto pela sociedade, fugindo muitas vezes dos padrões éticos das profissões em geral, um pouco de corporativismo é essencial para que se respeite o trabalho da categoria. Você pega: um médico, quando você pede uma segunda opinião, nunca vai falar, por questões éticas e de respeito a um colega, que o doutor fulano está louco. No máximo, ele vai dizer que existem outras opções, sugerir uma linha alternativa de tratamento que seja mais simples, ou menos arriscada.



Um dentista raramente vai pegar um tratamento ortodôntico em andamento realizado por outro profissional, e um advogado que pega um processo em andamento tende a relativizar o que se fez pelo seu antecessor. Por mais que todo observador externo tenha o ímpeto de analisar de maneira fria o trabalho realizado por outra pessoa, esses profissionais tendem a ser um pouco mais compreensivos, na falta de palavras melhores, com seus colegas.

O corporativismo nasce quando você percebe que não é tão simples assim. As coisas não são tão simples assim e não chegaram nesse ponto por mero descuido de um profissional – vários fatores contribuíram para aquele todo que… bom, ninguém gostou muito de ver. As dificuldades técnicas, financeiras, o combinado com o paciente/cliente, os interesses dos envolvidos, tudo isso escapa da visão de um terceiro que só teve contato com o resultado final.

Mas com o fotógrafo não. Tudo isso passa despercebido. Não importa qual foi o combinado com o cliente, o que foi pedido no briefing, quais as limitações de equipamento, o que foi disponibilizado para realizar as fotos, ou todos os fatores externos que contribuem para o trabalho. Fotógrafo quando não está atrás das lentes se transforma num monstro terrível, num ser sem alma que é parente próximo do crítico de culinária – ao se afastar da câmera o fotógrafo esquece de como é seu trabalho e tende a julgar friamente, segundo seu gosto pessoal o trabalho alheio.

Assim como um crítico reclama do excesso de pimenta numa cozinha típica baiana, o fotógrafo reclama da superexposição de uma foto. Tal como um carioca exige coentro até na salada, o fotógrafo pede pela regra dos terços (fibo-o quê?). Da mesma forma que um paulista reclama de ketchup na pizza, o fotógrafo faz cara feia para meia dúzia de marcas de expressão no rosto de uma modelo. Tal qual um mineiro reclama da falta de sustança de um sanduíche como almoço digno, o fotógrafo se exalta com a falta de um contra-luz para destacar as curvas corporais.

O problema de tanto criticar e apontar erros que sempre são crassos (mas que, impressionantemente, tendem a não ser erros, mas frutos de um gosto pessoal) damos a impressão que fotografia é algo fácil. Fotografar um casamento, fazer um ensaio de criança, gestante, casais das mais variadas idades ou a cobertura de um show, espetáculo teatral ou circense, fazemos parecer em nossas críticas que um só profissional consiga fazer tudo isso com excelência sem muito treino ou estudo.



Nós mesmos nos boicotamos. Ao não perceber que o equipamento disponível não era lá essas coisas, ou que essa não fosse a proposta do artista (afinal, meus queridos, sim, a fotografia é uma arte, e portanto, uma visão pessoal do fotógrafo) boicotamos a nossa profissão. Diminuímos nossos colegas, e diminuímos a nós mesmos. É por causa de nossos comentários sobre a concorrência que o tiozinho compra uma superzoom 40x e entra na sua frente enquanto você trabalha tentando fazer um superclose do casal trocando alianças no altar – é você quem fez ele acreditar que ele pode fazer isso.

É por tanto bombardear trabalho alheio, ao invés de ser mais diplomático, que cento e vinte reais para fotografar um aniversário de criança se torna um valor muito alto para o cliente. Pergunta pra um advogado porquê ele cobra tanto pra fazer um habeas corpus. Meu amigo, eu respondo: qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade sem o menor conhecimento jurídico consegue fazer um habeas corpus. Assim como qualquer pessoa consegue apontar a câmera pra um lugar e clicar com a câmera no automático.

Mas é antes e depois de apertar o botão, e antes e depois de escrever o habeas corpus que vem o trabalho de verdade. Procurar o cliente (fazer reuniões na prisão), desenhar propostas de trabalho (idem), planejar a ideia depois de conversar com o cliente (idem), aplicar o estudado (idem), montagem e manutenção do equipamento (idem), posicionamento (base fática), iluminação (base teórico-jurisprudencial), protocolo (tratamento), acompanhamento (edição e novas versões) e finalmente a entrega do produto final (a libertação do cliente).

Talvez, se respeitássemos mais, um ao outro, como profissionais, as pessoas nos vissem como tais. Mas pra isso é preciso tirar o ego do caminho e o rei da barriga, e isso é pedir mudanças demais.