Opinião

Uma jovem de 18 anos foi vítima de uma tentativa de estupro dentro do banheiro feminino do bloco de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) nesta segunda-feira (21). Em conversa com a produção do MGTV, o pai da vítima informou que um homem entrou no local, que fica no campus Santa Mônica, enforcou a jovem e a levou para um box. A vítima gritou e se debateu até conseguir se soltar. O criminoso fugiu. (da reportagem do G1 Triângulo)

 



Esse texto é um desabafo. Um desabafo porque pra mim chega a ser surreal uma tentativa de estupro na FADIR-UFU. Surreal a ponto de eu não querer acreditar. Um prédio que eu passei seis anos e meio da minha vida – que cheguei a passar 18 horas por dia em um semestre, entre aulas de manhã, estágio à tarde, monitorias e mais aulas à noite.

Um prédio que era até chamado de Castelinho da Barbie pelo seu formado – e por ter portas trancadas em quase todos os horários. Um prédio que eu conheci todas as salas de aula, do calabouço até o ‘céu’. Um prédio que eu tive DRs, que eu tive momentos de romance, que eu assisti mais de 3 dias inteiros de One Piece, que eu entrei guri aos 16 anos e saí aos 22 como pós-graduado.

Um lugar que fez parte da minha história a ponto de ter esquecido luvas, fontes de notebook, capacetes (sim), celulares e ter tudo me esperando no mesmo local. Um lugar que conheci todos os cantos, todas as salas de direção, coordenação e até mesmo aquela salinha no canto do último andar da revista de Direito.

Um prédio no qual eu conheci pessoas que me levaram a andar esse Brasil de Criciúma (SC) a Fortaleza (CE). Que quebrou, moldou e remoldou meu caráter. Que foi cenário dos meus primeiros ensaios de fotografia – que eu tomei o laboratório de informática pra mim por três meses enquanto tentava montar esse blog (há três versões atrás). Dei monitorias, recolhi monografias, conheci pessoas fantásticas, criei inimizades, tive brigas, discussões e dormi nas escadas.

Um lugar que se faz lar toda vez que piso mais uma vez, que faço questão de mostrar pra conhecidos, que faço questão de citar e lembrar das histórias e bizarrices, um lugar que hoje não pode mais ser considerado seguro. Um lugar que a nova turma de Direito vai caminhar olhando por trás do ombro. Um lugar onde os alunos de outros cursos, que volta e meia tem aula lá, entrarão em silêncio não mais por estarem no Castelo da Barbie e serem atingidos por um raio reacionário, mas porque ali é perigoso.

Quero de volta as horas de descanso no sofá do Diretório Acadêmico. Quero mais uma vez poder sentar naquelas escadas e atrapalhar quem sobe e desce atrasado pra aula. Quero poder entrar lá e mostrar a placa da formatura da minha turma, sim, a quinquagésima nona turma, e apontar pra todas as salas de aula, lembrando do 1º ao 5º ano os professores insanos, as ameaças de greve, as tretas entre salas, o repúdio dos outros cursos. Quero que os estudantes de direito possam se sentir tanto em casa quanto eu me senti. Eu, meus bichos, os bichos dos meus bichos e todos meus veteranos nos sentimos. Porque, por mais que o direito possa nos ter levado pra caminhos tão distantes dos fóruns e tribunais, todos nós crescemos ali, naquele lugar, entre nossos colegas juristas.