Utilidade Pública

Não existem paralelos numa discussão entre desiguais. Se você parar pra pensar, até que os desiguais consigam se encontrar em um piso comum para não serem mais tão desiguais, não há como uma conversa, um debate, ter frutos.

Não, não é que as pessoas precisem discutir só entre seus pares (o que nem chega a ser discussão, mas uma grande masturbação coletiva), mas na verdade a gente precisa sempre entender os contextos alheios – o que, é claro, é muito mal visto. Tentar compreender o contexto alheio não é sororidade, compaixão ou humanismo. Não é colocar a pessoa humana acima das ideias: é relativismo.



Relativismo, o grande pecado para a igreja contemporânea, o pior erro de um justiceiro social, o único meio de se aproximar dois extremos para impedir de ver o outro (o estranho, o diferente) como um pária, mas sim um indivíduo. Não podemos ser relativistas, não podemos debater com pessoas que discordam de nós. Ah, Deus não existe? Fora do meu feed. O quê, contra o aborto? Block nele! Acha que o liberalismo vai salvar a economia do país? Seu conservador liberalóide leitor de veja! Acredita que o governo ainda deve manter as ações do Banco do Brasil e Petrobrás? Seu comunistinha de merda!
O relativismo só é visto como erro quando as suas idéias são mais importantes que os outros indivíduos. Seja a sua fé, a sua ideologia ou o seu conceito de, veja só, o que o governo deve investir no que diz respeito à educação pública, tudo isso deve ser encarado de uma forma a compreender que bom, o outro pode discordar dessas coisas.
E discordar não precisa necessariamente ser ruim, como todos nos disseram, seja no seminário de formação política, seja na escola dominical. Quem discorda das suas brilhantes não é burro, alienado ou perdido. Apenas tem concepções diferentes das suas, viveu e experimentou situações que moldaram quem ele é hoje. Você não precisa mudar a sua opinião, votar num plebiscito a favor da ditadura comunista (ou militar), ou aceitar qualquer um na sua concepção de paraíso (seu universalista!) – mas aceitar que nem todo mundo entende assim e que as pessoas podem ter opiniões e conceitos diversos dos seus, e nem por isso você precisa matá-las ou cortá-las da sua vida.


Ouvir e compreender a opinião alheia, discutir em pé de igualdade e respeitar (pra recair nas falas de DCEs) a vivência alheia. Não estou falando que você precisa ouvir desaforos, que você precisa sentar calado respeitando um racista, um misógino, por exemplo. Mas até chegar nesse extremo, há milhares de pessoas que simplesmente discordam de você em menor grau que, se estiverem tão comprometidas com você a encontrarem um ponto comum (ou a menos compreender aonde vocês querem chegar), a discussão caminhará e o respeito, o pássaro do respeito não precisará morrer.
Pode parecer engraçado, mas muitas feministas querem igualdade. Muitos neros quem igualdade. Muitos cristãos, muçulmanos, árabes, indígenas, produtores rurais, políticos, empresários, comunistas, policiais e até mesmo muitos aventureiros da justiça social só querem construir um lugar melhor para todos.

Mas pra chegarem lá, precisam se lembrar que as pessoas para as quais esse mundo precisa ser melhor são mais importantes do que o caminho ou a ideologia seguida para construção desse mundo. Se não, é demagogia.



Opinião

Uma das matérias mais procuradas por estudantes de Jornalismo é o jornalismo opinativo. O que de fato, é bom. É bom que as pessoas comecem a se interessar por algo além do LEAD e que tentem ir atrás do ‘algo mais’ que falta ao jornalismo tradicional.


Mas também é preocupante. Cada vez mais se busca fundamentar a própria opinião frente à pauta do que efetivamente conhecer a pauta e, dentro de um trabalho de apuração  jornalística, opinar acerca dela, mostrando um viés específico – igual no fundo, acontece na nossa vida cotidiana, pessoalmente.

O problema desse jornalismo que é um meio de se provar e/ou justificar a opinião do jornalista é que ele é tão desserviço quanto o jornalismo de LEAD que joga uma informação crua para o receptor – ele não acrescenta nada, ou pior, reforça preconceitos internalizados.

Da mesma forma que um cristão vai ler um texto com o pressuposto da sua fé, o estudante de jornalismo hoje corre atrás da pauta para provar suas opiniões pré-concebidas. Encaixa as fontes que acredita serem necessárias, ignorando outras ou buscando estereótipos para reforçar o fato que “o outro lado é uma merda”.

Problemático porque, bom, pessoalmente, na sua individualidade, ser assim já é problemático. Primeiro porque você se torna um guardião de conservadorismo e senso comum sem sentido, repetindo preconceitos e estereótipos ultrapassados ou ainda estabelecendo novos. Quando se trata de um jornalista, emissor de informações à grandes massas que fez um curso superior para, teoricamente, saber como lidar e tratar com estas informações de relevância e modificar o status quo social então – aí a coisa perde o rumo.
Não adianta ser de humanas, liberal, lutar contra o capital e a propriedade privada se as informações que são emitidas são tão deturpadas ou alienantes como as de seus arqui-inimigos mais ardilosos. Porque se há uma luta de classes, e se há uma defesa do trabalhador, do proletário ou do oprimido, esta defesa deveria se esforçar para a sua libertação, não para novas amarras e correntes diferentes ou mais reluzentes.
Se alguém deturpa a verdade, não pode ser amigo do povo. Não pode ser jornalista, com ou sem diploma. Com ou sem opinião.