Contos de Domingo

Teto, parede, janelas, porta. Ainda estava tudo ali. Não era a primeira vez que tudo lhe parecia levemente diferente, embora não soubesse bem definir o quê. Calçou seus chinelos que eram azuis-marinho (mas tinha a leve impressão de que já teriam sido pretos), olhou o relógio que pendia por cima de uma janela (mesmo que lhe parecesse que estavam ao lado da porta na antevéspera), levantou-se e encarou o corredor. Não se recordava de tê-lo decorado dessa forma. Mas como eram suas as fotos que espalhavam-se pelas paredes, mostrando o caminho da sala numa indicação do caminho a seguir, resmungou e seguiu para o desjejum, enquanto as pernas rangiam de cansaço.



Caneca verde-abacate, prato branco e torradeira grafite. Nem sabia se grafite era uma cor, mas tinha sido convencido por uma colega do trabalho (ou seria da faculdade?) que bordô era uma cor, não uma cidade na França, então grafite provavelmente também poderia ser uma cor. Seja qual cor fosse.

Desceu pelo elevador de serviço porque se confundiu nos botões do corredor, teve que dar algumas voltas na garagem do prédio até descobrir onde tinha parado seu carro, consultou o GPS para ter certeza que a empresa ainda estava no mesmo lugar de sempre – esta infelizmente nunca mudava. Seria interessante trocar a mesa de madeira envernizada já gasta pelo passar dos anos e dos outros sete analistas que passaram por ali antes dele por algo menos… bege.

Subiu as escadas da empresa porque algum dia prometera fazê-lo caso conseguisse o emprego, e maldisse esta promessa como o fez nos últimos três anos. Estúpida superstição, pensou, como pensara religiosamente nos últimos oitocentos e vinte e sete dias, através dos quais alcançara a marca de setenta e nove mil, trezentos e noventa e dois degraus. Nunca perdeu a conta. Sempre detestou cada um daqueles degraus. A única coisa que ganhara, além de peso, fora a dor nas pernas, que nunca lhe abandonara.

Sentou-se em sua mesa, ainda gasta. Olhou pela janela, encarando o mesmo grafite que o encarava de volta nos últimos treze meses. Realmente não entendia porque tantos nomes para cores, alguém devia estar sendo pago para isto. Pense, fúcsia. Deveria arrumar um emprego assim, criando nomes aleatórios.

Já passara das onze quando chegou em casa. Parou o carro na vaga que o encontrara de manhã, encontrou o elevador social e em menos de quinze minutos estava no banho. Ganhara, nas últimas vinte e quatro horas pelo menos mais quatro hematomas. Deveria realmente ir ao médico, não é normal ter hematomas por subir escadas. Poderia ser um problema sério de circulação. Lembrou-se que seu tio-avô, dois primos de segundo grau e uma cunhada tiveram problemas de coração logo antes de falecerem.

Olhou para o relógio pendente sobre a janela e perguntou-se porque raios alguém colocaria um relógio lá. Dormiu, e foi então que levantou-se.