Opinião

Alguém precisava falar sobre isso de uma maneira compreensível – e falou. O tema do bullying nas escolas americanas (e que tem um reflexo bem fiel nas escolas brasileiras, diga-se de passagem, tanto públicas quanto privadas) já tinha sido trazidos por Michael Moore como gatilhos que desencadeavam reações de ódio e desesperança capazes de fazer adolescentes rejeitados criarem coragem para assassinar em massa seus colegas.

Um outro filme, dessa vez bem menos divulgado, Bang Bang, Você Morreu (Bang bang you’re dead, no original), baseado em um roteiro de teatro (que eu recomendo para quem se assustou com 13 porquês e pode ver um outro desenvolvimento bem comum em histórias de bullying), traz essa perspectiva do bullying como torturante e inviabilizador da escola como o ambiente de socialização previsto.



(tradução: todos nessa sala são carne morta)

13 Porquês (ou 13 reasons why, se preferir o original) traz esse tema de volta em duas formas que nunca antes tinham sido colocadas à disposição de um público tão amplo e tão consumidas. Se você só leu a série ou só viu o filme vai influenciar diretamente na forma com que você se relaciona com a obra e suas impressões sobre o resultado final de tudo.

O livro, escrito por Jay Asher tem por foco principal o bullying sofrido por Hannah Baker e como isso influenciou sua vida e as decisões que tomou daí pra frente, numa espiral que foi do isolamento à depressão e da depressão ao suicídio – o livro é para entender o que acontece internamente com quem sofre bullying, e Clay engole isso tudo de uma forma doentia (sim, ele ouve todas as fitas de uma vez).



A série, roteirizada por Brian Yorkey e Diana Son, tem um objetivo completamente diferente. Ela aproveita o universo descrito por Jay Asher para ir além – e mostrar a vida de quem praticou o bullying. Nela você conhece intimamente cada um dos personagens e como cada um, por querer ou por não dar importância colaborou para o isolamento de Hannah – e como isso os afetou posteriormente ao seu suicídio.

Enquanto nos livros, todos vamos nos reconhecer como Hannah, na série, todos vamos nos reconhecer tanto como Hannah como quanto qualquer um dos praticantes de bullying. Claro que sempre vamos lembrar das mordidas que levamos, mas é importante levantar o ponto de que nós esquecemos de ser uns pelos outros, até mesmo pelos nossos amigos.



Não, nós não temos paciência para os dramas alheios – e nossa maior justificativa é que os outros não tem paciência para conosco. À duras penas aprendemos que ninguém quer saber da nossa dor, e compartilharmos nas redes sociais aquilo que faz nosso coração queimar é motivo de ridicularização e descrença entre os outros. Não só aprendemos isto como fazemos questão de ensinar aos outros a não compartilharem suas dores também, numa espiral de insensibilidade e rudeza.

Lembra que uma vez eu disse aqui que somos todos um pouquinho de Kilgrave Jones, logo depois do auge de Jessica Jones? É mais ou menos a mesma coisa – somos todos vilões nas vidas alheias. Por mais que insistamos em achar que somos sempre as vítimas. Quando vamos parar esse ciclo de ódio?



No vídeo abaixo, os produtores e atores de 13 Reasons Why explicam o porquê algumas escolhas foram feitas, como a de mostrar a cena de suicídio de Hannah (nessas alturas nem adianta avisar mais de spoilers, né?)

Mundo

A Presidência da República, chefia do poder Executivo é o ponto mais alto da política pátria. É o sonho (às vezes distante) de crianças, objetivo de políticos de carreira e alvo de diversos jogos de poder e influência.


A recente escalada – não necessariamente conservadora – mas definitivamente liberal nas eleições de vários países tidos como referenciais de políticas públicas sociais, juntamente com o processo de cassação da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral, que pode resultar em novas eleições presidenciais tem ressignificado a compreensão sobre o real poder da presidência.
Estes fatores trouxeram alguns personagens para a mídia mais cedo que o normal. Alguns deles já conhecemos bem – os velhos de sempre. Outros, são apresentados há quase duas décadas como novos. E alguns aventureiros, talvez em busca de assumir o papel de Trump latino. Essa situação política repetitiva, esvaziada, carregada de frustração e com duas pitadas de fanatismo messiânico foi o fator primordial para o esvaziamento das urnas nos Estados Unidos e a consequente eleição de Trump.
A política esquizofrênica (interna e externa) dos Estados Unidos desde janeiro, com embates entre o Executivo Federal e o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa levam muitos a acreditar, erroneamente, que o Chefe de Governo é uma figura irrelevante. Ver que as políticas de Trump não duram e são logo rechaçadas por juízes e seus projetos de lei são afastados pelo Legislativo pode realmente dar esta impressão, quando analisamos daqui – de longe.
A questão é que o Chefe de Governo tem um papel bem diferente do Chefe de Estado. O Chefe de Estado, detentor de um cargo de influência realmente tem um poder coator bem reduzido – lembramos das aulas de história e da citação mais que gasta de Adolphe Tiers:
O rei reina, mas não governa.
No presidencialismo, porém, por suposto, o Chefe de Estado e Chefe de Governo são a mesma pessoa – a presidência. Dentre as atribuições da presidência estão determinar as políticas públicas e planos de governo. A presidência não é um órgão ilustrativo meramente formal. Pelo contrário, tem atuação direta na forma com que o Estado influencia na vida dos seus cidadãos individualmente.
É por causa deste poder, de determinar políticas públicas, que a pessoa ocupante da presidência importa: quem é essa pessoa? No que acredita? Quais são suas convicções diante dos grandes questionamentos nacionais?
Qual será a política de um suposto governo federal Bolsonaro – quer você concorde com ele ou não – frente aos direitos LGBT? Realmente é possível acreditar que nada se alteraria? O SUS continuaria, dentro da chancela do Ministério da Saúde a realizar operações de mudança de sexo sem nenhuma tentativa de interferência? As políticas fiscais dentro do Ministério da Fazenda prosseguiriam, sem alterações? O Ministério de Desenvolvimento Social conseguiria financiar políticas assistenciais sem sofrer nenhum corte?


Duvido bastante. A questão não são as mudanças que um possível Bolsonaro faria, mas que elas existiriam – e impactariam a vida de milhões de pessoas. Da mesma forma, as políticas de Trump (mesmo as derrubadas, como a proibição do ingresso de pessoas de 7 diferentes nacionalidades) impactaram fortemente a vida de todos que já tinham gastado milhares de dólares em suas passagens e planejamentos e foram proibidos de entrar no país.


Estas pessoas tiveram seu dinheiro imediatamente devolvido pelas companhias aéreas? Não tiveram problemas com prazos e compromissos? Nenhuma consequência imediata em suas vidas? Difícil negar.
Então não se pode simplesmente dizer que o posicionamento ideológico bem como opiniões de presidenciáveis não seja importante na escolha do presidente como Chefe de Governo. A não ser que as políticas públicas não sejam relevantes.