Não, não foi Marx que inventou a palavra dialética

O que move o mundo é a dialética – principalmente no capitalismo. Se há quem vende, há quem compre; se há quem governe, há quem seja governado; se há quem tenha mão-de-obra, há quem tenha modos de produção.

Mas tem gente que leva isso à sério demais. Se eu torço pra um time, preciso detestar todos os demais, pra contrabalancear isso (ou pelo menos o Corinthians[bb]); se alguém é católico eu não preciso ser só protestante, preciso enfiar o dedo na cara da pessoa e falar todas as falhas cometidas pelas gerações anteriores de pessoas que ele sequer conhece; se alguém tem orgulho em ser algo, eu preciso ter orgulho em não ser aquilo.

'Você sabia que o Dia da Criança na verdade foi criado (teoria conspiratória)'

E nessa vibe, todas as comemorações vão por água abaixo. Talvez por um senso de racionalismo crítico irritante, uma mágoa infantil ou até mesmo a ausência de ex-namoradas pra dizer feliz dia da mulher pelo menos uma vez na vida, essas pessoas ranzinzas adquirem uma vontade de todo dia comemorativo ser mais inconveniente que o tio do pavê – e quebrar o clima com afirmações desagradáveis, realistas e vazias.

Se é Dia da Mulher, existe muita injustiça e diferenciação entre os sexos (sabia que você pode ser apedrejada em praça pública no Congo do Norte só por ser mulher?), logo é uma data vazia; se é Dia dos Namorados, é uma data comemorativa inventada pelos comerciantes porque não existia nenhum feriado consumista no mês de Junho; se é Dia do Orgulho LGBT então nem se fala! Natal, pff – o que importa é que existe muita desigualdade no mundo, e criancinhas morrendo de fome lá fora (esse argumento pode ser repetido em qualquer outra comemoração, como ultima ratio).

A pessoa joga fatos (ou teorias conspiratórias) que todo mundo já conhece, mas não fazem diferença alguma – se a pessoa não ajuda uma criancinha com fome 364 (ou 5, se for bissexto) dias no ano, ela não vai passar magicamente a ajudar só por causa desse comentário. No máximo abaixar a cabeça, fazer uma cara triste e perguntar quem diabos convidou aquele chato prali.

Se você é um desses, cara, na real: você não está evangelizando ninguém. Só é mais um Testemunha de Jeová batendo na porta domingo às 7 da manhã – a diferença é que você é tão inconveniente que já abriu a porta, sentou no sofá da sala e fez cara reprovadora pro cabelo curto da filha mais nova.

Os chatos que arruinam todas festas

Categoria: Opinião
0
90 views

Deixe uma resposta