Não acho que essa seja uma geração apática. Pelo contrário, nunca se discutiu tanto sobre tanta coisa como no Facebook e Twitter – nunca tantos jovens se engajaram a falar tanto sobre tanto como nos últimos anos. Sexo, religião, música, cultura, demarcação de terras indígenas, eficiência e eficácia do Judiciário, qualidade de programas de TV, desenvolvimento de tramas, livros em geral, adaptação de vários tipos de artes, costumes internacionais, desastres naturais e humanos – tudo vira discussão nas redes sociais.

Fazemos até metadiscussões – uma discussão sobre porque discutimos um assunto discutido. Então porque esse estigma de geração sem valor, apática, perdida? Eu tenho uma teoria pra isso, e para falar sobre ela, precisamos revisar um dos maiores ícones do brega brasileiro – Falcão.

Com o seu tipo de completo ridículo, Falcão representou o absurdo no começo dos anos 90, quando o Brasil enfrentava uma de suas maiores crises, que culminou no primeiro impeachment (numa fase que não se sabe se os jovens eram completamente alienados e obedeciam cegamente à Globo; ou se eram os últimos jovens extremamente ativos e por isso derrubaram o presidente e toda uma forma de governo ultrapassada – chegaremos nesse mérito em breve), trazendo o que hoje chamam de cultura inútil, fazendo troça e ignorando os maiores temas políticos que aconteciam na época.

(O interessante é que do mesmo modo que Falcão fez sucesso e os Mamonas Assassinas estouraram no Brasil inteiro fazendo humor e troça de várias maneiras politicamente incorretas que nem se imaginava existir, ignorando as necessidades e aspirações político sociais de todo o país, vários artistas da década de 80 são criticados e tidos como alienadores (assim como a própria TV) por não sustentarem uma posição contra a ditadura.)

Mas o que ninguém se lembra é que Falcão foi o maior profeta do que se tornariam as discussões dessa bela rede mundial de computadores. Com sua retórica insuperável, uma construção lógica indiscutível e um raciocínio pra nenhum debatedor pôr defeito, Falcão propõe algumas premissas que não se vê falha argumentativa alguma – e premissas essas que podem ser colocadas como conclusões sem nenhuma perda científica relevante.


Homem, meu caro leitor, é homem. Menino – é menino, sem negar o fato de que viado é viado e isso não se discute.

O problema é quando todos os argumentos giram em torno disso. Você não consegue ter uma discussão política sem discutir meia hora sobre o que é direita, o que é esquerda e a pessoa enfim conseguir desviar o assunto de tal maneira que depois que ela vê que o assunto não era nem esquerda nem direita, e que ela até concordava com você (a crise era se você era de direita ou de esquerda, como se isso alterasse a validade do seu argumento).

Aí o problema não é só política – é religião, futebol, música, cultura, leis, sociedade –tudo, cara, tudo é a máxima de homem é homem. Quando a pessoa não vira e fala – mas isso é SUA opinião. Amigo, meu blog, meu facebook, meu twitter – eu vou colocar opinião de quem?

A Falconização dos argumentos

Categoria: Opinião
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