Por que toda solução difundida na internet sempre é muito simplista? Parece que quanto mais algo é divulgado mais erros graves ostuma ter a linha de pensamento, nunca entendi a lóica disso. Já comentei aqui sobre a desmilitarização da PM, e outra solução mágica que tem sido jogada há muito tempo e agora entrou pras revistas impressas é a solução para a crise na educação.


O sindicato dos professores pede por um aumento salarial – claro, é função do sindicato fazer isso. Na verdade, eu até concordo que um aumento salarial vá colaborar com a melhor qualificação dos professores. Só que o aumento salarial per si não vai ser lá muito vantajoso, e pode ser, em alguns casos até prejudicial.

Saiu em uma revista na semana passada (juro que não lembro qual, se alguém tiver visto a reportagem (na boa, era uma coluna travestida de reportagem) avise nos comentários pra eu poder colocar o link) e a solução máster apresentada pelo jornalista era um aumento salarial a níveis noruegueses. Lembro que os valores apontados era de que um professor de ensino básico ganha, neste país, US$4.420 – e ele propunha este aumento para os professores (incríveis R$9 MIL) ou pelo menos metade (R$5.000), para que os mais brilhantes alunos da graduação sejam atraídos para a área de ensino.

Vamos a algumas considerações.

1)      No Brasil, para dar aula na Educação Básica é necessário diploma de bacharel ou pós-graduação em Pedagogia – e bom, a maioria esmagadora de quem entra no curso de pedagogia acaba em sala de aula, invariavalmente, com raríssimas exceções – logo, os melhores alunos de graduação sempre vão para a sala de aula – talvez fosse melhor um programa de captação destes alunos ANTES do vestibular, durante o ensino médio. Um programa de tutoria, talvez;

2)      A diferença de salário entre o setor privado e o público educacional é de 4,7%, segundo esta pesquisa

Bom, vejamos: se a diferença salarial em média é de 4,7% e a maior causa de um péssimo ensino é exatamente a má-remuneração do professor, as notas entre alunos de escolas públicas deve ser ligeiramente inferior a de alunos de escolar particulares – guardadas as devidas proporções e exceções, certo?

Não. Um aluno de escola pública faz em média, 398 pontos no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, pouco mais da metade de um aluno de escola particular, que faz 519. Se em quase 5% de diferença salarial temos quase 100% a mais de aproveitamento, isso quer dizer uma coisa: o aumento salarial dos professores não é a resposta mágica.


3)      Um salário alto vai atrair gente para a carreira. Pelo dinheiro, pela estabilidade, mas não pela vontade.

Assim como a grande maioria das pessoas fazem direito com os olhos brilhando por um salário de Promotor ou Juiz e não porque gostam e querem participar da área, um salário extremamente acima da média de ensino superior para os professores vai gerar uma busca pelo salário – não pela profissão. Isso vai levar a um número maior de concurseiros querendo dar aula mas sem nenhum interesse em educar, e para quem não sabe, educar não é fácil, ainda mais em escolas públicas.

4)      Ninguém ganhou na mega-sena acumulada. Pelo menos quem ganhou, não doou pro Estado.

Ah, mas políticos ganham salários gigantescos quando são eleitos – ok, estamos falando de o quê? Mil pessoas? Segundo aquela mesma pesquisa que apontei no ponto 02, existiam, em 2006, OITOCENTOS E QUARENTA MIL PROFESSORES no Ensino Básico (1ª a 4ª série). Vamos lá, um professor ganha hoje R$1.834,00, em média. São 840 mil professores ganhando um aumento de três vezes, para atingirmos o mínimo que o jornalista propôs. Se hoje se gasta R$1.540.560.000,00, ou seja UM BILHÃO E MEIO, só com folha de pagamento de professores, sem contar os encargos trabalhistas (que costumam dobrar essa conta, quem é empresário sabe), aumentando três vezes o salário de cada professor, chegaríamos aos gasto pouco modesto de R$4.621.680,00 – ah, é dobrado por causa dos encargos, né? Seriam R$9,25 bilhões por mês.

São 9,25 bilhões por mês em um ano, o que dá na verdade, contando com o 13º – R$ 120.163.680.000,00. Cento e vinte bilhões por ano. O PIB do Brasil, em 2006 foi de R$1,8 trilhão. Ou seja, gastaríamos 10% do PIB só em salários de professores – e adeus estrutura que já é precária, adeus bolsas-famílias, adeus uma porrada de coisas.

Cara, é inconcebível. Teoricamente, praticamente, economicamente e socialmente. Você não pode pegar um valor isolado de um país de cultura história e práticas sociais de uma sociedade e querer comprar um um valor isolado de outro país totalmente diferente.

A solução para a educação? Quem diz não sou eu, mas os próprios professores:

Simples, uma é privada e a outra é pública. Na privada existe comprometimento, enquanto que na pública não. Não me refiro aos professores, mas ao sistema gestor. Como disse um político uma vez ” As agências do Banco do Brasil são iguais em todo o território nacional, por que com as escolas e a educação também não é da mesma forma?”

Não curtiu a citação? Reclama com o site Educação Pública.

A solução para a Educação não está na Internet. Mas não me xinguem por isso.

Categoria: Opinião
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