A gente estava num ônibus espacial, indo construir alguma coisa – talvez o início de uma sociedade, talvez uma nova esperança, não sei. Sei que não era nada oficial, nem mesmo chique. Era do mesmo jeito que a gente sai pra fazer missões (não, a gente não ia construir algo pra igreja, era algo bem social mesmo). Mas a gente estava num ônibus espacial que era um coletivo. Coletivão mesmo, daqueles de janelas batendo e tudo – e você sabe como janelas batendo num ônibus espacial é perigoso.

O motorista avisou quando a gente ia sair das ruas e ia começar a arrancar, e você ficou mais preocupada do que já estava, com aquele bebê no colo que não era seu – mas que você estava levando porque a mãe te pediu (sentiu o tanto que nossa missão era importante, né? Seja ela qual for). Aí você se escondeu, toda com medo atrás de mim (afinal, estávamos no fundo de um coletivo que ia quebrar a barreira do som), tentou distrair o menino (que parecia de uma maneira MUITO agoniante com o filho da minha prima – até lá eu reparei isso), e quando o motorista acelerou – ele teve que parar alguns quilômetros pra frente.

Estávamos em um coletivo, quebrando a barreira do som, numa posição quase vertical, e tinha um sinal fechado. E ficamos lá, parados, sobrevoando, como se apoiados numa pista com uma subida incrivelmente íngreme, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Até que eles nos viram, e vieram invadir  o ônibus. Você olhou pra mim, eu olhei pra você, e quando você fechou os olhos, eu acordei.

Aquele busão de um domingo de manhã

Categoria: Contos de Domingo
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