Entrou no ônibus só pra fazer aquela mesma cara de sempre. O ruim de morar nem tão perto do ponto final e nem tão longe é que o ônibus nunca tinha um lugar vago, e ele ia ter que ficar muito tempo em pé. Era uma daquelas coisas que ficar grilado não ia mudar, mas saber disso não era muito confortável também.


Levantar já tinha deixado de ser uma opção, há pelo menos uns vinte minutos, mas ele continuava lá, pensando se deveria mesmo fazê-lo. Quis maldizer o dia que decidiu que iria de bike sempre para o serviço, e o dia que, pra não cair na tentação de pegar um ônibus, gastou o dinheiro do vale transporte naquele cachecol que sua esposa tanto queria. É, ela estava feliz. Era bom deixá-la feliz de vez em quando, já que a vida não era assim tão boa. Olhou pro lugar vazio na cama, contando as horas que faltavam pro final do plantão dela. É, tá na hora de levantar.

Chegou no ponto de destino, finalmente. Teve que pedir uns três licenças e ver umas duas caras feias antes de descer. Não tá fácil pra ninguém – e é claro que ele foi o primeiro a chegar na praça, mas já tinha se precavido disso: no ônibus mesmo tratara de acordar por sms dois dos seus amigos que sabiam que não iam acordar sozinhos e já começou a dar pedradas naquela garota bonita que morava no outro lado da cidade. Era ainda cedo, mas quando ela visse porque ele estava acordado tão cedo… Tava no papo.

Não estava tão frio quanto seu edredon fazia parecer, e ali pelo segundo quarteirão no pedal já tinha deixado pra trás qualquer sentimento negativo com o vento frio – que de repente era refrescante. É, pedalar fazia bem – o seu problema era começar a fazê-lo. Era bom demais. Os ônibus e carros passavam mais próximos que o que a Lei dizia, mas não chegavam a incomodar, talvez pelo costume. Quando já chegava na avenida, deu play, e as guitarras do indie rock abafaram um pouco o ruído do mundo à sua volta. Em duas rodas estava feliz.

O som do Whatsapp denunciava: mais de três mensagens com o toque dela. Só podia ser coisa boa. Destravou o celular, quando viu que já chegava um dos que ele tinha acordado, todo fantasiado, já. Camiseta de Jesus, calça jeans, tênis e um cabelo arrumado de uma forma a parecer despojado, mas ao mesmo tempo confiável. Aquele tipo de cara que você teria preguiça, mas também o levaria à sério. O modelo perfeito de evangelista saído dos manuais da igreja.


Uma hora estava na bicicleta, na outra no ar, quando viu não estava em nenhum lugar. Ou em todos os lugares. Não lembrava nem se tinha tido tempo de frear. Mas frear porque? Não sabia se estava escuro ou se estava com os olhos fechados, e tentou lembrar de algo. Lembrar do quê? Estava ali, quase na hora de trocar de marcha quando Yellowcard parecia ter dado uma virada na música que não conhecia. Não, não, não era a música. (Falando nisso cadê a música?). Mas se não era a música, que som tinha sido aquele. Um carro, isso. Agora lembrava. Um carro que o motorista falava no celular. Não deu tempo de buzinar, de gritar, de xingar, muito menos de frear. Devia ter voado uns bons 3 metros, pelo tanto que seu corpo doía. Abriu os olhos, e viu, de longe, no meio da praça, um menino. Com uma bíblia na mão, um sorriso no rosto. E foi a última coisa que viu. E foi a melhor coisa que viu.

Quando foi cumprimentar o seu amigo, ouviu um estrondo. De reflexo olhou, ainda sorrindo com a resposta da garota. E o ciclista, no meio da sua própria poça de sangue, o encarou por alguns segundos, antes de perder as vistas – foi o tempo necessário pro sorriso desaparecer, e a ficha cair. Ele estava ali, o tempo todo. No ônibus. No caminho. Na praça. No celular. E alguém tinha ido embora. E seja quem for esse cara, ele tinha sentido toda a esperança que era depositada nele. Todo o desespero de um mundo que chora por liberdade. Foi um tapa na cara. Que nunca foi capaz de esquecer.

Aquele sábado de manhã

Categoria: Contos de Domingo
87 views