Denver-Human-Trafficking

Semana anterior eu comentei aqui da treta envolvendo Luciano Huck, com sua afirmação muito descabida sobre tráfico sexual e como faltou não só tato, mas olfato, visão, audição e qualquer outro sentido que seres humanos tenham no apresentador e sua equipe de assessoria. Fazer só o post parecia pouco, até meio perdido no meio de tantas informações aqui do blog, então resolvi voltar ao assunto de uma maneira pouco convencional para o blog.

Trago aqui dois casos que saíram na mídia mas não foram tão explorados quanto poderiam. O primeiro, mais próximo, ainda é sobre ela mesma, a Copa do Mundo:


(1)

Foto: Ivan Pacheco / Veja.COM

Enquanto tentava se aventurar sem ingresso no Castelão, Dantas, do jornal O Povo, deu de cara com uma situação… complicada. Ele diz:

Um homem se aproxima de Larissa. “E aí, mudou de ideia?”, pergunta. “Você podia vender seu ingresso baratinho para mim, mas você não vende”, responde a garota.
Fica claro que o homem, usando uma camisa da seleção brasileira e um relógio aparentemente caro no pulso havia assediado Larissa anteriormente. “Não te vendo, mas te fiz uma proposta. Você topa?”. “Não quero namorar, não. Não vou ficar com você”, respondeu a menina. A resposta do homem não podia ser mais cruel: “então não posso te dar os ingressos”, e saiu sorrindo e mostrando os bilhetes para a garota.

Não vou entrar em detalhes de exploração sexual/prostituição, ou sobre quem ganha quem perde com a venda de seu próprio corpo, mas soa no mínimo estranho que em plena luz do dia, num dos eventos mais vigiados que já foram realizados nesse país (tá, no Maracanã deu treta com os chilenos, mas a presença ostensiva de policiais é intimidadora), um sujeito tenha a audácia de tentar cooptar uma mulher, se aproveitando da sua situação financeira, para vender seu corpo – em troca de um ingresso que pode ter valido.. R$30.

Mas aí você me diz que prostituição não é crime. Pois é, amigo. Prostituir-se, seja você homem ou mulher na sua carteira de identidade não é crime. Mas a história não termina aí. Diz o menino Código Penal lá pro art. 228:

Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Trocando em miúdos: se uma prostituta se oferece pra você, na lei tá tudo certo, tudo tranquilo. Mas se você joga a ideia para uma pessoa, meu amigo – xilindró. Não vou ser hipócrita com o Dantas, comprar briga naquelas alturas do campeonato seria contraproducente para ele, para o trabalho dele e até para a garota.

Mas chega a ser surreal que alguém cometa um crime que tem mais que o dobro que a pena de desacato (alegação que levou milhares para a cadeia durante as manifestações, cuja pena máxima é DOIS ANOS) no meio de tantos policiais e profissionais de mídia. Não se levante de raiva ainda não – tome um chá, pegue esse comprimido e acompanhe esse outro caso que te trago.


(2)

Foto: Governo Malaio

Talvez não tão impressionantemente assim um caso que chocou o mundo não saiu na mídia brasileira, nem online, nem de papel, nem mesmo em blogs. Digo ainda mais: nem mesmo uma postagem pública no Facebook foi feito no Brasil noticiando esse tema. Chato, né?

Vou resumir a parada toda: Dia 9 de maio, sexta-feira. O diplomata da Malásia na Nova Zelândia, Muhammad Rizalman bin Ismail, achou que seria uma ideia sensacional seguir uma mulher, nove anos mais nova que ele, estuprá-la e assaltá-la. Questionado pela Justiça, alegou imunidade diplomática e fugiu de volta pra casa. Simples assim.

A situação é tão esdrúxulam que o Ministro de Relações Exteriores da Malásia (país do diplomata) foi obrigado a dizer o óbvio para redes internacionais: “Só porque ele é um diplomata não quer dizer que vai sair impune, imunidade diplomática não serve para cometer crimes”. O governo malaio, embora possa se tornar responsável pelo processo em seu país está pensando seriamente (notícia divulgada hoje, pelas mãos do Ministro de Relações Exteriores, está pensando seriamente em devolver o diplomata para que o processo judicial corra na Nova Zelândia – e olha que isso envolve extraditar um cidadão nacional e que, se não bastasse isso, ainda é de alta hierarquia do governo federal.


A questão é que não dá mais para discutir abuso sexual como se fosse algo da cultura de países distantes, como a Índia, ou discutir prostituição como se fosse algo apenas brasileiro. Os trilhões que o tráfico de seres humanos movimenta começa aqui nos R$30 de um ingresso pra ver um jogo qualquer da Copa e deixar um irmãozinho mais feliz, e permeia toda uma sociedade que aparenta não ligar e não ter limites.

Não é possível se discutir sobre liberdade sexual quando pedir sexo em troca de qualquer outra coisa se torna corriqueiro – ninguém consegue se tornar sexualmente livre sob essa demanda. Essa cultura precisa, urgentemente, ser combatida. Precisamos, desesperadamente, integrar quem vende o corpo para sobreviver à sociedade. É um ser humano. Parte de uma família. Despedaçada, abusada, transtornada – mas gente como a gente. Que corre, que dá um jeito e faz o que pode e o que não pode para viver um dia depois do outro. E não merece ser usada como mercadoria para lucro alheio, sob hipótese alguma.

E se isso acontece, a culpa é cada vez mais minha e sua, que não presta atenção no que acontece no mundo – nem do outro lado dele, nem do nosso outro lado.

Atalhos do Tráfico Humano

Categoria: Utilidade Pública
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