Ontem eu fui fazer uma entrevista numa conceituada empresa aqui da cidade – papo vai, papo vem, espera um tempinho aqui na recepção que você já vai ser atendido. Saqueio e-reader do bolso, sabendo que o já vai ia durar pelo menos uns trinta belos minutos e tentei focar na leitura (Brennan Manning tem seus baixos, durante os livros) – até que apareceu um senhor, que deixou sua pasta esquecida ali nas cadeiras de espera e sumiu.


Ora, eu não sou o cara mais paranoico do mundo, mas depois do 11 de setembro, as coisas ficaram bastante tensas no Rio – e às vezes a gente carrega algumas precauções desse período pro resto da vida. E aí eu parei pra pensar – putz. O que eu quero estar fazendo quando morrer?

Pode ser meio idiota, eu não estava pensando em tudo o que fiz ou deixei de fazer durante a vida, nem no que eu gostaria ainda de fazer – mas em o que eu gostaria de estar fazendo quando morresse.

Afinal, a gente não costuma poder escolher a hora da morte – e ser apenas o cara que lia jornal enquanto esperava pra fazer uma entrevista parecia bastante broxante para mim. Imagine, plantão no meio da novela das sete pra informar que 15 pessoas morreram tomando sol na praia quando um ônibus desgovernado entrou na areia. Eu quero mais, gente. Morrer com emoção. Morrer como se estivesse fazendo algo útil na vida, morrer de um jeito que faça pelo menos alguém erguer uma sobrancelha.

Fazer uma morte que resgate o jornalismo-arte, o jornalismo-moleque, aquele jornalismo de rua. Aquele que cronistas publicavam no jornal e eram mais lidos que as manchetes sobre os fatos. Onde o floreio era essencial para passar os fatos e prender a atenção do leitor. Quando o jornal era feito pra ser lido, não para ser partido em zonas de interesse.

Atiradores invadiram um prédio de uma empresa da cidade e mataram a sangue frio três pessoas e um poeta – que não teve tempo de terminar a sua última obra.

Até quem me vê, segurando o jornal sabe que eu não quero morrer assim.

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