Opinião

Alguém precisava falar sobre isso de uma maneira compreensível – e falou. O tema do bullying nas escolas americanas (e que tem um reflexo bem fiel nas escolas brasileiras, diga-se de passagem, tanto públicas quanto privadas) já tinha sido trazidos por Michael Moore como gatilhos que desencadeavam reações de ódio e desesperança capazes de fazer adolescentes rejeitados criarem coragem para assassinar em massa seus colegas.

Um outro filme, dessa vez bem menos divulgado, Bang Bang, Você Morreu (Bang bang you’re dead, no original), baseado em um roteiro de teatro (que eu recomendo para quem se assustou com 13 porquês e pode ver um outro desenvolvimento bem comum em histórias de bullying), traz essa perspectiva do bullying como torturante e inviabilizador da escola como o ambiente de socialização previsto.



(tradução: todos nessa sala são carne morta)

13 Porquês (ou 13 reasons why, se preferir o original) traz esse tema de volta em duas formas que nunca antes tinham sido colocadas à disposição de um público tão amplo e tão consumidas. Se você só leu a série ou só viu o filme vai influenciar diretamente na forma com que você se relaciona com a obra e suas impressões sobre o resultado final de tudo.

O livro, escrito por Jay Asher tem por foco principal o bullying sofrido por Hannah Baker e como isso influenciou sua vida e as decisões que tomou daí pra frente, numa espiral que foi do isolamento à depressão e da depressão ao suicídio – o livro é para entender o que acontece internamente com quem sofre bullying, e Clay engole isso tudo de uma forma doentia (sim, ele ouve todas as fitas de uma vez).



A série, roteirizada por Brian Yorkey e Diana Son, tem um objetivo completamente diferente. Ela aproveita o universo descrito por Jay Asher para ir além – e mostrar a vida de quem praticou o bullying. Nela você conhece intimamente cada um dos personagens e como cada um, por querer ou por não dar importância colaborou para o isolamento de Hannah – e como isso os afetou posteriormente ao seu suicídio.

Enquanto nos livros, todos vamos nos reconhecer como Hannah, na série, todos vamos nos reconhecer tanto como Hannah como quanto qualquer um dos praticantes de bullying. Claro que sempre vamos lembrar das mordidas que levamos, mas é importante levantar o ponto de que nós esquecemos de ser uns pelos outros, até mesmo pelos nossos amigos.



Não, nós não temos paciência para os dramas alheios – e nossa maior justificativa é que os outros não tem paciência para conosco. À duras penas aprendemos que ninguém quer saber da nossa dor, e compartilharmos nas redes sociais aquilo que faz nosso coração queimar é motivo de ridicularização e descrença entre os outros. Não só aprendemos isto como fazemos questão de ensinar aos outros a não compartilharem suas dores também, numa espiral de insensibilidade e rudeza.

Lembra que uma vez eu disse aqui que somos todos um pouquinho de Kilgrave Jones, logo depois do auge de Jessica Jones? É mais ou menos a mesma coisa – somos todos vilões nas vidas alheias. Por mais que insistamos em achar que somos sempre as vítimas. Quando vamos parar esse ciclo de ódio?



No vídeo abaixo, os produtores e atores de 13 Reasons Why explicam o porquê algumas escolhas foram feitas, como a de mostrar a cena de suicídio de Hannah (nessas alturas nem adianta avisar mais de spoilers, né?)

Mundo

A Presidência da República, chefia do poder Executivo é o ponto mais alto da política pátria. É o sonho (às vezes distante) de crianças, objetivo de políticos de carreira e alvo de diversos jogos de poder e influência.


A recente escalada – não necessariamente conservadora – mas definitivamente liberal nas eleições de vários países tidos como referenciais de políticas públicas sociais, juntamente com o processo de cassação da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral, que pode resultar em novas eleições presidenciais tem ressignificado a compreensão sobre o real poder da presidência.
Estes fatores trouxeram alguns personagens para a mídia mais cedo que o normal. Alguns deles já conhecemos bem – os velhos de sempre. Outros, são apresentados há quase duas décadas como novos. E alguns aventureiros, talvez em busca de assumir o papel de Trump latino. Essa situação política repetitiva, esvaziada, carregada de frustração e com duas pitadas de fanatismo messiânico foi o fator primordial para o esvaziamento das urnas nos Estados Unidos e a consequente eleição de Trump.
A política esquizofrênica (interna e externa) dos Estados Unidos desde janeiro, com embates entre o Executivo Federal e o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa levam muitos a acreditar, erroneamente, que o Chefe de Governo é uma figura irrelevante. Ver que as políticas de Trump não duram e são logo rechaçadas por juízes e seus projetos de lei são afastados pelo Legislativo pode realmente dar esta impressão, quando analisamos daqui – de longe.
A questão é que o Chefe de Governo tem um papel bem diferente do Chefe de Estado. O Chefe de Estado, detentor de um cargo de influência realmente tem um poder coator bem reduzido – lembramos das aulas de história e da citação mais que gasta de Adolphe Tiers:
O rei reina, mas não governa.
No presidencialismo, porém, por suposto, o Chefe de Estado e Chefe de Governo são a mesma pessoa – a presidência. Dentre as atribuições da presidência estão determinar as políticas públicas e planos de governo. A presidência não é um órgão ilustrativo meramente formal. Pelo contrário, tem atuação direta na forma com que o Estado influencia na vida dos seus cidadãos individualmente.
É por causa deste poder, de determinar políticas públicas, que a pessoa ocupante da presidência importa: quem é essa pessoa? No que acredita? Quais são suas convicções diante dos grandes questionamentos nacionais?
Qual será a política de um suposto governo federal Bolsonaro – quer você concorde com ele ou não – frente aos direitos LGBT? Realmente é possível acreditar que nada se alteraria? O SUS continuaria, dentro da chancela do Ministério da Saúde a realizar operações de mudança de sexo sem nenhuma tentativa de interferência? As políticas fiscais dentro do Ministério da Fazenda prosseguiriam, sem alterações? O Ministério de Desenvolvimento Social conseguiria financiar políticas assistenciais sem sofrer nenhum corte?


Duvido bastante. A questão não são as mudanças que um possível Bolsonaro faria, mas que elas existiriam – e impactariam a vida de milhões de pessoas. Da mesma forma, as políticas de Trump (mesmo as derrubadas, como a proibição do ingresso de pessoas de 7 diferentes nacionalidades) impactaram fortemente a vida de todos que já tinham gastado milhares de dólares em suas passagens e planejamentos e foram proibidos de entrar no país.


Estas pessoas tiveram seu dinheiro imediatamente devolvido pelas companhias aéreas? Não tiveram problemas com prazos e compromissos? Nenhuma consequência imediata em suas vidas? Difícil negar.
Então não se pode simplesmente dizer que o posicionamento ideológico bem como opiniões de presidenciáveis não seja importante na escolha do presidente como Chefe de Governo. A não ser que as políticas públicas não sejam relevantes.
Terceirização

A terceirização sempre foi um tema bastante espinhoso nas discussões sociais. Embora bem embasadas na teoria de gestão, afinal de contas, terceirização teoricamente implicaria na entrega de uma função para um terceiro tecnicamente mais preparado para exercê-la, descentralizando a gestão e tornando-se menos burocrático, na prática essa descentralização traz mais problemas do que soluções. Porém, grande parte dos problemas trazidos pela terceirização não são frutos da prática em si, mas são reprodução dos mesmos problemas encontrados em funções que não-terceirizadas.

A terceirização é largamente aplicada para enxugar a folha de pagamentos (e dividir responsabilidades) da empresa, isso é claro. Contratar um escritório de contabilidade, em vez de empregar um contador. Contratar um escritório de advocacia, no lugar de assumir os vencimentos salariais de um advogado. Contratar uma empresa de limpeza. De segurança.



Isto não quer dizer que o trabalho será precarizado – embora essa seja a grande realidade atual – mas se observarmos de perto, o trabalho é, e tem sido cada vez mais, precarizado independente de terceirizado ou não. É complicado falar em caracteres gerais sobre como o trabalho vem sendo precarizado quando até pouquíssimo tempo atrás – dois anos – o pagamento do FGTS de trabalhadores domésticos não era obrigatório.

Quantos funcionários conseguem fazer a hora de almoço? Quantos saíram do emprego para descobrir que nunca tiveram seu FGTS depositado? Quantos marcam corretamente as suas horas-extras e cumprem o limite de horas extras permitidos? Quantos vendem apenas o permitido pela CLT de suas férias? Ou desligam os celulares e não entram em regime de plantão resolvendo pequenos problemas durante a noite e finais de semana?

Vou lhe dar uma dica: não são apenas os terceirizados. Como no texto anterior, o problema continua sendo a cultura de empreendedorismo no país. Seja contratado via CLT seja terceirizado, o trabalho é precário. A terceirização, ao contrário do que muitos afirmam, não é um instrumento de precarização.

Arrisco ainda a fazer uma pequena previsão: para terceirizar a operação, o chão de fábrica (que supostamente serão os maiores atingidos, segundo a propaganda partidária), os gigantescos conglomerados não vão realizar contratos individuais com cada um dos milhares de funcionários de cada uma – ou você vê universidades, shoppings e eventos contratando individualmente vários seguranças e vários agentes de limpeza?

Não – havendo a terceirização da operação, serão contratadas grandes empresas que fornecerão milhares de funcionários. E me chame de louco, mas para realizar as operações nos maquinários são necessários alguns dias (meses?) de treinamento – acho bem difícil existir uma rotatividade alta ou contratação por diária que já não aconteça atualmente.

Lutar contra a precarização do trabalho é necessário, é premente. Mas ela já está aí, com ou sem terceirização.



Terceirização

A terceirização sempre foi um tema bastante espinhoso nas discussões sociais. Embora bem embasadas na teoria de gestão, afinal de contas, terceirização teoricamente implicaria na entrega de uma função para um terceiro tecnicamente mais preparado para exercê-la, descentralizando a gestão e tornando-se menos burocrático, na prática essa descentralização traz mais problemas do que soluções. Porém, grande parte dos problemas trazidos pela terceirização não são frutos da prática em si, mas são reprodução dos mesmos problemas encontrados em funções que não-terceirizadas.

Protesto. Em primeiro plano a faixa 'secundaristas contra a terceirização'
Foto: Alessandra Modzeleski

Não querendo ser advogado do diabo, mas talvez já sendo – era preciso desmistificar a terceirização para se realizar a reforma trabalhista. Dizer que a reforma trabalhista, a flexibilização de diversos conceitos da CLT (como em algumas das 101 medidas propostas pela CNI, como falei no Eita Pega ainda em 2016) era desnecessária é estar alheio à realidade. Não apenas à uma realidade de empregos, não apenas à uma realidade de crise, mas à conjuntura como um todo – o sindicalismo, por exemplo.



O primeiro mito – terceirização é sinônimo de falta de qualidade

Se terceirização fosse boa, você não ficaria horas tentando resolver problema num call-center.

Até porquê ninguém nunca teve problemas no balcão do atendimento ao consumidor de nenhuma loja, né?

A despreocupação com o pós-venda e atendimento é algo quase arraigado na cultura empresarial brasileira. Eu mesmo já tive diversas experiências muito positivas em callcenters de – pasme – empresas telefônicas. Tudo depende de diversos fatores:

(a) A importância que a empresa terceirizadora dá à função.

Se não é importante, você não vai investir. Não vai investir tempo, não vai investir treinamento, não vai investir verba e muito menos vai fiscalizar e trabalhar com feedback.

(b) A competência da empresa terceirizada e a sua dinâmica de trabalho.

É o beabá básico de gestão: pessoas sem perspectiva não vão produzir bem. A falta de perspectiva em crescer na empresa é o segredo para funcionários que trabalham mal. Afinal de contas, se o esforço não trará recompensa, fazemos cada vez mais o mínimo possível, testando os limites do aceitável. Empresas terceirizadas raramente oferecem alguma perspectiva aos funcionários – são mão-de-obra dispensável.



(c) A autonomia para resolução de problemas.

Quem trabalha com atendimento ao cliente, principalmente em callcenter sabe: muitas vezes quem liga está com razão. Algumas delas, o pedido é extremamente justo. Mas o sistema imposto ou as metas colocadas não dão autonomia de ação para que o atendente resolva o problema. Isso gera não só um desconforto e o atendente sai como vilão, mas gera diversos custos diretos (ações judiciais e indenizações) e indiretos (imagem da empresa) – caberia, na verdade, também à terceirizada exigir mais autonomia. Mas, como a terceirizada não vai ganhar nada com isso (além de dor de cabeça), porquê né.

Sem categoria

Desconfio fortemente das justificativas para o fim do foro privilegiado; da mesma forma desconfio fortemente das justificativas para sua manutenção. Não é possível sobreviver com a quantidade de processos prescritos nos Tribunais Superiores, muito menos não é possível acreditar piamente na quantidade de absolvições dos processos efetivamente julgados, por mais garantista que seja a Corte.

Foro Privilegiado
Gráfico da Folha. Para acessar a matéria, clique no link.


Fim do foro privilegiado: A realidade da primeira instância

Como advogado com casos criminais, aqueles da ralé, simples, de primeira instância, que já foi rotineiramente em presídios visitar clientes, já passou notícias e informações para a família e auxiliou mães, esposas e maridos a fazerem carteiras para visitação de domingo, eu não acredito na celeridade da primeira instância. Veja bem – um processo meu, por exemplo. A denúncia foi realizada em maio de 2014. Agora, em março de 2017 foi marcada a primeira audiência de instrução e julgamento. Ela foi marcada para junho de 2018. Sério, pode ver:

ProcessoCriminal



Ou seja – na primeira audiência em que vai ser discutido o processo, já terão se passado quatro anos desde a denúncia, ou seja, o período completo de um mandato eleitoral. Isso para a primeira audiência. Até o juiz sentenciar, pode acrescentar facilmente mais quatro. Para subir uma apelação, e fazer o Tribunal de Justiça dar um acórdão, pelo menos mais cinco. Desse acórdão, um recurso especial para o STJ, uns doze. Talvez com recurso extraordinário para o STF, quinze.

O que me lembra de um certo detalhe:

Enquadramento

Pesquisa recente no Reino Unido, sobre a qual falei recentemente no meu Facebook, mostra como o enquadramento (ou seja, a forma em que se colocam os fatos) muda a percepção das pessoas sobre o tema. A pesquisa tinha como pergunta principal a redução da minoridade eleitoral – no Reino Unido apenas maiores de 18 anos estão aptos a votar.

Primeiramente, quando perguntados se eram a favor de diminuir a idade necessária para votar de 18 para 16 anos, 56% dos britânicos foram contra e 37% a favor. Na mesma pesquisa, quando perguntados se eram a favor de dar aos jovens de 16 e 17 anos o direito a votar, 52% foram a favor e 41% contra.

Praticamente 15% de indecisos e contrários tomaram um partido – e 25% (SIM, VINTE E CINCO POR CENTO, UM QUARTO) que era contra deixou de ser simplesmente por causa da forma que a pergunta foi realizada.

 


Dúvida central

Estamos falando de 25 a 30 anos de processo – isso é celeridade? Para quem? Quem são esses defensores do fim do foro privilegiado pela celeridade do processo? Eles se recordam de como é atuar em instâncias comuns? E por fim – a quem interessa não discutir o fim do foro privilegiado – ou ainda, a forma em que essa discussão tem sido pautada?

Não há dúvidas (nem disfarces) de que a reorganização das competências e o fim do foro privilegiado é consequência das estrondosas revelações realizadas pela Operação Lava-Jato. Coloca-se o juiz federal de primeira instância como bastião da moralidade na luta contra a corrupção – o juizeco de primeira instância conforme já foi referido, e o Supremo Tribunal Federal como parte de um grande acordo nacional para silenciar a operação.

Será mesmo? Não consigo acreditar que a intenção de acabar com o foro privilegiado de maneira tão imediata seja o suicídio das ambições corruptoras do legislativo federal.

insegurança e depressão
Opinião

Há pouco, a depressão era o mal que todos tínhamos. Esse lugar foi perdendo espaço para a ansiedade, de pouco em pouco – e a tendência é que a ansiedade tome o lugar da depressão em poucos anos.
 
Há pouco, nos descrevíamos como depressivos, sem objetivo, sem saber para onde estávamos indo, ou sem fazer ideia do que estávamos fazendo aqui. Hoje, nos descrevemos como ansiosos, sem paciência, com medo do futuro, sem fazer ideia do que estamos fazendo e se isso tem algum efeito ou validade. Nos questionamos diária e diretamente sobre nossas ações e a efetividade das nossas decisões.



 
O problema é que estamos falando de consequências. Ansiedade, depressão, insegurança são consequências nefastas do que realmente nos assola, individualmente. Filmes de Hollywood mostram isso bem – heróis e anti-heróis tem seu caráter formado e seu futuro definido pelo que aconteceu a eles, direta ou indiretamente. Batman viu seus pais morrerem, e por isso se tornou um justiceiro social com problemas de relacionamento interpessoal, que se agravaram com traições que sofreu. Homem Aranha precisou enfrentar o ódio do seu melhor amigo porque este tinha ciúmes do pai e isso acaba bloqueando qualquer relacionamento seu com Mary Jane. Jessica Jones. Super-homem. Todos são, apesar de heróis, problemáticos. Somos todos assim.
Não foi a internet, não foi a sociedade da informação, não foi a urgência do AGORA!, sempre fomos assim, estragados. Somos ansiosos porque queremos logo chegar, somos depressivos porque não sabemos aonde vamos chegar, somos inseguros porque não sabemos se onde vamos chegar é onde queríamos chegar logo. Estamos perdidos entre sermos o centro do nosso próprio universo e sermos poeira cósmica sem o menor sentido no vasto universo. Entre o medo de causar uma mágoa grande em um ser humano que vá acompanhá-lo pro resto da vida e a noção de que um cataclisma nuclear no planeta não faria a menor mudança na ordem das coisas lá fora.
Somos importantes, não somos relevantes. Isso nos mata. Os textos de auto-ajuda só pioram – você precisa se conhecer! Mas quem sou eu? Eu preciso me conhecer logo! Preciso saber quem sou! Preciso achar o meu lugar no mundo, a profissão que eu amo, as pessoas que me compreendam, a vida que eu quero, entre o luxo e a frugalidade! Quem sou eu? Falhei em me encontrar, vou falhar em viver seja o que quer que sou.



Quem somos nós? Sou o resultado das falhas das outras pessoas comigo? Sou um ser cheio de machucados, tensões, traumas e reações? É o ambiente à minha volta que define quem sou? Não sei. Mas acho que não. Não que eu saiba quem eu sou. Mas vou trilhando o caminho que parece ser o meu, sem me preocupar com o destino, sem ter pressa de chegar lá. Como disse Deus a Moisés – vá ao topo da montanha, e quando chegar no topo da montanha esteja no topo da montanha.
Manuais de Etiqueta
Opinião

Manuais de etiqueta por si próprios já são complicados quando falamos do Poder Público. Enquanto deveria ser buscada a mínima regra de convivência, muitas vezes acaba-se engessando por demasiado alguns pontos. Enquanto vemos alguns avanços, como por exemplo no Rio de Janeiro, onde o Tribunal de Justiça desobrigou advogados a despacharem de terno e gravata durante o verão (mas o tema acabou tendo que parar no Conselho Nacional de Justiça), em outros locais as coisas não andam tão facilmente na mesma direção.



É o caso do novo Manual de Etiqueta proposto pelo recém-empossado presidente da Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, que insere, dentre outros comportamentos, regras que visam proibir:

  • Gravatas de bichinhos
  • Meias que não combinem com as calças e sapatos
  • Costas à mostra
  • Apertos de mão que não tenham exatas 3 sacudidelas.

(todos os comportamentos não-recomendados estão na reportagem da Revista Fórum)

Enquanto pode-se dizer que se busca a formalidade e até mesmo a seriedade da prestação de um serviço público, é bom lembrar que o legislativo municipal é um espaço de atuação direta da comunidade no poder público, ou seja, não é a população que deve se adequar a um código de convivência que não a representa em sua vida, mas, na medida do possível, o contrário – o Poder Público Municipal deve se aproximar da população e da sua forma de comunicação.

São medidas como estas que provocam o constrangimento da sociedade dos seus órgãos representativos – veja bem, estamos falando sobre combinações e gostos estéticos pessoais. Gravatas com bichinhos, meias que não combinam com calças e sapatos, quantidades de sacudidas em apertos de mão, qual a relevância dessas determinações para auxiliar a administração pública? Segundo o próprio presidente da Câmara, “enquanto estiver na repartição pública, [o cidadão] tem que dar ao respeito e estar bem-vestido”.

Uma mostra de que se existe uma crise nos poderes legislativos municipais, é a de abstinência de trabalho.


Igreja

Nos reinventamos. Recriamos a roda, tentamos fazê-la quadrada, tentamos fazê-la triangular, e no final das contas descobrimos que a melhor forma de fazer uma roda rodar é fazendo ela redonda. Cansamos da igreja tradicional. Dos hinos antigos, das vestes sacerdotais e dos papéis de pastor, diácono e presbíteros.

Fizemos movimentos. Não éramos mais igrejas, éramos Igreja. Lá, podíamos ir mais longe – fazer coisas que a burocracia eclesiástico-institucional inviabilizava. Nos envolvemos em lutas importantes: fomos contra o voto de cabresto – ganhamos fama no país inteiro ao lutar contra as influências e coações pastorais que influenciavam eleições.



Mostramos como era terrível que um pastor tivesse poder de definir as eleições através dos votos de suas ovelhas e como era maléfico dar espaço de culto para candidatos. E estamos nessa luta até hoje.

O problema é que tentamos fazer uma roda quadrada – tentando ensinar as pessoas a refletir criticamente. Um processo que dói, um processo que é difícil, e que acaba envolvendo muito mais do que apenas uma reunião dominical (ou em qualquer outro dia da semana, afinal não somos igreja, mas durante a semana é complicado, sábado à noite tem outras coisas pra fazer e aí sobrou ele mesmo, o domingo): envolve a família, envolve educação formal, envolve estudos de filosofia e sociologia, matérias que nem em três anos de ensino obrigatório conseguem se provar importantes para seus estudantes. É impossível libertar pessoas e ensiná-las a pensar por si próprias quando o próprio contexto social que elas se encontram inviabiliza o tempo necessário para isto – e quando a nossa própria agenda política se põe no caminho.

Tentamos fazer uma roda triangular – e nos diferenciamos, em cursos de formação política com vieses de esquerda e de direita, para que as pessoas pudessem compreender como uma doutrina social ou outra poderiam auxiliar a alcançar fins que seriam de interesse da Igreja (com i maiúsculo, não é mesmo?). E não se engane: ambos movimentos eclesiásticos, tanto de direita quanto de esquerda, tem essa intenção: a agenda da esquerda busca dar dignidade através de políticas públicas; a agenda da direita busca dar dignidade através da liberdade e auto-determinação. O escopo é o mesmo, e são igualmente válidos. Mas mesmo assim, criamos problemas – não é todo mundo, da mesma forma, que está disponível, interessado ou que vê a importância desse envolvimento.

Foi quando arrendondamos nosso projeto de roda, e ficamos tão felizes por ele funcionar que não paramos pra pensar no que diabos estamos fazendo. As recentes cartas, manifestos e posturas, de todos os lados, mostram que o voto de cabresto ainda é uma realidade muito forte dentro das igrejas e movimentos eclesiásticos.

Se anos atrás lutávamos contra uma liderança que falava “vote em FULANO, porque Deus está com Ele”, hoje nos vemos em um jogo mais sujo: falamos em indiretas, nas entrelinhas. “Convocamos a assembleia dos santos a exercer sua cidadania terrena à luz de sua cidadania celestial”, “como cristãos, rejeitamos e denunciamos com veemência a corrupção, a iniquidade, a impunidade e o ataque ao Estado Democrático de Direito” – tudo isso ligado a um espiritualismo condenável, de orações, jejuns e até mesmo avivamentos.

Reinventamos a roda – mas trazemo-la mais maligna, mais dissimulada. Enfim, mais hipócrita.



Leia:

O Manifesto da Teologia Brasileira;

O Manifesto da Missão na Íntegra.

Contos de Domingo

Teto, parede, janelas, porta. Ainda estava tudo ali. Não era a primeira vez que tudo lhe parecia levemente diferente, embora não soubesse bem definir o quê. Calçou seus chinelos que eram azuis-marinho (mas tinha a leve impressão de que já teriam sido pretos), olhou o relógio que pendia por cima de uma janela (mesmo que lhe parecesse que estavam ao lado da porta na antevéspera), levantou-se e encarou o corredor. Não se recordava de tê-lo decorado dessa forma. Mas como eram suas as fotos que espalhavam-se pelas paredes, mostrando o caminho da sala numa indicação do caminho a seguir, resmungou e seguiu para o desjejum, enquanto as pernas rangiam de cansaço.



Caneca verde-abacate, prato branco e torradeira grafite. Nem sabia se grafite era uma cor, mas tinha sido convencido por uma colega do trabalho (ou seria da faculdade?) que bordô era uma cor, não uma cidade na França, então grafite provavelmente também poderia ser uma cor. Seja qual cor fosse.

Desceu pelo elevador de serviço porque se confundiu nos botões do corredor, teve que dar algumas voltas na garagem do prédio até descobrir onde tinha parado seu carro, consultou o GPS para ter certeza que a empresa ainda estava no mesmo lugar de sempre – esta infelizmente nunca mudava. Seria interessante trocar a mesa de madeira envernizada já gasta pelo passar dos anos e dos outros sete analistas que passaram por ali antes dele por algo menos… bege.

Subiu as escadas da empresa porque algum dia prometera fazê-lo caso conseguisse o emprego, e maldisse esta promessa como o fez nos últimos três anos. Estúpida superstição, pensou, como pensara religiosamente nos últimos oitocentos e vinte e sete dias, através dos quais alcançara a marca de setenta e nove mil, trezentos e noventa e dois degraus. Nunca perdeu a conta. Sempre detestou cada um daqueles degraus. A única coisa que ganhara, além de peso, fora a dor nas pernas, que nunca lhe abandonara.

Sentou-se em sua mesa, ainda gasta. Olhou pela janela, encarando o mesmo grafite que o encarava de volta nos últimos treze meses. Realmente não entendia porque tantos nomes para cores, alguém devia estar sendo pago para isto. Pense, fúcsia. Deveria arrumar um emprego assim, criando nomes aleatórios.

Já passara das onze quando chegou em casa. Parou o carro na vaga que o encontrara de manhã, encontrou o elevador social e em menos de quinze minutos estava no banho. Ganhara, nas últimas vinte e quatro horas pelo menos mais quatro hematomas. Deveria realmente ir ao médico, não é normal ter hematomas por subir escadas. Poderia ser um problema sério de circulação. Lembrou-se que seu tio-avô, dois primos de segundo grau e uma cunhada tiveram problemas de coração logo antes de falecerem.

Olhou para o relógio pendente sobre a janela e perguntou-se porque raios alguém colocaria um relógio lá. Dormiu, e foi então que levantou-se.



Opinião

Vocês me conhecem (pelo menos 94% do público do meu blog segundo o Analytics me conhece, e se você faz parte desses 6% perdão por já começarmos a relação assim) então sabem como eu me estresso com fotógrafos. Não, não os fotógrafos amadores, ou aquelas pessoas que compram câmeras DSLR e já se acham profissionais ou quem cobra $20 pra fazer um ensaio. Na verdade é exatamente este tipo  de mimimi que me estressa.



Os novos fotógrafos

Sempre que converso sobre mercado de trabalho e bom, meu papel e o de amigos, a conversa vadia (do verbo vadiar)pro mesmo assunto “ser fotógrafo é complicado, né”. E sim, ser fotógrafo não é fácil (existe algo que o seja?), com certeza. E tem se tornado cada vez mais difícil, devido a inúmeros fatores (que já já eu citarei), e não é à toa que, se a fotografia era responsável por praticamente 70% dos meus rendimentos a exatos 12 meses atrás, hoje é responsável por pouco menos que 32% (se você é parte dos 6% já mencionados ali em cima, eu sou fotógrafo e advogado. Ah, e refrigerólogo) – mas não foram os novos fotógrafos os culpados por isso.

Sim, existe uma multidão de novos fotógrafos. Alguns que não estudaram nada, outros que estudaram bem pouco. Uns vão se guiando pela prática, outros vão se debruçar em tutoriais e guias, e mais terceiros irão a fundo, tentando entender a física ótica, temperatura de cores e possibilidades de iluminação. Sim, a maioria desses novos fotógrafos vão cobrar preços baixos ou fotografar de graça para montar portfólio, se submetendo a condições (muitas vezes degradantes – o que não é raro acontecer com fotógrafos com portfólio montado e milhares de curtidas no facebook). Talvez, na verdade é até bem provável, que as fotos desses novos fotógrafos não tenham a mesma qualidade que a sua, afinal você tem algo que eles, estudando ou não, não tem: experiência.

Duplo clique do Everson Tavares
Duplo clique do Everson Tavares

Pasmem – ninguém nasce com experiência, nem você mesmo, fotógrafo pica das galáxias que lê esse texto a convite de um amigo. Existe uma mania ególatra no mercado fotográfico (como deve se repetir em outras profissões artísticas) que foi comprovada pelo André Rabelo no flickr (leiam o texto completo do Leandro Neves, é fantástico), que insiste em criticar fotos consagradas pela história (e vendidas a US$265k) baseando-se simplesmente em: meu próprio trabalho e como eu faria.

Mas deixa eu te contar um segredo: esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente. Não vão saturar o mercado de uma forma que o seu trabalho se torne inviável, ou você precise baixar o preço ridiculamente. A não ser, é claro, que seu trabalho seja medíocre (da palavra mediano, sem algo especial, que chame atenção, mais um dentre vários do mercado) e você, no fundo no fundo, seja um desses novos fotógrafos, mas está com a câmera à mais tempo que eles. Essa visão de que quanto mais pior, só existe no coração de fotógrafos e fãs de cultura pop.

O grande problema é que a grande maioria dos fotógrafos desiste ou não consegue ganhar seu espaço no mercado porque não está preparado pro mercado. Não adianta ter uma técnica excelente, um tratamento refinado se você não estudou o mercado. Não adianta horas de cursos, vídeo-aulas, workshops e tutoriais se você não frequentou ao menos um cursinho de 12h gratuito do SENAC sobre como estudar, planejar e se posicionar no mercado. Você vai quebrar: e talvez você não seja tão ruim assim.

Clique do Evandro Sudré
Clique do Evandro Sudré

Aí você vê fotógrafos que talvez não sejam tão bons como você (pelo menos segundo você acha), deslanchando e conseguindo contratos e convites melhores – porque você não sabe empreender. Aí você diz mas eles oferecem um serviço a um preço muito menor aff, não tem como competir. Mas meu amigo, a Jogê não compete com o Saldão das Lingeries. A TNG. não concorre com a Fábrica da Moda. A SmartFit não concorre com a academia da esquina ou com as academias públicas que ficam nas praças. E tem mercado para os dois – e não hesito em afirmar que todos estes que comentei que cobram preços altos estão melhor na crise do que os seus concorrentes populares.

Cá entre nós – se o cliente não se importa que o recém-nascido dele esteja roxo como uma beterraba, a noiva esteja laranja como uma cenoura e as fotos sensuais pareçam ter saído de um catálogo de filmes pornôs de extremo mal-gosto, provavelmente ele não seria uma boa adição ao seu portfólio, né?

“Esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente (…) a não ser que o seu trabalho seja medíocre.”

Uma lição: sempre vai ter alguém que vai fazer mais barato (e pior) que você. Sempre vai ter alguém que vai fazer melhor (e mais caro) que você. Saiba se posicionar no mercado com o produto e serviço que você oferece e voilà: você não precisará se preocupar com a 25 de março fotográfica.

As dificuldades de se trabalhar

Você já viu um fotógrafo reclamando – na verdade não é muito difícil ver um fotógrafo reclamando, né. Mas essa é mais genérica: você já viu uma pessoa reclamando dos outros fotografando com celular. Em casamento, puxar um celular durante uma cerimônia é pedir pra ouvir bufadas e reclamações de um profissional contratado praquele serviço. Tudo bem, pessoas fotografando atrapalham, e volta e meia tem um noção que se enfia na frente do fotógrafo pra mandar um snap – já chegaram a pedir pra eu tirar uma foto com o celular deles.

Clique da Mônica Fadul
Clique da Mônica Fadul

Shit happens. Toda profissão tem isso – e a gente é assim nas outras profissões, mesmo que não perceba. O médico enfrenta o tio do paciente que leu sobre um tratamento experimental na Tasmânia no Facebook; o advogado tem o amigo do cliente que fez direito, não conseguiu passar na prova da OAB mas sabe como fazer aquele processo melhor que você (sim, existe); o designer já tem a figura conhecida do sobrinho que mexe nessas coisas de Corel.  E nós temos essas pessoas que insistem em atrapalhar o desenvolvimento do nosso trabalho. Como lidar com elas? Uma dica, tem 16 letras e faz parte da ementa daquele curso do Senac que comentei ali em cima: profissionalismo.

Ah, mas eu tô falando no Facebook, uma mídia pessoal. Claro. Sem sombra de dúvidas. Desculpe, você está certo.



Não, não é tudo perfeito.

Apesar de parecer, não, não está tudo perfeito – na verdade anda mal e piorando cada vez mais. Na internet não existe crise, pelo menos para críticos da mídia, mas empresas (e pessoas) estão cada vez mais cortando gastos. De repente, aquela campanha publicitária não tem mais o orçamento de R$5 mil para fotografia; o casamento com 300 convidados no buffet vira uma festa para a família em casa; o álbum impresso é substituído pelo virtual; e as pessoas passam a ter que escolher entre um bebê-conforto e aquele ensaio de newborn. Sim, isso é uma das grandes dificuldades hoje: fotografia não é mais considerada essencial para o cliente.

Clique do Mak Cézar
Clique do Mak Cézar

Some-se a isso o impacto na alta do dólar sobre os equipamentos fotográficos (de rebatedores a corpos de câmera) e nos serviços necessários (impressão, diagramação, divulgação, freelancers) à equipe fotográfica. Acrescente-se aí que o mercado de fotografia é um dos mais conservadores, e boa parte da responsabilidade disso é do cliente: ele quer a foto que ele viu no Pinterest. Não quer tentar algo novo, não quer ousar: ele quer repetir o que já viu anteriormente.

E, por incrível que pareça, em relação a esses dois problemas, só existe uma pessoa no mundo que pode mudar isso: você mesmo, fotógrafo. Você precisa convencer o cliente da verdade – que a fotografia é sim essencial. Que é sim, legal aquela foto que ele viu, mas que fica bem melhor quando se cria uma ideia nova em conjunto. Por incrível que pareça, só depende de você.



Sugestães*

*eu sei.

Não adianta falar, falar, falar e não dar dicas, né. Então vão alguns locais/pessoas/cursos para vocês se ligarem e desenvolverem mais as suas habilidades.

Curso de Fotografia – autoexplicativo. Tem dicas, técnicas, fala sobre câmeras e ainda dá algumas inspirações legais. Recomendo fortemente ainda acompanhar o trabalho do Pyro, o Everson Tavares, que é um dos membros da equipe.

Photography Marketing (ENG)- o próprio Pyro me indicou este podcast sensacional, disponível no iTunes, sobre marketing fotográfico e possibilidades de mercado pouco exploradas, que podem fazer a diferença no seu trabalho.

IPED – Se você tá com preguiça de ir ao Senac, o IPED tem um curso de empreendedorismo online com um plano gratuito, é simples e dividido em três capítulos.

Planet Black’n’White – Instagram que divulga trabalhos em preto e branco e tons de cinza – pra desmistificar um pouco o lance de que a foto PEB só serve para salvar fotografias coloridas com problemas de exposição. Eles também tem uma página no Facebook.

Clique do Lelo Marchi, d'O Vértice.
Clique do Lelo Marchi, d’O Vértice.

Evandro Sudré – fotógrafo nômade, missionário – com fotografias documentais estarrecedoras.

Mak Cézar – fotógrafo de Uberlândia, especializou-se em fotografia arquitetônica, com fotos de natureza exuberantes.

Nika Fadul – o portfólio dela fala por si mesmo. Juro.

O Vértice – equipe fotográfica do Mato Grosso do Sul, com destaque em casamentos e eventos sociais.

E, claro, a minha página no Facebook. E porque não, um destaque pra promoção que está em vigor até o carnaval:

Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?
Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?