É tão comum ter uma farmácia ao alcance das mãos que se virar sozinho sem ir em um médico tornou-se um hábito não só aceitável pelos seus amigos como recomendado. Você se queixar de uma dor de cabeça é um convite pra receber uma listagem de nomes incompreensíveis de remédios e fórmulas de laboratórios que você nem imaginava que existiam. Resfenol, Doril, Paracetamol, Neosaldina, Dorflex, Advil, Aspirina, Tylenol, Naldecon (que não é bem dor de cabeça mas serve) e mais uma infinidade de nomes bisonhos.



Cheguei na farmácia esses dias porque já estava há mais de 48h com uma dor atrás do ouvido e fui apresentado a um cardápio tão completo de remédios que me deixou até perdido – até que eu resolvi perguntar pra atendente qual daqueles remédios não tinha cafeína. Ué. Sim, a cafeína funciona como um estimulante, um catalisador da reação que faz o remédio ter efeito mais rápido, mas… a minha dor de cabeça era exatamente por falta de dormir. Tomar um remédio que vai me impedir de dormir por uma dor de cabeça que chegou porque não consigo dormir é, pelo menos, contraproducente.

No fim, consegui um. A velha dipirona – “vai demorar de uma a duas horas pra fazer efeito”, me alertou a moça como se eu fosse mergulhar numa piscina de água oxigenada depois de sofrer um acidente de moto.

Parando pra pensar, o aviso dela até faz sentido. Parte da auto-medicação é a necessidade urgente de se sentir melhor agora – nesse momento. Com as filas gigantescas para uma consulta médica pública, as dores de cabeça com convênios e os constantes atrasos em clínicas particulares, é compreensível que ninguém queira se submeter a uma consulta pra receber o mesmo diagnóstico do seu amigo hipocondríaco – é uma dor de cabeça (eu sei que é uma dor de cabeça, por isso que vim aqui!), e pegar a receita de um analgésico para tomar de 8 em 8 horas.

Você sabe que auto-medicação mata – tá, não é um Diazepam uma vez na vida que vai te dar esquizofrenia – mas vocês já ouviram os dados algumas vezes na vida:

  • 50% dos remédios vendidos no mundo são dispensáveis ou inadequados para o tratamento (OMS/2002               *);
  • Os medicamentos são os maiores responsáveis por casos de intoxicação no Brasil, seja pela superdosagem ou pela adesão a tratamento não-indicado por especialista (SINITOX/2000*);
  • 70% dos pacientes de UTI não conseguem absorver completamente os princípios ativos ministrados por terem se submetido à automedicação durante toda a vida (Fleury/2010*)
  • 20 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por complicações decorrentes da automedicação (CASA GRANDE et al/2004*)

E, porque não, um vídeo feito pelo Conselho Federal de Farmácia sobre automedicação:

 



Referências (por ordem de aparição no texto):
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas sobre medicamentos. Ginebra, 2002;
SINITOX – Sistema Nacional de Informações Tóxico – Farmacológicas. Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento: Brasil, 1999. Fundação Oswaldo Cruz/ Centro de Informação Científica e Tecnológica. Rio de janeiro, 2000;
FLEURY, Marcos. Os riscos da automedicação. Disponível em: <http://marcosfleury.wordpress.com/2010/01/23/os-riscos-da-automedicacao/>. Acesso em 02 de julho de 2012;
CASA GRANDE, E.F., GOMES, E.A., LIMA, L.C.B., OLIVEIRA, T.B., PINHEIRO, R.O. Estudo da utilização de medicamentos pela população universitária do município de Vassouras(RJ).Infarma,v.16, n.5/6, p. 86-88, 2004;

Automedicação

Categoria: Utilidade Pública
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