O Bom Senso FC trouxe uma nova cara a quem acompanha futebol mas não é fanático: a vida dos jogadores. Não aquela vida do EGO ou que os torcedores de organizadas insistem em querer proibir, tratando jogadores em balada como funcionários pegos se masturbando em local de serviço – mas a visão dos jogadores sobre aquilo mesmo que fazem.

O mais interessante é que a dinâmica na qual se encontra o futebol brasileiro agora não é uma crise que estourou repentinamente, nem um descontentamento que surgiu apenas por causa da Copa do Mundo – assim como as manifestações contra o aumento do passe em São Paulo, há algo muito obscuro por trás disso tudo, e que era socialmente aceito até então.


Antes de começar um juntado sobre o tema, faça o leitor questão de lembrar por instantes os papéis das instituições de classes (partidos, sindicados, etc) durante as manifestações de junho e o posicionamento deles até os últimos instantes.

Porquê o Bom Senso FC?

Conforme já se imaginava há muito tempo, a Copa do Mundo ser realizada no Brasil ia causar um congestionamento de datas de jogos – não somente por causa dos jogadores convocados, mas pelos estádios sendo utilizados, horários de transmissão disponíveis e até mesmo o bolso do torcedor, que não comporta tantos eventos de uma vez só.

Foi então na última sexta-feira que a CBF publicou o novo calendário de jogos, válido para o ano que vem – o estopim que se precisava para a crise final.

Neste belo ano de 2013, com a Copa das Confederações, o evento de teste da Copa do Mundo, muitos times tiveram problemas com o calendário, além de várias lesões de jogadores – Corinthians, Coritiba, Grêmio, Internacional e Botafogo foram alguns dos times que não puderam contar com suas estrelas por extensos períodos tanto por causa de convocações como por lesões causadas pelo excesso de partidas jogadas.

Caso consiga chegar até ao final das competições que disputa, o Corinthians chegará ao total de 79 partidas no ano – 16 a mais que o Barcelona – e o São Paulo pode chegar ao incrível número de 85 jogos em 2013, o que quer dizer um jogo a cada três dias. Situação tensa o suficiente para que em algumas conversas, os próprios jogadores sentassem pra conversar sobre a situação deles. O Trivela fez um comparativo entre o Coritiba, Corinthians, Chelsea e Barcelona (abaixo) que ilustra a quantidade absurda de jogos no Brasil e onde exatamente eles se encontram.

Comparativo de jogos entre times brasileiros e europeus em 2013.
Número de jogos de times brasileiros e europeus, e os campeonatos a que se referiam (Fonte: Trivela)

Assim que publicado o manifesto dos jogadores, alguns técnicos e clubes (entre eles o São Paulo, conforme noticiado pelo UOL) apoiaram o Bom Senso FC na luta por um calendário menos estrangulado – mas o que pouca gente até agora viu foi o posicionamento do Sindicato dos Jogadores.

A Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), assim que viu o manifesto do Bom Senso FC (e provavelmente depois de uma convocação de emergência de seus conselheiros), ligou individualmente para todos os jogadores que assinaram o documento para:

  • (   ) Apoiar a luta dos jogadores e abraçar institucionalmente a causa;
  • (   ) Perguntar quem eram aqueles jogadores que eles nunca tinham ouvido falar;
  • (X) Criticar a ação independente dos jogadores que não incluiu a Federação.

Não contente, o presidente da Federação, Alfredo Sampaio (cujos maiores feitos foram revelar o Ronaldo e brigar com o Edmundo), afirmou que alguns pontos discutidos pelos atletas não deveriam estar ali “Fair play financeiro não é um assunto que cabe ao atleta. Isso já me deixa um pouco preocupado”, afirmou, provavelmente esquecendo que o fair play financeiro nada mais é do que o controle de dívidas dos clubes – e um clube endividado não paga salários (quem pode afirmar isso é o plantel do Flamengo, atualmente).

A Fenapaf, como todo bom sindicato, depois de manter-se apático à quantidade já gigantesca de jogos desde que adotado o sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro (que vem causando o abandono dos times grandes aos estaduais, como o Internacional, Atlético-PR e outros que estão envolvidos em competições internacionais), estava, no começo da semana #chatiada por não ter tido a possibilidade de dizer “estaremos fazendo o possível” para os atletas insatisfeitos.

Engraçado que ao tempo que a Federação dos Atletas mantinha um pé atrás e o ego machucado (como os partidos de extrema esquerda durante as manifestações se sentiam porque estavam nas ruas desde antes das manifestações), a Federação de Técnicos (FBTF – Federação Brasileira de Técnicos de Futebol, recém-criada, menine de agosto desse ano) apoiou abertamente e mexeu alguns pauzinhos para que o Bom Senso FC fosse mais divulgado.

Magicamente, como Jesus transformou a água para o suco-de-uva sem álcool (ou como os petistas abraçaram as manifestações e levaram tambores, orquestra de metais e bandeiras), a Fenapaf abraçou, na última terça o Bom Senso FC de uma forma que ia além: propôs uma greve para as duas últimas rodadas e porque não a criação de uma nova liga ano que vem, desestruturando a CBF?!

Claro, porém que o posicionamento dos jogadores no Bom Senso FC (como o próprio nome aponta), não é esse. Os problemas que esse grupo enfrentará são pelo menos quatro gigantescos:

  1. O interesse da Globo em relação aos horários e dias de partidas para as transmissões, que tem exclusividade pactuada com quase todos os clubes da série A (se não forem todos),
  2. O interesse dos mandatários da CBF, que, se diminuírem os estaduais, conforme a proposta, perderão apoio para as eleições da entidade em 2014;
  3. O interesse de clubes como o São Paulo que já estão em pé de guerra com a CBF;
  4. O ego dos mandatários da Fenapaf, que já está deveras machucado, embora não tenham movido os traseiros;

O futebol é para quem? De quem? Qual deve ser o papel de cada um dos envolvidos? Quais são as competições que deveriam importar?

É muito mais que 20 cent o calendário de partidas. É sobre quem manda (ou deveria mandar).


Bom Senso FC: Os jogadores num paralelo das manifestações de junho.

Categoria: Utilidade Pública
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