Se existe alguma verdade nessa sociedade em específico é que compreensão é uma palavra quase inatingível, pelo menos enquanto ela serviria para alguma coisa. O conservadorismo é tão expresso e tão forte dentro das pessoas que os mesmos erros são sempre cometidos, e tudo se mantém a mesma.


Para cada variável, tudo é reavaliado, como se os casos não fossem os mesmos – principalmente com o que começa a fazer sucesso. Seja na música, seja na moda, seja nos esportes. O conservadorismo de dizer isso não é música, isso não é esporte é tão forte que mesmo fazendo parte de um grupo que já foi criticado, desenvolvemos essa habilidade de sermos tão preconceituosos e mente fechada com o que surgiu depois de nós.

Ainda hoje se estuda nas escolas como a capoeira era mal-vista, como uma luta ou dança violenta e sem sentido (enquanto esgrima era ok), e como a sociedade rechaçava os praticantes por diversos motivos, inclusive econômico-sociais.

Com o tempo, e a ditadura do politicamente correto, muitos ficaram tristes por não poder expressar seu desprezo por outros seres humanos e não poder rebaixá-los a um status subumano, e então passaram a criticar a música ouvida por essas tribos. Seja o rap, o hip-hop e especificamente por aqui, o funk, a música negra carrega um estigma negativo mesmo antes de surgir, como uma maldição hereditária e social.

Por outro lado, nas artes marciais, vê-se um movimento semelhante. Se antes a capoeira era mal-vista os esportes de luta tradicionais são sempre respeitadíssimos, como se ainda mantivessem aquela aura mística oriental. Como se o jiu-jitsu praticado nas ruas em brigas de gangue ou o taekwon-do  de ex-namorado em cima do atual da mina tivessem algum décimo de filosofia oriental embutidos automaticamente.

Daí o boxe foi detestado meu Deus, que esporte violento. No auge do sucesso, quando passava na Rede Globo, e fazia pessoas ficarem acordadas até tarde para comentar no dia seguinte (a falta que o Twitter fazia, hein?) e as mães da sociedade, que já se horrorizavam a cada gota de sangue que espirrava praticamente montaram barricadas nas ruas quando Tyson resolveu dar uma dentada e arrancar um pedaço da orelha de Holyfield, lá pros idos de 97 – eu lembro que isso ficou rolando nos jornais da TV por muito tempo.

Pronto. Foi o que todo mundo precisava pra demonizar o boxe como o causador de toda violência e mazelas sociais, e Rocky Balboa foi deixado de lado por muito tempo, voltando à tela do cinema em 2006, 16 anos depois do último filme da série.

Com o boxe rebaixado à uma segunda categoria pelas redes de TV abertas, o espaço ficou aberto até que surgiu o MMA, estilo que se popularizou apesar de todos os detalhes no mínimo esquisitos do UFC. Quem escolhe as lutas é o chefão, sem nenhum tipo de lógica ou campeonato de pontos corridos, que acontece no local que pagar mais e são incluídos e excluídos sem nenhum critério específico.

Mas não são essas as críticas. São aquelas as mesmas, um esporte violento, sem objetividade, sem sentido, selvageria. Assim como era a capoeira, assim como era o boxe e eu me pergunto se as mães orientais dos antigamente também falavam isso para os filhos que sonhavam em ser samurais.


Bom, pelo menos elas não podiam desligar a TV e mandar os meninos pra cama.

Capoeira, Boxe, MMA e o conservadorismo infantil

Categoria: Opinião
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