Contos de Domingo

Teto, parede, janelas, porta. Ainda estava tudo ali. Não era a primeira vez que tudo lhe parecia levemente diferente, embora não soubesse bem definir o quê. Calçou seus chinelos que eram azuis-marinho (mas tinha a leve impressão de que já teriam sido pretos), olhou o relógio que pendia por cima de uma janela (mesmo que lhe parecesse que estavam ao lado da porta na antevéspera), levantou-se e encarou o corredor. Não se recordava de tê-lo decorado dessa forma. Mas como eram suas as fotos que espalhavam-se pelas paredes, mostrando o caminho da sala numa indicação do caminho a seguir, resmungou e seguiu para o desjejum, enquanto as pernas rangiam de cansaço.



Caneca verde-abacate, prato branco e torradeira grafite. Nem sabia se grafite era uma cor, mas tinha sido convencido por uma colega do trabalho (ou seria da faculdade?) que bordô era uma cor, não uma cidade na França, então grafite provavelmente também poderia ser uma cor. Seja qual cor fosse.

Desceu pelo elevador de serviço porque se confundiu nos botões do corredor, teve que dar algumas voltas na garagem do prédio até descobrir onde tinha parado seu carro, consultou o GPS para ter certeza que a empresa ainda estava no mesmo lugar de sempre – esta infelizmente nunca mudava. Seria interessante trocar a mesa de madeira envernizada já gasta pelo passar dos anos e dos outros sete analistas que passaram por ali antes dele por algo menos… bege.

Subiu as escadas da empresa porque algum dia prometera fazê-lo caso conseguisse o emprego, e maldisse esta promessa como o fez nos últimos três anos. Estúpida superstição, pensou, como pensara religiosamente nos últimos oitocentos e vinte e sete dias, através dos quais alcançara a marca de setenta e nove mil, trezentos e noventa e dois degraus. Nunca perdeu a conta. Sempre detestou cada um daqueles degraus. A única coisa que ganhara, além de peso, fora a dor nas pernas, que nunca lhe abandonara.

Sentou-se em sua mesa, ainda gasta. Olhou pela janela, encarando o mesmo grafite que o encarava de volta nos últimos treze meses. Realmente não entendia porque tantos nomes para cores, alguém devia estar sendo pago para isto. Pense, fúcsia. Deveria arrumar um emprego assim, criando nomes aleatórios.

Já passara das onze quando chegou em casa. Parou o carro na vaga que o encontrara de manhã, encontrou o elevador social e em menos de quinze minutos estava no banho. Ganhara, nas últimas vinte e quatro horas pelo menos mais quatro hematomas. Deveria realmente ir ao médico, não é normal ter hematomas por subir escadas. Poderia ser um problema sério de circulação. Lembrou-se que seu tio-avô, dois primos de segundo grau e uma cunhada tiveram problemas de coração logo antes de falecerem.

Olhou para o relógio pendente sobre a janela e perguntou-se porque raios alguém colocaria um relógio lá. Dormiu, e foi então que levantou-se.



boo

Provavelmente você pode substituir CTBC por qualquer outra empresa que você tenha um SAC via telefone, assim, qualquer outra mesmo. Mas dentre todas as opções que eu já tive, até mesmo dentro da telefonia, a CTBC consegue quebrar todos os limites e parâmetros de ridículo já pré-estabelecidos em call-centers.

A saga começa quando você tem algum problema em qualquer um dos produtos da empresa: TV a cabo/satélite, telefonia fixa/móvel ou internet fixa/móvel. Como toda boa empresa coronelista, a CTBC faz questão de estabelecer um padrão medíocre de prestação de serviços, na qual a resolução de problemas não é vista como mera obrigação, mas a concessão de um presente especial a um usuário atencioso e paciente.


A primeira medida ao ligar para a CTBC é: esqueça. Simplesmente esqueça todos atendimentos prévios e tudo que você conhece sobre leis.

Tá certo, um ponto nós temos que dar para a empresa: você não vai ser transferido de atendente para atendente num ciclo infinito. Simplesmente porque você não vai conseguir falar com um atendente fácil assim.

Já no primeiro toque, você precisa escolher uma opção. A ou B. Fale com um atendente? Ainda não, rapazinho. Ah, mas a lei… Procure um concorrente – ou melhor, se mude para uma cidade há mais de 300km, porque, bom, não há concorrentes. Você escolhe uma opção. Ouve o protocolo de atendimento. Passa para a segunda fase: parabéns!

Até aí a voz de Google Translator da máquina não é tão incomodativa assim. E aí você tem mais uma escolha pra fazer: sete opções + um bônus de fale com nosso atendente. Como um bom jogador iniciante de RPG, você não desconfia da opção mágica por trás, e tecla OITO com uma ferocidade tão grande que parece que está escolhendo a resposta certa no Show do Milhão.

Com um sorriso estampado no rosto, você já prepara todo o discurso que vai fazer pro atendente, como será recebido, o que responder e já tem até as ameaças de cancelamento ou denúncia no Ministério Público na ponta da língua, quando é surpreendido por uma outra voz do Google Translator (deve rolar uma parceria aí, não é possível), que te diz os locais que eles estão tendo problemas técnicos (como se já estivessem pedindo desculpas antes mesmo de você reclamar), e todo aquele blá-blá-blá de solucionaremos o problema, a equipe técnica (quase um semi-deusa, de tão mística que essa equipe é) resolverá os problemas e a cidade de Townsville estará segura novamente.

Depois disso, uma nova transferência e… VOCÊ TEM MAIS UMA OPÇÃO PRA ESCOLHER! Você olha para os cinco caminhos que têm a escolher e… ué, não tem minha opção, e agora? Quero retornar ao menu inicial, quero falar com alguém, quero fazer alguma coisa – e tudo que você ouve é a primeira voz do Google Translator, com um tom quase malévolo de dígito não verificado. Opção não encontrada. Você é um trouxa, se fodeu e vai ter que ligar aqui de novo e começar do zero. há-há-há. Dígito não…NÃÃÃÃÃÃÃO!

Você desliga o telefone. Respira fundo. Lembra que a culpa não é do aparelho, e não adianta jogá-lo na parede. Se fizer isso, eles ganham. É uma guerra – uma guerra sua contra eles. Igual dos filmes de ação, que o Jack Bauer precisa enganar todo mundo e destruir o inimigo. Só que você precisa fazer isso pelo telefone.

Com esse pensamento Rocky na mente, você liga mais uma vez. Se lembra daquele vídeo (abaixo) dos belgas que deram o troco numa empresa telefônica de lá, e começa a pensar em como fazer isso lá na sede da Algar Tecnologia. Dando pulinhos em aquecimento, você liga de novo.

Não completa a ligação. Confere o número digitado – é aquele mesmo. Liga mais uma vez. Pronto, a primeira bifurcação. Como um atleta nos níveis inferiores de competição, você passa tranquilamente, com a certeza do seu caminho. Ouve o protocolo da ligação, e escolhe rapidamente a opção que quer (qualquer uma MENOS falar com um atendente). Ouve mais um menu, concentrado. É agora. Agora que você vai decidir se é ou não é. Pra ter certeza, espera a mulherzinha do Google Translator repetir as informações pra você marcar com sabedoria, com classe, com amor. Vai ser gol de letra.

Confiante, você escolhe a opção – e vai entrando cada vez mais nesse labirinto de sebes que é o tele-atendimento da CTBC (caso vocês tenham esquecido o nome da empresa local, tai a chance de lembrar), você se sente quase o Harry Potter em busca do Cálice de Fogo (sem a opção de que alguém pudesse alcançá-lo primeiro e resolver o problema de todo mundo) e vai se embrenhando naquele mundo obscuro. Quando pensa que não PUMBA!: aparece um atendente.

Conta todos os seus problemas pra ele. De como sua vida mudou antes da CTBC. Como você vivia num moquifo abandonado, com lixo subindo pelas paredes, e com cabelo desgrenhado. Assim que recebeu o serviço, você tomou banho, penteou o cabelo e não fez a barba porque as gatinha gosta, sabe, né, moço. Mas a sua vida mudou. Você já estava até pensando em comprar uma camisa da Hollister e um perfume Ferrari Black daquele seu ex-colega de sala muamb importador, que faz um precinho bacana. Mas agora, você está quase de abstinência. A desorganização voltou. A amargura voltou. As caspas voltaram.

Eu era um bêbado…

E tudo que você obtém como resposta é: enviaremos um técnico, quando ele chegar ao local, se não houver ninguém para atendê-lo ou se o serviço estiver funcionando normalmente, será cobrada uma multa.

Apesar da insensibilidade que parte seu coração, você entende. Entende que é apenas um mero mortal, descartável, uma colher de plástico no meio de uma grande galinhada beneficente – e quem te usa está fazendo um favor ao mundo.

E assim que você desligar, o serviço volta a funcionar.

MEU DEUS, TEM QUE LIGAR PRA CANCELAR A VINDA DO TÉCNICO! E começa tudo de novo…

(ressalva: eu adoro o pessoal das redes sociais da CTBC – são os únicos que resolvem os problemas, inclusive os problemas com o próprio callcenter.)


(A série Um café com… é baseada na interpretação dos livros e das mensagens passadas por algumas pessoas. Ficção, baseada em impressões. Não chega nem perto de uma tentativa de biografia, é apenas uma quase-homenagem)

Quando eu cheguei, ele já estava lá. Sentado, com uma xícara na sua frente, eu diria que a sua pontualidade é inglesa, se isso não fosse meio incomodante pra qualquer irlandês, por maior que o seja. Quando sentei, o cumprimentei, e ele abriu um sorriso de quem já se acostumou a ouvir qualquer desculpas acerca do trânsito, da vida ou de fatores quase sobrenaturais para os atrasos alheios – nem me arrisquei a abrir a boca e entrar por este caminho.


Pelo contrário, ofereci-lhe pagar por outra bebida – que depois vim a descobrir ser água tônica. Diferente, porém compreensível. Acho que nunca vi uma bebida que definisse alguém de uma maneira tão completa – aquele gosto suave, refrescante mais ao mesmo tempo que puxa um pouco para o amargo, remete muito à literatura que aquele homem escreveu durante seus longos anos nessa caminhada que foi do ateísmo absoluto à entrega completa.

Seus livros ficcionais descrevem com uma clareza quase cegante a maravilha da Criação e dos planos e propósitos de Deus nos fazem sonhar, até que a natureza humana é mostrada na sua face mais crua – aquele gosto amargo do final da água tônica.

Conversamos levemente, sobre qualquer coisa de leve que eu não me lembro bem quais eram. Eu só tenho certeza que ele conseguia falar de alguma coisa que me remetia à teologia, sem nunca falar claramente; parecia que o Evangelho saía naturalmente de tudo que ele era e fazia, de uma forma tão impactante que não me restou muita coisa além de buscar todas as mensagens que aquele homem dizia, fazendo ligações e conexões com tudo que aprendi, estudei e vivi. Parecia que algumas coisas iam ao encontro de tudo que eu passei, como se ele estivesse estudado a minha vida; outras abriam novas perspectivas sobre coisas que até então eu me mantinha irredutível.

Lembro vagamente de alguns princípios de relacionamentos amorosos enquanto falávamos sobre a seleção irlandesa de futebol; alguns comentários sobre a plenitude divina enquanto falávamos sobre o café que nos encontramos; e até mesmo os problemas de se reduzir Deus à nossas teologias e convicções enquanto caminhávamos para fora do café (mesmo que eu não me lembrasse de ter levantado, ou pagado a conta).

Mas foram suas últimas palavras antes de entrar no táxi que ecoaram na minha mente por tanto tempo que, até hoje, enquanto escrevo esse texto, elas não desceram, entaladas na minha garganta.

Era algo assim “Não use o conhecimento de Deus para classificar as Suas ações, efeitos e transformações. Viva. Sinta. O resto, vem. Não se preocupe com o que é a manifestação da graça comum, como ela acontece e seus efeitos. A reconheça. A viva. A sinta. E reforce sua vida para servi-Lo.”

“Agora vejo como o senhor do mundo silencioso modificou você. Existem leis conhecidas por todos os ‘“hnau”, leis de piedade, justiça, vergonha etc., e uma destas é o amor aos seus semelhantes. Ele ensinou você a desobedecer a todas elas, exceto esta última, que não é uma das maiores. Ele deturpou-a de tal maneira que a transformou em loucura e tomou conta de seu cérebro onde governa tudo como se fosse um pequenino Oyarsa cego. Nada mais lhe resta senão obedecê-la; apesar disto, se lhe perguntarmos porque ela é uma lei, você não poderá dar uma razão diferente da que faz as outras serem leis; estas, no entanto, embora maiores que ela, são desobedecidas.”

(Além do planeta silencioso, C. S. Lewis)

Mal cheguei a vê-la, na verdade. A gente é uma porcaria mesmo, fica na maior ansiedade por meses a fio, trabalha, dá o sangue, faz todas as juras do mundo, passa todas aquelas horas de viagem num ônibus apertado, sem conforto com a poltrona que tem a INCRÍVEL curvatura de 15º, come uma coxinha mais óleo que modelo fotográfico de esportes pra no final das contas, quando chegar lá, os olhos fazerem aquilo com a gente.


Borrou minha vista toda, só de olhar e ver o seu vulto. Meu olho marejou, e eu não pude mais aguentar tudo aquilo que eu guardava dentro de mim por tanto tempo, e junto com elas, desceu também meus joelhos, e fiquei ali, de joelhos no chão duro e frio de uma rodoviária de interior, chorando silenciosamente de alegria, enquanto ela me fazia aquela cara de só-você-mesmo, enquanto se divertia e segurava as suas próprias lágrimas – ela sempre foi mais forte do que eu. Chegou devagarinho, do mesmo jeito que ela chegou na minha vida, anos atrás, e ficou na minha frente, acariciando a minha cabeça.

Ah, como ela sabia o que fazer. Como suas mãos mexendo no meu cabelo me tiravam de mim e conseguiu secar as lágrimas e me trazer um conforto que eu não sentia desde a última vez que a tinha visto. Em poucos segundos ela me deu a força necessária pra levantar, e fazer o que ela menos esperava.

Esse abraço. Esse cheiro suave dos cabelos dela, que ela com muita luta contra si mesma ainda deixava assim. O peito dela subindo e descendo, tentando controlar as emoções e reações. As suas mãos que quase tremendo, relutavam a acreditar que eu estava lá, recusavam a aceitar que aquele sonho era verdade. E que era a última vez que eu teria ido de forma definitiva. Agora, eu tinha ido pra ficar. Agora, eu estava lá pra sempre. Bem guardado, no peito inquieto dela. De onde, por mais longe que eu estivesse, eu nunca iria sair.

Aquela tinha sido a nossa aliança. Aquele tinha sido nosso compromisso. Aquela era a nossa vida a partir daquele momento.

Entrou no ônibus só pra fazer aquela mesma cara de sempre. O ruim de morar nem tão perto do ponto final e nem tão longe é que o ônibus nunca tinha um lugar vago, e ele ia ter que ficar muito tempo em pé. Era uma daquelas coisas que ficar grilado não ia mudar, mas saber disso não era muito confortável também.


Levantar já tinha deixado de ser uma opção, há pelo menos uns vinte minutos, mas ele continuava lá, pensando se deveria mesmo fazê-lo. Quis maldizer o dia que decidiu que iria de bike sempre para o serviço, e o dia que, pra não cair na tentação de pegar um ônibus, gastou o dinheiro do vale transporte naquele cachecol que sua esposa tanto queria. É, ela estava feliz. Era bom deixá-la feliz de vez em quando, já que a vida não era assim tão boa. Olhou pro lugar vazio na cama, contando as horas que faltavam pro final do plantão dela. É, tá na hora de levantar.

Chegou no ponto de destino, finalmente. Teve que pedir uns três licenças e ver umas duas caras feias antes de descer. Não tá fácil pra ninguém – e é claro que ele foi o primeiro a chegar na praça, mas já tinha se precavido disso: no ônibus mesmo tratara de acordar por sms dois dos seus amigos que sabiam que não iam acordar sozinhos e já começou a dar pedradas naquela garota bonita que morava no outro lado da cidade. Era ainda cedo, mas quando ela visse porque ele estava acordado tão cedo… Tava no papo.

Não estava tão frio quanto seu edredon fazia parecer, e ali pelo segundo quarteirão no pedal já tinha deixado pra trás qualquer sentimento negativo com o vento frio – que de repente era refrescante. É, pedalar fazia bem – o seu problema era começar a fazê-lo. Era bom demais. Os ônibus e carros passavam mais próximos que o que a Lei dizia, mas não chegavam a incomodar, talvez pelo costume. Quando já chegava na avenida, deu play, e as guitarras do indie rock abafaram um pouco o ruído do mundo à sua volta. Em duas rodas estava feliz.

O som do Whatsapp denunciava: mais de três mensagens com o toque dela. Só podia ser coisa boa. Destravou o celular, quando viu que já chegava um dos que ele tinha acordado, todo fantasiado, já. Camiseta de Jesus, calça jeans, tênis e um cabelo arrumado de uma forma a parecer despojado, mas ao mesmo tempo confiável. Aquele tipo de cara que você teria preguiça, mas também o levaria à sério. O modelo perfeito de evangelista saído dos manuais da igreja.


Uma hora estava na bicicleta, na outra no ar, quando viu não estava em nenhum lugar. Ou em todos os lugares. Não lembrava nem se tinha tido tempo de frear. Mas frear porque? Não sabia se estava escuro ou se estava com os olhos fechados, e tentou lembrar de algo. Lembrar do quê? Estava ali, quase na hora de trocar de marcha quando Yellowcard parecia ter dado uma virada na música que não conhecia. Não, não, não era a música. (Falando nisso cadê a música?). Mas se não era a música, que som tinha sido aquele. Um carro, isso. Agora lembrava. Um carro que o motorista falava no celular. Não deu tempo de buzinar, de gritar, de xingar, muito menos de frear. Devia ter voado uns bons 3 metros, pelo tanto que seu corpo doía. Abriu os olhos, e viu, de longe, no meio da praça, um menino. Com uma bíblia na mão, um sorriso no rosto. E foi a última coisa que viu. E foi a melhor coisa que viu.

Quando foi cumprimentar o seu amigo, ouviu um estrondo. De reflexo olhou, ainda sorrindo com a resposta da garota. E o ciclista, no meio da sua própria poça de sangue, o encarou por alguns segundos, antes de perder as vistas – foi o tempo necessário pro sorriso desaparecer, e a ficha cair. Ele estava ali, o tempo todo. No ônibus. No caminho. Na praça. No celular. E alguém tinha ido embora. E seja quem for esse cara, ele tinha sentido toda a esperança que era depositada nele. Todo o desespero de um mundo que chora por liberdade. Foi um tapa na cara. Que nunca foi capaz de esquecer.


O silêncio consumiu a vila aquela noite como há muito tempo não o fazia. Lá fora os grilos pareciam todos terem desaparecido no meio da tensão, enquanto se sentia no canto das cigarras um QUÊ de desespero. A mãe abraçou pela última vez os meninos, antes de virar-se e aconchegar ao seu homem, buscando o conforto e a segurança que ela não tinha para passar aos seus filhos.

Estamos em Né-e, alguns anos antes do homem branco chegar com sua pólvora, espelhos e todo o tipo de bugingangas, procurando indianas, indígenas e mais uma pá de coisas que não seriam capazes de encontrar naquela terra que ainda não tinham descoberto – nem destruído.

Mas antes do homem branco, os habitantes de Né-e conheciam outra ameaça – e podiam farejá-la aquela noite; assim como há exatos três ciclos o sentiram, e foram deixados no meio de um raio de destruição que ainda tentavam se recuperar. Enquanto as folhas faziam seu alvoroço no meio do vento, rezavam para seus ancestrais, para os espíritos e para qualquer outra coisa que poderia haver por aí que os pudesse proteger.

Essa noite não – essa noite estavam abandonados à sua própria sorte. Os mais fracos caíram no sono na primeira hora de silêncio. O resto foi se acomodando e relaxando com o tempo – até que sobraram uns três ou quatro, sozinhos, em suas tendas, olhando pelo que sentiam que seria a última vez a carne da sua carne, o sangue do seu sangue descansando suavemente.

Aconteceu tudo muito rápido – as folhas silenciaram por não mais do que meio segundo, e antes que pudessem reparar que algo estranho estava acontecendo, onde havia o teto de suas cabanas – havia só a imensidão negra do céu estrelado, onde havia o silêncio sepulcral – o grito das árvores se quebrando; crianças correndo pela floresta, homens chorando como meninos e mulheres em estado de choque. Matintape’re. O demônio.


Uma vez me disseram que os olhos são a janela da alma. Que se alguém, se souber onde olhar e como olhar, consegue ver quem você realmente é. Deve ser por isso que as pessoas evitam tanto contato ocular hoje em dia, não querem se revelar assim tão facilmente para estranhos. Deve ser por isso que eu tenho tanto medo de olhar nos seus olhos. Não que eu tenha medo de você descobrir quem eu realmente sou (isso você já fez há muito tempo), mas eu tenho medo de ver o que você achou de mim através do seu olhar.

Medo da rejeição, medo do estranhamento – da sua opinião sobre mim, tão assim estampada na sua cara (ou nos seus olhos). Depois de tudo que passou, de tudo que se foi, e principalmente, de tudo que veio, eu tenho medo de nesssa hora, você me rejeitar com seus olhos.

Porque bom. Os olhos não mentem.

Terminou de digitar, e escondeu a cabeça no meio das mãos. Bagunçou os cabelos, sem saber o que fazer direito, e acabou suspirando. Levantou-se, foi até a janela, que se encontrava em pedaços, e saiu. No notebook rosa, continuava a mensagem.

Ele a olhou, como se tivesse acordado naquele momento. Encarou aqueles olhos castanhos que o observavam, com o seu rosto ainda sem expressão – viu aquelas bochechas que tanto mordera, aquele pescoço que tanto cheirara, aquela testa que tanto encostara no seu queixo. Voltou aos seus olhos, que já exibiam um pequeno sinal de dúvida; quiçá receio.


Não precisou dizer nada. Apenas a olhou, e foi como se palavras fossem um tipo de comunicação muito bizarro e rudimentar para eles. Seu, ele dizia, para sempre. E ela respondeu, na mesma sintonia a você eu me entrego. Ficaram nesse refrão, se dando um para o outro, num lugar tão isolado que o tempo não conseguia encontrá-los. Foram horas, foram dias, meses que eles se encararam ali – juras de amor que sabiam que nenhuma delas jamais seria abandonada. Juras de um amor que não se acreditava mais. Amor do tempo daqueles mais idosos, que sempre recordam com um ar saudosista de todas as mazelas de alguns anos atrás, quando tudo parecia ser tão simples.

O pensamento, o olhar, as juras pareceram insuficientes – naquele momento, naquele êxtase, naquela intimidade, todas as promessas e sonhos, todas as juras e desejos pareciam ter se afastado deles. Não foi tentando conter, mas expressar a sua própria falta de expressão, ele suspirou. Não um suspiro de tédio, ou de cansaço.

Um suspiro de quem está no lugar certo, na hora certa e com os neurônios explodindo em agonia para tentar recordar o máximo possível daquele paraíso. Um suspiro de quem já sabe que o amor ali é mais do que já sonhou em encontrar. Aquele suspiro de quem vê, sente e toca em Deus ali, naquele lugar – a três. Suspiro que limpava a alma de qualquer impureza ou lascívia. Estavam os dois ali, se encarando, se amando – suspirando. De uma forma que sabiam que ninguém suspirava, nem mesmo a senhora (ou senhor) saudosista de alguns parágrafos acima. O suspiro de quem já estava completo, porque sabia estar.


Foi ali que se tornaram um. Ali que seus sonhos se colidiram, se juntaram, e explodiram numa tempestade de emoções e sentimentos que os molharam, os embriagaram e os uniram. A realização de estarem juntos, de estarem um. Nenhum da maneira que tinha sonhado, ou desejado – nenhum outro jeito seria tão perfeito. Os dois ali – em um. Sozinhos – juntos com Ele que os observava, provavelmente sorrindo. Sorrindo e suspirando. Aquele suspiro de quem sabe o que está fazendo – e vai fazer o melhor.


Acordou com estômago embrulhado, revirando – até com a visão meio turva. Sentia-se mal, com aquele gosto de paçoca velha na boca (se você não sabe como é, continue só imaginando), como se tivesse com o gosto dos últimos acontecimentos no seu paladar. Acordou com a moral mais acabada do que a roupa da noite anterior, jogada no canto do quarto, ainda úmida da chuva que tinha pegado no caminho pra casa. Se levantou com a força e a vontade de um labrador obeso de 12 anos, enquanto tentava decidir se ia comer algo ou escovar os dentes direto – com as duas voltas e meia que o seu estômago deu no esôfago, resolveu não fazer nenhum.

Mal conseguia processar uma meia dúzia de comandos mais simples – como calçar o tênis certo, não colocar meias de pares diferentes e continuar a respirar normalmente sem que a cabeça começasse a doer tanto quanto deveria doer um chip AMD se ele não esquentasse daquela maneira.

Se aquela briga toda tinha provocado aquela revolta estomacal nele, não queria nem pensar no que aconteceria mais tarde, quando as últimas figurinhas fossem trocadas. Com um suspiro de desânimo, resignou-se. Existem coisas que se pode escolher, e existem as consequências por escolhê-las. Chegara a um ponto que não estava mais preocupado com as consequências, só tinha que fazer o certo, uma vez na vida. Estava quase saindo, mortificado com os pensamentos, quando teve uma ideia brilhante. Podia funcionar, quase esperançoso.

Voltou pro quarto, abriu uma porta, e se aliviou. É, às vezes era só estomacal mesmo.

Tátudubei, agora.


O fim do mundo vai ser daqueles em que a terra vai invadir o céu. Não será um céu vermelho, de fogo, nem um céu negro que estamos acostumados a pensar num fim apocalíptico. Será um céu laranja, laranja da terra que invadirá o ar de nossas cidades, enquanto o vento corre pelos nossos pés, furioso por ter seu lugar roubado pela terra que polui os céus.


O mundo acabará num vendaval. Não vendavais cinematográficos que casas são arrancadas e vacas saem voando pela força do vento, isso é ridículo. Vai ser daqueles vendavais que atrapalham a dirigir moto, que passam uma rasteira nos mais desatentos e fazem caixas de papelão parar nos locais mais improváveis – como no parabrisa daquele caminhão acima do limite de velocidade.

No meio de toda confusão, com animais fugindo de medo, os homens, distraídos pela sua vida, com as pressões e correrias da rotina não verão nada demais – talvez aqueles mais atentos irão parar por alguns segundos para observar o mundo que se revira à sua volta; apenas o tempo suficiente para lembrar de twittar sobre isso, ou pegar a câmera para filmagem.

O mundo acabará, e somos os únicos que não nos ligaremos a esse fato. Os vídeos gravados durarão por alguns dias nos mais vistos e comentados, e quando não houver mais ninguém, ele continuará a rodar em loop nas telas de alguns telejornais.

Veremos as coisas à nossa volta serem destruídas, toda a existência se alterar por uma tela de LED FullHD que é quase como se tivéssemos aberto a porta e contemplado por fora dos portões de nossos prédios. Através das janelas com filme dos nossos carros. Além dos nossos fones de ouvido, de nossa realidade aumentada. A revolução acontecerá, e nós não ficaremos nem sabendo. Ou será que ela já aconteceu?