O silêncio consumiu a vila aquela noite como há muito tempo não o fazia. Lá fora os grilos pareciam todos terem desaparecido no meio da tensão, enquanto se sentia no canto das cigarras um QUÊ de desespero. A mãe abraçou pela última vez os meninos, antes de virar-se e aconchegar ao seu homem, buscando o conforto e a segurança que ela não tinha para passar aos seus filhos.

Estamos em Né-e, alguns anos antes do homem branco chegar com sua pólvora, espelhos e todo o tipo de bugingangas, procurando indianas, indígenas e mais uma pá de coisas que não seriam capazes de encontrar naquela terra que ainda não tinham descoberto – nem destruído.

Mas antes do homem branco, os habitantes de Né-e conheciam outra ameaça – e podiam farejá-la aquela noite; assim como há exatos três ciclos o sentiram, e foram deixados no meio de um raio de destruição que ainda tentavam se recuperar. Enquanto as folhas faziam seu alvoroço no meio do vento, rezavam para seus ancestrais, para os espíritos e para qualquer outra coisa que poderia haver por aí que os pudesse proteger.

Essa noite não – essa noite estavam abandonados à sua própria sorte. Os mais fracos caíram no sono na primeira hora de silêncio. O resto foi se acomodando e relaxando com o tempo – até que sobraram uns três ou quatro, sozinhos, em suas tendas, olhando pelo que sentiam que seria a última vez a carne da sua carne, o sangue do seu sangue descansando suavemente.

Aconteceu tudo muito rápido – as folhas silenciaram por não mais do que meio segundo, e antes que pudessem reparar que algo estranho estava acontecendo, onde havia o teto de suas cabanas – havia só a imensidão negra do céu estrelado, onde havia o silêncio sepulcral – o grito das árvores se quebrando; crianças correndo pela floresta, homens chorando como meninos e mulheres em estado de choque. Matintape’re. O demônio.