Foi o último adeus. Não, não. A gente ainda se veria muito, se encontraria e se despediria muitas vezes, e… é. Na verdade, este foi o último adeus, pelo menos daquele jeito. Foi o último adeus apaixonado, o último adeus com ela.

A gente sabia que ia ser assim. Mesmo antes de chegar lá, mesmo quando eu toquei a campainha e ela tinha saído pra comprar comida, mesmo enquanto ela preparava para mim, e mesmo depois de comermos juntos, a gente sabia que ia ser assim. Por isso as palavras saíram difíceis. Por isso as conversas foram recheadas de enormes silêncios.

Foi estranho. Ficar em silêncio ali, naquela mesma sala que a gente muitas vezes não calava a boca. Ficar em silêncio ali, naquela sala que já viu vários filmes com a gente, naquelas paredes que testemunharam nossas discussões e nossas pazes.

Foi seco. Apesar de todas as lágrimas, dos soluços, das verdades ditas, dos desconfortos revelados, dos corações abertos, foi seco demais. Simples demais. Vazio demais. Era como se estivéssemos tentando saborear aqueles pacotinhos de frutas desidratadas. Secos, vazios, amargos. Não éramos assim, mas estávamos assim, neste último adeus. Secos de tanta tristeza, vazios de tanta solidão e amargos de tanta culpa.

Foi o último adeus.



Eu não quero te mudar.

Tarde demais. Eu mudei por você quando te conheci – eu não trato todo mundo assim; eu mudei meu jeito de conversar pra poder passar mais tempo conversando contigo sem o assunto morrer e sem eu ficar com cara de tacho olhando pro facebook, esperando algo mágico acontecer.

Eu mudei meus gostos musicais, porque algumas bandas me trazem você à cabeça, e elas povoam minhas listas de reprodução mais do que as minhas músicas favoritas – que eu custo a me lembrar quais são.

Eu mudei com as outras pessoas, porque eu só falo de você. Tudo tem a ver com você, tem uma história sua, um detalhe do que a gente passou, o que eu acho que você falaria, um sorriso, uma lembrança de você.

Eu mudei meus planos, porque não fazia sentido ter você só por um tempo, se eu podia ter você pra sempre, e ter o seu sorriso me acompanhando todas as noites – e o seu mau-humor logo pela manhã.

Eu mudei meus planos, porque eu quis ver você todos os dias, e me viciei nisto. Em olhar pra você, em conversar com você, fazer você sorrir e brigar comigo. Em te machucar e pedir desculpas. Em falhar, e ser perdoado.

É, é tarde demais pra não querer me mudar. Sem você, eu não estaria aqui.

“Nós somos Deus para o mundo, refletimos Jesus para as pessoas. Nós somos o que Deus quer que este mundo seja.”

Afirma isso, com um punhado de panfletos na mão, enquanto atrás, pula uma criança com um saco de confetes que são jogados pra cima como um carnaval. Um pouco mais adiante, garrafinhas de água e latas de suco se acumulam pelo chão, proclamando o orgulho de uma vida de abstinência. Brados de vitória são dados, enquanto começam a chamar a banda atração da noite. Gritos histéricos quando o vocalista principal aparece, e como um transe, milhares de câmeras e celulares começam a disparar flashes e gravar vídeos – alguns com transmissão ao vivo pela internet.

CDs são vendidos em algumas bancas, junto com camisetas com o rosto do vocalista e o nome da banda, enquanto os panfletos que o rapaz segurava logo antes de falar comigo se juntam às latinhas no chão.

Olhando à volta, pode-se ver grupos, como tribos bem separadas – cada uma com seu uniforme, algumas até com faixas dizendo qual congregação pertencem (decerto para não se perder em meio à tanta gente). Não demora muito pros primeiros conflitos aparecerem, alguém empurrou alguém que não gostou muito.  Xingamentos, alguns olhares mais fortes, mas o grupo do deixa-disso aparece, e afasta os dois que tem ânimos exaltados.

Logo ali na frente, uma pessoa passa mal e desmaia – as pessoas que estão próximas se afastam, e ignoram os apelos de ajuda de um amigo que não consegue carregá-la sozinha, e ele tenta passar entre a multidão arrastando-a, pra procurar atendimento. Já se dá o aviso à segurança do evento que pelo menos meia dúzia de carteiras e três celulares sumiram dos bolsos que estiveram, enquanto uma menina mais nova chora sozinha por ter se perdido do irmão mais velho.

“É”, pensa o repórter que foi convidado a cobrir o evento, um pouco aliviado, embora sinta um peso no coração, que não sabe de onde vem: “as pessoas me diziam a verdade quando diziam que não precisava ter medo dos evangélicos. Eles são iguais a nós”

John Noarms gosta de medir os riscos. Não prestou vestibular pra um curso que as chances de passar eram poucas, segundo seus hábitos. Nunca pulou de pára-quedas, porque sua vontade de aventura não era tão grande quanto o medo. Medo de altura, de morrer? Não, medo das prestações do curso, caso ele perdesse o emprego, ou alguém ficasse doente. John calculava o tempo para pegar transporte público ou táxi, conferia a previsão do tempo e ainda andava com o twitter ligado para receber informações sobre o trânsito, a lotação da linha violeta da CPTM e a linha vermelha carioca, sempre ligado e construindo mentalmente rotas alternativas.

Não comia palmito de feira, nem maionese de lanchonete. Desistiu dos cachorro-quentes de carrinhos quando pesquisou sobre doenças, parou de beber sucos concentrados quando descobriu o processo de produção e parou de usar plástico quando lhe falaram sobre câncer. Não passa nem perto de microondas, se sente incomodado de estar perto de torres de celular e tem arrepios em passar por raios-X de tanto que ouve falar em radiação.

Celular só com fone de ouvido, fone de ouvido nunca intraauricular e mesmo assim com volume abaixo de 50%, afinal, John não quer ficar surdo. Não sai depois das 22h, porque tem medo de assaltos, se esconde da polícia porque tem medo do noticiário, paga os impostos e anda com cinto de segurança pra não ter problemas. John calculou todos os riscos. Não quer se surpreender.

John, quando se apaixona, é frio, é racional. Segue toda a lista de recomendações dos mais variados especialistas, psicólogos e sexólogos. Faz listas de prós e contras, busca conhecer os valores (cristãos ou não) da pessoa e ainda procura saber todos interesses e gostos musicais e artísticos (afinal, não quer correr o risco de ficar preso numa sala de cinema alternativa com filmes iraquianos, ou pior, numa comédia romântica do Adam Sandler).

Ao começar um relacionamento, segurou as demonstrações de amor, foi comedido nas palavras e não se entregou a tudo aquilo que sentia, com medo de ter seu coração despedaçado. Segurou-se, não se entregou, e nas primeiras brigas e discussões, já refez todos aqueles cálculos do começo. Valia a pena? Ele estava disposto a passar por aquilo? Não sabia. Reviu todos os vídeos e entrevistas. Reavaliou seus valores. Refez as listas. Continuava sem saber. Consultou seu terapeuta, que não deu respostas conclusivas. Assistiu palestras no Youtube, releu os livros e fez testes da Capricho, pra descobrir se estava apaixonado e se ela era sua cara-metade. Nenhuma resposta conclusiva.

Entrou em crise – estava em dúvida. Nunca tinha passado por isso, nem mesmo na hora de escolher o curso da faculdade, ou o emprego. Não teve dúvidas na hora de escolher um parceiro no estágio, ou em qual mictório se satisfazer no banheiro do shopping. Escolhia sabonete com uma precisão mecânica, e tinha a marca de shampoo que nunca iria deixá-lo com caspas, problemas de calvície ou ainda com cabelo seco. Tinha quatro escovas de dentes estrategicamente posicionadas para situações de emergência, e sempre tinha uma lista com telefones de restaurantes que entregavam (os melhores motoboys, condições de higiene e refeições que não estragariam sua flora intestinal). Tinha planejado seu futuro até depois de sua morte, com o seu lugar no cemitério reservado, lápide escrita e caixão construído. O testamento estava escrito em quatro vias, um lacrado com o advogado, outro registrado em cartório, um terceiro num cofre e o quarto em um arquivo criptografado na nuvem.

Mas não conseguia decidir se deveria continuar naquele relacionamento. E não estava acostumado com a dúvida. Por fim, desistiu. Largou todos os planos, todo o futuro construído com ela, e jogou fora. Reuniu todos os manuscritos, tudo aquilo que pensara, imaginara e guardara para si e fez a única coisa que ninguém esperava – disse para ela.

John Noarms arriscou-se como nunca tinha arriscado na sua vida, e descobriu que ficar sem ar de tanta expectativa podia ser bom.

Claro, levou o maior fora da sua vida. Mas viciou-se em assumir riscos. A partir dali, ficou conhecido como John Armstrong. Não era mais o pobre Joãozinho sem-braço que estavam acostumados a ver.

Chuva boa é para desejar ter uma casa com sótão sujo, só pra esticar uma coberta no chão e deitar do lado dela, ouvindo as gotas baterem no teto. Talvez mastigando alguma coisa, uma pipoca, talvez um pé-de-moleque caseiro.

Chuva boa é aquela que faz a gente desligar a TV (ou que corta a energia), e nos leva um para o outro – é aquela chuva que vem num dia que o mais importante é deitar do lado dela, e ouvir tudo à nossa volta.

Cochilar, e acordar com aqueles olhos me encarando, com um misto de carinho e graça – fazê-la sorrir com uma careta, enquanto o mundo parece cair no teto acima de nós. Não me importar com o pó acumulado ali naquele espaço abandonado da casa por algumas horas, e senti-la se aconchegando nos meus braços para ouvir quietinha o som da chuva que cai.

Esquecer as contas, as tretas de família, as discussões e toda a crise que nós estamos sendo e lembrar de como é bom ter um ao outro, independente do que passamos pra chegar ali. Talvez possa ser uma tentativa de voltar ao que éramos no começo, talvez uma vontade de simplificar tudo; mas a verdade é que nos amamos – e isso ninguém vai tirar de nós, nem que seja necessária uma chuva e um blecaute para estarmos bem um com o outro.

Eu quero um sótão. Um dia de chuva. Ela em meus braços.

Então, a verdade é que eu te amo. Eu tenho passado os últimos dias martelando isso, tentando descobrir se era só paixãozinha, ou se eu realmente gostava de você, e depois de tudo isso que passamos, a verdade é que eu te amo. Independente do seu jeito, o que eu gosto mesmo é do jeito que você fica brava comigo, do seu GRR de ódio quando eu falo aquilo que você não queria ouvir e do jeito que você simplesmente despedaça as minhas verdades numa fração de segundo, como se não fossem nada importantes. Eu desisto de tentar fugir de você, ou de arrumar motivos pra não te beijar. Desisto de ficar me dando desculpas, fingindo que você não gosta de mim, ou que eu sou idiota demais pra você. Eu te amo, e te amo demais pra ficar com você. Eu quero namorar contigo, quero estar com você, e te abraçar quando eu mais te detestar. Porque sei que você sabe trazer o melhor de mim.

[Timeline da Fulana]

Atualização do Facebook

É verdade tudo isso?

…é só um texto que eu escrevi, deixa pra lá.

A gente estava num ônibus espacial, indo construir alguma coisa – talvez o início de uma sociedade, talvez uma nova esperança, não sei. Sei que não era nada oficial, nem mesmo chique. Era do mesmo jeito que a gente sai pra fazer missões (não, a gente não ia construir algo pra igreja, era algo bem social mesmo). Mas a gente estava num ônibus espacial que era um coletivo. Coletivão mesmo, daqueles de janelas batendo e tudo – e você sabe como janelas batendo num ônibus espacial é perigoso.

O motorista avisou quando a gente ia sair das ruas e ia começar a arrancar, e você ficou mais preocupada do que já estava, com aquele bebê no colo que não era seu – mas que você estava levando porque a mãe te pediu (sentiu o tanto que nossa missão era importante, né? Seja ela qual for). Aí você se escondeu, toda com medo atrás de mim (afinal, estávamos no fundo de um coletivo que ia quebrar a barreira do som), tentou distrair o menino (que parecia de uma maneira MUITO agoniante com o filho da minha prima – até lá eu reparei isso), e quando o motorista acelerou – ele teve que parar alguns quilômetros pra frente.

Estávamos em um coletivo, quebrando a barreira do som, numa posição quase vertical, e tinha um sinal fechado. E ficamos lá, parados, sobrevoando, como se apoiados numa pista com uma subida incrivelmente íngreme, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Até que eles nos viram, e vieram invadir  o ônibus. Você olhou pra mim, eu olhei pra você, e quando você fechou os olhos, eu acordei.

Levantou, olhou pro lado – ela não estava lá. Não é como se fosse novidade, mas parecia que essa notícia sempre tinha a mesma forla, não importa quantas vezes ele soubesse da verdade – ela se fora. E o mais estranho é que a cama ficava vazia, mesmo ela nunca tendo estado lá. O quarto ficava vazio – tomar café sozinho, de repente, começou a incomodar. É como se antes, estar com ela significava vê-la em todos os lugares; mas agora não.

Engoliu um qualquer coisa que estava na geladeira, olhou pela janela, e foi.

Pelo menos ela estava aberta, o que fez do vôo algo até silencioso. Tão silencioso, que o casal que escolhia não esperar no banco da calçada, não viu. O pipoqueiro que carregava o carrinho já sujo e vazio, estava tão cansado, que poderia ter olhado diretamente para ele, e mesmo assim não veria. O menino que jogava Street Fighter usando o Balrog (algo que ia revelar características importantes sobre sua sexualidade, em algum lugar do futuro), também não viu, de tão assustado com o E. Honda e suas habilidades que desafiam completamente a gravidade. Tantas coisas, tantas informações, tanta vida – que não valeriam de nada, e ninguém se lembraria disso em alguns dias. Nada importava, nos próximos 3 andar… porque ela estava ali? Chorando? Entrando no prédio dele? Ah, não!

Com um grito que fez o casal de namorados quase cair do banco, acabou.

Foi aquele dia que viraram pra mim e falaram: “Você vai trabalhar com o Henrique”. Beleza, tranquilo. Olhei pro Henrique, um senhor já, com seus cinquenta anos, usa sempre a mesma camisa social, cabelos mais brancos que grisalhos penteados, uma postura de servidão que só não era maior porque ele era chato – foi o que me disseram.

Henrique em sua juventude divertida.

Já preparado para encontrar o chato, na primeira semana de trabalho nós tivemos um problema: e realmente era chato. Mas não era pouco. Quer sacar qual a vibe da chatice dele? Sente o som:

Ia ter um evento, que a chefia ia organizar – e o prédio que a gente trabalhava tinham duas entradas, por duas avenidas. Não existia uma entrada principal – eram entradas diferentes para pessoas diferentes.  Eu ia ficar na entrada de lá e o Henrique na entrada de cá.

_Mas eu que tenho que ficar na entrada de cá. Eu conheço fulano, beltrano, conheço todo mundo. Você fica na entrada de lá, e eu fico na de cá.

_Henrique, quem mandou foi o Chefe. Quer discutir com ele a portaria que você vai ficar?

_Não, eu só vou ficar na de cá, e você na de lá.

_Peraí, eu vou ligar pra ele e você diz isso – eu não tenho paciência mais pra ele, sério.

Cada dia é um problema – e se alguém me pediu pra ficar do lado de cá, porque raios eu não posso ficar no lado de lá? Se ele quer comprar briga, que compre. Quando o Chefe atendeu, Henrique falou baixinho, pra eu não ouvir todos os principais e obscuros motivos que obrigariam-me a ficar na outra porta. É claro que o Chefe disse não, e ele resmungou pra mim

Meia hora depois, ele vira e diz:

_Eu vou ficar de cá, então.