(A série Um café com… é baseada na interpretação dos livros e das mensagens passadas por algumas pessoas. Ficção, baseada em impressões. Não chega nem perto de uma tentativa de biografia, é apenas uma quase-homenagem)

Quando eu cheguei, ele já estava lá. Sentado, com uma xícara na sua frente, eu diria que a sua pontualidade é inglesa, se isso não fosse meio incomodante pra qualquer irlandês, por maior que o seja. Quando sentei, o cumprimentei, e ele abriu um sorriso de quem já se acostumou a ouvir qualquer desculpas acerca do trânsito, da vida ou de fatores quase sobrenaturais para os atrasos alheios – nem me arrisquei a abrir a boca e entrar por este caminho.


Pelo contrário, ofereci-lhe pagar por outra bebida – que depois vim a descobrir ser água tônica. Diferente, porém compreensível. Acho que nunca vi uma bebida que definisse alguém de uma maneira tão completa – aquele gosto suave, refrescante mais ao mesmo tempo que puxa um pouco para o amargo, remete muito à literatura que aquele homem escreveu durante seus longos anos nessa caminhada que foi do ateísmo absoluto à entrega completa.

Seus livros ficcionais descrevem com uma clareza quase cegante a maravilha da Criação e dos planos e propósitos de Deus nos fazem sonhar, até que a natureza humana é mostrada na sua face mais crua – aquele gosto amargo do final da água tônica.

Conversamos levemente, sobre qualquer coisa de leve que eu não me lembro bem quais eram. Eu só tenho certeza que ele conseguia falar de alguma coisa que me remetia à teologia, sem nunca falar claramente; parecia que o Evangelho saía naturalmente de tudo que ele era e fazia, de uma forma tão impactante que não me restou muita coisa além de buscar todas as mensagens que aquele homem dizia, fazendo ligações e conexões com tudo que aprendi, estudei e vivi. Parecia que algumas coisas iam ao encontro de tudo que eu passei, como se ele estivesse estudado a minha vida; outras abriam novas perspectivas sobre coisas que até então eu me mantinha irredutível.

Lembro vagamente de alguns princípios de relacionamentos amorosos enquanto falávamos sobre a seleção irlandesa de futebol; alguns comentários sobre a plenitude divina enquanto falávamos sobre o café que nos encontramos; e até mesmo os problemas de se reduzir Deus à nossas teologias e convicções enquanto caminhávamos para fora do café (mesmo que eu não me lembrasse de ter levantado, ou pagado a conta).

Mas foram suas últimas palavras antes de entrar no táxi que ecoaram na minha mente por tanto tempo que, até hoje, enquanto escrevo esse texto, elas não desceram, entaladas na minha garganta.

Era algo assim “Não use o conhecimento de Deus para classificar as Suas ações, efeitos e transformações. Viva. Sinta. O resto, vem. Não se preocupe com o que é a manifestação da graça comum, como ela acontece e seus efeitos. A reconheça. A viva. A sinta. E reforce sua vida para servi-Lo.”

“Agora vejo como o senhor do mundo silencioso modificou você. Existem leis conhecidas por todos os ‘“hnau”, leis de piedade, justiça, vergonha etc., e uma destas é o amor aos seus semelhantes. Ele ensinou você a desobedecer a todas elas, exceto esta última, que não é uma das maiores. Ele deturpou-a de tal maneira que a transformou em loucura e tomou conta de seu cérebro onde governa tudo como se fosse um pequenino Oyarsa cego. Nada mais lhe resta senão obedecê-la; apesar disto, se lhe perguntarmos porque ela é uma lei, você não poderá dar uma razão diferente da que faz as outras serem leis; estas, no entanto, embora maiores que ela, são desobedecidas.”

(Além do planeta silencioso, C. S. Lewis)