Igreja

Nos reinventamos. Recriamos a roda, tentamos fazê-la quadrada, tentamos fazê-la triangular, e no final das contas descobrimos que a melhor forma de fazer uma roda rodar é fazendo ela redonda. Cansamos da igreja tradicional. Dos hinos antigos, das vestes sacerdotais e dos papéis de pastor, diácono e presbíteros.

Fizemos movimentos. Não éramos mais igrejas, éramos Igreja. Lá, podíamos ir mais longe – fazer coisas que a burocracia eclesiástico-institucional inviabilizava. Nos envolvemos em lutas importantes: fomos contra o voto de cabresto – ganhamos fama no país inteiro ao lutar contra as influências e coações pastorais que influenciavam eleições.



Mostramos como era terrível que um pastor tivesse poder de definir as eleições através dos votos de suas ovelhas e como era maléfico dar espaço de culto para candidatos. E estamos nessa luta até hoje.

O problema é que tentamos fazer uma roda quadrada – tentando ensinar as pessoas a refletir criticamente. Um processo que dói, um processo que é difícil, e que acaba envolvendo muito mais do que apenas uma reunião dominical (ou em qualquer outro dia da semana, afinal não somos igreja, mas durante a semana é complicado, sábado à noite tem outras coisas pra fazer e aí sobrou ele mesmo, o domingo): envolve a família, envolve educação formal, envolve estudos de filosofia e sociologia, matérias que nem em três anos de ensino obrigatório conseguem se provar importantes para seus estudantes. É impossível libertar pessoas e ensiná-las a pensar por si próprias quando o próprio contexto social que elas se encontram inviabiliza o tempo necessário para isto – e quando a nossa própria agenda política se põe no caminho.

Tentamos fazer uma roda triangular – e nos diferenciamos, em cursos de formação política com vieses de esquerda e de direita, para que as pessoas pudessem compreender como uma doutrina social ou outra poderiam auxiliar a alcançar fins que seriam de interesse da Igreja (com i maiúsculo, não é mesmo?). E não se engane: ambos movimentos eclesiásticos, tanto de direita quanto de esquerda, tem essa intenção: a agenda da esquerda busca dar dignidade através de políticas públicas; a agenda da direita busca dar dignidade através da liberdade e auto-determinação. O escopo é o mesmo, e são igualmente válidos. Mas mesmo assim, criamos problemas – não é todo mundo, da mesma forma, que está disponível, interessado ou que vê a importância desse envolvimento.

Foi quando arrendondamos nosso projeto de roda, e ficamos tão felizes por ele funcionar que não paramos pra pensar no que diabos estamos fazendo. As recentes cartas, manifestos e posturas, de todos os lados, mostram que o voto de cabresto ainda é uma realidade muito forte dentro das igrejas e movimentos eclesiásticos.

Se anos atrás lutávamos contra uma liderança que falava “vote em FULANO, porque Deus está com Ele”, hoje nos vemos em um jogo mais sujo: falamos em indiretas, nas entrelinhas. “Convocamos a assembleia dos santos a exercer sua cidadania terrena à luz de sua cidadania celestial”, “como cristãos, rejeitamos e denunciamos com veemência a corrupção, a iniquidade, a impunidade e o ataque ao Estado Democrático de Direito” – tudo isso ligado a um espiritualismo condenável, de orações, jejuns e até mesmo avivamentos.

Reinventamos a roda – mas trazemo-la mais maligna, mais dissimulada. Enfim, mais hipócrita.



Leia:

O Manifesto da Teologia Brasileira;

O Manifesto da Missão na Íntegra.

Igreja

essainternet



O messias de hoje não seria cristão. ‘É preocupante quando os principais valores que norteiam os cristãos nas eleições foram “alternância de poder”; “recessão técnica” e “revolução comunista”. Expressões como “fome”; “justiça social” e “verdade” passaram longe de qualquer corrente de whatsapp.

Engraçado reparar como os seguidores de Jesus conseguem se afastar da Bíblia em quase todas as escolhas sociais que precisam fazer: é só dar um palanque para um cristão para vê-lo cair.

Se seguidores de Jesus fôssemos, estaríamos preocupados não com a bolsa de valores, o índice de ativos ou o valor da Petrobras, mas com o nosso irmão que passa fome e sede. Não me recordo de Jesus estar preocupado com o alto preço dos cavalos (ou jumentos, já que o jumentinho era quase uma BMW, né?) ou com a exportação da safra de trigo.

Da mesma forma, Jesus estaria preocupado com o desemprego da população que o seguia, com os padeiros e os fazendeiros que tinham perdido todos os seus trabalhadores que passaram a “vagabundar” pela Galiléia, e não teria partido um pãozinho vagabundo e dado de comer e beber aqueles que o seguiam. Será que realmente os cristãos deveriam combater o bolsa-família, que dá estupendos setenta reais a quem cumpre uma série de pré-requisitos, e lutar para que as pessoas parem de ganhar o peixe e sejam ensinadas a pescar?

O movimento LGBT precisa ser detonado pelos cristãos para acabar com qualquer chance de ditadura gay. O casamento é só para nós, o Estado não deve servir para defender suas atitudes pecaminosas, assim como Jesus foi o primeiro a pisotear e apedrejar a mulher adúltera.

Às vezes, parece que a igreja é a corrente contra a qual temos que nadar, por mais underground que ela pareça.

Igreja

 AH

Mentiram para nós. Eu vejo agora e é como se estivéssemos olhando alguns anos de mentiras. Nós não somos nada. Não somos geração alguma. Deus não nos separou para conquistar o mundo, e Ele não reservou nenhum propósito dançante ou cantante. Não somos nós que vamos celebrar a glória ou vê-Lo saltando pelos montes para trazer os novos tempos. Não somos nós que vamos conviver com o reinado da besta, seja através de chips ou de códigos de barra implantados na nossa mente.


Não fomos nós que causamos a perdição, e não somos nós que traremos a salvação para toda a Terra. Lembra daquela conversa de “você é especial?” Não, você não é. É como qualquer outro, de Sete a Salomão, de Davi a Nicodemos. Você não vai comandar o Exército dos Exércitos ou advogar pela Salvação. Do jeito que lá vai, nem escudeiro de um soldado raso nessa guerra espiritual você vai ser.

Acostume-se com isso. Engula a verdade ao invés de se apegar às mentiras que têm nos sido enfiadas pela garganta nos últimos anos. Não vivemos tempos triunfalistas. Não somos o primeiro nem o último ano da seca ou das vacas magras. Estamos bem ali, no meio, onde ninguém lembra.

Somos uma daquelas gerações de Números ou de Deuteronômio que as pessoas insistem em não dar importância. Somos parte daquele povo que maldisse o próprio Deus enquanto caminhava no deserto, a despeito de toda a Glória nos nossos dias. Maldizemos o sol, embora ele seja a esperança de uma nova vida. Amaldiçoamos o calor, por mais que ele nos traga o caminho. Praguejamos contra o frio por mais que ele nos lembre do nosso foco. Se formos uma geração, somos uma geração inteira de Nínive, que não vale a pena salvar.

Estamos perdidos, e nos agarramos desesperadamente a uma crença de que estamos perdidos por algum motivo especial, fora a nossa própria torpeza. Vivemos como marionetes, comemorando anos de vida e fingindo que não estamos abraçando desesperadamente nossas teologias de libertação e consagração, como se elas se diferenciassem de qualquer outra brisa refrescante de doutrina velha com cara de nova.

É como se tivéssemos um ar-condicionado que só funciona a ventilação e fingíssemos pra nós mesmos que é pra isso mesmo que ele serve. Mas não é para isso que Ele está aqui. Não é para nos fazer ricos, nem para trazer dinheiro ao pobre. Não é para que sejamos felizes ou tenhamos um propósito de vida, como tanto sonhamos com viagens épicas ao Santo Graal da Verdade.

Se na Idade Média sonhavam com uma Verdade contida num cálice de ouro, hoje sonhamos com uma Verdade contida numa felicidade, num propósito que seja tangível – e estamos tão errados como sempre estivemos, desde que Moisés recebeu as leis até o surgimento de um cara que descobriu que era Deus porque sentiu que ele estava falando consigo mesmo durante uma oração.

Somos medíocres. Normais. E quanto mais cedo percebermos isso, melhor para a Igreja de Cristo.


Depois do show do Iron Maiden, da polêmica que todo show do Iron Maiden traz (banda satânica, cujos integrantes usam preto, cantam sobre o número da besta e comem morcegos vivos no palco*), começou a mania – ora, se a gente tá falando bem de alguém, necessariamente precisamos falar mal de outra coisa, senão o ciclo não completa, senão o universo entra em pane e Deus precisa reiniciar o universo e começar tudo de novo e tudo começou com o big bang BAAANG!

Então é claro, os cristãos reformados de Facebook, cujo Sola Scriptura inclui trechos descontextualizados de Calvino, Washer e porque não um pouco de Osho e sabedoria popular que ninguém sabe onde exatamente está na Bíblia, mas com certeza está lá em algum lugar? Esses mesmos, eu sei que você tem amizade com pelo menos um desses, se você não for, por sinal, resolveram que seria uma boa hora pra criticar o Rodolfo.


Afinal, Raimundos era uma banda que fazia parte da vida de quase todos os pré-adolescentes e adolescentes nos anos 90, e a saída de Rodolfo Abrantes foi o fim técnico da banda – que continuou (ou continua) como zumbi por aí. A conversão de Rodolfo ao protestantismo foi o fator determinante pra mudança na vida dele, e ele não achou espaço para a banda dentro da vida que se propôs a viver.

Então, parte do mundo, principalmente os crentelhos protestantes reformados metidos a besta, entendeu que o Rodolfo Abrantes se converteu, parou de fazer sexo, usar drogas, encontrou Jesus e falou pra todos os seus antigos amigos de mundo que eles todos iriam para o inferno.

Mas não foi lá bem isso que aconteceu, é claro que não. E é óbvio que nenhum dos crentelhos reformados de Facebook se dignou a pensar ou até mesmo (veja só) a consultar a Bíblia (pode até ser A Mensagem, cara) sobre o assunto porque, afinal, isso é o conselho que aquele seu (ex) pastor quadrado daria quando você ainda era um alienado que dava o dízimo.

Qual a diferença entre o baterista do Iron Maiden que se converteu e continuou a tocar na banda e o vocalista do Raimundos que se converteu e abandonou a carreira artística secular? Simples: eles são pessoas diferentes.

Vejam só, eu estou ruminando esse post desde que fui num show/pregação do Rodolfo Abrantes aqui em Uberlândia, se não me engano no final do ano passado (gratuito, por sinal).

O negócio é que o Rodolfo estava com a vida de ponta cabeça. Quase suicida, enfiado com a cabeça nas drogas, perdendo a mulher que amava (ou um dia tinha amado) e caindo na depressão (parece bem com alguém que morreu esse ano, né). O que ele precisava era respirar – e não tinha como respirar dentro do Raimundos – ou ele pulava fora ou teria o mesmo final do Chorão, pelo contexto que ele estava envolvido. Não é uma questão de religiosidade, mas de abstinência.

Ora, a Bíblia diz que somos livres – somos livres para fazermos as coisas que não resultem em pecado. Da mesma forma que, por exemplo, o meu limite de bebida é um limite X, o de alguém é dois goles de Heineken. E se esse alguém não consegue parar na primeira metade do copo de Heineken, burro seria de continuar indo em lugares e vivenciando situações que o levassem a consumir Heineken – ele não tem domínio próprio, não sabe se controlar ainda. E então o mínimo que essa pessoa deveria fazer, para não pecar, é parar de frenquentar o boteco da esquina com os amigos que conseguem beber a mais que ele e o incentivam a beber um pouco mais.

As cartas de Pedro falam muito bem sobre isso. Clamar por liberdade sem ter a responsabilidade para lidar com ela é ser escravo do pecado. Viva para ser livre, mas não use a sua liberdade para fazer o mal – seja aos outros, seja a si mesmo.

 Uma escolha. Se certa ou errada, acho que não há como definir. Uma escolha como todos nós fazemos, todos os dias. Algumas mais radicais que outras. Mas eu acho muito estranho um mundo no qual cristãos zombam de cristãos porque estes estão determinados a pecar o mínimo possível. Talvez nós pudéssemos Rodolfar um pouco, e nossa vida não fosse tão medíocre. Ou talvez, pensei que já tivéssemos parado de usar uns aos outros como parâmetros de vida para usar a Cristo – afinal todos nós somos medíocres igualmente, mas de maneiras diferentes, certo?

Discordo do Rodolfo em muitas coisas? Sim, claro. De sua teologia? Um tanto. De não gostar de tirar fotos com as pessoas e falar isso no microfone? Totalmente, acho babaquice pura. Por sair do Raimundos? Não.



*eu sei

Saiu primeiro no Twitter, depois invadiu o facebook e aí sim passou para os portais de notícias: Traficantes evangélicos expulsavam os membros do candomblé (praticante do candomblé parece errado, imagina praticantes do arminianismo – se bem que aí faz sentido) porque… sim.

Sim, a maior parte das igrejas que entram nas comunidades são neopentecostais, sim, boa parte das doutrinas neopentecostais se baseiam, entre outras distorções no evangelho, em um preconceito com religiões diversas, principalmente as de origem africana, e que os neopentecostais se afastam bastante de outras denominações protestantes já é bem sabido e espalhado por aí.


Mas o engraçado é que nos rincões evangélicos das redes sociais, nos becos protestantes diferenciados, aqueles mesmos, os diferentes porque não usam terno, os que não escolheram esperar e acham que são superiores, entre outras manifestações claramente espirituais que os tornam mais e melhores que toda a massa crescente de lixo que se tornou o universo, resolveram focar a parte dos traficantes evangélicos.

Não foram dois ou três tweets, não foram meia dúzia de comentários, mas uma avalanche de críticas ao fato de traficantes serem evangélicos. Claro, porque quem se converte, nunca mais pecará. Porque a vida de alguém que conheceu a Jesus muda de tal forma que ela não peca, não erra e não faz nunca mais nada de errado. Com certeza esses traficantes não entenderam o evangelho como nós, diferenciados, seres humanos dotados de intelecto superior, entendemos.

Afinal, eu nunca mais errei. E saí de todos os meus pecados e vicissitudes (olha só) automaticamente quando confessei que Jesus Cristo era Senhor e Salvador da minha vida.

Por favor, né…


Annie :(


Um dia acordei depois de sonhar que não estava aqui
num dia sonhei depois de acordar sentindo você aqui
nesses dias confundi ida e volta do caminho a seguir
me vi perdido estando tão longe e tão perto de mim

Pensei que estivesse errado,
talvez eu até tivesse viajado
sua história tivesse forçado
Acordei sem acreditar em você

Um dia eu pensei que pudesse ser diferente
– num sonho eu fugiria dessa vida indigente
mesmo envergonhado eu seria da sua gente
Meu salvador, agora estaria tão indiferente?

Nesse dia acordei assustado
com pensamento embriagado
pensando estar abandonado
Se não fosse você, o que seria de mim?

Nesse dia eu orei tão desesperado, pedindo
desse sonho acordei tão frustrado, clamando
busquei você onde eu achava estar, sofrendo
e quando quase desisti foi que te vi, sorrindo
Me chamando para mais perto de ti

Um dia acordei depois de sonhar que não estava aqui
Num dia sonhei depois de acordar sentindo você aqui
nesses dias eu te busquei onde ninguém mais podia ir
e te encontrei, junto com a paz que eu tanto persegui

Você nunca foi embora
e nunca vai me abandonar
mesmo que eu sonhe
ou até deixe de acreditar
você estará comigo
até quando paro de sonhar


Ontem foi daqueles dias que a gente sai cedo do serviço com um monte de planos na cabeça e milhares de coisas pra fazer que vão facilitar a vida daqui pra frente – aquela hora que a gente acha que tá entendendo mais ou menos como as coisas funcionam e temos algumas certezas sobre o que queremos e o que temos que fazer.

Mas aí caminho pra casa fui assaltado. Levaram celular, surgiu uma leve pancadaria por ali, mas tá tudo bem. Um dos motoristas que parou pra tentar ajudar ligou pra Polícia (ainda bem que eu nunca manifestei contra a existência da polícia ostensiva) e em pouco menos de cinco minutos que os três ladrões saíram correndo, uma viatura chegou falando que tinham enquadrado um grupo de moleques que a descrição batia, uns sete quarteirões pra cima de onde rolou a confusão toda.

Subi na viatura e fomos pra lá, dos quatro que tinham sido juntados, só um fazia parte do grupo que me assaltou, e outro parecia um pouco, mas eu acreditava que não estava, mas as características que passei pra PM na ligação, logo depois da correria batiam como uma luva. Por via das dúvidas, ele foi encaminhado pra PM também, junto com a mãe – claro que os três eram menores de idade.


Escrevo aqui não porque roubaram o meu celular, ou porque três ladrões decidiram começar uma briga contra um cara (que ainda não sou o Jack Chan, então levei a pior), ou porque eles eram todos menores de idade e não vão ficar presos.

O que me deixou esquisito mesmo foi ver a mãe de um dos guris, descendo a rua, desesperada, perguntando DE NOVO? pra ele. Eu vi todo aquela agonia que eu já vi várias vezes na cara das mães que acompanhei em alguns bairros da cidade com a igreja, senti aquela tristeza de já ter ido buscar menor em vários cantos da cidade – por estar na hora errada, com as companhias erradas – e sim, dessa vez ele não tinha culpa, não era esse guri mesmo.

Mas chegando na DP o PM me passou a ficha dele. Foi apreendido com uma arma paraguaia, que ia repassar pra uma boca-de-fumo, já foi pego com carteiras variadas – e a lista continua. Olhar pra mãe daquele guri, de cabelos brancos, mãos ásperas de quem fica na vassoura e rodo o dia inteiro, e o olhar de quem já não sabe mais o que fazer, mas ainda não desistiu do seu filho.

Não sei, isso me deixou ruim. O que fazer? Como fazer? Existe uma solução? Como trabalhar com uma família tão destruída, nessa altura do campeonato? Não sei, mas isso não sai da cabeça.

Por mais chavão que seja e menos sentido que tenha, a ideia de “menos religião, mais Jesus”, pegou em quase todas as igrejas. Religiosidade, farisaísmo, doutrinas judaizantes tem sido combatidas todos os dias, dentro e fora de templos e prédios.

Condena-se o uso de microfone, a disposição de cadeiras em auditórios, a sacralidade dos hinários, o uso de palavras excessivamente formais e o tratamento de Deus pela 2ª pessoa do plural (a saber, Vós). Até o uso de roupas sóbrias e estilo de cabelo virou estigma de religiosidade – andar com a bíblia debaixo do braço então, é coisa que nem se pensa.


O chato de ser contra a religiosidade através dos estigmas representados por ela é que a religiosidade não está em atitudes. Não é a atitude do fariseu de guardar o sábado em prol do Senhor que o tornava um religioso, e não foi por guardar o sábado que ele foi condenado por Jesus.

O farisaísmo não é, ao contrário do que se acredita e se prega, um conjunto de ações, mas de intenções e crenças deturpadas. Se guardar o sábado era um mandamento, o farisaísmo está em guardar o sábado com a convicção de que guardar o sábado me fará equiparado ao Senhor, e que apenas quem guarda o sábado será salvo.

Dessa forma, o problema não está em não assistir TV e ir em todas as reuniões da igreja – o problema é a motivação pela qual você faz isso. Não existe, portanto, uma liturgia que esteja a salvo da religiosidade, ou do farisaísmo, por mais descolada que ela seja. O farisaísmo está embutido em nós, na nossa falsa percepção ocidental de crença.

Usar camisetas com dizeres gospel, não ouvir música do mundo não traz nada de bom nem de ruim – são opções que cada um, na sua fé faz, e muitas vezes, a contracultura protestante tem sido muito mais farisaica em sua negação ao gospel e às tradições do que o movimento tradicional.

Não adianta ser livre para depilar as axilas se essa liberdade se volta contra quem não depila – e se torna uma obrigação de depilar. Não adianta ser livre para escutar música secular se nessa liberdade, há a pressão social que vai contra a música sacra tradicional – ou gospel.

Ser contra uma tradição apenas para fundar outra que seja de gosto pessoal, mas que continue a não refletir os ensinamentos divinos para a Igreja é tão ruim quanto permanecer sob uma tradição torturante.

Ao interpretar a lei, antes de falar qualquer burrada que vier à cabeça, lembre-se dos cinco anos que você passou com o nome na lista de presença da faculdade (já que pelo visto não estava em sala de aula, muito menos prestando atenção) e lembre-se ainda de manter suas convicções PESSOAIS longe da fiel interpretação da lei – assim como você diz mantê-las fora da sua interpretação bíblica.

Pensando nisso, lembramos também das aulas de Direito Constitucional nas quais professores, muitas vezes bizarros (devo confessá-lo) diziam que a lei (lato sensu, incluindo todas disposições normativas estatais e paraestatais assim consideradas) é o instrumento garantidor de direitos dados pela Constituição.


Não só isso, mas vamos também recordar daquelas longas e entediantes aulas de Direito Administrativo, que sempre eram dadas em grupos de três ou mais pra matar o dia de qualquer jurista, no qual, em algum momento, devíamos ter percebido que são raras as hipóteses que a lei confere o poder discricionário (ou seja, a liberdade de ação) a funcionários públicos – e mesmo assim, essa discricionariedade deve obedecer alguns parâmetros: conveniência (o que for mais fácil) e oportunidade (o que for melhor) – para a COLETIVIDADE.

Desta forma, queria acrescentar ainda que um funcionário público, no exercício de suas funções que negar a um cidadão o exercício de direito garantido em norma jurídica comete um crime – abuso de autoridade.

Pensemos, pois, que um escrivão cartorário vá fazer a escritura de uma doação de um terreno para uma igreja X (considere X como a sua religião/comunidade/Jesus-porque-Jesus-não-é-religião favorita). Vendo que a doação vai para uma instituição religiosa o nosso amigo escrivão se nega a passar a escritura (ou seja, no exercício de suas funções, nega o exercício de um direito garantido em norma jurídica), porque, por ser ateu, acredita que instituições religiosas servem apenas para lavagem de dinheiro.

É claro que esse escrivão está cometendo um crime – ele está sendo contra a liberdade religiosa daqueles que tem o direito de cultuar ali, e que cumpriram todos os requisitos da lei. Não existe como o escrivão se recusar a isto em nome de uma crise de consciência ou de crenças (ou descrenças) pessoais.

Então amigos, quando um escrivão que é cristão se nega a casar homossexuais, ele está cometendo um crime. Não, ele não tem a liberdade religiosa pra fazê-lo, porque no exercício das suas funções ele não é Fulano, cristão, com X anos. Ele é a própria Administração Pública personificada.

Quem condena à prisão não é José da Silva, 45 anos, presbiteriano. É o Estado. Quem os declara casados não é William Resende, cristão neopentecostal. É o Estado. Se o tal escrivão Fulano, cristão, enquanto escrivão, não quiser realizar casamentos homoafetivos, ele deve sim, ser preso, julgado e condenado – assim como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.


Ao menos, eles tinham total certeza do que estavam fazendo, e pra eles, mesmo que morressem na fornalha, estavam com a sensação de dever cumprido – não pediram direitos de religião, não pediram habeas corpus nem falaram que Deus ia condenar o mundo. Sequer foram jogados na fornalha – andaram por si só até lá.

Desta forma, se um escrivão cristão não quiser ser processado, julgado e preso, deve pedir para ser realocado em outra repartição. Simples assim.

Pegue Sócrates e Jesus, vamos manter nesses dois caras. Os dois foram expoentes que mudaram completamente as suas áreas. Sócrates modificou totalmente a filosofia com seu método didático de produzir conhecimento, Jesus revirou a teologia dando uma nova percepção à lei judaica.

Mas as semelhanças não param por aí – ambos sabiam que o que estavam propondo era além do que os sábios de sua época iriam aceitar, e nem perderam tempo escrevendo ou teorizando justificativas para suas proposições. Ao invés disso, a praticaram – mas se não escreveram teoricamente nem deixaram um passo-a-passo do que pretendiam e como chegar lá, como sabemos hoje do Messias cristão e do método socrático, como podemos conhecê-los cientificamente, já que tudo que temos são relatos de pessoas impressionadas com o absurdo que estavam a ver e ouvir?


Não temos. Tanto para Sócrates como para Jesus, tudo o que temos hoje é mais pessoal do que científico – por mais que os discípulos de Sócrates tentassem manter a racionalidade e o método a dissertar sobre seu mestre tagarela. Tanto os discípulos de Sócrates quanto os apóstolos escreveram sobre o que viam de seus respectivos mestres de uma maneira pessoal, tangível, carnal – humana. Não imparcial e genérica como se propõe a ciência.

O que eu quero dizer? Que a filosofia de Sócrates e a teologia cristã não são ciências? Claro que são. O problema é que o método científico não basta, não é suficiente para apreender todo o conhecimento filosófico e teológico.

Tanto a filosofia como a teologia tem por fim mudar o homem – uma a partir de uma reflexão sobre si mesmo partindo para todas as coisas(de dentro pra fora), outra a partir de uma reflexão sobre todas as coisas e seu surgimento para si mesmo (de fora para dentro).  Ambas visam mudar o seu objeto – que por acaso, é o próprio pesquisador/pensador/observador.

E isso é mais do que ciência.