A crença de que conversão é algo mágico e que a nossa oração vai converter o mais cínico dos agnósticos é que coloca todo o Evangelho em cheque. Sabe o que a oração ungida, de fé, feita no alto do monte, no pé da goiabeira ou no escuro dos eu quarto faz? Isso mesmo: nada.


A oração é uma ferramenta pra nos tornar menos estúpidos, um momento que pedimos para Ele nos revelar o porque estamos passando por aquilo, e como estamos passando, além do o que devemos fazer. Utilizá-la pra qualquer outra coisa é inútil como usar amaciante em pó pra matar formigas: gasta tempo, gasta dinheiro e não resolve nada (mas deixa tudo macio e cheiroso).

“A oração move a mão de Deus” – move é minha mão pra dar um tapa na sua testa. As características onipotente e onisciente e o Amor de Deus já trazem pra nós que as Suas ações para conosco são as melhores que podemos ter. Falar “a oração move a mão de Deus” é dizer que:

(1) a vontade dEle é mutável;

(2) a vontade original dEle era ruim;

(3) conhecemos mais que Deus;

(4)sabemos pedir bem.

É de uma arrogância e prepotência impressionante. E aí. Já moveu a mão de Deus em seu favor hoje?

Desde ali o começo dos anos 90, quando cresceram as igrejas baseadas em lideranças únicas ainda vivas que começaram a se envolver mais com a comunidade na qual estavam inseridas, o evangélico começou a ter uma ou outra cara os representando. Não por uma votação, mas por uma participação mais ativa, que ia totalmente de encontro com a maneira de se fazer igreja até então.

Com o avivamento, veio a hiperatividade e o impacto na sociedade – de repente caiu a ficha de que a igreja não deveria ficar só entre quatro paredes nos sábados e domingos, mas que deveria fazer algo no resto dos dias, além de trabalhar, estudar e dormir. E aí essas igrejas baseadas em apenas uma figura tornaram-se referencial dos novos evangélicos, e essas pessoas os representantes naturais.


Temos aí Edir Macedo, R. R. Soares, Valdomiro Santiago, René Terra Nova, Silas Malafaia e uma galera que começou a despontar com seus ministérios atuando de uma forma na sociedade que nunca tinha sido visto alguma religião fazer em terras tupiniquins. Com exposição em mídia, com agitação em eventos, com congressos, passeatas e manifestações que quebraram o conceito antigo de tradicionalismo aos quais os evangélicos ainda eram vistos (sim, houve uma época que ser evangélico significava ser passivo a ponto da omissão).

E surgiram os vários representantes do povo evangélico e do Brasil Cristão – a entrada na política é uma evolução natural para um povo que acabou de se reunir com interesses em comum.

Interessante, evolução, natural, faz parte, e hoje mesmo essas mesmas lideranças são motivos de crise dentro desse povo que se via como (ou agia como se fosse) um só. E aí hoje os evangélicos reformados, neoreformados, vendo essa crise e se sentindo mal-representados, tentam desesperadamente juntar-se em um grupo para levantar novas lideranças que as representem melhor.

Representantes estes que serão tão bons quanto o Silas já foi, aclamado em mesas de suco e de refrigerante por todo o país, por tatuados e por usuários de gravatas. O problema é que não perceberam que o problema não eram os líderes antigos, e esses mesmos problemas vão se repetir. O problema é levantar representantes, como se fossem um padrão a se seguir, ou um padrão do que se é.

Se houve uma coisa que o povo judeu não aprendeu durante toda aquela viagem que foi o Antigo Testamento, que os Apostólicos Romanos não entenderam e que nós Protestantes ainda não conseguimos sacar é que a representação não só é desnecessária, como atrapalha.

Os evangélicos não precisam de representantes melhores de sua fé. Os evangélicos precisam se representar melhor, individualmente. Não precisam levantar novas figuras underground, emergentes ou neoreformadas. Precisam ser melhores, e cobrar de si mesmos e uns dos outros posturas melhores – para que individualmente, esse esforço faça a diferença, de um em um, e assim como o Evangelho no primeiro século, esse vírus contamine indivíduo a indivíduo, formando um corpo só.

Um spammer me mandou a algumas horas atrás um vídeo em que ele pregava no Youtube – e eu não vou nem comentar o tanto que me chateia crente fazer SPAM, porque ao invés dos incrédulos que sabem que estão sendo cretinos e querendo só mais alguns centavos no adsense, o cristão nem uma mania de querer dizer que está espalhando a palavra de Deus, como se Jesus tivesse espalhador vários panfletos por Jerusalém.


Mas o mais interessante é que a pregação era sobre dar seus bens aos pobres, assim como Jesus recomendou ao rapaz rico. Nessa pregação, ele tocou em dois pontos muito importantes, um indiretamente e outro de maneira direta, que eu vejo como problemáticos no jeito de se fazer igreja que adotamos por aqui.

O primeiro, direto, é voltar a pregação do dar tudo o que tem para dois públicos: o que tem dinheiro (e os pobres ficam necessariamente esperando que os ricos deem todos os seus bens, para fazer uma certa justiça social dentro da igreja, pra todos viverem com pouco) e os que acham que dar tudo é dar dinheiro (como se Jesus fosse apenas o precursor do comunismo). Uma visão assim transforma a igreja em um tipo de ONG deficiente, na qual os mais pobres vêm buscar cestas básicas e artigos de luxo e os mais ricos vêm satisfazer a sua culpa capitalista, por ter mais que os outros.

O segundo, e indireto, é que os mandamentos não são cláusulas de um contrato assinado com a Trindade em realizar todas aquelas atitudes pela sua permanência no Livro da Vida. Sem entrar em picuinhas entre calvinistas e arminianos aqui, a Salvação é uma Graça. Não é cumprindo uma série de pré-requisitos que você vai conseguir ir para o Paraíso. Não é se obrigando a dar o dízimo, se obrigando a ir à igreja, e se obrigando a parar de falar palavrão e suportar (no pior sentido da palavra) os irmãos que você vai conseguir ou deixar de conseguir algo.

Se Ananias e sua esposa foram mortos não é porque deixaram de dar parte de seus bens, mas porque mentiram, fingindo ser parte de um Corpo que na verdade não eram. Naquela mesma igreja, tenho absoluta certeza que pessoas não venderam seus bens e continuaram fazendo parte da igreja, vivinhos da silva e que ninguém tinha motivos pra duvidar que logo logo estariam sendo servidos de danoninho no banquete inaugural do paraíso.

Os mandamentos não são cláusulas contratuais da Agência de Turismo Vamos Ao Céu Com O Pastor [insira um nome aqui] que se você quebrar, a salvação estará anulada. Os mandamentos são linhas-guia que vão guiar a mente já transformada pela conversão à Cristo Jesus em sua caminhada.

Afinal, as placas de trânsito só auxiliam e dão o caminho para quem está em uma determinada direção – quem está na contramão não as vê.

Toda discussão que tem um evangélico enfiado no meio, seja como parte da discussão ou apenas assunto, se vira pro mesmo canto: a isenção fiscal de igrejas. Porque pastores são corruptos e roubam dinheiro, porque a isenção é uma injustiça, porque tudo faz e acontece de um modo impressionante.

A pergunta é: a isenção de impostos é um instituto válido?


Primeiro a gente precisa pegar alguns pressupostos constitucionais, através dos quais poderemos analisar essa pergunta de uma maneira mais consistente. Um deles é a equidade, que diz que devemos tratar de maneira a trazer uma igualdade material, não apenas uma igualdade formal (por exemplo, não adianta você disponibilizar uma prova de 0 a 100 pra duas pessoas diferentes, uma com 10 anos de escola e outra com 2 – isso é igualdade na forma, mas não é igualdade de fato).

Outro, que é o fundamento da questão é a proteção constitucional à liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (como diz o sempre citado art. 5º). Veja bem: não é apenas uma liberdade de religião. A constituição assegura o exercício e proteção aos locais de culto – assim como a liberdade de crença (o que libera também o ateísmo, ou a não-crença).

Isso quer dizer que precisa-se proteger a existência de cultos – mesmo que sejam poucos seus praticantes ou eles estejam morrendo. É por isso que o art. 150 da Constituição proíbe de se tributar os templos de qualquer culto. Então se fala em imunidade tributária, não isenção (só uma diferença conceitual que reprova muita gente em direito tributário).

Claro, existe gente que se utiliza disto para fazer cretinices e lavar dinheiro? Sim, e não é à toa que o Ministério Público entrou com ação contra as igrejas Universal, Internacional e Mundial (o trio de ferro neopentecostal) por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, entre outros crimes.

Mas qual seria a solução? Deixar isso rolar, e esperar as ações judiciais terem algum resultado e servirem de lição? Eu acho que não, e nunca discussão no Facebook, o Bruno Braz deu uma ideia um tanto quanto óbvia, mas com uma pitada de genial, já que eu nunca tinha ouvido falar em algo parecido: fiscalização dos recursos.

Ora, a imunidade se dá pelo caráter de culto, sem fins lucrativos, certo? Se a transparência for instituída obrigatória assim como é nas ONGs que utilizam recursos públicos, ela vai coibir essa safadagem que acontece em algumas igrejas – embora não vá criar automaticamente vergonha na cara de todos os envolvidos.

Mas pelo menos, diminui, e ajuda o MP a processar quem deve.

Acho maior engraçado uma inconsistência no nosso vocabulário cristão do dia-a-dia. Não to falando só das igrejas evangélicas tradicionais e das neopentecas não, to falando de uma expressão que a gente carrega há muito tempo, e não foi a igreja em células, a igreja emergente, a desigreja ou qualquer outro movimento que eu tenha conhecido nessa minha curta caminhada por essas quebradas tenha mudado isso.


O engraçado é que todo mundo sabe o básico, mas não reflete sobre ele, como sempre – é a maior causa da inconsistência no discurso dos cristãos, ter decorado alguns fatos e algumas premissas, mas não chegar a pensar e trabalhar com eles para concluir algo novo. A fé que não pensa, que só aceita, a reprodução dominical da escola de segunda-a-sexta.

Todo mundo sabe que a Igreja é um corpo, mais especificamente o corpo da Noiva de Cristo, do qual somos membros, membros desse corpo, complementares e unidos em um só. E estamos assim, meio esquizofrenicamente e meio tropeçando, mas o Senhor tem trabalhador pra edificar a sua Noiva e casar-se com ela.

O que me faz coçar a cabeça e não entender nada do que tá acontecendo às vezes é o seguinte: quando uma pessoa sai da igreja e se desvia ou volta pro mundão ou simplesmente não quer mais estar ali, as pessoas tratam e falam que a pessoa se perdeu, como se só a pessoa tivesse perdido algo. Não, não foi. A cada membro que desvia, a cada membro que sai, a Igreja é amputada, e se você não acredita que aquela pessoa, ao sair, fazia parte do corpo de Cristo, pelo menos a Noiva perde potencial, perde força.

Somos nós que estamos errados quando alguém se desvia. É o corpo que rejeita o enxerto e promove a necrose de um membro. Somos nós que apodrecemos esse fruto, no dia-a-dia, em todos os momentos. Seja não tendo o fruto do Espírito, seja não dando atenção, seja não percebendo o que estava na nossa cara. Nós matamos a nós mesmos diariamente.

Somos o câncer da igreja, e contaminamos os outros membros. A não ser que sejamos tratados logo. Somos o câncer da Noiva, que cresce maestralmente e quer fazer tudo que não temos e nem sabemos fazer. Somos o câncer do Corpo, e nosso ego é o DNA defeituoso.

Cinco pessoas morreram ontem à noite. Três abortos aconteceram no Hospital Municipal. A igreja teve nove visitantes. Doze pessoas deixaram de frequentar o culto nas últimas semanas. Aumentaram em 58% os casos de dengue na cidade. Dois namoros terminaram na timeline do facebook. Sete pessoas foram hospitalizadas depois de quebra-quebra após clássico de futebol.


Muitas estatísticas e dados que podem nos ajudar a obter um panorama geral da sociedade. Hm, a criminalidade aumentou – está mais perigoso andar na rua hoje que há 5 anos atrás. Hoje menos gente morre de pneumonia que há uma década, e a mortalidade infantil diminuiu. O tráfico, porém, continua invadindo casas e famílias, quebrando cada vez mais vidas, e em ritmo alucinante.

Dados como esse preocupam, trazem felicidade e nos sensibilizam até a próxima manchete ou a próxima virada de página. Números não são necessariamente frios, mas não nos impactam tanto quanto os dados que eles expressam. Não adianta saber todos os dados e como as coisas operam, não adianta desenvolver as fórmulas e entender o processo de evolução de um mal na sociedade, se não nos sensibilizamos com ele.

Só nos sensibilizamos com o câncer quando alguém do nosso meio é diagnosticado. Só nos sensibilizamos com a mortalidade infantil quando um casal conhecido perde um bebê. A sensibilidade só vem quando temos contato com a realidade, por mais esclarecedores que os números sejam.

Quando as estatísticas deixam de ser apenas números, mas conhecidos, mas amigos e pessoas do nosso círculo social, aí sim elas conseguem cumprir seu papel fundamental – conscientizar e sensibilizar.

E a igreja institucional tem seguido o caminho exatamente oposto. Ao invés de subjetivar os números, tem quantificado as pessoas. Não, não é assim. Foi o Matheus que faleceu ontem à noite. A Jaqueline, o Bernardo e o Eliel que se converteram e têm frequentado os cultos com a gente. O Túlio e a Marina que perderam o bebê, repentinamente. Fernando sumiu – sem explicações.

E quanto mais nos envolvemos com as pessoas, mais os números parecem fazer sentido e estarem em consonância com a realidade – o Matheus faleceu porque um motorista bêbado estava mais preocupado em tirar a tampa da garrafa de vodka do que olhar se o carro estava saindo da pista, e a lei seca começa a fazer mais sentido e a igreja precisa fazer algo em nome disso; Jaqueline vem de longe, pega três ônibus pra chegar aqui, como podemos ajudá-la, e vocês sabiam que o Bernardo acabou de chegar na cidade e não tem um emprego, e puxa vida o Eliel vem de uma família cheia de problemas, o que fazer, precisamos ajudar esses três; Túlio e Marina são daqueles casais com problemas para engravidar, e já estavam com o enxoval do bebê todo montado, como podemos ajudar esse casal em luto, como ser luz numa casa e não deixar a depressão tomar conta da vida conjugal?; o que será que aconteceu com Fernando pra que ele largasse de conviver com a gente, ele era tão frequente, duas semanas atrás até me ajudou a carregar as caixas de som pra montar o palco novo que a gente ganhou.

Pessoas de verdade. Problemas de verdade. Não estatísticas num papel.

 

Eu já falei algumas vezes que não gosto de misturar política com religião, e que tenho alguns pés atrás (não são só um ou dois) com candidatos evangélicos, ou pior: missionários que se candidatam, deixando o seu chamado evangelístico de viajar pelas nações em segundo plano. Mas fazer o quê, cada um tem a sua opinião e o mundo segue em frente – só devo discordar novamente de quem diz que é necessário ter um evangélico no poder para garantir nossos direitos e ajudar a igreja, e a história e a própria bíblia colaboram contra isso.


O negócio é que ser um político cristão, e agora estou falando em um político eleito, independente da campanha que você tenha feito, significa, necessariamente ou que você é um péssimo político ou que você é um péssimo cristão. CALMA, CARA. Antes de me xingar e comentar dizendo que parou de ler aqui, force um pouquinho o seu cérebro que ele pega no tranco, pra você poder discordar de mim com argumentos.

Primeiro porque ser representante do povo é diferente de representar uma classe específica – por exemplo, o cargo de vereador existe para fiscalizar, reger e cuidar do bem público, dentre outras maneiras, legislando assuntos de interesse local. Sim, é claro que um vereador cristão está duplamente legitimado (pelo seu cargo e sua religião) a colaborar com os mais necessitados, a buscar maior justiça social e zelar pelo bem comum. O problema do bem comum é que ele pode, e muitas vezes vai contra os interesses da igreja.

Fazer um show evangelístico é legal, é bacana, a igreja quer, mas não é toda a sociedade que apoia – poxa, vereador, tá sendo contra a igreja? Por outro lado, usar a sua influência como político para conseguir um local pra fazer show, utilizar recursos públicos, descolar uns alvarás aí, é ser um péssimo político, que usa a máquina pública em interesse próprio. Com prefeitos, piora – e a cada nível hierárquico da política, concessões em nome da igreja ou em nome do cargo terão que ser feitos.

A Igreja não precisa de ter quem a defenda na política e não tem interesse algum que seja relevante para o Estado proteger. A Igreja não precisa de recursos públicos pra fazer o bem (fazer boa ação com dinheiro dos outros é mole, né, qualquer ONG que pega recurso público faz). A Igreja não precisa ter alguém pra sobreviver, conseguindo alvarás à torto e à direito pra ficar mais confortável em seus processos.

Na verdade tudo isso acaba matando a igreja. Pense antes de votar num político cristão. Pense antes de apoiar um candidato evangélico – você pode estar matando sua igreja, não ajudando-a.

Tinha um filme bem bacana, que eu vi uma vez no SBT – sente a depressão. Deve ter uns três ou quatro anos, e mudou bastante a minha concepção de Judas, e chegou a fazer mais sentido depois que, conversando com o Ariovaldo sobre Lady Gaga (pelo menos não era Nicky Minaj, né?), as coisas começaram a se encaixar.


O filme, chamado Judas e Jesus – a história da traição, é algo mais pra ser levado como uma possibilidade para abrir a mente do que como uma verdade absoluta contrastando com o mito de que Judas era praticamente um demônio, e mostra um rapaz cheio de boas intenções mas que não entendeu nada do que Jesus estava propondo – como muitos de nós boa parte do tempo.

O que Judas ansiava, segundo o filme, era uma entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, com um exército para que, tendo o poder político, a mensagem do Evangelho se espalhasse mais rápido e com mais apoio. Era mais ou menos o que os judeus esperavam de um Messias, pra falar a verdade – alguém que viesse como Rei, governar seu povo e libertá-los dos romanos, mais ou menos na mesma pegada de Moisés com os egípcios, mas de preferência sem 40 anos de caminhada.

E quando eu olho essa história, faz sentido a traição. Faz sentido Judas entregar Jesus para que então, Jesus fosse forçado a mostrar o seu poder, porque daí, se estivesse nas vias de ser morto, Ele iria lutar pela sua vida – só que não era bem o plano de Jesus continuar sua vida e seu ministério. Judas então passa a ser não um demônio, mas uma pessoa que assim como nós, muitas vezes seus defeitos e anseios de grandeza tampam nossos olhos.

E até hoje vemos lapsos deste mesmo Judas em todos os cantos – buscando um Jesus forte, uma nação e instituição poderosas para que aí então vá alcançar os povos. Precisamos de evangélicos fortes no poder; precisamos abrir instituições com CNPJ para conseguir imunidade tributária; precisamos de ONGs para conseguir recursos públicos para fazer o bem à comunidade; precisamos de um prédio bacana, com ar-condicionado, som zero bala e refletores (de preferência alguns lasers) pra atrair a galera e fazer algo massa. São tantas necessidades de grandeza e de poder que nós procuramos que cada vez mais parece haver menos de nós e mais dele – de Judas.


Eu não quero ter um salário confortável pra aí sim poder me dedicar. Eu não quero ter uma família formada, estável, pra aí sim me entregar. Eu não quero lutar por direitos dos evangélicos ou cristãos em geral. Eu não quero ser um paladino da justiça que defende Yaweh dos comentários da ATEA. Eu não quero ganhar a minha vida – eu já a perdi.

Quando eu era pequeno eu acreditava em muitas coisas. A gente gosta de acreditar cegamente quando é criança, né? É incrível como a curiosidade insaciável de uma criança consegue conviver pacificamente com a lenda de uma fada que troca dentes caídos por presentes. A criança não acredita que o fogo machuca, mas acredita sem a menor sombra de dúvidas de que existem monstros horripilantes que surgem magicamente no escuro e vão, sem motivo algum, comê-las – ou pior, levá-las embora pra um lugar completamente desconhecido.


Quando eu era pequeno eu acreditei numa história dessas. Não dessas de Papai Noel, Fada dos Dentes, isso é normal, faz parte da vida. Eu acreditei, cara, eu nem sei como eu consegui acreditar nisso – mas um dia eu já acreditei que a predestinação era uma posição confortável. Já acreditei que o calvinismo fosse uma desculpa pra deixar rolar, já que tudo tava definido mesmo.

Ah, ser eleito – como se tivesse algo de especial, ou algo de bom em mim que fizesse não só o sacrifício de Cristo valer a pena, mas que eu merecesse ser reconhecido por Ele – eu não tinha entendido nada. E ainda tem gente que acredita que o calvinismo é esse conto de fadas. O problema, amigos, é sempre o mesmo – foco.

A questão da predestinação não está focada na meritocracia, como nós estamos condicionados a acreditar. Não é o que fazemos ou o que deixamos de fazer (Efésios 02:8,9) que nos coloca ou nos tira do Livro da Vida, que já tá escrito desde o princípio dos tempos.

Não importa o que eu faço, eu continuo podre o bastante para ser lançado no inferno de cabeça pra baixo – mas mesmo assim Ele me amou a ponto de se entregar para me salvar. Esse amor constrange. Saber que não vale a pena sob nenhuma ótica de justiça humana e tentar entender a perfeita compaixão e amor deste Deus que se entregou pelas suas próprias criaturas – para que pudéssemos chamá-lo de Pai e contemplá-lo em sua plenitude.

O Sacrifício não foi para que fôssemos santos, mas para que pudéssemos sê-lo. Vamos pra um ponto a ponto da coisas mais idiotas que o senso comum diz sobre o Calvinismo.

1-    A Predestinação Calvinista tira a responsabilidade do homem.

Responsabilidade de quê? De sua salvação? O homem não é capaz de se salvar, sob uma perspectiva calvinista. O homem é um animal totalmente depravado, incapaz de fazer algo de bom por si só. É por isso que as crianças são egoístas e tendem a não compartilhar suas coisas; por isso que tendemos a garantir a nossa vida, mesmo que isso signifique a morte de (muitos) outros. Então sim, o homem não tem a menor responsabilidade sobre a sua salvação – ela é totalmente vinda de Deus, e se não há nada que nós podemos fazer para pagar por ela, sendo então o sacrifício de Cristo ABSOLUTO, e não desnecessário.

2-    Quem está predestinado não precisa fazer mais nada para ser salvo.

Essa é uma visão parcial – e como toda visão parcial ela é, no mínimo, tendenciosa. Depois que nós somos invadidos pelo Espírito Santo, tomamos consciência de como o sacrifício de Jesus é grande, é forte e poderoso e que só Ele pode nos salvar, e o reconhecemos como Senhor e Salvador das nossas vidas, nós não precisamos fazer nada mais para sermos salvos. Isso é bíblico, não calvinista. A necessidade de se obrigar as pessoas a fazerem algo não é bíblica, é costumeira de uma igreja que necessita de estar em constante crescimento, com salão sempre cheio e cada vez movimentando mais dinheiro para sobreviver e poder atualizar suas planilhas de metas. Nós fazemos o que fazemos não porque somos obrigados por Cristo. Mas porque somos constrangidos pelo seu Amor a fazê-lo. A nossa gratidão não nos deixa falar de outra coisa a não ser do Reino – mas á algo que vem de nós naturalmente, porque estamos cheios do Espírito.


3-    Jesus não morreu por todos, só por alguns.

Se apenas alguns vão ser salvos, e são só os eleitos, Jesus morreu por alguns apenas, e não por todos. Claro que não. Essa lógica não faz o menor sentido. Todos serão salvos? Não. O sacrifício de Cristo paga por todos? Sim. Cristo morreu por todos para que alguns sejam salvos. O Sacrifício dele é perfeito e basta para todos, mas apenas aqueles que reconhecerem que Ele é o Salvador etc etc etc.

4-    Considerar que existem eleitos e não eleitos é dizer que alguns irão para o inferno – e isso é negar o Amor de Deus.

Calma lá. Deus é Amor, e é Justiça. A Justiça é o sacrifício, sacrifício feito por Cristo pelos nossos erros. Assim como um ladrão precisa passar pelo processo jurídico e cumprir sua pena perante os homens para ser livre novamente, assim o sacrifício era requerido pela Lei – e foi oferecido por Cristo. Justiça de Deus seria mandar todos para o inferno, porque somos todos merecedores da condenação eterna – pela nossa depravação carnal. Não existe nada de bom em nós sem Ele. E a compaixão é oferecida pelo sacrifício de Cristo.


O calvinismo não é uma doutrina perfeita. Nenhuma é. É preciso criticar e julgar todas as coisas, mas para isso é preciso conhecê-las.

É fácil proibir a imoralidade. Votar e aprovar leis pela moral e bons costumes, até o Rio de Janeiro fez isso logo antes do Carnaval, e até então tudo continua na mesma coisa. A excelentíssima deputada Myrian Rios fez isso e foi dormir tranquila, com o coração leve de quem tinha acabado de salvar o mundo, enquanto para além dos muros de sua pacata residência tradicional, nada tinha mudado – simplesmente por não ter o que mudar, conforme eu analisei a lei jurididicamente.


Os cristãos parecem ter perdido o foco, não sei se é algo que tem a ver com essa geração como uma coisa inteira e mais ampla, além de cristãos ou se é só um ensino teológico deficiente mesmo. Assim como Malafaia não sabe contar as referências de Cristo à céu e inferno, conseguindo o impressionante feito de falar bobagens cientificamente, teologicamente e linguisticamente em uma só entrevista, parece que a grande maioria cristã não sabe, ou se perdeu do foco de Jesus.

A luta de Jesus não era contra o pecado. Os cristãos se isolaram em bunkers e criaram exércitos de Jesus que desfilam com suas roupas estilizadas e diferenciadas assim como jovens militantes de uma causa maior que sabem que são melhores que os outros. Assim como as crianças do mundo criado por George Orwell em 1984, buscam limpar a sociedade dos erros, mas da maneira equivocada, combatendo as consequências, não as causas. O pecado é consequência da crise, e não a crise consequência do pecado.

A luta de Jesus não era contra o pecado. Essa luta é nossa. É minha, é sua, é individual. Mas você só pode lutar contra o seu pecado, não contra o pecado do seu irmão – você pode pedir ajuda, vocês podem orar juntos, ele pode te ensinar, te mostrar e te dar o grito na última hora, mas ele não pode te proibir de cometer o erro. Até porque evangelizar não é arrancar o pecado dos outros – se fosse, nenhum cristão teria sido de fato evangelizado, já que todos pecam (assim, estou falando por mim, claro).

A luta de Jesus não era contra o pecado. Jesus não veio ao mundo morrer para simplesmente exterminar o pecado de nossas vidas. O fim do pecado não é o objetivo de Cristo, e, se você tem lido a Bíblia segundo essa premissa, você não entendeu muito bem o significado do livro que você carrega. O fim do pecado é consequência do que Cristo te oferece.


Jesus veio pra livrar os homens de si mesmos – de suas crises. Jesus veio nos libertar de nossas crises. Tanto faz se tal comportamento, ou tal atitude, ou tal orientação é pecado ou não. Jesus não veio pra você deixar de ser cretino, mentiroso ou babaca. Jesus não veio declarar que os demônios não tem mais poder sobre sua cidade. Jesus não veio pra libertar você de suas doenças físicas ou psicológicas. Jesus não veio te trazer alegria, dinheiro ou tudo que você quiser (sim, a Xuxa estava errada, mas acho que isso todo mundo já sabia).

Jesus veio pra te dar algo maior que isso tudo. Jesus veio te libertar de todas as suas crises – e com isso te apresentar um novo jeito de você viver sem precisar de sofrer todos os momentos. Jesus veio te libertar dessas crises pra que você possa viver plenamente sem o pecado. Pra que você possa, finalmente, ver a criação e admirá-la. Com todos os problemas, todos os surtos, todas as dores de cabeça, mas com uma visão diferente. De que o pecado é algo totalmente dispensável da sua vida, e que você pode viver sem ele – e sem mais uma série de coisas que pode ser ou não pecado.

"Eu não vou mais pecar Eu não vou mais pecar Eu não vou mais pecar Eu não vou mais pecar Eu não vou mai..."

Tanto faz se roubo, mentira, adultério, jogar lixo no chão, usar drogas ou transar sem camisinha é pecado. Jesus não veio pra te passar um caderno de caligrafia e te fazer escrever no quadro cem vezes o que é certo e o que é errado. Ele veio pra muito mais do que isso.


Ele veio pra te libertar, e Ele morreu pra que você possa ser pleno. Pare de fazer justiça em nome de Jesus. Nem Ele nem a sociedade precisam da sua justiça.