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Extra noticia possibilidade de privatização em outubro de 2016 Exame anuncia a proposta do governo de privatização da Casa da Moeda em Agosto de 2017

É tanto prenúncio de caos que quando as bombas começam a estourar, fica difícil lembrar exatamente quais são todos os riscos que o Governo Federal está assumindo. Hoje foi anunciado que pretende-se privatizar 14 aeroportos, uma loteria, rodovias, a Eletrobrás, uma usina da Cemig e, pasme – a Casa da Moeda.

O assunto, até então considerado lenda urbana de partidos esquerdopatas que beiravam o fake news. É, o dia aconteceu – e acredito que não há ninguém rindo.



Como tudo começou

Os prenúncios ficaram mais fortes no segundo semestre de 2016, já no Governo Temer, quando um pequeno desmonte foi mostrado. Peguei de exemplo a matéria do Extra que me pareceu bem completa (a primeira imagem acima), que nos traz as seguintes informações:

  • A falta de recursos para a Casa da Moeda data de 2013, ou seja, parte do 1,5 governo Dilma;
  • Começou-se em outubro do ano passado um programa de demissão voluntária para diminuir os custos;
  • Retirou-se, através de MP, em outubro/16, a exigência do selo de autenticidade das bebidas alcóolicas (os quais eram impressos pela Casa da Moeda – eu não sabia, reconheço)
  • Retirou-se, na mesma data, a exclusividade de produção de moeda da Casa da Moeda, possibilitando a terceirização de parte da produção.

O presidente da Casa da Moeda à época, Alexandre Cabral, sabe a quem culpar pelo enxugamento ainda maior de recursos: “Ainda temos uma previsão de cortes em função da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Teto dos Gastos Públicos. Nosso papel, diante dessa situação, é nos ajustar.” – aquela que também colocou limites nos gastos com educação (e está causando crises nas IFES) e saúde (causando cortes como da farmácia popular).

Na verdade, veja que ironia: um comentarista do Jornal GGN, cujo conteúdo passa de duvidoso, profetizou essa mudança ainda em 2015, como pode ser visto na imagem abaixo:

Rony Morre comenta em notícia no dia 19 de agosto de 2015: "Daqui a pouco vão dizer que a Casa da Moeda deveria ser privatizada também"



Mas como assim, empresas privadas emitirem dinheiro? Existe isso?

Em 2011, segundo levantamento publicado pelo jornal Slate (em inglês), metade dos 171 países terceirizava a produção de cédulas, e entre 10 e 20% da moeda que circulava no mundo era produzida por uma empresa privada. Só que terceirizar a produção de cédulas geralmente é algo parcial, não completo.

A terceirização completa da Casa da Moeda, como ainda pode ser proposto (o Governo ainda não afirmou quantos % deverá manter, se deverá manter alguma parte), deixa o Banco Central como um órgão regulamentador – a ANATEL de dinheiro, basicamente.



Mas qual o problema de terceirizar a Casa da Moeda?

O Business Insider indiano em 2014 (também em inglês) falou sobre isso, quando o governo do país começou a possibilitar essa terceirização, sumarizando os problemas principalmente 3 pontos:

  1. Perda da soberania (o país deixa de ter o controle direto sobre a sua economia)
  2. Falta do que fazer com o excesso de moedas contratual (a partir do momento que houve o contrato para produzir x cédulas/ano, essas cédulas serão produzidas, independente do momento econômico)
  3. Dificuldade de fiscalizar (o contrato geralmente é sigiloso por questões de segurança. Muitos países não divulgam nem quais empresas produzem as cédulas. OU SEJA: Não. Dá. Pra. Controlar.)

Já teve alguma treta por causa da terceirização?

Claro. A gente sempre tem péssimos exemplos, como o caso da Líbia. O portal Cummins Allison nos mostra (em inglês) que o governo líbio terceirizou a produção de sua moeda para uma empresa do Reino Unido. Custos foram reduzidos, a moeda ficou mais segura com a inserção de novos métodos de comprovação de veracidade, foi lindo.

Até que em 2011 a Líbia sofreu sanções da ONU – e parte dessas sanções envolveram a interrupção da produção do papel-moeda do país, e do dia pra noite, a Líbia não recebeu mais nenhuma cédula produzida. Não sou economista, mas imagino que isto não seja muito bom.



Algumas curiosidades:

A Dinamarca começou recentemente a terceirizar a produção de moedas e planeja em breve também terceirizar a de notas (fonte – ENG).

Matéria da The Economist mostra como De La Rue, um banco que produz 150 cédulas diferentes (além de passaportes britânicos) transformou produzir dinheiro em (veja só!) uma atividade lucrativa (em inglês).

Extra de curiosidade: a BBC fez uma matéria explicando como se cria uma moeda nova (também em inglês).

 

Opinião

Piou e morreu. Eu não conhecia bem aquele canário, quando eu cheguei ele já estava aqui. Era de estimação de um antigo morador, me confidenciou uma das moradoras da vila, ele sumiu um dia e o canário ficou. O bichinho ficou e foi adotado por toda a vizinhança. Faziam rodízios para alimentá-lo, trocar a água e limpar suas sujeiras. Cantava bonito, e com ele a turma se acostumou.



Recebia a todos os novos moradores e visitantes com uma melodia única – não era alegre nem triste, não era excelente nem fraca, era única. Podia dizer-se que o bichinho era carismático. Conquistava atenção de crianças e velhos, mulheres de vestidinhos soltos e homens de cara amarrada. Cada um tinha um nome para ele, ninguém se lembrava exatamente de como o antigo morador o batizara (na verdade, ninguém nem soube dizer quem era o antigo morador, ou há quanto tempo ele tinha ido embora).

Um dia, uma criança deixou (talvez não tão sem querer assim) a gaiola aberta, e o canário fez o que se espera de todo canário: foi. A vila ficou num misto de alegria e tristeza, que eu confesso que me atingiu mais do que esperava. Tinha parado para prestar atenção uma ou outra vez nele, mas a sensação geral me atingiu como um soco na boca do estômago.

As crianças tristes, os adultos com coração pesado mas tentando mostrar que o canário estava voando por aí, espalhando sua melodia. É egoísmo querer guardar coisas bonitas só pra gente, me confidenciou uma garotinha que não devia ter mais que um metro e trinta (acho mais seguro medir crianças pelo tamanho do que pela idade, nunca consigo acertar a idade de crianças).

Não demorou muito e alguém do bairro vizinho postou uma story no instagram falando sobre um canário de canto único – ouve como esse canário canta, nem parece canário. Foi um frenesi: o jonas ganhou da noite pro dia, quinze seguidores que dividiam a mesma caixa dos correios. Não demorou muito e apareceu um tweet sobre um canto. Um texto num tumblr, uma poesia no Medium.



Por aqui e por ali, os moradores recolhiam lembranças virtuais do canário que contagiava as pessoas por onde passou. Um dia cheguei em casa mais cedo, algo estava me incomodando no escritório e eu não conseguia trabalhar. Aproveitei que saí no meio do expediente nessa plena quinta feira e pedalei até a padaria de duas quadras pra cima de casa. Cheguei com a bike em uma mão e um saco de Carolinas na outra e um rebuliço formado no pátio.

A gaiola aberta, e o pássaro lá. Fazia o quê? Dois meses? Dois meses e meio? E lá estava ele. Na outra manhã ele cantou – e cantou como nunca tinha cantado. Não sei se eram as experiências no mundo lá fora, se foi fruto de sua consciência ou se ele já sentia o amanhã, mas ele cantou com uma leveza que, nem mesmo nele, eu tinha visto.

Recebi uma ligação, sexta à tarde. O canário parou de cantar. Segurei o fôlego, mas não consegui segurar as lembranças. Olhava as folhas na minha mesa, as telas pedindo atenção, mas nos meus ouvidos ecoavam os seus cantos. O seu último canto foi o mais bonito. A sua última música ainda ecoa dentro de mim, nessa sexta feira. Nesse hoje.

Obrigado, canário. Que você esteja livre como esteve na sua última canção, esteja onde estiver. E a sua vila? Lembramos dos nossos bons momentos.

 

 

(a foto original da capa é do Li Baroni, e você pode vê-la aqui)

Opinião



O Turmenistão é um país que viveu durante muitos anos debaixo de uma ditadura ferrenha. Execuções sumárias, profundas crises sociais e disputas de poder entre generais que se matavam com uma facilidade e frequência tão alta que as camadas populares mal sabiam dizer quem era o atual governante do país.

Nessa época, uma ONG construiu um túnel profundo e secreto, pelo qual conseguiam retirar pessoas injustamente procuradas pelas polícias, bem como levar informações e principalmente alimentos e remédios para a população carente. Durante anos, esse túnel permaneceu secreto aos governantes, e só após a queda dessa ditadura ele foi revelado a todo país.



Com a queda do governo ditatorial, a democracia estabelecida no país, a principal função do túnel se desfez, e ele acabou sendo, pouco a pouco, abandonado. Os custos de se mantê-lo, tão profundo e precário, não tinha mais justificativa. Claro, algumas pessoas ainda o utilizavam, principalmente aqueles que queriam andar sem serem vigiados. De salvação popular durante a ditadura a esconderijo durante a democracia.

Não demorou muito à primeira denúncia. Há quatro anos houve a primeira denúncia de um bando de pequenos ladrões que batiam carteira e estavam se escondendo no túnel, onde trocavam os produtos do furto por entorpecentes e outros produtos ilegais – bem como novas saídas tinham surgido. Um ano atrás, uma escrava sexual foi liberta por uma ação conjunta entre polícias, ministério público e a agência de inteligência do país, e caiu a bomba no colo do país – traficantes de pessoas estavam aproveitando o túnel para sequestrar pessoas para dentro e fora do país. A falta de vigilância, bem como as possíveis novas saídas construídas tornaram o túnel uma rede de transporte que ninguém tinha controle.

O governo então abriu uma ampla investigação, visando compreender e controlar a quantidade de crimes praticados com a ajuda dos túneis. Audiências públicas foram realizadas, especialistas foram convocados e a antiga ONG intimada a comparecer. Mas… o que aconteceu com a ONG nos últimos anos?



Bom, a ONG Livre Caminho, com a falta de necessidade repentina do túnel, fruto da democracia, ficou esvaziada. Condenada à falência, um grupo de amigos empresários, tomou a sua diretoria, e começaram a trabalhar em cima do túnel e suas outras possibilidades não tão humanitárias assim. Quando o governo começou a questionar a legitimidade de uso do túnel, a Livre Caminho, já plenamente convertida em empresa, se defendeu com a melhor estratégia possível: a propaganda.

O problema para o governo é que o túnel era um símbolo de liberdade – e a empresa aproveitou esse potencial para ligar a ideia antiga do túnel a esse ideal: limitar o acesso às entradas, vigiar o túnel não era uma questão de segurança: era uma medida antidemocrática, um ataque à liberdade de ir e vir. Era o governo opressivo voltando à ditadura, invadindo a privacidade das pessoas.

A Livre Caminho se recusou a prestar depoimentos. Não foi à justiça, não respondeu os quesitos. Ao invés disso, foi à imprensa. Denunciaram a atitude antidemocrática do governo de fechar os túneis. Disseram à imprensa que era impossível instalar câmeras em todo túnel, e que isso geraria uma insegurança gigante – e se as imagens caíssem nas mãos erradas? Pessoas poderiam correr risco de vida caso grupos de sequestradores pudessem ver as imagens e planejar emboscadas. O máximo que eles poderiam fazer é guardar registros de quem entrava no túnel em que portal e que horas isso tinha ocorrido.



Apesar das explicações não fazerem o menor sentido nem jurídico nem lógico, a população, já acostumada a usar os túneis para ir de um local a outro (a rua tem sol, tem vendedores, tem sinais de trânsito) comprou a propaganda da Livre Caminho – o túnel era gratuito, e sempre esteve lá. Os crimes sempre ocorreram, seja na rua, sejam nos túneis. Como culpar uma empresa que facilitava o transporte das pessoas sem cobrar nada por isso pela ineficiência do governo?

O Judiciário resolveu então, mediante a falta de explicação da Livre Caminho, fechar os túneis – pelo menos as portas conhecidas. Não adiantou justificar com o tráfico de pessoas. Não adiantou demonstrar por A+B que a empresa estava com argumentos falhos, além de ter desrespeitado o Poder Público. As pessoas foram às ruas. Fizeram petições. Lutaram para o estabelecimento de Projetos de Lei que impedissem o bloqueio aos túneis. E toda decisão que fechava algumas portas dos túneis era logo derrubada.

O túnel ganhou. A Livre Caminho ganhou. E a questão no Turmenistão não era o fechamento dos túneis. Ninguém era a favor de se fechar os túneis e impedir que as pessoas caminhassem por ele: mas estabelecer parâmetros seguros. Dar segurança às pessoas que usassem os túneis, bem como impedir o cometimento de crimes através deles.

É claro que ninguém é a favor do cometimento de crimes, sejam onde for. Mas as pessoas, no Turmenistão ou não, defendem empresas como se defendessem a liberdade que essas empresas dizem vender.

 



[Este texto é uma ficção. Não existe Turmenistão (só no universo do Dr Who s.10).
Qualquer semelhança entre a Livre Caminho e o Whatsapp digo, empresa, é meramente
inspiração coincidência. Não me processem, sou um estudante, não tenho como pagar]

Tem alguma pergunta mas não quer fazê-la nos comentários? Pergunte anonimamente no meu ASKfm!

Opinião

Alguém precisava falar sobre isso de uma maneira compreensível – e falou. O tema do bullying nas escolas americanas (e que tem um reflexo bem fiel nas escolas brasileiras, diga-se de passagem, tanto públicas quanto privadas) já tinha sido trazidos por Michael Moore como gatilhos que desencadeavam reações de ódio e desesperança capazes de fazer adolescentes rejeitados criarem coragem para assassinar em massa seus colegas.

Um outro filme, dessa vez bem menos divulgado, Bang Bang, Você Morreu (Bang bang you’re dead, no original), baseado em um roteiro de teatro (que eu recomendo para quem se assustou com 13 porquês e pode ver um outro desenvolvimento bem comum em histórias de bullying), traz essa perspectiva do bullying como torturante e inviabilizador da escola como o ambiente de socialização previsto.



(tradução: todos nessa sala são carne morta)

13 Porquês (ou 13 reasons why, se preferir o original) traz esse tema de volta em duas formas que nunca antes tinham sido colocadas à disposição de um público tão amplo e tão consumidas. Se você só leu a série ou só viu o filme vai influenciar diretamente na forma com que você se relaciona com a obra e suas impressões sobre o resultado final de tudo.

O livro, escrito por Jay Asher tem por foco principal o bullying sofrido por Hannah Baker e como isso influenciou sua vida e as decisões que tomou daí pra frente, numa espiral que foi do isolamento à depressão e da depressão ao suicídio – o livro é para entender o que acontece internamente com quem sofre bullying, e Clay engole isso tudo de uma forma doentia (sim, ele ouve todas as fitas de uma vez).



A série, roteirizada por Brian Yorkey e Diana Son, tem um objetivo completamente diferente. Ela aproveita o universo descrito por Jay Asher para ir além – e mostrar a vida de quem praticou o bullying. Nela você conhece intimamente cada um dos personagens e como cada um, por querer ou por não dar importância colaborou para o isolamento de Hannah – e como isso os afetou posteriormente ao seu suicídio.

Enquanto nos livros, todos vamos nos reconhecer como Hannah, na série, todos vamos nos reconhecer tanto como Hannah como quanto qualquer um dos praticantes de bullying. Claro que sempre vamos lembrar das mordidas que levamos, mas é importante levantar o ponto de que nós esquecemos de ser uns pelos outros, até mesmo pelos nossos amigos.



Não, nós não temos paciência para os dramas alheios – e nossa maior justificativa é que os outros não tem paciência para conosco. À duras penas aprendemos que ninguém quer saber da nossa dor, e compartilharmos nas redes sociais aquilo que faz nosso coração queimar é motivo de ridicularização e descrença entre os outros. Não só aprendemos isto como fazemos questão de ensinar aos outros a não compartilharem suas dores também, numa espiral de insensibilidade e rudeza.

Lembra que uma vez eu disse aqui que somos todos um pouquinho de Kilgrave Jones, logo depois do auge de Jessica Jones? É mais ou menos a mesma coisa – somos todos vilões nas vidas alheias. Por mais que insistamos em achar que somos sempre as vítimas. Quando vamos parar esse ciclo de ódio?



No vídeo abaixo, os produtores e atores de 13 Reasons Why explicam o porquê algumas escolhas foram feitas, como a de mostrar a cena de suicídio de Hannah (nessas alturas nem adianta avisar mais de spoilers, né?)

Mundo

A Presidência da República, chefia do poder Executivo é o ponto mais alto da política pátria. É o sonho (às vezes distante) de crianças, objetivo de políticos de carreira e alvo de diversos jogos de poder e influência.


A recente escalada – não necessariamente conservadora – mas definitivamente liberal nas eleições de vários países tidos como referenciais de políticas públicas sociais, juntamente com o processo de cassação da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral, que pode resultar em novas eleições presidenciais tem ressignificado a compreensão sobre o real poder da presidência.
Estes fatores trouxeram alguns personagens para a mídia mais cedo que o normal. Alguns deles já conhecemos bem – os velhos de sempre. Outros, são apresentados há quase duas décadas como novos. E alguns aventureiros, talvez em busca de assumir o papel de Trump latino. Essa situação política repetitiva, esvaziada, carregada de frustração e com duas pitadas de fanatismo messiânico foi o fator primordial para o esvaziamento das urnas nos Estados Unidos e a consequente eleição de Trump.
A política esquizofrênica (interna e externa) dos Estados Unidos desde janeiro, com embates entre o Executivo Federal e o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa levam muitos a acreditar, erroneamente, que o Chefe de Governo é uma figura irrelevante. Ver que as políticas de Trump não duram e são logo rechaçadas por juízes e seus projetos de lei são afastados pelo Legislativo pode realmente dar esta impressão, quando analisamos daqui – de longe.
A questão é que o Chefe de Governo tem um papel bem diferente do Chefe de Estado. O Chefe de Estado, detentor de um cargo de influência realmente tem um poder coator bem reduzido – lembramos das aulas de história e da citação mais que gasta de Adolphe Tiers:
O rei reina, mas não governa.
No presidencialismo, porém, por suposto, o Chefe de Estado e Chefe de Governo são a mesma pessoa – a presidência. Dentre as atribuições da presidência estão determinar as políticas públicas e planos de governo. A presidência não é um órgão ilustrativo meramente formal. Pelo contrário, tem atuação direta na forma com que o Estado influencia na vida dos seus cidadãos individualmente.
É por causa deste poder, de determinar políticas públicas, que a pessoa ocupante da presidência importa: quem é essa pessoa? No que acredita? Quais são suas convicções diante dos grandes questionamentos nacionais?
Qual será a política de um suposto governo federal Bolsonaro – quer você concorde com ele ou não – frente aos direitos LGBT? Realmente é possível acreditar que nada se alteraria? O SUS continuaria, dentro da chancela do Ministério da Saúde a realizar operações de mudança de sexo sem nenhuma tentativa de interferência? As políticas fiscais dentro do Ministério da Fazenda prosseguiriam, sem alterações? O Ministério de Desenvolvimento Social conseguiria financiar políticas assistenciais sem sofrer nenhum corte?


Duvido bastante. A questão não são as mudanças que um possível Bolsonaro faria, mas que elas existiriam – e impactariam a vida de milhões de pessoas. Da mesma forma, as políticas de Trump (mesmo as derrubadas, como a proibição do ingresso de pessoas de 7 diferentes nacionalidades) impactaram fortemente a vida de todos que já tinham gastado milhares de dólares em suas passagens e planejamentos e foram proibidos de entrar no país.


Estas pessoas tiveram seu dinheiro imediatamente devolvido pelas companhias aéreas? Não tiveram problemas com prazos e compromissos? Nenhuma consequência imediata em suas vidas? Difícil negar.
Então não se pode simplesmente dizer que o posicionamento ideológico bem como opiniões de presidenciáveis não seja importante na escolha do presidente como Chefe de Governo. A não ser que as políticas públicas não sejam relevantes.
insegurança e depressão
Opinião

Há pouco, a depressão era o mal que todos tínhamos. Esse lugar foi perdendo espaço para a ansiedade, de pouco em pouco – e a tendência é que a ansiedade tome o lugar da depressão em poucos anos.
 
Há pouco, nos descrevíamos como depressivos, sem objetivo, sem saber para onde estávamos indo, ou sem fazer ideia do que estávamos fazendo aqui. Hoje, nos descrevemos como ansiosos, sem paciência, com medo do futuro, sem fazer ideia do que estamos fazendo e se isso tem algum efeito ou validade. Nos questionamos diária e diretamente sobre nossas ações e a efetividade das nossas decisões.



 
O problema é que estamos falando de consequências. Ansiedade, depressão, insegurança são consequências nefastas do que realmente nos assola, individualmente. Filmes de Hollywood mostram isso bem – heróis e anti-heróis tem seu caráter formado e seu futuro definido pelo que aconteceu a eles, direta ou indiretamente. Batman viu seus pais morrerem, e por isso se tornou um justiceiro social com problemas de relacionamento interpessoal, que se agravaram com traições que sofreu. Homem Aranha precisou enfrentar o ódio do seu melhor amigo porque este tinha ciúmes do pai e isso acaba bloqueando qualquer relacionamento seu com Mary Jane. Jessica Jones. Super-homem. Todos são, apesar de heróis, problemáticos. Somos todos assim.
Não foi a internet, não foi a sociedade da informação, não foi a urgência do AGORA!, sempre fomos assim, estragados. Somos ansiosos porque queremos logo chegar, somos depressivos porque não sabemos aonde vamos chegar, somos inseguros porque não sabemos se onde vamos chegar é onde queríamos chegar logo. Estamos perdidos entre sermos o centro do nosso próprio universo e sermos poeira cósmica sem o menor sentido no vasto universo. Entre o medo de causar uma mágoa grande em um ser humano que vá acompanhá-lo pro resto da vida e a noção de que um cataclisma nuclear no planeta não faria a menor mudança na ordem das coisas lá fora.
Somos importantes, não somos relevantes. Isso nos mata. Os textos de auto-ajuda só pioram – você precisa se conhecer! Mas quem sou eu? Eu preciso me conhecer logo! Preciso saber quem sou! Preciso achar o meu lugar no mundo, a profissão que eu amo, as pessoas que me compreendam, a vida que eu quero, entre o luxo e a frugalidade! Quem sou eu? Falhei em me encontrar, vou falhar em viver seja o que quer que sou.



Quem somos nós? Sou o resultado das falhas das outras pessoas comigo? Sou um ser cheio de machucados, tensões, traumas e reações? É o ambiente à minha volta que define quem sou? Não sei. Mas acho que não. Não que eu saiba quem eu sou. Mas vou trilhando o caminho que parece ser o meu, sem me preocupar com o destino, sem ter pressa de chegar lá. Como disse Deus a Moisés – vá ao topo da montanha, e quando chegar no topo da montanha esteja no topo da montanha.
Manuais de Etiqueta
Opinião

Manuais de etiqueta por si próprios já são complicados quando falamos do Poder Público. Enquanto deveria ser buscada a mínima regra de convivência, muitas vezes acaba-se engessando por demasiado alguns pontos. Enquanto vemos alguns avanços, como por exemplo no Rio de Janeiro, onde o Tribunal de Justiça desobrigou advogados a despacharem de terno e gravata durante o verão (mas o tema acabou tendo que parar no Conselho Nacional de Justiça), em outros locais as coisas não andam tão facilmente na mesma direção.



É o caso do novo Manual de Etiqueta proposto pelo recém-empossado presidente da Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, que insere, dentre outros comportamentos, regras que visam proibir:

  • Gravatas de bichinhos
  • Meias que não combinem com as calças e sapatos
  • Costas à mostra
  • Apertos de mão que não tenham exatas 3 sacudidelas.

(todos os comportamentos não-recomendados estão na reportagem da Revista Fórum)

Enquanto pode-se dizer que se busca a formalidade e até mesmo a seriedade da prestação de um serviço público, é bom lembrar que o legislativo municipal é um espaço de atuação direta da comunidade no poder público, ou seja, não é a população que deve se adequar a um código de convivência que não a representa em sua vida, mas, na medida do possível, o contrário – o Poder Público Municipal deve se aproximar da população e da sua forma de comunicação.

São medidas como estas que provocam o constrangimento da sociedade dos seus órgãos representativos – veja bem, estamos falando sobre combinações e gostos estéticos pessoais. Gravatas com bichinhos, meias que não combinam com calças e sapatos, quantidades de sacudidas em apertos de mão, qual a relevância dessas determinações para auxiliar a administração pública? Segundo o próprio presidente da Câmara, “enquanto estiver na repartição pública, [o cidadão] tem que dar ao respeito e estar bem-vestido”.

Uma mostra de que se existe uma crise nos poderes legislativos municipais, é a de abstinência de trabalho.


Opinião

Vocês me conhecem (pelo menos 94% do público do meu blog segundo o Analytics me conhece, e se você faz parte desses 6% perdão por já começarmos a relação assim) então sabem como eu me estresso com fotógrafos. Não, não os fotógrafos amadores, ou aquelas pessoas que compram câmeras DSLR e já se acham profissionais ou quem cobra $20 pra fazer um ensaio. Na verdade é exatamente este tipo  de mimimi que me estressa.



Os novos fotógrafos

Sempre que converso sobre mercado de trabalho e bom, meu papel e o de amigos, a conversa vadia (do verbo vadiar)pro mesmo assunto “ser fotógrafo é complicado, né”. E sim, ser fotógrafo não é fácil (existe algo que o seja?), com certeza. E tem se tornado cada vez mais difícil, devido a inúmeros fatores (que já já eu citarei), e não é à toa que, se a fotografia era responsável por praticamente 70% dos meus rendimentos a exatos 12 meses atrás, hoje é responsável por pouco menos que 32% (se você é parte dos 6% já mencionados ali em cima, eu sou fotógrafo e advogado. Ah, e refrigerólogo) – mas não foram os novos fotógrafos os culpados por isso.

Sim, existe uma multidão de novos fotógrafos. Alguns que não estudaram nada, outros que estudaram bem pouco. Uns vão se guiando pela prática, outros vão se debruçar em tutoriais e guias, e mais terceiros irão a fundo, tentando entender a física ótica, temperatura de cores e possibilidades de iluminação. Sim, a maioria desses novos fotógrafos vão cobrar preços baixos ou fotografar de graça para montar portfólio, se submetendo a condições (muitas vezes degradantes – o que não é raro acontecer com fotógrafos com portfólio montado e milhares de curtidas no facebook). Talvez, na verdade é até bem provável, que as fotos desses novos fotógrafos não tenham a mesma qualidade que a sua, afinal você tem algo que eles, estudando ou não, não tem: experiência.

Duplo clique do Everson Tavares
Duplo clique do Everson Tavares

Pasmem – ninguém nasce com experiência, nem você mesmo, fotógrafo pica das galáxias que lê esse texto a convite de um amigo. Existe uma mania ególatra no mercado fotográfico (como deve se repetir em outras profissões artísticas) que foi comprovada pelo André Rabelo no flickr (leiam o texto completo do Leandro Neves, é fantástico), que insiste em criticar fotos consagradas pela história (e vendidas a US$265k) baseando-se simplesmente em: meu próprio trabalho e como eu faria.

Mas deixa eu te contar um segredo: esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente. Não vão saturar o mercado de uma forma que o seu trabalho se torne inviável, ou você precise baixar o preço ridiculamente. A não ser, é claro, que seu trabalho seja medíocre (da palavra mediano, sem algo especial, que chame atenção, mais um dentre vários do mercado) e você, no fundo no fundo, seja um desses novos fotógrafos, mas está com a câmera à mais tempo que eles. Essa visão de que quanto mais pior, só existe no coração de fotógrafos e fãs de cultura pop.

O grande problema é que a grande maioria dos fotógrafos desiste ou não consegue ganhar seu espaço no mercado porque não está preparado pro mercado. Não adianta ter uma técnica excelente, um tratamento refinado se você não estudou o mercado. Não adianta horas de cursos, vídeo-aulas, workshops e tutoriais se você não frequentou ao menos um cursinho de 12h gratuito do SENAC sobre como estudar, planejar e se posicionar no mercado. Você vai quebrar: e talvez você não seja tão ruim assim.

Clique do Evandro Sudré
Clique do Evandro Sudré

Aí você vê fotógrafos que talvez não sejam tão bons como você (pelo menos segundo você acha), deslanchando e conseguindo contratos e convites melhores – porque você não sabe empreender. Aí você diz mas eles oferecem um serviço a um preço muito menor aff, não tem como competir. Mas meu amigo, a Jogê não compete com o Saldão das Lingeries. A TNG. não concorre com a Fábrica da Moda. A SmartFit não concorre com a academia da esquina ou com as academias públicas que ficam nas praças. E tem mercado para os dois – e não hesito em afirmar que todos estes que comentei que cobram preços altos estão melhor na crise do que os seus concorrentes populares.

Cá entre nós – se o cliente não se importa que o recém-nascido dele esteja roxo como uma beterraba, a noiva esteja laranja como uma cenoura e as fotos sensuais pareçam ter saído de um catálogo de filmes pornôs de extremo mal-gosto, provavelmente ele não seria uma boa adição ao seu portfólio, né?

“Esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente (…) a não ser que o seu trabalho seja medíocre.”

Uma lição: sempre vai ter alguém que vai fazer mais barato (e pior) que você. Sempre vai ter alguém que vai fazer melhor (e mais caro) que você. Saiba se posicionar no mercado com o produto e serviço que você oferece e voilà: você não precisará se preocupar com a 25 de março fotográfica.

As dificuldades de se trabalhar

Você já viu um fotógrafo reclamando – na verdade não é muito difícil ver um fotógrafo reclamando, né. Mas essa é mais genérica: você já viu uma pessoa reclamando dos outros fotografando com celular. Em casamento, puxar um celular durante uma cerimônia é pedir pra ouvir bufadas e reclamações de um profissional contratado praquele serviço. Tudo bem, pessoas fotografando atrapalham, e volta e meia tem um noção que se enfia na frente do fotógrafo pra mandar um snap – já chegaram a pedir pra eu tirar uma foto com o celular deles.

Clique da Mônica Fadul
Clique da Mônica Fadul

Shit happens. Toda profissão tem isso – e a gente é assim nas outras profissões, mesmo que não perceba. O médico enfrenta o tio do paciente que leu sobre um tratamento experimental na Tasmânia no Facebook; o advogado tem o amigo do cliente que fez direito, não conseguiu passar na prova da OAB mas sabe como fazer aquele processo melhor que você (sim, existe); o designer já tem a figura conhecida do sobrinho que mexe nessas coisas de Corel.  E nós temos essas pessoas que insistem em atrapalhar o desenvolvimento do nosso trabalho. Como lidar com elas? Uma dica, tem 16 letras e faz parte da ementa daquele curso do Senac que comentei ali em cima: profissionalismo.

Ah, mas eu tô falando no Facebook, uma mídia pessoal. Claro. Sem sombra de dúvidas. Desculpe, você está certo.



Não, não é tudo perfeito.

Apesar de parecer, não, não está tudo perfeito – na verdade anda mal e piorando cada vez mais. Na internet não existe crise, pelo menos para críticos da mídia, mas empresas (e pessoas) estão cada vez mais cortando gastos. De repente, aquela campanha publicitária não tem mais o orçamento de R$5 mil para fotografia; o casamento com 300 convidados no buffet vira uma festa para a família em casa; o álbum impresso é substituído pelo virtual; e as pessoas passam a ter que escolher entre um bebê-conforto e aquele ensaio de newborn. Sim, isso é uma das grandes dificuldades hoje: fotografia não é mais considerada essencial para o cliente.

Clique do Mak Cézar
Clique do Mak Cézar

Some-se a isso o impacto na alta do dólar sobre os equipamentos fotográficos (de rebatedores a corpos de câmera) e nos serviços necessários (impressão, diagramação, divulgação, freelancers) à equipe fotográfica. Acrescente-se aí que o mercado de fotografia é um dos mais conservadores, e boa parte da responsabilidade disso é do cliente: ele quer a foto que ele viu no Pinterest. Não quer tentar algo novo, não quer ousar: ele quer repetir o que já viu anteriormente.

E, por incrível que pareça, em relação a esses dois problemas, só existe uma pessoa no mundo que pode mudar isso: você mesmo, fotógrafo. Você precisa convencer o cliente da verdade – que a fotografia é sim essencial. Que é sim, legal aquela foto que ele viu, mas que fica bem melhor quando se cria uma ideia nova em conjunto. Por incrível que pareça, só depende de você.



Sugestães*

*eu sei.

Não adianta falar, falar, falar e não dar dicas, né. Então vão alguns locais/pessoas/cursos para vocês se ligarem e desenvolverem mais as suas habilidades.

Curso de Fotografia – autoexplicativo. Tem dicas, técnicas, fala sobre câmeras e ainda dá algumas inspirações legais. Recomendo fortemente ainda acompanhar o trabalho do Pyro, o Everson Tavares, que é um dos membros da equipe.

Photography Marketing (ENG)- o próprio Pyro me indicou este podcast sensacional, disponível no iTunes, sobre marketing fotográfico e possibilidades de mercado pouco exploradas, que podem fazer a diferença no seu trabalho.

IPED – Se você tá com preguiça de ir ao Senac, o IPED tem um curso de empreendedorismo online com um plano gratuito, é simples e dividido em três capítulos.

Planet Black’n’White – Instagram que divulga trabalhos em preto e branco e tons de cinza – pra desmistificar um pouco o lance de que a foto PEB só serve para salvar fotografias coloridas com problemas de exposição. Eles também tem uma página no Facebook.

Clique do Lelo Marchi, d'O Vértice.
Clique do Lelo Marchi, d’O Vértice.

Evandro Sudré – fotógrafo nômade, missionário – com fotografias documentais estarrecedoras.

Mak Cézar – fotógrafo de Uberlândia, especializou-se em fotografia arquitetônica, com fotos de natureza exuberantes.

Nika Fadul – o portfólio dela fala por si mesmo. Juro.

O Vértice – equipe fotográfica do Mato Grosso do Sul, com destaque em casamentos e eventos sociais.

E, claro, a minha página no Facebook. E porque não, um destaque pra promoção que está em vigor até o carnaval:

Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?
Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?

 



Opinião

Gritos de guerra são dados pelo PSOL – principalmente em posts de Jean Wyllys e Chico Alencar (aqui e aqui) porque o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ter definido a votação para a Comissão Especial de Impeachment como secreta. Rolou briga, confusão, quebra de urnas eletrônicas e várias tentativas de se barrar o que muitos chamaram de “estímulo à traição” que Eduardo Cunha realizava.



Os fatos são que o Regimento da Câmara fala sobre votação para composição da mesa diretora da Comissão Especial. Que o pedido de impeachment aceito por Cunha, assinado por Reale Jr., Janaína Paschoal e Hélio Bicudo, tem fundamentação jurídica, apesar das ressalvas feitas pelo próprio Cunha, que limitaram o objeto de estudo de uma comissão a ser feita. Que depois de se aceitar o pedido de impeachment, ele tem prioridade nas pautas e é de urgência definir a comissão para analisar o pedido.

Se o momento escolhido pelo Presidente da Câmara é oportuno ou não, é outro debate; bem como as artimanhas utilizadas para marcar a votação para o mesmo horário em que a Comissão de Ética avaliaria o pedido de sua própria cassação – até mesmo ter pressionado a base governista para não ser cassado usando o pedido de impeachment como troféu.

Mas precisamos de brigar com as pessoas certas pelos motivos certos: conforme bem apontado por George Marques em sua conta do Twitter, as votações para formação de Comissões Especiais devem ser secretas por ordem do próprio Regimento Interno da Câmara dos Deputados, conforme se vê:

Art. 188. A votação por escrutínio secreto far-se-á pelo sistema eletrônico, nos termos do artigo precedente, apurando-se apenas os nomes dos votantes e o resultado final, nos seguintes casos:

III – para eleição do Presidente e demais membros da Mesa Diretora, do Presidente e Vice-Presidentes de Comissões Permanentes e Temporárias, dos membros da Câmara que irão compor a Comissão Representativa do Congresso Nacional e dos 2 (dois) cidadãos que irão integrar o Conselho da República e nas demais eleições;

Não existe, portanto, conforme arguido pelos deputados, uma tentativa de cooptar votos da base governista para se instalar um impeachment – ao menos não neste ponto, conforme já dito.

Agora o que realmente impressiona é como a cultura do “não li, mas finjo que sim e aceito as regras” realmente está intrínseca ao brasileiro. Não se trata mais de apenas termos de uso de redes sociais ou de e-mails, que violam direitos pessoais. Não se trata de contratos firmados entre empresas, financiamentos bancários, que prejudicam financeiramente uma pessoa ou um pequeno grupo.

Se trata dos representantes do povo, eleitos democraticamente em eleições gigantescas, morosas e impressionantemente caras e que recebem diversos benefícios, privilégios e incentivos para buscar os melhores caminhos por nós – e nem essas regras do jogo eles leram.



É como um fotógrafo não saber configurar sua câmera na hora de fotografar o beijo do casal; o designer utilizar treze fontes diferentes e cores contraditórias em suas montagens para spots; o advogado não saber quantos dias ele tem para peticionar e perde prazo; o contador recolher impostos com a aliquota errada.

Faz parte da profissão política conhecer o Regimento Interno da sua Casa. Se esta regra, a do voto secreto para Mesa Diretora das Comissões Especiais, está errada ou deveria ser revista, caso nossos nobres colegas cidadãos tivessem a visto antes, ou reparado na sua injustiça, poderiam tê-la consertado antes de vários “incentivos à traição” ocorrerem: afinal de contas, esta não é a primeira vez que se instaura uma Comissão Especial desde que a regra foi imposta, em 2006 (inclusive, quem a assina é Aldo Rebelo, do próprio PT).

O problema é: quais são os interesses por trás do voto secreto? E do voto público? A quem interessa que os deputados não “traiam” o partido? Ao governo ou aos cidadãos?

Opinião

Todos nós nos identificamos com Jessica. Este pode ser, claramente, um dos maiores ganchos para a série fazer tanto sucesso. Ao contrário dos quadrinhos e super-heróis em geral, Jessica tem algo muito mais humano do que Batman, Homem-Aranha, o Coisa ou o próprio Demolidor.



Sim, como circula o texto pela web, Jessica Jones não é sobre super-heróis. Jessica Jones é sobre abuso, das mais abrangentes e diversas formas possíveis. Abuso físico, abuso sexual, abuso psicológico. E assim como toda vítima de abuso, Jessica se sente co-responsável por todos que passaram pelo caminho dela e sofreram com as consequencias.

Jessica é gente como a gente. Não é como um super-herói que não se preocupa com as pessoas que estavam no prédio que caiu durante a briga entre ela e o super-vilão. Jessica sente a morte de cada uma das pessoas que estavam no caminho entre Kilgrave e ela. Ela não entende o conceito de dano colateral, de bem maior. Jessica é como cada um de nós somos, lá dentro: procurando a auto-punição por erros que cometemos – sejam eles responsabilidade nossa ou não. Jessica Jones é uma série transparente, que mostra como tudo que acontece conosco tem profundas consequências em todos aspectos de nossa vida. Como toda série, vai ao absurdo – o abuso pelo controle da mente.

O problema é que Kilgrave, em sua essência, também é gente como a gente. Não é preciso controlar a mente de alguém para que essa pessoa faça a nossa vontade. Fazemos isso o tempo todo. Joguinhos psicológicos, frases soltas na lata, torturamos os outros a todo o tempo. Torturamos para não sermos torturados. Levantamos nossas defesas no dia-a-dia, tentando fugir do controle alheio. Usamos de desculpas esfarrapadas, como um trauma antigo ou uma decepção nova, para nossas atitudes mesquinhas e ególatras. Queremos controlar o que acontece à nossa volta, mas não por uma falsa sensação de segurança: é pelo poder.

Somos tão Kilgrave quanto nossos egos nos levam a ser; somos tão Jessica quanto nossa consciência permite. A diferença é que, bom, esta é a vida real, e a gente pode fazer o ciclo de abuso parar. O que fizeram a nós não é desculpa pelo que fazemos aos outros.



(resolvi colocar a foto do David Tennant como o 10º Dr Who porque não consigo assistir JJ sem lembrar dele)