Opinião

Uma das matérias mais procuradas por estudantes de Jornalismo é o jornalismo opinativo. O que de fato, é bom. É bom que as pessoas comecem a se interessar por algo além do LEAD e que tentem ir atrás do ‘algo mais’ que falta ao jornalismo tradicional.


Mas também é preocupante. Cada vez mais se busca fundamentar a própria opinião frente à pauta do que efetivamente conhecer a pauta e, dentro de um trabalho de apuração  jornalística, opinar acerca dela, mostrando um viés específico – igual no fundo, acontece na nossa vida cotidiana, pessoalmente.

O problema desse jornalismo que é um meio de se provar e/ou justificar a opinião do jornalista é que ele é tão desserviço quanto o jornalismo de LEAD que joga uma informação crua para o receptor – ele não acrescenta nada, ou pior, reforça preconceitos internalizados.

Da mesma forma que um cristão vai ler um texto com o pressuposto da sua fé, o estudante de jornalismo hoje corre atrás da pauta para provar suas opiniões pré-concebidas. Encaixa as fontes que acredita serem necessárias, ignorando outras ou buscando estereótipos para reforçar o fato que “o outro lado é uma merda”.

Problemático porque, bom, pessoalmente, na sua individualidade, ser assim já é problemático. Primeiro porque você se torna um guardião de conservadorismo e senso comum sem sentido, repetindo preconceitos e estereótipos ultrapassados ou ainda estabelecendo novos. Quando se trata de um jornalista, emissor de informações à grandes massas que fez um curso superior para, teoricamente, saber como lidar e tratar com estas informações de relevância e modificar o status quo social então – aí a coisa perde o rumo.
Não adianta ser de humanas, liberal, lutar contra o capital e a propriedade privada se as informações que são emitidas são tão deturpadas ou alienantes como as de seus arqui-inimigos mais ardilosos. Porque se há uma luta de classes, e se há uma defesa do trabalhador, do proletário ou do oprimido, esta defesa deveria se esforçar para a sua libertação, não para novas amarras e correntes diferentes ou mais reluzentes.
Se alguém deturpa a verdade, não pode ser amigo do povo. Não pode ser jornalista, com ou sem diploma. Com ou sem opinião.


Opinião

Uma jovem de 18 anos foi vítima de uma tentativa de estupro dentro do banheiro feminino do bloco de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) nesta segunda-feira (21). Em conversa com a produção do MGTV, o pai da vítima informou que um homem entrou no local, que fica no campus Santa Mônica, enforcou a jovem e a levou para um box. A vítima gritou e se debateu até conseguir se soltar. O criminoso fugiu. (da reportagem do G1 Triângulo)

 



Esse texto é um desabafo. Um desabafo porque pra mim chega a ser surreal uma tentativa de estupro na FADIR-UFU. Surreal a ponto de eu não querer acreditar. Um prédio que eu passei seis anos e meio da minha vida – que cheguei a passar 18 horas por dia em um semestre, entre aulas de manhã, estágio à tarde, monitorias e mais aulas à noite.

Um prédio que era até chamado de Castelinho da Barbie pelo seu formado – e por ter portas trancadas em quase todos os horários. Um prédio que eu conheci todas as salas de aula, do calabouço até o ‘céu’. Um prédio que eu tive DRs, que eu tive momentos de romance, que eu assisti mais de 3 dias inteiros de One Piece, que eu entrei guri aos 16 anos e saí aos 22 como pós-graduado.

Um lugar que fez parte da minha história a ponto de ter esquecido luvas, fontes de notebook, capacetes (sim), celulares e ter tudo me esperando no mesmo local. Um lugar que conheci todos os cantos, todas as salas de direção, coordenação e até mesmo aquela salinha no canto do último andar da revista de Direito.

Um prédio no qual eu conheci pessoas que me levaram a andar esse Brasil de Criciúma (SC) a Fortaleza (CE). Que quebrou, moldou e remoldou meu caráter. Que foi cenário dos meus primeiros ensaios de fotografia – que eu tomei o laboratório de informática pra mim por três meses enquanto tentava montar esse blog (há três versões atrás). Dei monitorias, recolhi monografias, conheci pessoas fantásticas, criei inimizades, tive brigas, discussões e dormi nas escadas.

Um lugar que se faz lar toda vez que piso mais uma vez, que faço questão de mostrar pra conhecidos, que faço questão de citar e lembrar das histórias e bizarrices, um lugar que hoje não pode mais ser considerado seguro. Um lugar que a nova turma de Direito vai caminhar olhando por trás do ombro. Um lugar onde os alunos de outros cursos, que volta e meia tem aula lá, entrarão em silêncio não mais por estarem no Castelo da Barbie e serem atingidos por um raio reacionário, mas porque ali é perigoso.

Quero de volta as horas de descanso no sofá do Diretório Acadêmico. Quero mais uma vez poder sentar naquelas escadas e atrapalhar quem sobe e desce atrasado pra aula. Quero poder entrar lá e mostrar a placa da formatura da minha turma, sim, a quinquagésima nona turma, e apontar pra todas as salas de aula, lembrando do 1º ao 5º ano os professores insanos, as ameaças de greve, as tretas entre salas, o repúdio dos outros cursos. Quero que os estudantes de direito possam se sentir tanto em casa quanto eu me senti. Eu, meus bichos, os bichos dos meus bichos e todos meus veteranos nos sentimos. Porque, por mais que o direito possa nos ter levado pra caminhos tão distantes dos fóruns e tribunais, todos nós crescemos ali, naquele lugar, entre nossos colegas juristas.



Opinião

Cada dia mais se torna mais difícil (e ingrato) produzir conteúdo. Você pesquisa um tema, lê sobre ele, corre atrás, entrevista e conversa com várias pessoas, produz o material, faz o tratamento, publica e no final das contas ninguém quer saber daquele conteúdo tão preciosamente refinado – só de quem está falando.



Vejo cada vez mais pessoas próximas sendo seduzidas por uma dicotomia burra – direita/esquerda; feminismo é para mulheres; GLBT são para quem cuja sexualidade é oprimida pela sociedade. Vejo debates sobre quem tem mais poder de fala com os critérios utilizados pela Zambininha à sério, bem como afirmações estapafúrdias de que “homens não querem aprender”, “brancos só sabem oprimir” e “héteros são excluidores desde o nascimento”.

A luta de classes explicitada pelos estudos marxistas, a pedagogia do oprimido de Paulo Freire aplaudida pelo mundo se transformaram numa guerrilha de classes e na Revolução Francesa do Oprimido, levada a cabo por milhares de Robespierres sedentos por sangue. A nossa sede por transformar o mundo, por experimentar um pouco do gosto da mudança social é tão grande que não cansamos de torcer, distorcer, retorcer e inventar palavras e citações de um inimigo comum à nossa causa.

Assim como na época do fatídico plebiscito do Estatuto do Desarmamento, no qual ambos lados foram punidos por mentir ao público (e ambos utilizaram seu tempo para dizer que o outro tinha mentido, esquecendo das suas próprias mentiras e das suas próprias propostas), vivemos tentando fazer religiões pagarem impostos, proibindo mulheres de terem auxílio estatal para criar seus filhos, defendendo ataques a protestos políticos e apoiando a barbárie – só porque acreditamos que o locutor do momento não esteja de acordo com o estereótipo definido pelo grupo social.

Sim, estereótipo. Falar que um homem não serve para falar sobre o feminismo é apoiar-se em estereótipos. Falar que uma mulher branca não pode falar sobre a luta de mulheres negras é não só manter o estereótipo, mas reforçá-lo. Excluir heterossexuais da luta LGBTQQI é reforçar o isolamento social que deu origem a esses grupos de luta. Não sei exatamente quando surgiu essa aversão ao academicismo, ou quando histórias de vida, testemunhos e vivência começaram a se tornar tão auto-suficientes.

Na verdade, se houve um momento no meu contexto social que testemunhos se sobrepuseram e excluíram o academicismo, foi quando começaram a surgir denominações neopentecostais – sim essas mesmas que todos reclamam que formam um gueto cristão, excluindo-se da sociedade e criando aberrações como os políticos que temos hoje em dia e boa parte do senso comum deturpado acerca de sexualidade e outras causas sociais.

Não é uma questão de unidade do movimento – os neopentecas também tentam soltar essas contra nós: se trata de lutar pela justiça social. Sou um homem que está em lugar de fala. Um branco cristão debatendo assuntos que não me convém. Um heterossexual usurpando o protagonismo. Mas sabe por quê? Porque eu não vivo nessa sociedade para defender os meus direitos. Não estudei Direito para defender o meu umbigo. Não entreguei a minha vida a um Deus que eu acredito para ter a minha Salvação e tocar o foda-se pro resto do mundo.

Não vou subir no palanque. Não vou fazer guerrilha. Mas não ouse tentar me excluir dos debates. Não tente me retirar das conversas. Não venha me dizer o que eu devo ou não devo fazer. Venha conversar, venha debater.



——————–

(Para quem não sabe, eu sou um homem que escreve n’O Feminista e um não-deficiente que escreve no Eficientes)

Opinião

jeff-convinces-troy-to-play

Toda profissão tem um pouco de corporativismo. Você raramente vê médicos denunciando erros ou ações de outros médicos, ou advogados criticando abertamente o trabalho de outros advogados. Jornalistas tendem a se proteger, assim como praticamente toda classe de trabalhadores aprendeu, com o passar dos anos, que o outro que está ali não é um concorrente, mas um potencial aliado.

Por mais que o corporativismo não seja bem-visto pela sociedade, fugindo muitas vezes dos padrões éticos das profissões em geral, um pouco de corporativismo é essencial para que se respeite o trabalho da categoria. Você pega: um médico, quando você pede uma segunda opinião, nunca vai falar, por questões éticas e de respeito a um colega, que o doutor fulano está louco. No máximo, ele vai dizer que existem outras opções, sugerir uma linha alternativa de tratamento que seja mais simples, ou menos arriscada.



Um dentista raramente vai pegar um tratamento ortodôntico em andamento realizado por outro profissional, e um advogado que pega um processo em andamento tende a relativizar o que se fez pelo seu antecessor. Por mais que todo observador externo tenha o ímpeto de analisar de maneira fria o trabalho realizado por outra pessoa, esses profissionais tendem a ser um pouco mais compreensivos, na falta de palavras melhores, com seus colegas.

O corporativismo nasce quando você percebe que não é tão simples assim. As coisas não são tão simples assim e não chegaram nesse ponto por mero descuido de um profissional – vários fatores contribuíram para aquele todo que… bom, ninguém gostou muito de ver. As dificuldades técnicas, financeiras, o combinado com o paciente/cliente, os interesses dos envolvidos, tudo isso escapa da visão de um terceiro que só teve contato com o resultado final.

Mas com o fotógrafo não. Tudo isso passa despercebido. Não importa qual foi o combinado com o cliente, o que foi pedido no briefing, quais as limitações de equipamento, o que foi disponibilizado para realizar as fotos, ou todos os fatores externos que contribuem para o trabalho. Fotógrafo quando não está atrás das lentes se transforma num monstro terrível, num ser sem alma que é parente próximo do crítico de culinária – ao se afastar da câmera o fotógrafo esquece de como é seu trabalho e tende a julgar friamente, segundo seu gosto pessoal o trabalho alheio.

Assim como um crítico reclama do excesso de pimenta numa cozinha típica baiana, o fotógrafo reclama da superexposição de uma foto. Tal como um carioca exige coentro até na salada, o fotógrafo pede pela regra dos terços (fibo-o quê?). Da mesma forma que um paulista reclama de ketchup na pizza, o fotógrafo faz cara feia para meia dúzia de marcas de expressão no rosto de uma modelo. Tal qual um mineiro reclama da falta de sustança de um sanduíche como almoço digno, o fotógrafo se exalta com a falta de um contra-luz para destacar as curvas corporais.

O problema de tanto criticar e apontar erros que sempre são crassos (mas que, impressionantemente, tendem a não ser erros, mas frutos de um gosto pessoal) damos a impressão que fotografia é algo fácil. Fotografar um casamento, fazer um ensaio de criança, gestante, casais das mais variadas idades ou a cobertura de um show, espetáculo teatral ou circense, fazemos parecer em nossas críticas que um só profissional consiga fazer tudo isso com excelência sem muito treino ou estudo.



Nós mesmos nos boicotamos. Ao não perceber que o equipamento disponível não era lá essas coisas, ou que essa não fosse a proposta do artista (afinal, meus queridos, sim, a fotografia é uma arte, e portanto, uma visão pessoal do fotógrafo) boicotamos a nossa profissão. Diminuímos nossos colegas, e diminuímos a nós mesmos. É por causa de nossos comentários sobre a concorrência que o tiozinho compra uma superzoom 40x e entra na sua frente enquanto você trabalha tentando fazer um superclose do casal trocando alianças no altar – é você quem fez ele acreditar que ele pode fazer isso.

É por tanto bombardear trabalho alheio, ao invés de ser mais diplomático, que cento e vinte reais para fotografar um aniversário de criança se torna um valor muito alto para o cliente. Pergunta pra um advogado porquê ele cobra tanto pra fazer um habeas corpus. Meu amigo, eu respondo: qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade sem o menor conhecimento jurídico consegue fazer um habeas corpus. Assim como qualquer pessoa consegue apontar a câmera pra um lugar e clicar com a câmera no automático.

Mas é antes e depois de apertar o botão, e antes e depois de escrever o habeas corpus que vem o trabalho de verdade. Procurar o cliente (fazer reuniões na prisão), desenhar propostas de trabalho (idem), planejar a ideia depois de conversar com o cliente (idem), aplicar o estudado (idem), montagem e manutenção do equipamento (idem), posicionamento (base fática), iluminação (base teórico-jurisprudencial), protocolo (tratamento), acompanhamento (edição e novas versões) e finalmente a entrega do produto final (a libertação do cliente).

Talvez, se respeitássemos mais, um ao outro, como profissionais, as pessoas nos vissem como tais. Mas pra isso é preciso tirar o ego do caminho e o rei da barriga, e isso é pedir mudanças demais.

Opinião

Muitos, na verdade quase todos vocês não sabem, mas eu fundei esse blog há (quase) cinco anos. Fundei esse blog porque precisava de um espaço específico pra escrever sobre tudo. Precisava ter um espaço em que eu pudesse me referenciar, deixar algumas coisas escritas que acredito, que sinto e que vivo fáceis de se acessar para citar para outras pessoas. É praticamente impossível encontrar um post que você fez em 2011 no Facebook sobre um assunto específico sem ter o link direto dele guardado. E foi mais ou menos assim que isso aqui começou.

No começo, foi um depósito para meus versos (podem olhar se quiserem, mas não recomendo muito não) mas logo ele passou a hospedar o que hospeda, no fundo, até hoje. Reflexões, conversas e ideias que vão de discussões sobre o Período Eleitoral de 2010 até o sensacionalíssimo Prêmio Lindolfo Pires, que teve sua segunda edição ano passado.



Creia ou não, todas essas histórias se desenvolveram de conversas pelo Twitter. Você que só tem seus conhecidos e meia dúzia de redes de notícias no seu feed pode até não acreditar, mas o Twitter tem um potencial de amizade que nem o mais ingênuo ChatUOL ou o mais cabaço Facebook Gospel que possa existir. As pessoas e histórias que só foram possíveis na minha vida através dessa que era chamada de micro-rede social lá pros idos de fevereiro de 2008, quando me inscrevi, chegam ao ponto da surrealidade.

E hoje é o dia que eu chego ao 499º post nesse blog – e último dia como @Abigobaldo naquela rede social. Conheci várias cidades simplesmente porque alguém olhou pro meu twitter e deu um voto de confiança em mim. O Cristiano Machado e o Rafael Faria me hospedaram em suas casas. O Cleber de Sá me deixou viver com sua família por alguns dias pra entender o trabalho e a vida deles. O Thiago Paiva me colocou pra dentro da sua família e da família que seria a dele alguns meses depois. O Bruno Figueredo apostou sua reputação em mim, ao me indicar para um emprego que eu não tinha a menor experiência, mas que queria feito louco. O Ronnedy comprou a ideia e levou um bando de desconhecidos pra sua própria casa. O Tig Vieira resolveu mudar completamente de vida e me inspirou a fazer o mesmo – de maneira até levemente parecida (e nunca pediu royalties, graças a Deus). O Fayson Merege, compartilhou uma amizade de casais que virou uma amizade entre homens e viajou comigo pra subir num palco de desconhecidos. Perdi e recuperei a amizade da Verônica Acosta por tantas vezes que em uma delas até decidi namorar logo com ela, pra impedir ela de fugir mais uma vez de mim. De repente, não eram 30, 40 pessoas, eu estava falando com mil. Conheci o projeto de mestrado do Leonardo Rossatto, artigos acadêmicos da Déborah Vieira – e até alguns amigos dela.

Entrei em grupos estranhos (que não podem ser nomeados), com gente esquisita que me fez sentir cada vez mais em casa. Fui inconformado, descrente e agora presbiteriano, todos graças a amigos feitos nesse sítio. Falei com pessoas de longe o que não falava nem pra mim mesmo – ouvi histórias que fizeram meu tempo de pastor de jovens parecer, com o perdão da expressão, brincadeira de criança. Tentei ajudar aos outros máximo que pude, mas fui ajudado muito mais do que consegui ajudar a qualquer um. Ganhei presentes, lembranças, cartas e recomendações inesperadas. Fui tachado de imoral, de irresponsável, de hipócrita e babaca até pelos que já tinham sido mais queridos, e ganhei alguns tweets de apoio e consideração que valeram todo o resto. Fui julgado, fui crucificado de maneiras que atrapalharam até o relacionamento com meus pais por um período (e pouquíssimos acompanharam isso, todos esses pouquíssimos conhecidos nessa rede, e que se mantém comigo até hoje).



Mas, enfim, o dia chegou. O dia de se despedir dessa arroba que tanto transformou a minha vida. Foram 7 anos que valeram a pena. E deixem a numerologia gospel fazer seu trabalho sobre a importância desse tempo. Talvez eu escreva sobre isso. Talvez seja melhor deixar no imaginário. Mas estar com vocês foi bom. Muito bom.

Um adendo:

Esse abandono, embora já planejado há alguns dias, não é voluntário. Na verdade, em 2012, no mesmo ano que este mesmo blog foi invadido pelo Anonymous (sério, isso aconteceu de verdade, caras), alguém alterou a minha senha e eu perdi acesso a conta. Ok, recuperar a conta é fácil, o problema é que o e-mail que eu tinha cadastrado o Twitter não existia mais. Sem o e-mail, é impossível recuperar o acesso à conta do Twitter, já fui garantido disso por vários funcionários diferentes da empresa ao longo desses anos. Então o mais digno pareceu me despedir desse usuário, enquanto começo a twittar pelo @santoirgo. Estamos lá (:



Opinião

Já se faz um ano que eu vim para o Mato Grosso do Sul, e deixei a minha Minas Gerais, depois de passar por tantos cantos desse Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, o Distrito Federal. E nesses dias, eu nunca me senti tão vulnerável. É simples, não existe Estado no Mato Grosso do Sul.



Já precisei do Estado como advogado, no caso de uma grávida precisava de um remédio para sobreviver, ela e o bebê. Já faz três meses que o que era um feto se tornou um ser humano, nascido e vivo e, com uma liminar, um embargo de declaração e uma execução processual, ainda não se viu a cor do remédio – nem mesmo resposta alguma do Estado, ausente em todos procedimentos fora a contestação da inicial.

Não é só o Estado representado pelo Procurador – é o Judiciário Estadual, cujo juiz não move o processo sem que haja um pedido para fazê-lo. Não há o menor respeito pelo princípio da celeridade ou da economia processual. Não há a menor intenção de se fazer algo de ofício. Tive petições apagadas por acidente no cartório do Fórum, e mesmo com protocolo, ninguém soube me dizer o que aconteceu por uma semana com o pedido de uma medida liminar. Tive petições que demoraram mais de uma semana para entrar no sistema, que é completamente digital.

Já precisei do Estado policial, de várias maneiras distintas. Com uma oficina de som automotivo, cujo som era ensurdecedor a três quarteirões de distância, com uma denúncia de tráfico, com uma denúncia de violência contra a mulher, com uma denúncia de quadrilha de assaltos à mão armada. Uma das vezes, cheguei a ir no destacamento policial duas vezes. Na segunda, pra avisar que não havia mais necessidade – o sargento responsável teve a cara de pau de olhar no meu rosto e dizer que a viatura tinha se descolado para lá. Não, não tinha. Nem mesmo a denúncia de uma gangue realizando assaltos à mão armada provocou alguma resposta. A Polícia Militar afirmou que não era da alçada deles por estarem em rodovia federal, a Polícia Rodoviária Federal, que tinha um posto há 30 km do local não tirou o carro da garagem pra dar um rolêzinho e ver se cruzava com a galera. De todas as vezes que alguma polícia foi acionada enquanto estive presente, não dá pra contar na mão o número de vezes que uma viatura foi ao local: exatamente, zero.

Caetano cantava que o império da lei há de chegar no coração do Pará, mas bem que os bandeirantes da Constituição Federal poderiam fazer uma escala no Pantanal.



Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

Os aposentados querem sobreviver com seus trocados. Os funcionários querem ter aumentos salariais. Os universitários querem trabalhar. Os estudantes de Ensino Médio querem passar no vestibular. Os alunos do Ensino Fundamental só não querem repetir de ano. Queremos ser especiais fazendo nada além do esperado. Queremos brilhar fazendo nada além do mínimo. Queremos ser notados por sermos mais um no meio da multidão. Não é preciso ser nenhum especialista no assunto pra saber que não vai dar certo.

É meio chato, mas sem foco, a única coisa que vamos conseguir é andar em círculos enquanto somos empurrados por uma multidão que sabe tanto do destino quanto adolescentes de 18 anos sabem de logaritmos – e não se engane, quase ninguém no Ensino Médio sabe de logaritmos. Então, na boa? Aproveite, e mude logo!

Então, para se organizar, seguem algumas ideias que, se no ano que estiver chegando não te ajudarem, você pode aplicar no seu dia-a-dia – afinal são simples regras de organização pessoal que todos já cansamos de ouvir. Mas atenção: essas ideias não são pra quem tem uma grana disponível ou que não tem obrigações. Só pessoas que tem que dar os corres pra chegar no fim do mês, que precisam fazer trabalhos e estudar pras provas enquanto tentam algum freela em alguma área do universo, podem compreender essa lista.



(1)    Estabeleça prioridades

Não é aquela lista de quatrocentas coisas que você quer fazer da vida. Você não vai conseguir ir pra Paris, comprar um carro e passar no concurso público que quer no mesmo ano enquanto faz as coisas que precisa fazer – você precisa ter apenas um grande objetivo e um ou dois de médio alcance. Escolha despreocupadamente – sempre dará tempo de mudar de ideia ou fazer coisas novas nos próximos dias; não se precipite em objetivos profissionais.

Viajar, conhecer uma língua ou aprender alguma outra coisa (qualquer coisa, por sinal) é um um objetivo interessante. Sinceramente, não perca muito sono pensando no que fazer. Ponha um foco, pode ser até o sonho infantil que perdeu um pouco do sentido, tá valendo.

(2)    Planeje

Não, não é um cronograma pra tentar alcançar aqueles objetivos em tanto tempo – esqueça prazos, esqueça deadlines. Só vai gerar pressão e angústia quando a ideia é exatamente o contrário, o prazer.

Planeje como vai conseguir o que precisa conquistar aquele objetivo. Você precisa de quê? Dinheiro (quanto?), horas de estudo (quando?), treinamento (onde?), contatos (quem?), tudo isso precisa estar pelo menos rascunhado pra você não sair batendo a cabeça pelas paredes.

(3)    Força, foco e fé

Com o tempo vai ficar difícil dedicar aquele horário sagrado, mil coisas e oportunidades vão aparecer e você vai querer desistir tantas vezes quanto um gordinho de dieta deseja um cupcake de chocomenta. Até aqui foi brincadeira de criança, qualquer um pode fazer sem comprometimento. Então, algumas vezes na semana, nem que seja meia hora por dia, finja que está na academia e repita o mantra daquela galera estranha da academia – mas não precisa postar foto no instagram todo dia não, tá? Na moral.

(4)    Não desista

A maioria das pessoas desiste ali entre o terceiro e o sétimo mês de planejamento. Já passaram de ano, passaram de período na universidade, muita coisa andou e ainda não conseguiram atingir aquele objetivo que queriam.

Não seja tão impulsivo. A impulsividade, o desejo de ter tudo agora é que nos faz ser medíocres – aceitamos o médio, o comum porque não queremos esperar, treinar e lutar pelo melhor, com medo de perder. Se você definiu um sonho, corra atrás dele, não faça com ele com faz com o resto da vida. Deixe pra procrastinar nas outras 23h30 do dia.



(de k80soccer)
Opinião

(Do Manual do Quero Ficar Famoso Na Internet Sem Ter Novidade Alguma)

(de k80soccer)



1) Comece a gravação gritando o nome do programa. Sério, GRITANDO. Se você acha que o morador do 402 não ouviu, grite de novo (mesmo o prédio com quatro andares mais próximo esteja a três quadras de você);

2) Deixe os participantes do podcast se apresentarem com comentários engraçadinhos, como se a gravação fosse uma seleção dos piores momentos da festa de aniversário do seu sobrinho. Não importa se o tema é a guerra da cisjordânia, aborto ou as indicações ao Oscar, quanto mais rasa e manjada a piada, melhor;

3) Primeiro conteúdo: leitura do feedback! Leia e-mails longos, comentários gigantescos e impopulares que causarão enormes discussões e posts em outros blogs que tenham a ver com qualquer assunto que não seja o do podcast que está sendo ouvido. Não importa se é a primeira vez que o ouvinte está ali, ou se ele acabou de chegar – se ele não ouviu o episódio anterior, a culpa é toda dele! Não deixe essa parte da programação durar menos do que uma hora, por mais que o podcast inteiro tenha 1 hora e 20 minutos.

 



Opinião

perfil8

“Essa geração é a geração mais burra de todos os tempos. Não sabem fazer nada sozinhos, dependem sempre de alguém ou alguma ferramenta que faça por eles. Não sabem se virar, estão cada vez mais dependentes da tecnologia e de alguém para ensiná-los. Cadê a curiosidade? Cadê a vontade de ser independente? Mas não, eles só pensam neles mesmos e naquelas coisas que carregam para todos os lados”


Virou lugar-comum falar dos jovens. São dispersos. Não respeitam nada. Não querem aprender. Se esqueceram do que é importante. Eu imagino que isso deve ter acontecido várias vezes durante a história da humanidade, e, por incrível que pareça, essas novas gerações cada vez mais burras têm sido cada vez mais eficientes. Quer dizer, o homem descobriu técnicas novas de conseguir energia que não precisasse transformar todas as árvores do mundo em lenha. Descobriu maneiras diferentes de guardar um texto escrito sem precisar transformar toneladas de madeiras vivas em papel (com uma durabilidade muito maior!). Como chegar mais longe, mais rápido de maneira mais segura e gastando menos combustível. Como alimentar mais pessoas, produzindo mais comida num menor espaço que agride ainda menos o meio ambiente.

Quer dizer, toda vez que uma geração se torna mais burra, na verdade ela está se adaptando a um novo paradigma e os reclamões – que nem sempre são mais pessoas velhas, apenas pessoas novas apegadas a velhos conceitos, não vejam o panorama geral – e a gente pode desenhar cinco situações simples pra compreender como isso funciona hoje (e como provavelmente funcionou alguns anos atrás), se liga comigo:

(1) Essa geração não sabe escrever!

Novas reformas ortográficas, contrações, aportuguesamentos de palavras estrangeiras que já existiam no Brasil ou seriam facilmente adaptáveis com um pouquinho de boa-vontade dão calafrios nos níveis intelectuais mais altos. No anúncio desses eventos, algumas pessoas tendem a agarrar o seu primeiro exemplar de Camões e a chorar no cantinho escuro do quarto, em posição fetal.

O engraçado (ou pelo menos interessante dessa história toda) é que as línguas nunca foram estáticas. Quer dizer, o latim não foi pra UTI do dia pra noite, quando deu luz à diversas linguazinhas que seriam suas descendentes. O latim foi sendo estrupado com o passar do tempo, através de péssima ortografia, falta de semântica e uma provável conjugação verbal de matar o latino dono da padaria (afinal, o português, ao menos linguisticamente falando, é latino).

Mas essa geração que escreve akivc, tu vaiqq se kerqqr um está matando a indústria panificadora inteira de uma vez só – e isso não necessariamente é ruim. Imagino a cara dos grandes fazendeiros ao ver seus filhos transformarem o vosmecê em você, assim, sem nem pedir autorização nem completar a palavra. VOCÊ, cara. Que palavra horrível. Mais ainda: imagino a cara dos colonizadores portugueses vendo aquele bando de filhos de seus compatriotas com as índias, se achando completamente europeus e falando vosmecê como um bando de caipiras tentando falar vossa mercê. Um bando de analfabetos funcionais.

E não pára por aí – não basta não conseguirem falar direito, esses moleques não sabem escrever direito! Quer dizer, eles mal conseguem usar papel e caneta, tudo eles fazem com ajudinha do computador. Não tem memória nenhuma, por isso não aprendem nada. Querem tudo fácil, tudo na mão, tudo digitando e escorregando o dedo no Swype. Exatamente a mesma coisa que o pajé, analfabeto, pensava do português que, pra não esquecer de algo, precisava ficar escrevendo e escrevendo e escrevendo. Onde já se viu um povo sem tradição oral? Sem que todo mundo soubesse sua história, de cabo a rabo, puxando pela memória de viver e de ouvir falar? Os portugueses, esses sim, eram um povo mais frágil, sem todo o desenvolvimento intelectual de um aborígene americano. Não conseguiam nem lembrar de uma conversa se não dependessem de um pedaço de papel higiênico, quem dirá achar o caminho de casa depois de uma batalha – inúteis. Sempre dependentes de papéis. Carregam pra lá e pra cá e vivem entretidos com aqueles montes de blocos em branco enquanto a vida acontece à volta deles.


(2) Essa geração tem tudo na mão!

Tudo. tudo tudo – exatamente tudo está na internet. Fritar um ovo? Tá lá, em textos, imagens e vídeos. Dar um presente? Tá lá, em diversos tamanhos, preços e prazos de entrega. Fazer um curso? Tá lá, em diversos sites, quantidades de vídeo-aulas e certificados de quantidades impressionáveis. Satisfazer o sexo oposto? Tá lá, das maneiras mais conservadoras (fazendo um chocolate) até as mais ousadas (se colocar morango vira sorvete napolitano). Eles não encontram dificuldades, por isso não vão saber lidar com problemas na vida futura – imagine que a crise de um pré-adolescente hoje é ficar sem celular – ou pior ainda, sem internet (celulares sem internet são inúteis pra essa galera).

Por isso tanta gente mimada. Não precisou fazer um curso de datilografia. Quer dizer, de caligrafia. Quer dizer, aprender o ofício com o pai. Quer dizer, plantar e colher no mato, com as mãos nuas. Quer dizer, a caçar sua própria comida – não, pera! As necessidades mudaram. Ninguém nas cidades precisa, há um bom tempo, saber fazer fogo com duas toras de madeira pra fazer uma refeição. Na verdade, há alguns anos, ninguém precisa fazer fogo com um fósforo em muitos lugares do planeta. São seres menos desenvolvidos por nunca terem esfregado dois galhos secos de uma árvore? Terão depressão por nunca terem gastado uma caixa inteira de fósforos até que a lenha perdesse a umidade e pudesse pegar fogo?

Acho difícil. Os desafios são outros. O caminho para a liderança da matilha é outro. A forma de dominação e subjugação é outra. Nos anos 90, você chegava ensanguentado depois de apanhar do coleguinha mais forte. Nos anos (dois mil e)10, você chega sabendo que é a pessoa mais escrota do universo e não conseguirá nunca ser alguém na vida. Além de ser gordo, idiota, burro, feio, babaca e retardado mental. Mas para as crianças que já nasceram velhas, isso tudo é frescura. Não existe bullying. Bullying é apanhar na escola. Bullying é ser morto pelo lobo-alfa da matilha. O resto é frescura.


(3) Essa geração não dá valor em nada!

Não se faz mais as coisas importantes na vida (seja lá quais forem). As pessoas não tem mais rituais de passagem. Anos atrás, você tinha a passagem para a puberdade, que o pai, carinhosamente ensinando ao filho as relações familiares de afeto, carinho e o que prezar num relacionamento, levava o filho a uma casa de tolerância para entender o que realmente é uma mulher de verdade. Não é mesmo?

Antigamente, as crianças passavam a noite inteira, soltas na selva, molhados, nus e só com uma lança e só eram aceitos de volta na sociedade se voltassem após matar um tigre ou um urso, o que parecesse mais aterrorizante.  Hoje esses meninos estão aí, sem saber o que fazer com suas genitálias, sem saber chegar numa mulher por causa disso! Saudades Piteco, ele sim sabia lidar com o sexo feminino como ninguém.

Meninos não viram homens, meninas não viram mulheres e essa geração não respeita nada.  Não tem um pingo de discernimento entre o divertir e o trabalhar. Querem trabalhar se divertindo, querem divertir-se trabalhando. Onde já se viu isso? Trabalho precisa ser chato, por isso começa com TRA de TRAnstorno por um motivo, amiguinho! Trabalho, pra última geração, precisa ser chato, precisa ser tedioso, precisa ser maçante – pra dar dinheiro. O trabalho que dá pouco dinheiro, mas é divertido, é sagaz, nos faz bem não vale. Essa nova geração tem um racha gigantesco entre pessoas que querem ganhar dinheiro desesperadamente, pulando de um emprego pra outro e acumulando freelas e pessoas que só querem ter… bom, na verdade nem estão tão preocupados assim em ter, é mais aquela coisa de trabalho-barzinho-cinema-casa. Sabe, de gostar da rotina, economizar pra viajar uma vez por ano? Então, quem tá acostumado a bater ponto no escritório não consegue entender esses estilos de vida.


(4) Essa geração só pensa naquilo. É isso aí mesmo, que você tá pensando!

Cresceram sexuais. Usam maquiagem desde pequenas (às vezes até desde pequenos), dançam funk até o chão em festas de aniversários que o cajuzinho ainda é aquele docinho feito realmente de caju e só querem conhecer e pegar alguém – com certeza irão engravidar antes dos 15. Aparentemente quem fala isso pulou direto de 1930 para 2014, porque não viveu o É o Tchan nos anos 90 ou Menudo nos anos 80, com letras e coreografias que passavam bem longe da moral e dos bons costumes – e não adianta falar que era restrito a uma classe social.

Crianças sempre tentaram parecer adultos. Por isso que a menina insiste tanto em tentar pegar a maquiagem da mãe (mesmo que não saiba como usar) e meninos já pensam logo em suas profissões. Todo mundo quer crescer, ser maior, fazer mais coisas sozinho sem depender dos outros. É isso que nos move, que move a sociedade, que move os cientistas e inventores. Fazer mais, fazer melhor. Ir mais longe, como indivíduos e como raça. Uma criança antes da puberdade que quer parecer adulto não está pensando em transar, está pensando em ser independente. Como, no fundo, todos nós fazemos até hoje quando chegamos à noite e deitamos na cama.

Mas porque então de repente tudo que os adolescentes fazem parece estar ligado ao sexo? O maior problema é o alcance. Antigamente, tudo que acontecia entre dois adolescentes ficava entre eles, ou um grupo de amigos em comum. No máximo no máximo toda a escola ficava sabendo de alguma bobice que eles fizeram quando não tinha ninguém vendo. Agora, qualquer bobice está ao alcance de qualquer pessoa com 3G na mão – e isso é muita gente. Não precisa conhecer uma pessoa pra ver suas fotos íntimas circulando no Whatsapp, não precisa ir ao clube pra ver aquela garota de biquíni – e não precisa ser amigo de ninguém pra saber quanta gente essa pessoa já pegou. É tudo domínio público já – talvez a noção do fim da vida privada que assuste mais os mais velhos do que as bobices feitas pelos ouvintes do Jonathan da Nova Geração (que já tá bem antiguinho, por sinal) – mas fazer bobice sempre foi mainstream.


(5) Essa geração não sabe o que quer!

Antigamente, você terminava o que começava. Entrava numa faculdade, não gostava? Ia até o final, oras. Vai fazer coisa malfeita? Entrava num namoro, tava ruim? Tentava melhorar. Arrumava um emprego que o chefe é chato? Lidava com isso. Hoje não: todo mundo quer desistir de tudo. A pessoa começa 5 faculdades e não completa nenhuma, porque não gostou. Namora e separa três meses depois porque descobre incompatibilidade de gênios. Qualquer carão que leva do chefe já tá com a carteira de trabalho na fila da Caixa pedindo seguro desemprego.

Engraçado essa falta de direito ao arrependimento. Não gostei de um curso na faculdade vou ter que ficar mais três, quatro, cinco anos estudando algo que detesto pra trabalhar numa coisa que odeio só porque aos 16, 18 anos eu não sabia direito o que ia querer da vida (se é que houve escolha)? Descobri que namoro uma pessoa completamente insana e tenho que ficar com ela porque, oras, porque sim? A liberdade de hoje incomoda quem já foi muito preso – não porque acha que todos precisam sofrer como as gerações anteriores sofreram, mas porque tiveram sonhos, desejos e vontades tão oprimidos que começaram a acreditar naquilo que seus opressores diziam.

Quando alguém da velha guarda diz que esses jovens precisam é de uns sopapos pra consertar a vida, é porque levou tanto tapa na cara quando novo que só sabe reproduzir o sistema. É por isso também que é um absurdo pra alguém com mais de trinta anos abandonar a faculdade – ou pior, trocá-la por um curso técnico de outra área. O diploma é sagrado (vide item 03), o relacionamento também e tudo que você pensar em fazer precisa necessariamente cumprir, senão algo de muito ruim pode acontecer (e acredite, vão usar qualquer coisa, qualquer mesmo)!


O aprendizado é simples: da mesma forma que você não é tão bobo quanto seu tio acha que você é, seu sobrinho não é tão besta assim. Vocês viveram contextos diferentes durante a juventude – por mais que você tenha vontade de falar juventude leite com pêra (leite com pêra deve ser horrível por sinal), para quem nasceu nos anos 70 você parecia bem mimadinho. Se quem nasceu nos anos 2000 é piá de prédio, você era chamado de moleque do asfalto.