As manifestações trouxeram uma multidão de novos olhares e percepções sobre o Brasil. Por bem ou por mal, pessoas em todos os cantos do mundo se surpreenderam com as revoltas que surgiram no país (quase inteiro), desde as menores cidades até as maiores, envolvendo uma turba que lutava por várias coisas.

Independente do que se conseguiu ou não, a informação foi um ponto crucial das manifestações – tanto a falta como o excesso. Se os comunicadores viviam à beira de um futuro que ia do controle extremo da informação de George Orwell (1984) até ao fluxo constante e indistinguível de informações incompreensíveis de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), as manifestações no Brasil tiveram um pouco de ambos na sua formação – e foram essenciais para o seu surgimento, assim como foi o que as levou à ruína.


Boa parte dos brasileiros estava em casa naquela quinta feira, dia 14 de julho quando estourou o terceiro grante ato contra o aumento da tarifa em São Paulo. Deitados no sofá assistindo TV, navegando nas redes sociais sem se preocupar muito com as confusões que estavam tentando tomar conta da capital paulista.

No fundo, todos nós éramos um pouco a favor da redução, todos nós acreditávamos que R$3,20 era um preço muito além do abusivo para o serviço oferecido, mas nem todos nós tínhamos exatamente pelo que lutar – até que começou a pancadaria generalizada.

Um turbilhão de informações invadiu as redes sociais, tanto o Facebook como o Twitter, assim como os próprios sites de jornalismo, que em suas linhas do tempo começavam a mostrar a repressão policial sem algum motivo aparente.

Enquanto os âncoras e a equipe de jornalismo batia cabeça tentando entender se existia algo que tinha causado a fúria da PM, os repórteres in loco repetiam a cada minuto o que tinham visto: A Polícia Militar desceu o cacete numa manifestação pacífica, e começava a atacar a todos que estivessem por ali: manifestantes, lojistas, repórteres, moradores de rua, qualquer um que cruzasse seus caminhos.

Esse foi o estopim para todas as outras manifestações – e foi aí que nós, que não tínhamos até então pelo que lutar, ganhamos o que faltava: uma motivação. Mas não adiantava apenas uma motivação, precisávamos entender o que aconteceu até aquele terceiro ato, ir atrás pra descobrir quais tinham sido os dois primeiros e estabelecer uma linha de luta nas outras cidades.

Mas tudo que a mídia tradicional tinha a oferecer era, até então, um tratamento dos manifestantes como marginais, vagabundos e desocupados que queriam promover a bagunça. Foi aí que surgiram os primeiros grupos de mobilização e de informação. Nesse ponto tivemos o Mobilizados, a mídia ninja e vários outros grupos de apoio.

(1)    O excesso de informações (Aldous Huxley)

Esses grupos de comunicação foram o principal ponto de encontro para novas ideias e agregar novas pessoas ao movimento, além de possibilitar a troca de informações em tempo real.  Isso deu um poder de mobilização impressionante, além de trazer uma organização aos grupos em cada cidade que movimento social nenhum tinha visto – até mesmo grupos de ajuda e resgate foram formados (principalmente em Rio e SP) por socorristas voluntários.  Em muitas cidades, essas manifestações trouxeram recordes históricos de pessoas nas ruas, que dificilmente serão superados num futuro próximo.

Várias pessoas de ideologias diferentes, com histórias de vida diferentes – que a única semelhança que tinham era a cidade que viviam estavam lado a lado por alguns instantes pelo seu direito de manifestar – não era mais por 20 centavos. E foi aí que as primeiras rachaduras começaram a ser expostas.

(2)    O começo do fim

Depois dos primeiros dias, quando todo mundo foi às ruas pedindo várias coisas, os movimentos sociais mais antigos começaram a se preocupar com a efetividade das manifestações. Sem um caminho certo, uma lista de pautas, não conseguiriam trabalhar (eu falei sobre o atraso dessa visão aqui) e o movimento perderia força frente aos governos. Foi aí que começaram a se fechar em grupos menores e disputas entre esquerda e direita; progressistas e conservadores e assim por diante.

Esse clima de desconfiança, de debates intensos e de, muitas vezes linchamentos a filiados a partidos, instaurou uma crise – de repente, toda informação vinha com um QUÊ de perseguição, como se todos se tornassem inimigos uns dos outros.

(3)    O controle das informações (George Orwell)

Neste ponto os grupos se fecharam e deixaram de acreditar nas informações alheias. A velha mídia voltou a ser a vilã, e os vários dias de participação ativa no apoio às manifestações tornaram-se apenas uma faceta hipócrita para desmoralizar os movimentos. Os grupos de esquerda começaram a se afastar dos de direita, porque eles queriam apenas atrapalhar as manifestações com pedidos vazios, e os de direita começaram a se afastar dos de esquerda porque partidos não deveriam participar das manifestações, apenas pessoas.

Nisso, cada grupo começou a filtrar as informações que chegavam, não as divulgando e deixando a grande massa – aquela que fez a diferença e foi pras ruas no começo da história, alienada de tudo o que acontecia. Resultado – passividade, como a história de Orwell demonstrou.

(4)    Conclusão

As reflexões feitas sobre as duas obras sempre pecaram num ponto: elas eram absolutas. Ou aconteceria uma ou outra – e as manifestações no Brasil trouxeram à toda a possibilidade de ambas acontecerem simultaneamente, dentro de grupos diferentes de organização, mas em relação às mesmas pessoas.

Enquanto o manifestante era bombardeado de informações nas redes sociais e na TV, durante a manifestação e nos grupos de mobilização, ele era influenciado pelo grupo a ignorá-las, já que as discussões morreram e o dualismo era absoluto: ou você era x ou y, todo espaço para dúvidas, questionamentos ou individualidade tinham ficado pra trás, lá no começo.

A Revolta da Salada azedou.


Eu relutei muito pra postar algo sobre os protestos diretamente. Mas já tá passando da hora de colocar algumas coisas na mesa, pra trazer um pouco, senão de sentido ou direcionamento, fazer alguns questionamentos quanto ao que todos nós temos feito.

Toda vez que eu postar algo relacionado aos Protestos, vou linkar aqui e divulgar o link desta lista, pra que a pessoa entenda o contexto do que eu disse.

Divirtam-se, abraços, s2.


Formação de lideranças e pautas

=> Lideranças são necessárias? Escrever pautas é mesmo o que esse movimento precisa? Que tipo de organização a gente quer?

Apartidarismo, Antipartidarismo?

=> Os problemas do partidos no meio das passeatas e os erros de todos os lados.

Aversão à Mídia, Infiltrados e Golpe Militar

=> Sensacionalismo? Não anda precisando de uma mídia pra capitalizar em cima das histórias, as pessoas criam seu próprio caos buscando infiltrados e várias conspirações.

Valorização de professores, PEC 37 e outros pedidos aleatórios

=> A temporada é de fazer pedidos. Desde pastel mais barato até tirar o Hulk da Seleção, os cartazes pedem por muitas coisas que nem sempre podem ser solucionadas por ali.

Contra partidos, partidários, filiados e qualquer forma de ser humano que discorde de mim

=> Caça às bruxas. Como um movimento apartidário se tornou incrivelmente tendencioso – e como evitar conflitos. É antipartidário? É filiado? Veja como você pode agir sem ser (muito) idiota.

Eu fui a favor de um movimento apartidário uma vez. Quando todas as bandeiras de partido eram postas de lado e a proposta era apresentar-se como um povo só. Eu fui parte de um povo que já pediu abaixe a bandeira, meu amigo – vamos juntos, sem precisar de um partido ou uma ideologia – assim como já puxei palavras de ordem pra tirarem bandeiras.

Mas o movimento sem partido de ontem, é um movimento que carrega bandeiras da UNE e instituições pelegas enquanto expulsa o MST, não é um movimento apartidário. É um movimento burro. Não estou nem aí com quem chegou na rua primeiro, ou qualquer briga de egos de quem começou manifestações ou lutas populares. O meu problema é você chamar todas pessoas para a rua, e querer que elas obedeçam um padrão que você estabeleceu.


Você quer que as pessoas venham pra luta com você, e o povo seja unido, ou você quer que todos tenham o mesmo ideal que você e sejam iguais a ti? Independente de quem tenha começado, ido pra rua direito, todos tem, tecnicamente, o mesmo direito de ocupar um espaço público. Você impedir a manifestação de um grupo, seja de extrema esquerda, seja governista, seja de extrema direita – até anarco-capitalistas tem direito a estar na rua.

Mandar as pessoas de volta para casa; xingá-la pelos seus ideais e ameaçarem (ou até mesmo usarem da violência física) são violências muito mais graves do que o que os vândalos que não fazem parte do protesto fazem quebrando as lojas e roubando bens.

É manifestante e não quer partidos?

Ignore-os. Isole-os. Não é chutando ou expulsando, é fagocitando. Se unam, numa massa que esteja demonstrado para todos, inclusive pra mídia quem está fora do movimento e quem são os partidários. Não parta para a violência, sob hipótese alguma.

É filiado a partido?

Estão xingando, avançando e ameaçando atos de violência? Sente no chão. Não responda a gritos com palavras de desordem. Você não vai conseguir ensinar as pessoas em 5 palavras o que elas não aprenderam em 10 anos de escola. Sente no chão, no seu grupo, grite palavras de ordem.  É o ideal? Não, mas assim ninguém tem como culpá-los.

Querem estabelecer focos, mesmo contra tudo que eu disse nos textos anteriores. Ok. Mas então vamos lá, é pra organizar de acordo com os anos 90, então vamos organizar de acordo com os anos 90, mas vamos pensar um pouco.

É lindo querer valorizar professores mais do que o Neymar – sério, eu sou a favor de que professores sejam mais valorizados. Até porque eu entrei nessa vida pra dar aula mesmo. Eu fico muito feliz que a sociedade se posicione em relação à emendas na constituição – coisas que influenciam diretamente na vida delas.


O que me chateia é gritar por valorização de professores enquanto as matérias na escola são um saco, como se valesse apenas a boa-vontade e sorriso de um professor que ganha 20 mil reais por mês que todo mundo vai se apaixonar pelas aulas de gramática e química inorgânica. Sério, não vai ser um salário gigantesco.

Mas é lindo falar em valorização do professor pro prefeito. Quer valorizar um professor mais do que o Neymar? Fale mais de matérias escolares que de futebol então, negão! Nunca vi um tweet falando “putz, o professor fulano mostrou uma fatoração GENIAL na aula hoje!”, ao invés dos comentários sobre gols do Neymar.

Quer valorizar educação mais do que Neymar? Ao invés de assistir jogo do Barcelona, assiste TV Cultura. Tem um monte de professor lá dando aula esperando audiência e participação nos programas pra ter salário aumentado (e ser valorizado!).

Outra coisa: discutir PEC 37 com prefeito de cidade é mais inútil do que discutir com ele a escalação do Daniel Alves. Não é ele quem apita sobre isso nem vai poder influenciar alguém pra fazer algo por isso – na boa.

Quer discutir com prefeitos? Falem sobre problemas locais, pombas. Como eu disse em outro tópico, não precisa explicar como e quando deve ser feito. Digam “quero X e não vou parar até ter X”.

Seja passe livre, seja ônibus com ar-condicionado, seja o que você quiser.

Aversão à mídia é um dos piores problemas que esses protestos tem. Eu já bati nessa tecla várias vezes – que a mídia é um instrumento. Os telejornais compraram a ideia de que não é por 20 centavos, lançada pelos próprios manifestantes – e de repente começaram a ser culpados por não ser só 20 centavos, mas porra!


O mimimi com a mídia começou porque a mídia é manipuladora, omite fatos e muito sensacionalista – o mais incrível é que o maior sensacionalista de todos os tempos mesmo estão sendo os próprios manifestantes. Não existem vândalos, são todos infiltrados da PM para desestabilizar os movimentos e manipular a mídia.

A mídia continuou dizendo que vândalos eram minoria e não faziam parte da manifestação (mas e daí, a mídia é sempre má!), mas eu fiquei impressionado mesmo com o tamanho do efetivo da PM. Só em São Paulo, o efetivo reserva, pra fazer parte dos vândalos ultrapassavam os 3 mil – fora os policiais que estavam infiltrados nas manifestações pacíficas, e os policiais fardados que faziam a segurança.

A ironia é que é mais fácil para as pessoas acreditar e espalhar que é a PM que estava incitando a violência do que parar pra pensar na quantidade de ladrões, assaltantes e outras pessoas que não pensariam duas vezes pra sair ganhando com todo o efetivo da PM voltado em um único ponto da cidade. É claro que existem pelo menos 5 mil trombadinhas em São Paulo. É claro que pelo menos metade deles viu aí a oportunidade de suas vidas. E é óbvio que é isso que aconteceu – mas não, saqueadores são infiltrados.

Pior do que isso, é a ameaça de golpe militar que vocês estão farejando. Vocês estão sendo mais idiotas do que o Neto com suas previsões futebolísticas – larguem mão de espalhar boatos e ideias furadas só pra ganhar RTs e FAVs, na moral. Vocês dizem que ninguém quer ajudar a construir o país – mas esses tipos de comentários sobre “perigos” e “obscurantismos” (vocês sabem o que essa palavra significa, ou só acham ela bonita, igual bisonho?) do MPL e de tudo que tem acontecido.

O objetivo do MPL (Movimento Passe Livre) é um só, e eu achei que nem mesmo o mais alto grau de analfabetismo funcional impedisse as pessoas de enxergarem os objetivos deste movimento.

Existem dois pontos a ser discutidos aqui:

1º Expulsarem os partidos das manifestações.

Eu não tenho muita opinião formada sobre expulsar partidários – pra mim, eles fazem parte do povo.

“Eles estão roubando a manifestação pra eles”

Não, não estão. Eles estão lá, junto com todos os outros, com suas pautas específicas, como todos os outros.

“Eles querem aparecer e usar isso pra fins eleitoreiros”

Olha, pessoalmente, as propagandas eleitoreiras tem sido feitas por partidos que não estão indo nas manifestações (como o PPS). Existem babacas em tudo quanto é tipo de situação – dentro dos partidos também? Siiim! Mas não é por isso que os militantes são babacas. Respeito não é o que a população pede? Então respeitem os militantes também, ora.


2º O mimimi partidário ao ser expulso.

Estão agora defendendo os partidos expulsos, principalmente o PSTU, porque o PSTU estava nas ruas primeiro.

Olha galera. Imaginem militantes do DEM participando das marchas do PSTU. Não, não ia rolar né? Então: não foi o PSTU, nem o PSOL que chamou as manifestações. Eles não estão sendo expulsos das ruas.

Essa postura de estão nos chutando de onde a gente sempre esteve é a que mais me dá agonia nos partidos dessa esquerda extremista – sempre coitadinhos injustiçados e com aquela síndrome de corno que três anos depois ainda põe a culpa das merdas que faz nos chifres que levou.

Ao invés de se organizar e promover outros eventos com suas pautas (aproveitando da democracia líquida) eles tem mais vontade de mostrar quem é que manda porque dizem ter mais direitos, já que estariam nas ruas há mais tempo.

Deixa eu avisar – isso não vai funcionar, e vai criar só mais ódio entre todas as partes. Eu sou completamente a favor da inclusão de partidos, militantes e instituições já existentes, mas o respeito é essencial: cada um se colocar no seu lugar e não querer comparar currículo.

Pra mim, tanto faz se for DEM ou PCO, desde que o governante eleito dê o que o povo tanto clama: um governo justo.

Vamos recapitular um pouco. O Movimento Passe Livre puxou atos contra o aumento na tarifa de algumas capitais, principalmente Rio-SP. Em São Paulo, até quinta feira, o normal de sempre – até que veio a pancadaria da Polícia. De repente, todos os jornais estavam a favor do movimento: a polícia militar bateu primeiro, sem provocação. Isso foi manchete na Folha, na Globo, GloboNews, Band, Record, só não foi no SBT porque eles tavam ocupados passando Chaves.


Putz, a mídia estava falando uma coisa em favor dos manifestantes. Datena e Marcelo Resende vociferavam contra a PM que eles sempre defenderam. A partir daí já começaram os conspiracionistas (mas isso fica pra outro post).

Com a convocação geral, o anúncio era Não são mais 20 centavos. É a nossa liberdade que estão querendo tirar. É contra um Estado que violenta quem protesta pelos seus direitos. É contra uma PM que bate antes de perguntar – isso é o que foi defendido em TODAS AS REDES SOCIAIS.

Aí as manifestações pularam de 100 mil pra 500 mil pessoas – óbvio, MPL já não tinha mais controle. Era uma coisa linda, pessoas todas juntas, insatisfeitas, demonstrando que não era mais legal aquilo que tava rolando – isso segunda feira. São Paulo tomou 3 pontos vitais da cidade, e ninguém iria nos parar.

Eram milhares de pedidos, de pessoas desesperadas. Cada um esteve lá com um propósito: demonstrar a sua insatistação com o jeito que as coisas estão.

Minha opinião: a população não precisa chegar com propostas prontas pro Governo. Quem tem especialistas, quem tem uma rede de estudos e tem todos os dados são os governantes, não a população.

A partir daí, começaram a criticar o movimento: falta foco. Marcelo Resende começou a defender essa falta de foco, porque unia as pessoas. O ideal não era mais vinte centavos. Era toda uma vida, toda uma estrutura estatal que precisa ser mudada. E a população não tem os dados suficientes pra mudarem isso.

Estão pedindo por liderança: deixa eu te contar – é exatamente por existirem lideranças que os Partidos e as instituições dos anos 90 estão sendo escurraçadas das manifestações. Líderes transformam as propostas em taxativas, e tornam a manifestação proibitiva a algumas pessoas. E é isso que está começando a acontecer.

Democracia nos anos 2000 é uma democracia líquida. São pessoas exigindo seus direitos e um governo justo – e os governantes precisam saber balancear esses direitos para satisfazer a todos. Não é a sociedade civil que precisa organizar as melhorias a serem realizadas. É o governo.

Novas lideranças vão trazer de novo a responsabilidade de pauta para a sociedade, e essa pauta vai novamente causar divisões, cessões e a morte desses movimentos: assim como a reforma agrária, assim como a CUT, assim como o próprio PT. Vamos mesmo repetir a história e pedir por liderança e foco?