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Desconfio fortemente das justificativas para o fim do foro privilegiado; da mesma forma desconfio fortemente das justificativas para sua manutenção. Não é possível sobreviver com a quantidade de processos prescritos nos Tribunais Superiores, muito menos não é possível acreditar piamente na quantidade de absolvições dos processos efetivamente julgados, por mais garantista que seja a Corte.

Foro Privilegiado
Gráfico da Folha. Para acessar a matéria, clique no link.


Fim do foro privilegiado: A realidade da primeira instância

Como advogado com casos criminais, aqueles da ralé, simples, de primeira instância, que já foi rotineiramente em presídios visitar clientes, já passou notícias e informações para a família e auxiliou mães, esposas e maridos a fazerem carteiras para visitação de domingo, eu não acredito na celeridade da primeira instância. Veja bem – um processo meu, por exemplo. A denúncia foi realizada em maio de 2014. Agora, em março de 2017 foi marcada a primeira audiência de instrução e julgamento. Ela foi marcada para junho de 2018. Sério, pode ver:

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Ou seja – na primeira audiência em que vai ser discutido o processo, já terão se passado quatro anos desde a denúncia, ou seja, o período completo de um mandato eleitoral. Isso para a primeira audiência. Até o juiz sentenciar, pode acrescentar facilmente mais quatro. Para subir uma apelação, e fazer o Tribunal de Justiça dar um acórdão, pelo menos mais cinco. Desse acórdão, um recurso especial para o STJ, uns doze. Talvez com recurso extraordinário para o STF, quinze.

O que me lembra de um certo detalhe:

Enquadramento

Pesquisa recente no Reino Unido, sobre a qual falei recentemente no meu Facebook, mostra como o enquadramento (ou seja, a forma em que se colocam os fatos) muda a percepção das pessoas sobre o tema. A pesquisa tinha como pergunta principal a redução da minoridade eleitoral – no Reino Unido apenas maiores de 18 anos estão aptos a votar.

Primeiramente, quando perguntados se eram a favor de diminuir a idade necessária para votar de 18 para 16 anos, 56% dos britânicos foram contra e 37% a favor. Na mesma pesquisa, quando perguntados se eram a favor de dar aos jovens de 16 e 17 anos o direito a votar, 52% foram a favor e 41% contra.

Praticamente 15% de indecisos e contrários tomaram um partido – e 25% (SIM, VINTE E CINCO POR CENTO, UM QUARTO) que era contra deixou de ser simplesmente por causa da forma que a pergunta foi realizada.

 


Dúvida central

Estamos falando de 25 a 30 anos de processo – isso é celeridade? Para quem? Quem são esses defensores do fim do foro privilegiado pela celeridade do processo? Eles se recordam de como é atuar em instâncias comuns? E por fim – a quem interessa não discutir o fim do foro privilegiado – ou ainda, a forma em que essa discussão tem sido pautada?

Não há dúvidas (nem disfarces) de que a reorganização das competências e o fim do foro privilegiado é consequência das estrondosas revelações realizadas pela Operação Lava-Jato. Coloca-se o juiz federal de primeira instância como bastião da moralidade na luta contra a corrupção – o juizeco de primeira instância conforme já foi referido, e o Supremo Tribunal Federal como parte de um grande acordo nacional para silenciar a operação.

Será mesmo? Não consigo acreditar que a intenção de acabar com o foro privilegiado de maneira tão imediata seja o suicídio das ambições corruptoras do legislativo federal.

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Todo mundo é contra a corrupção, 2013 teve aí pra provar que o brasileiro não é tão apático assim quanto se pensava. Afinal, não é muito do lance da galera pagar caro por serviços que não recebem. Asfalto, transporte público, serviços telefônicos, transporte intermunicipal, saúde pública e particular, pombas, até nos Correios a gente bate com a cabeça na parede de vez em quando (é, aquele pacotinho pequeno que tá parado em Curitiba há três meses).

Mas a desoneração de impostos não é a luta certa. Critica-se o Brasil, à torto e à direito, por ter uma das mais altas cargas tributárias do mundo. Seja lá como for a métrica que se use, considerando ou não os impostos embutidos e as variáveis de impostos de localidade para localidade, a desoneração definitivamente não é o caminho certo.



1)      Menos imposto, menos corrupção.

Primeiro, porque menos impostos não significa menos corrupção. Ok, você pode entender ou pensar que menos impostos signfica menos dinheiro a ser roubado, ou ao menos, não vai ser o Estado quem vai te roubar – mas a corrupção está arraigada no sistema, não no serviço público.

Sabe quando você liga para sua telefônica, por exemplo, privatizada no começo dos anos 90 e tida como exemplo de como a privatização é um sucesso (afinal, você não precisa mais pagar milhares de reais para ter uma linha fixa de telefone, você paga milhares de reais para ter um aparelho móvel) e a empresa de telemarketing não respeita nenhuma das regras que o Código de Defesa do Consumidor determina, como não demorar mais de 15 minutos para resolver o seu problema, não transferir sua ligação por mais de uma vez, te dar a opção de falar com um atendente no primeiro menu, todas essas coisas? Isso também é feito por corrupção.

Sabe quando você vai ao banco, que é privatizado (até mesmo o Banco do Brasil, que é meio a meio), e fica mais de 15 minutos na fila, num claro desrespeito às normas, seja seu banco vermelho,  amarelo, verde ou acinzentado? É corrupção.

Quando alguma empresa te cobra uma taxa por um serviço que você não contratou, ou te obriga a contratar telefone, TV a cabo e internet tudo junto, porque afinal, é mais barato fazer isso que ter só internet? Isso mesmo, corrupção.

A grande diferença entre o setor público e o setor privado é que na corrupção do serviço público, quem ganha são apenas os funcionários corruptos. Na corrupção do serviço privado, quem ganha é a corporação – se é que você me entende.



2)      Menos imposto, mais escolhas

O Brasil tem uma das mais altas taxas de impostos (lato sensu) do mundo, mas esse imposto não é revertido em serviços. Diz-se que, se o brasileiro pudesse escolher entre um plano de saúde privado, ao invés de pagar pelo terrível sistema único de saúde, poderia escolher melhor, um plano que conviesse mais à sua saúde física do que pagar por cirurgias de motoqueiros acidentados e usuários de entorpecentes com overdose.

A questão de justiça na tarifação da saúde é complicada. Afinal, embora no serviço público você pague por serviços que não utiliza, quando mais velho, você continua pagando a mesma taxa que pagou anteriormente – basicamente você fez um investimento.

No setor privado, você paga exatamente pelo que vai usar naquele momento da vida – porém, quanto mais velho você fica, mais caro paga. Só que, se você parar pra olhar, a partir de um momento, quanto mais velho você fica, menos você recebe (aposentadoria não é lá o sonho que te prometeram, meu amigo, nem no INSS nem no setor privado, pode acordar).

Enquanto no setor público você “fez um investimento” quando não usava tanto, o setor privado espera pra te dar a conta completa de uma vez só, quando você não puder pagar. Claro – o serviço de saúde pública é uma bosta. Precisamos matar a corrupção, talvez até o SUS, mas não é acabando com os impostos que você vai produzir um sistema privado de saúde justo. Pode olhar a briga que o Obama comprou nos Estados Unidos para montar um plano de saúde custeado pelo Estado lá, em 2010 (http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/01/nova-lei-de-saude-obamacare-entra-em-vigor-nos-eua.html).

Quando a realidade do transporte público de São Vicente, que, oficialmente,não tem transporte público regulado pelo Município, vem à tona, percebe-se que as coisas podem ser desesperadamente piores quando as empresas gerenciam a si mesmas.



3)      Muito imposto pra pouco serviço

Talvez um dos maiores disparates na argumentação sobre altos impostos. A comparação com outros países, como Dinamarca, Noruega, Suécia e bom, você conhece a lista faz tanto sentido quanto comparar o gosto de uma Balalaika com uma tequila reposada blue agave. Só de ler você já vê que tem algo diferente aí.

Comparar o quanto se paga de imposto na Suécia, dizendo que pagam o mesmo tanto que a gente e têm serviços muito melhores é no mínimo injusto. Afinal, em nenhum deles o sistema começou estruturado. O Canadá não foi fundado com todos os hospitais completamente equipados e em funcionamento. A Alemanha não foi estabelecida como país já com todas as rodovias asfaltadas com aquele tapete mágico que não se compara àquela batida de brita brasileira que se colocam nas BRs. Quando alguém decidiu que seria Rei da Inglaterra o país não tinha Universidades de ponta.



O Brasil está naquele momento de estruturação – e, infelizmente, continuará assim por muito tempo, a depender da corrupção social. Seja porque o dinheiro não é recolhido ou porque o dinheiro não é utilizado da maneira prevista, é impossível chegar a qualquer um desses objetivos. Nisso, as manifestações tidas como infantis pelos grandes sociólogos das redes sociais, estavam certas: a luta é contra a corrupção.

Talvez esteja mais que na hora de percebermos isso e pararmos de lutar contra governos ou plano de governos que durarão, quiçá, quatro anos. Afinal, a presidência da república não passa lei alguma (e não faz nada) sem o Congresso Nacional aprovar. Nem mesmo Medida Provisória, por mais que tentem convencer você disso.

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Não é sobre Dilma, Aécio ou Marina; nem mesmo sobre Eduardo, Luciana ou Levy. Nem seria sobre Eymael, ou qualquer outro candidato a um cargo eletivo. Não é sobre as eleições ou quem vai ganhar poder ou perdê-lo. Poder político é uma ilusão. Dê uma caneta ao homem e ele crerá que pode mudar o mundo com um pedaço de papel – mas não é bem assim.

Vivemos o mundo que gostaríamos de viver. Não é sobre capitalismo, comunismo ou mesmo escambo ou uma sociedade comunitária. Não é sobre a alternância de grupos de poder. Mais à esquerda, mais à direita, mais ao centro. O poder está na manutenção do status quo. E uma revolução popular, uma guerra civil ou uma evolução social não alterarão o status quo. Dê poder ao povo – nada, em si, mudará. O problema que escolhemos viver está bem mais próximo de nossos próprios olhos.

Não somos membros dos Ministérios de George Orwell apesar de conjecturarmos mil e uma coisas sobre conectividade e grande mídia. Somos todos proletários, aquele povo de vida pacata que sobrevive às mudanças sociais sem vê-las acontecer.

Desculpem-me Adorno, Lazarsfeld e, bem, quase todos teóricos da comunicação de massas. Sim, a mídia de massas tem sua característica de manutenção do poder – mas não é de sua essência. É da essência do homem, manter o que se há. Como bem disse Walter Lima, “o jornalista gosta de novidades, mas teme mudanças”. Todo homem teme mudanças – afinal, todos nós temos um pouco a perder.

Se todos temos um pouco a perder, nunca faremos uma mudança completa, não é mesmo? Sempre daremos um jeito de fazer uma mudança que não mude tanta coisa assim. Só balanceamos um pouco da equação em nosso favor. Sempre foi assim, sempre será assim.

Quando a burguesia se irritou com o autoritarismo dos senhores feudais, não libertou os servos e endividados, apenas tomou o poder pra si. Quando os franceses derrubaram a Bastilha e decapitaram os reis, não mudaram o sistema econômico opressivo. Aliás, mudaram: a seu favor. Quando os czares russos caíram e a revolução socialista obteve êxito, não foi pelo bem comum. Foi pelo bem da ideologia.

Então me perdoem também o DCE, o PCO e outras siglas de revolução do sistema econômico. A liberdade não está com vocês. Perdoem-me os sinceros defensores de um Estado tão laico que candidatos de uma religião específica não poderiam se candidatar, vocês não tem a palavra que vai libertar os religiosos de seus cabrestos. Me perdoem líderes religiosos, que têm uma Verdade mas cujos sonhos e planos se distanciam cada vez mais dEla – vocês não são capazes de trazer a Luz divina para todos os povos e nações.

A revolução não estará na troca de poderes, nas políticas macroeconômicas, no incentivo à agricultura familiar e ao veganismo. A mudança de fato não estará num transporte público eficiente, em médicos cubanos, eslavos ou alagoanos. O que mudará o status quo não estará por ali: porque, em matéria de disputa de poder, isso tudo não passa de uma briga de moscas, disputando o pedaço mais apetitoso do estrume ruminado.

O poder não está nos títulos, nos salários ou nas instituições (e já peço desculpas a quase todos sociólogos e economistas que escreveram algo nos últimos anos): o poder está aqui, e aí. O poder está no seu olhar quando você ultrapassa as barreiras que você mesmo criou entre quem você é e quem você precisa ser. Nas barreiras entre o que é seu, e o que é o mundo lá fora. Nas barreiras entre o zero e o negativo da sua conta bancária. Nas barreiras entre você e sua esposa, ou marido. Ou colega de quarto. Ou vizinho.

O poder está nas barreiras que você constrói. E quanto mais barreiras constrói, menos poder você tem. E mais o status quo se fortalece.


Você pode gostar de filmes de terror. Pode até ter uma tara daquelas quase igual otakus que colecionam um monte de coisas – mas aposto que você não teria coragem de visitar Silent Hill, se ela existisse de verdade.


Num emaranhado que gerou vários jogos, filmes e até mesmo uma série, Silent Hill utiliza elementos de parapsicologia e filosofia. Resumindo bem, Silent Hill é um lugar onde o seu pior pesadelo se torna realidade. É uma cidade isolada que fica ao lado do Lago Toluca, nos Estados Unidos, que, como em muitas cidades pequenas de histórias de terror e filmes, é permeada por um antigo mal demoníaco e tem criaturas rondando as ruas e os prédios, que só podem ser vistos por pessoas “especiais”. Como uma descrição, na capa de um dos jogos, dizia: “Toda cidade tem seus segredos. Alguns são apenas mais nefastos do que outros”. A cidade, continuamente, troca entre a nossa realidade e a decadência do “outro mundo”, sempre criado pela mente perturbada de um dos personagens

Tem certeza que não existe? Dê um passo à frente no mapa, por sua conta e risco.

(Vi no Hoje é um Bom Dia)

Pode ser meio doentio, mas eu me reconheço em algumas letras do Johnny Cash, e mesmo que ele tenha sido um cantor gospel (sim, Johnny Cash também cantou música gospel) além do usual para a época, e com certeza, para hoje, eu me reconheço algumas das letras mais depressivas dele. Em hurt, por exemplo, eu reconheço boa parte do meu relacionamento com Jesus, principalmente quando eu caí em mim logo antes de pastorear um grupo de jovens – e graças a Deus que foi antes disso.


Porque muitas vezes eu me sentia tão plástico que me enganei várias vezes (Hoje machuquei a mim mesmo / Para ver se ainda sinto) tentando lembrar de como é ser uma pessoa normal, tão envolvida com uma aura de santidade (Eu uso essa coroa de espinhos / Sobre meu trono de mentiras / Cheio de ideias partidas / Que eu não posso consertar) e ainda hoje me sinto meio assim.

Como se os textos que eu escrevesse e as ideias que eu debatesse fossem muito longe do que é possível para mim, e é como se tudo desmoronasse (O que eu me tornei, meu mais doce amigo? / Todos que eu conheço vão embora / No final), todos o meu império de poeira caísse na minha frente.

E volta e meia eu tenho a plena convicção: Eu vou te desapontar / Eu farei você sofrer. Porque quem pregou Cristo na Cruz fui eu. Foram os meus pecados que atravessaram a sua pele, e O separaram do Pai. Mas Ele continua aqui, fiel a mim. Se eu pudesse começar de novo / Eu encontraria um jeito. E Ele me dá esse jeito, essa oportunidade.


Qualquer jogo de futebol sem arquibancada é uma tristeza –seja Araçatuba VS Sertãozinho, seja uma partida com portões fechados. Não ter em quem se apoiar, com quem comemorar e onde buscar forças – ouvir os seus gritos ecoarem no estádio vazio dá até um aperto no peito.

Uma vez, acompanhando um primo meu, turista, fiz aquela visita guiada ao Maracanã, que você passa pelos vestiários, pelos banheiros, pelos camarotes (o mais perto que já cheguei de um) e pela arquibancada; vou te confessar em mim doeu. Ver o estádio vazio, silencioso, quase em luto – um luto que era ignorado solenemente pelo guia das visitas, tão acostumado ao clima fúnebre que não se preocupava mais em respeitá-lo.

Assim era a decisão liminar da Conmebol. Que o estádio sofresse em silêncio, e os gols e boas jogadas fossem ignoradas pelas cadeiras quase-ergonômicas do padrão FIFA. Condenar uma torcida que mora logo ali na esquina ao confinamento dos portões de ferro que separavam a magia que acontecia no Pacaembu do resto da cidade.

Assim era o sentimento dos colombianos que passaram 20 dias pegando caronas e sofrendo nessas maravilhas de estradas do país natal e do Norte pra chegar e dar de cara com um Pacaembu vazio, mais solitário que um paulistano?

Em pleno dia de jogo da Libertadores, o mais importante campeonato da América Latina e o Pacaembu estava mais parecido com a sua torcida do que nunca – solitário, como se voltasse pela CPTM numa quarta feira final de tarde, enfrentando uma multidão de prédios tão cinza e tão vazios quanto ele.

Mas sempre tem algo a mais. Nenhuma história é tão ruim que não possa piorar – e enquanto uma nação inteira, como eles se vangloriam de se chamar se abraçava espalhada pela cidade, fazendo a sua própria diáspora, quatro desgarrados resolveram que eram diferentes. Assim como Higienópolis era diferenciado e tinha churrasco de filé mignon domingo de manhã pra impedir que a cidade tenha uma infra-estrutura melhor porque – bom, porque eles podem.

Então quatro maloqueiros, sofredores, da nação corinthiana, moradores da comunidade e faladores de gíria, vestidos de blazer e munidos de seus iPhones, óculos escuros e uma liminar que custou pouco mais que um milhar de reais se julgou (e foi julgada) diferente da maioria. Não, eles não queriam que todos entrassem – eles queriam entrar, porque tinham direitos.

Sufocaram o luto do Pacaembu. Sufocaram a agonia do time – mas não foi aliviando ou dando conforto. Foi com o olhar penetrante de quem não é limitado por leis ou por moral. Aquele olhar penetrante de quem manda – de quem tem dinheiro.


Ciclista é tão egoísta quanto motorista. Várias rimas numa frase tão curta, veja só. Eu poderia até ir além e dizer que o egoísmo é inato do ser humano e falar psicologicamente sobre as ações de crianças e de como a sociedade influencia nesse egoísmo e prepotência, mas eu vou parar por aqui porque eu tenho um foco neste texto: ciclista é tão egoísta quanto motorista.


Todo mundo já viu uma bicicletada, ou pelo menos ouviu falar, depois do que aconteceu lá em Porto Alegre, quando um motorista, seja por pânico, seja por raiva, atropelou mais de 20 ciclistas numa avenida central – e dentre os valores que eles propõem é que a bicicleta é um transporte mais comunitário, mais humano, e o carro nos torna mais violentos e egoístas.

É uma coisa a se pensar, não estou dizendo que somos extremamente racionais quando somos fechados ou quando tem alguém indo a 5 km/h a menos que gostaríamos (eu não passo muito por isso por ser motoqueiro, mas acredito que tenha passado bastante raiva nos outros enquanto costuro o trânsito) – mas a bicicleta pode nos tornar tão ou mais egoístas do que somos dentro de carros.

Primeiro porque ciclista tem a manha de se achar melhor – não, não importa se você é officeboy e precisa da agilidade e rapidez de uma moto pra atravessar a cidade em 10 minutos, você é um ser humano pior que os outros porque não anda de bike; não importa se você anda de ônibus, você, além de ser pior que quem anda de bike ainda é pobre.

E o segundo, e mais lindo, é um movimento que surgiu em Uberlândia no começo desse mês, por conta de uma ciclovia da cidade. Essa rua abaixo que vocês podem ver, é a Rondon Pacheco, uma das principais, quiçá a principal avenida da cidade, e tem duas pistas de ciclovia (veja bem, ciclovia, não ciclofaixa – é uma pista construída especificamente para bicicletas, separada das faixas de carro). Existem DUAS dessas, uma de cada lado da avenida, e em cada uma delas dá pra andar tranquilamente em duas bicicletas uma ao lado da outra.

O que aconteceu neste paraíso ciclístico? Bom, desde que essa Avenida existe, antes das ciclovias, antes de ter quatro faixas pra cada lado de carro, ela é utilizada pra caminhada/corrida por pedestres – e algum ser humano propôs que uma das ciclovias fosse convertida em pista de caminhada, pra separar bicicletas de pedestres e todo mundo ficar seguro.

Poxa, que linda ideia você aí deve estar pensando foi uma coisa realmente genial. Os ciclistas como defensores do meio-ambiente, de uma vida saudável é claro que não só toparam como defenderam os direitos dos pedestres, certo?

Claro que não. Na verdade, assim como igrejas, partidos políticos e a mídia alternativa, os ciclistas se mostraram tão parciais e alienadores – e tão egoístas quanto os temíveis motoristas de carro.

Parabéns, hipocrisia, você venceu mais uma!


Soneto do Seu Sorriso

Parei pra pensar que poeta eu sou
como sei o que eu escrevo e não?
Será esse poeta os limites cruzou?
qual seria o verso do seu coração?

Parei pra pensar de novo em você
e o que tenho aqui é só a gratidão
A saudade que eu tenho de te ver
como se nisso houvesse uma razão

Os dias passam, e mesmo que pareça tudo normal
os meus olhos viram mais uma folha no calendário
A vida se vai como se estivesse tudo mesmo igual

Eu ainda sinto seu sorriso queimando, nada casual
não sei ainda o significado, já revirei o dicionário
Mas quando eu sonho com você, o dia fica especial

Já ouviu a Rodinha Herética? Ela está em mudanças – e eis aí a nova vinheta do programa, e fique atentos às próximas novidades – agora o bagulho anda de vez.


Leia a Parte I pra esse texto fazer sentido, cara.
Aproveite e leia a Parte II também, pra não ficar boiando.

Saí de lá com o rabo entre as pernas, até meio cabisbaixo, pensando no mal que tinha acabado de fazer pra alguém que, além de trabalhar no domingo, ser garçonete, limpar banheiros, ainda era argentina. Já não bastasse uma vida ferrada dessas, ainda fui eu lá, pisei e amassei o resto do dia dela (que tinha acabado de começar).

A cara da menina ao ver o que eu tinha feito com o estabelecimento comercial que ela trabalha.


Mas não deu muito tempo pra sentir dó dela, porque o meu intestino começou de novo. DE NOVO. Eu não conseguia acreditar que ia ter que achar algum outro estabelecimento (ia ser muita cara-de-pau voltar lá, né, na moral) pra tentar não estragar muito o banheiro (e dessa vez perguntar se passava cartão antes, só pra constar).

Dois quarteirões depois, achei uma praça, com banheiro público. Eu já estava preparado pra louvar pela graça concedida quando vi que ele tava trancado de corrente – e só funcionava em horário comercial COMOASSIM, SÓ FUNCIONAVA EM HORÁRIO COMERCIAL, MEU DEUS?

Suspirei (mas não muito forte, sabe como é), e continuei a andar. Passei por mil lojas fechadas, trancadas e acorrentadas (como o banheiro) e por um café com cara de café de hotel. Olhei lá pra dentro e passei reto. Foi só no próximo quarteirão que eu me dei conta de que ali provavelmente era o único (outro) lugar da cidade aberto –e que pela cara de hotel chique, seria o único que passaria cartão de crédito (e ainda tinha Wi-Fi!).

Voltei, escondi minhas coisas no canto, e sentei. Parecia uma delicatessen, ou qualquer saguão de docerias daqueles filmes chiques, com garçons de camisa e gravata borboleta, uma profusão de pães e doces cujo nome eu não sei pronunciar e preço minha memória não conseguiu gravar, de tão absurdos – e fui atendido prontamente, por um senhor que não me julgou pelo meu estado físico.


Seria no mínimo interessante ser atendido por um garçom assim.

Sim, eles passavam cartão. Sim, eles tinham wifi, e a senha era xis. Sim, ele podia me trazer um menu. Sim, eles cobravam 16 pesos (hoje R$6,60) por um copo de suco de laranja. Sim, era o mais barato que eles tinham para servir. Sim, ele traria o meu copo de suco de laranja –é só isso, senhor?

Assim que chegou meu suco de laranja de quase sete reais, tomei um gole e perguntei onde era o banheiro. Quando cheguei lá, rapaz. Me senti numa rodoviária no interior de Minas (não chegava às rodoviárias do Nordeste/Rio, mas era bem a cara de Minas). Que banheiro bizarro, pensei eu.

E fiquei lá por exatamente 25 minutos (que eu contei no relógio). Desci as escadas praticamente segurando as calças (que não estavam mais tão justas quanto na noite anterior) e tentando não desequilibrar com a repentina baixa na minha pressão, se bem que pelo tanto de peso (não a moeda) que eu perdi, eu deveria levitar, e não cair.

Bebi o resto do meu suco, e me sentindo quase saudável, voltei pra rua, em busca da Rodoviária Perdida.