Acordei mais ou menos ali aos cinco ou seis minutos do banho, sem saber como fui parar ali – a dor de cabeça não me deixava lembrar de momento algum fora aqueles 15 segundos que eu estava consciente.

Passei a mão nos olhos, querendo esfregá-los, mas só os esforços de levantar os braços acima da altura dos ombros me deixou com náuseas – e foi aí que eu reparei que a água estava gelada. Será que eu não tinha pagado a conta de energia ou só esqueci de ligar o aquecimento do chuveiro mesmo?

Com o tempo, a dor de cabeça foi dando lugar à razão, e lembrei de alguns flashes da noite anterior. Lembrei Alijah, rindo, enquanto voltávamos para casa – e isso me lembrou que eu não havia bebido, já que tinha ido de moto; mas porque a dor de cabeça então, se não era ressaca?

Voltei minha mente pros acontecimentos da noite anterior, ou da madrugada. Alijah subira pra tomar café como sempre, afinal já eram quase quatro horas da manhã. Ligaram a TV, e estava passando… passando… O que que estava passando mesmo?

Não sei, não lembro. Se não lembro é porque não importa. Lembrava de pegar os pães de queijo já assados, uma garrafa de coca e irmos pra varanda comer, vendo o sol nascer – até aí tudo normal, como sempre.

Lembro-me de deitar no seu colo, enquanto ela mexia no meu cabelo, só pra me fazer bocejar, aquela tonta. Daí… será… Não, não, ela não me beijou, mas foi quase. Talvez ela tenha ficado esperando meu movimento, eu fazer algo, mas deixei passar de novo, como sempre deixava. Ela não percebia que era de outro nível – que era demais pra mim.

Ah, aqueles olhos que pareciam viver fechados, talvez pela franja que insistia em cair lá dentro, o sorriso que saía fácil quando estava cortando alguém, ou dando tapas em sua vítima favorita – volta e meia, eu. Garota de palavras ácidas, cabelo com duas ou três mechas sempre coloridas, mesmo número de tatuagens escondidas, Alijah não era a primeira escolha de um cara, mas após quinze minutos de conversa (ou de trocas de farpas), eles não queriam saber de nenhuma outra. E, assim como ela parecia seduzi-los involuntariamente, esnobava-os.

Eu já tinha visto de tudo: playboys, metaleiros, quase-crentes (talvez um ou outro que fosse totalmente crente), até flaudemíglios; e ela inabalável. Não tinha como concorrer com isto.

Enquanto pensava nela, o cérebro foi clareando, e as memórias da noite passada chegando. Pela primeira vez olhei à volta, e o banheiro parecia… com algo que vira há muitos anos atrás, meio desconectado da realidade. Talvez fosse a tal ressaca causada por algo não-alcóolico – a vista estava até meio embaçada.

Lembrei que terminarmos de comer, e lavarmos as coisas juntos, e dela aninhar nos meus braços pra terminar de ver o tal filme que o café-da-manhã interrompeu. Não preciso nem dizer, que depois de passar a noite em claro, ela dormiu antes dos créditos – e me deixou sem saber o que fazer.

Virei o rosto para o lado, e o sol que vinha da janela me cegou – cegou até demais, enquanto um ruído enorme parecia me ensurdecer.

Me joguei no chão, com as mãos tampando os ouvindos, sem conseguir entender o que estava acontecendo – parecia que o ruído estava penetrando no fundo da minha alma, aquele barulho agudo, me fazendo arrepiar todo. Criei um pouco de coragem e abri os olhos, e onde estava a janela, não existia mais uma janela – era uma fenda, que abria um buraco na parede, enquanto uma luz abria espaço pra entrar por ela, uma luz branca, não uma luz como a luz do sol.

Em milissegundos vieram à minha mente de passagens bíblicas a temas apocalípticos  de mil religiões e crenças diferentes, e onde estava meu chuveiro, não havia mais nada – era um infinito de branquidão que me deixava tonto quando eu tentava enxergar algo através dele – ao meu lado, os shampoos haviam sumido e mil amarras e cordas estavam se prendendo ao meu corpo, causando uma dor que eu nunca pensei que iria sentir.

Tentei gritar, mas tudo que saiu de mim foi um soluço vazio, enquanto eu percebia que não conseguia respirar e um buraco se abriu na minha garganta, coberto por um tubo transparente que eu sabia, não sei como nem por que, eu precisava arrancar – só que meus braços se mostraram presos, ao lado do meu corpo.

Neste momento que eu percebi que estava deitado, e não estava no chão, embora não soubesse onde estava.

O ruído agudo foi se dissipando, e transformou-se em bipes ensurdecedores, que pareciam uma tentativa de comunicação em código morse – nem se eu soubesse o código ia conseguir compreender a mensagem com todas aquelas dores e náuseas.

De repente – cabeças. Várias delas. Em todos os lugares. Podia contar cinco ou seis – não sabia se minha visão estava dobrando algumas delas, ou se era só confusão minha mesmo.

A cabeça foi desanuviando, enquanto aquelas cabeças pareciam estar chamando mais cabeças, cabeças com toucas, cabeças com máscaras, que emitiam sons incompreensíveis. Foi nessa hora que reparei na impossibilidade de tudo aquilo. Ou era um sonho muito bizarro, ou eu realmente bebi alguma coisa que não me lembrava e tava tendo alucinações.

Depois de o que pareceu uma vida inteira, que eu consegui manter a sanidade repensando e relembrando todos os momentos com Alijah (talvez fosse hora de pensar em algo além de amizade, assim que acordasse), parecia que estavam começando a me libertar – e o medo retornou a me dominar. Foi quando ouvi uma voz conhecida.

_ Ele está bem. Sim, ele voltou. Parabéns, Raony, você é um guerreiro. Sou Alijah Marpi, sua neurologista.

Foto da Regina.

Conto de um Desjejum

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