Ele a olhou, como se tivesse acordado naquele momento. Encarou aqueles olhos castanhos que o observavam, com o seu rosto ainda sem expressão – viu aquelas bochechas que tanto mordera, aquele pescoço que tanto cheirara, aquela testa que tanto encostara no seu queixo. Voltou aos seus olhos, que já exibiam um pequeno sinal de dúvida; quiçá receio.


Não precisou dizer nada. Apenas a olhou, e foi como se palavras fossem um tipo de comunicação muito bizarro e rudimentar para eles. Seu, ele dizia, para sempre. E ela respondeu, na mesma sintonia a você eu me entrego. Ficaram nesse refrão, se dando um para o outro, num lugar tão isolado que o tempo não conseguia encontrá-los. Foram horas, foram dias, meses que eles se encararam ali – juras de amor que sabiam que nenhuma delas jamais seria abandonada. Juras de um amor que não se acreditava mais. Amor do tempo daqueles mais idosos, que sempre recordam com um ar saudosista de todas as mazelas de alguns anos atrás, quando tudo parecia ser tão simples.

O pensamento, o olhar, as juras pareceram insuficientes – naquele momento, naquele êxtase, naquela intimidade, todas as promessas e sonhos, todas as juras e desejos pareciam ter se afastado deles. Não foi tentando conter, mas expressar a sua própria falta de expressão, ele suspirou. Não um suspiro de tédio, ou de cansaço.

Um suspiro de quem está no lugar certo, na hora certa e com os neurônios explodindo em agonia para tentar recordar o máximo possível daquele paraíso. Um suspiro de quem já sabe que o amor ali é mais do que já sonhou em encontrar. Aquele suspiro de quem vê, sente e toca em Deus ali, naquele lugar – a três. Suspiro que limpava a alma de qualquer impureza ou lascívia. Estavam os dois ali, se encarando, se amando – suspirando. De uma forma que sabiam que ninguém suspirava, nem mesmo a senhora (ou senhor) saudosista de alguns parágrafos acima. O suspiro de quem já estava completo, porque sabia estar.


Foi ali que se tornaram um. Ali que seus sonhos se colidiram, se juntaram, e explodiram numa tempestade de emoções e sentimentos que os molharam, os embriagaram e os uniram. A realização de estarem juntos, de estarem um. Nenhum da maneira que tinha sonhado, ou desejado – nenhum outro jeito seria tão perfeito. Os dois ali – em um. Sozinhos – juntos com Ele que os observava, provavelmente sorrindo. Sorrindo e suspirando. Aquele suspiro de quem sabe o que está fazendo – e vai fazer o melhor.

Conto de um Suspiro

Categoria: Contos de Domingo
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