Atenção: esta é uma versão RESUMIDA do dossiê - veja o completo.

Nesse fim-de-semana, nós entramos na subcultura do Não-Morda-A-Maçã. Subcultura não porque o movimento seja desprezível, mas porque se encaixa dentro de uma outra cultura que é o protestantismo brasileiro – e se encaixa perfeitamente.

Fomos eu, o Thalys (presbiteriano) e a Cindy (batista da lagoinha) pra conhecer mais do movimento, da pregação e da teologia deles, depois de tanto ouvir tantas coisas sobre eles mas de não saber de fato o que era, já que o blog sempre foi muito evasivo quanto às raízes doutrinárias e teológicas do evento.

Logo que eu e o Thalys chegamos no evento, já rolou uma coisa que deixou a gente meio de sobrancelha erguida – na hora de pegar as pastas, as pessoas eram divididas em pulseiras vermelhas (namorando) e pulseiras verdes (solteiro) – não, não é brincadeira, sente a foto:

Nessa vibe, já sabia que ia rolar alguma interação entre solteiros – a última coisa que eu queria – descolei uma pulseira vermelha pra mim, e por via das dúvidas até a aliança do meu antigo namoro voltou pra mão (sim, eu fui preparado) – a pulseira verde da foto é a da Cindy.

Sim, podem falar que eu estava com medo – porque eu estava, e muito. Afinal, interações dentro de igreja são meio complicadas – como o Abner ia colocar muito bem em palavras, e eu não conseguiria dizer melhor, “percebe-se nas entrelinhas do discurso o incentivo ao “não-tesão” pela vida ou a castração dos instintos fisiológicos colocados por Deus no homem não por acaso.

Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte;
Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.
Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; [1 Pedro 5:6-8]

Toda a teologia, todo o fundamento do Não Morda a Maçã se baseia neste versículo. Só que na real, é meio (eu não tenho outra palavra pra falar isso) paia reduzir todo esse versículo à vontade de pegar alguém (porque, convenhamos, é isso que faz o adolescente/pré-adolescente ficar ansioso por um relacionamento). Quanto à isso, me apoio novamente numa citação do Abner, que diz que “a teologia NMM inverte e distorce o texto bíblico transformando-se em puro sofisma, do qual Paulo nos pediu insistentemente que rejeitássemos.

Especificamente sobre este trecho, Thiago Paiva diz que, como consta no primeiro versículo da carta, ela foi escrita para os cristãos dispersos na Ásia, e “tu acha MESMO que com gente querendo te matar pelo simples fato de você crer em Cristo como seu salvador, cê vai ficar preocupadinho com ter relações com alguém? […] Então essa carta foi direcionada de forma com que estes cristãos fossem fortalecidos nessa confusão toda.” Tanto o texto se volta para isto, pelos conselhos que Pedro continua a dar, no resto da carta.

 “A gente chega nessa questão da ansiedade”, continua Paiva “Tempos conturbados, de perseguição, você é jovem, não tem cargo nenhum na liderança da sua comunidade, vai ficar tudo é NEBULOSO pra você. Você não vai entender é NADA. E nuns tempos difíceis desses, você fica apavorado! E aí é que Pedro manda a deixa: DESCANSEM NO PAI. Fiquem de olho, se achar que consegue pelos próprios meios, se der lugar pro inimigo, aí que a coisa complica de vez. Então, nada melhor que entregar toda ansiedade, dúvida e situação nebulosa, nas mãos do Pai, que tem cuidado de nós.”

Segundo Ortega, portanto, não deveríamos ficar ansiosos, porque ansiedade trazia medo, e o medo nos paralisava, e portanto, era do inimigo (insira alguns amém! aqui). Devemos, então, arriscar, ousar e arrancar qualquer dúvida dos nossos corações – porque é isso que fé significava.

Se você tem fé [disse Ortega] você pula de um prédio e Deus vai te segurar. Eu morria de medo de avião, até que entendi isso. Agora, como eu tenho fé, e sei que Deus tem planos pra mim, eu sei que não vou morrer. O avião pode até cair, mas eu vou sobreviver.

Não, eu não vou comentar isso. Quem vai comentar é a Joyce Adeline, formada no curso básico de teologia no ISBL: ” …o Deus que eu sirvo é tão bom e tão confiável, que antes de me segurar da queda, me deu sanidade pra não precisar pular, e poupar o trabalho dos anjinhos.  “Confiança“, continua ela, “é crer no caráter de Deus, mas não na sua imortalidade, afinal, Deus tem planos pra pessoas de 15 e tem planos pra pessoas de 80 anos. Jesus morreu com 33, podia ter feito tanta coisa boa ainda? Morreu cedo né? Vai ver ele não confiava nos planos”

Resumindo: o movimento não busca o amadurecimento das pessoas, a reflexão sobre como é um namoro, mas dá, sim, um passo a passo de como arrumar um relacionamento. É um manual passo a passo, ao estilo dos seminários de prosperidade financeira, e assim como eles, se baseia em alguns versículos com interpretação forçada, soando no início como uma visão alternativa e passando para o absurdo completo, assim que tenta se justificar.

Você quer começar um relacionamento? Tem que estar bem consigo mesmo’, e a partir daí, vêm tanta auto-ajuda barata, desde um ‘valorize a si mesmo, vaso’ até ‘se você não se amar, quem vai te amar’, que nos fez ir almoçar mais cedo.

Dossiê Não Morda a Maçã (resumido)

Categoria: Pics
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