Meu avô dizia que o mundo andava muito estranho – e eu preciso concordar com ele. Tenho visto muitas coisas nesses dias que dá vontade de jogar tudo pra cima e esquecer que um dia eu fiz direito e aprendi alguma coisa naquela faculdade.


Saí da faculdade em 2011 – não faz muito tempo, mas pelo menos até lá, a gente podia acreditar em uma coisa: bizarrices aconteciam, muitas, na primeira instância, mas no Tribunal e nos Tribunais Superiores as coisas eram diferentes, e tudo se acertava por uma lógica jurídica que fazia sentido, a despeito dos entendimentos no mínimo intrigantes dos juízes de primeira instância.

Aprendemos que o processo é aquele pré-adolescente que faz coisas que ninguém entende porque (juiz de 1º grau), mas alguns anos depois adquire certa maturidade e passa a ser um jovem processinho, com ideias melhores na cabeça (2º grau) e, às vezes, precisa de amadurecer um pouco mais para se tornar um processo razoável, digno (3º grau). O STF é um órgão político, desde cedo a gente aprende isso nas aulas de Teoria Constitucional. O porquê de sê-lo, para que sê-lo e como ele, assim como todo o poder Judiciário é destacado dos demais, acessível apenas por concurso público ou através de indicações depois de extensos exames e sabatinas, nas quais comprovar-se-ia o notável saber jurídico de seus membros.

O judiciário seria a luz da sanidade enquanto o legislativo continua cheio de representantes com interesses diversos do povo e o executivo bateria cabeça tentando ver se faria alguma coisa antes das próximas eleições. 

Mas nos últimos dias, tantas coisas tem acontecido, partindo de tantos lugares que a gente fica meio bobo – e perde a fé no sistema jurídico. E o que um advogado deve fazer quando perde a fé no judiciário? Eu não sei.

É construtora que exige assinatura de uma cláusula de não modificação do imóvel porque sabe que ele foi mal-construído e não pode mexer na sua estrutura senão tudo cai (e tá tudo bem); é policial prendendo pessoas por estarem de máscaras e juiz dando a liberdade provisória com exigência que não é estendida nem aos acusados de homicídio; é deputado querendo penalizar o uso de máscaras de maneira mais forte que é penalizado o estupro; é policial usando a força porque sim e proibindo a filmagem porque não; é juiz que não dá liminar contra plano de saúde porque a decisão poderia causar ruína à empresa a mesma que faturou R$33 bilhões ano passado; é casa do governo federal com fiação insuficiente pegando fogo em todos os cantos da comunidade e ninguém é responsável por nada, tá tudo uma loucura.

E tá tudo normal. Vou falar o quê pro cliente?

Você tá no prejuízo, foram injustos com você, e você pode perder a sua casa? Olha, a gente pode entrar com um processo, mas… é como rodar o peão do Silvio Santos. Você pode ganhar o que tomaram de você de volta ou pode perder tudo que tem e mais um pouco. Como? Justiça, senhor? Fazer o quê, é a vida…


Epitáfio de uma carreira: advogar como?

Categoria: Opinião
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