Eu lembro de quando proibiram entrar as torcidas visitantes nos Estádios com bandeiras, porque o mastro delas poderia ser lançado. Depois com tambores, porque além dos próprios instrumentos, as baquetas se tornariam armas de guerra num eventual confronto. Ainda depois proibiram as latinhas de refrigerante, e esses começaram a ser vendidos em copos (na decisão menos higiênica possível) – e agora o sinalizador matou um rapaz.


Outro, além dos mais de 200 que morreram em Santa Maria, tudo graças a sinalizadores – e eis mais um objeto a ser proibido. Daqui a pouco, os jogos realmente vão ser de torcida única, como alguns já tem sido, e mesmo assim ainda haverá confusão. Culpa do futebol? Dos sinalizadores? Dos tambores? Provavelmente não, embora o discurso seja sempre o mesmo. O futebol revela nosso lado mau. Os videogames liberam os demônios interiores. A balada nos faz promíscuos. Porra, que homens somos nós que não somos culpados individualmente por nada? Até Adão se cansaria de tantas desculpas.

A selvageria está no DNA. Quando fui ver Atlético-PR VS Internacional, na antiga Arena da Baixada, a torcida visitante ficava espremida numa quina do Estádio, sem proteção contra chuva, sol, e frente a frente à maior arquibancada disponível – e assistir a torcida atleticana cantando e batendo os tambores quando até as mais inocentes bandeiras sem mastro tinham sido recolhidas pela PM, era um espetáculo quase assustador. Claro, nada que metesse muito medo em quem tinha viajado algumas centenas de quilômetros pra ver o colorado, mas alguns torcedores rivais não se bastavam só nisso, e, à despeito dos gigantescos cachorros e vigias nos 5 metros que separavam as torcidas, alguns insistiam em querer pular a cerca e gritar palavrões provocando.

Claro que gritaram ‘gaúchos viados’. Claro que a resposta foi ‘ão ão ão, segunda divisão’. E o estádio ficou em silêncio por alguns bons minutos, antes da loucura. A diferença é que, mesmo a torcida rubro negra paranaense sendo uma das que mais se mete em confusões, mesmo Curitiba tendo sido palco de uma insanidade alguns anos antes pelo rebaixamento do Coxa, a resposta da torcida atleticana foi no tambor. Foi nos gritos de guerra. E na careca do Paulo Bayer.


E aí um menino morreu, na Bolívia, porque um torcedor atirou um sinalizador contra ele. Não vou falar que era porque era um corinthiano, porque seis cruzeirenses bateram num atleticano até matá-lo em BH, porque um palmeirense atacou um corinthiano com uma moto-serra, porque um colorado esfaqueou outro colorado há uns dois anos, e a lista é interminável. Não é o futebol que propicia a violência e a selvageria. A frustração da derrota é sentida tanto numa partida de futebol como numa de xadrez.

Seria o homem naturalmente mau?

E aí um menino morreu, na Bolívia, porque um torcedor atirou um sinalizador contra ele no primeiro tempo. Parece aquelas histórias que a gente ouvia dos mais velhos de gente que fazia xixi no copo e jogava pra molhar a galera lá embaixo, ou de quem punha taxinhas contaminadas com HIV nos bancos de cinema.

A Conmebol, ano passado, havia prometido que seria mais dura com os times – mas na pré-Libertadores já tinha aliviado pro lado gremista. O desabamento de parte da arquibancada não gerou a interdição do estádio (e pasmem, cadê o MP gaúcho?), e dificilmente haverá sanção para o Corinthians, afinal esse é o jeitinho todo xoxo da instituição. O Corinthians também não deve ser punido pela CBF, já que o campeonato é de outra Confederação, fora da jurisdição nacional da CBF.

Os torcedores foram presos pela polícia boliviana, e vão ser entregues para ser processados e julgados aqui, se bem que todas as lendas que se dizem sobre a corrupção na PM brasileira são fatos corriqueiros na Polícia Boliviana – esse aí é um país esquisito. Quanto à família, uma tristeza – e pensar que vi Santos VS The Strongest em La Paz. E que comece a turma da balbúrdia querendo criminalizar o futebol, as torcidas, o universo e camisas alvinegras. Porque a consequência é sempre culpada.


Futebol, violência e a passividade da Conmebol.

Categoria: Opinião
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