Quando cheguei ela já estava lá, naquela posição que todo mundo detesta. Deu um sorrisinho sem-graça, sabendo do pensamento de qualquer pessoa que a visse naquela posição, não sabendo como ignorar a verdade ou disfarçar que aquilo também a incomodaria.

Tinha vindo desde Fortaleza, e ia para Belo Horizonte, e quando entrei no avião, já em Recife, ela estava lá, na poltrona do meio, sem escapatórias. Eu sentaria do lado dela, mas pelo menos era janela.

Não que ela em si fosse desagradável. Era uma senhora, com seus cinquenta e poucos anos, um casamento duradouro e uns três ou quatro filhos. Vestia-se de maneira sóbria demais, quase resquício de uma época que viajar de avião era uma ocasião especial – seu jeito contrastava com o meu de mil maneiras diferentes.

Eu estava com uma calça jeans velha, já rasgada em alguns pontos do joelho e com a barra esfarelando – meu tênis já fora azul e branco, e estava num azul e marrom que denunciava de longe o tempo que estava sem lavar, meu moleton com escritos em fontes vindas do norte da Noruega denunciava o que tocava nos meus fones de ouvido, e pra completar o pacote, ainda estava com uma bandana de caveiras que fazia todas crianças olharem para mim como se fosse um personagem saído de uma de suas revistinhas em quadrinhos.

Mas mesmo assim, ela me recebeu com um sorriso, e ainda segurou meu livro pra que eu pudesse guardar a mala no bagageiro já superlotado do avião. Conversamos brevemente sobre como as companhias aéreas mudaram, como o almoço uma vez ficou ruim, tornou-se um pacote de amendoins e de repente foi embora, como se nunca tivesse existido.

Quando dei por mim, estava conhecendo mais daquela senhora, que saiu do interior cearense pra tentar a vida em São Paulo e acabou parando em Campinas do que de muita gente que esteve por muitos meses ao meu lado.

E toda história. Ah, toda história é uma história que bagunça com a gente de maneiras espetaculares.

Ela estava voltando da cidade que nasceu – tinha comprado a passagem logo antes de abril, num daqueles saldões de internet, para ver a mãe, que estava pra fazer 98 anos. Ficaram meses conversando, sonhando, planejando com o dia que iam se rever, depois de quase cinco anos. A mãe dizia já contar as horas para receber a filha que tinha ido embora, quando, faltando uma semana pra viagem, no dia 22 de julho, quase cinco meses depois da compra da passagem, confirmação da viagem e liberação para as férias, faleceu.

Foi faltando quatro dias para viajar, com as malas quase arrumadas e todos os presentes já comprados e organizados que esta senhora que estava do meu lado, recebeu a notícia. Que a sua mãe, a guerreira, a última pessoa de sua família, faleceu. Logo agora tão perto, e tão longe.

Eu não sabia o que fazer. O que dizer. Olhava para ela, com os olhos cheios de lágrimas, desabafando pra um desconhecido que sentou do seu lado sobre como foi chegar na cidade que cresceu, olhar para a casa vazia e ter perdido a última pessoa que contava desde a infância e o aperto que me deu no coração foi de uma agonia impressionante. Demos as mãos, conversei um pouco com ela, a tranquilizei, e depois de um sorriso e algumas palavras de oração, ela se cobriu. Fechou os olhos e dormiu.

E eu não consegui me concentrar mais em nada.

Incômodos necessários.

Categoria: Igreja
0
32 views

Deixe uma resposta