Para que liberdade? Liberdade de quê? Eu tenho minhas próprias prisões – umas criadas por mim, outras pela civilidade, e ainda mais algumas impostas. Anseio fugir delas, tento me livrar daquilo que me prende – me frustro, brigo com inocentes, bato com a cabeça nas paredes, grito sozinho e ainda faço mais uma pá de inutilidades, como comprar o que não preciso, viajar pra respirar ar puro, me refugiar entre um par de fones de ouvido e deixar a minha mente ir embora enquanto eu me sinto mais impotente que uma formiga que vê seu caminho barrado por mãos humanas.

Vivo, dia após dia querendo ser cada vez mais livre, mais independente, me submeto a novas prisões pra afastar as antigas, cumpro penas ainda maiores pra me livrar de uma liberdade condicional, arrumo um emprego pra ter o meu imóvel próprio, carro próprio, muros próprios e uma vida própria que vou fugir todos os finais-de-semana. Porque se morar sozinho fosse libertador, não havia uma necessidade tão grande de juntar os amigos durante as noites mais improváveis, nem tantos bares abertos durante a semana.

E então, buscando fugir da opressão dos meus pais, da minha família eu fujo e crio um ambiente só meu, onde eu vou poder fazer o que quiser – e quando vejo, eu me oprimo muito mais do que era oprimido anteriormente. Se eu quero me juntar com os amigos, volto mais cedo do que quando me obrigavam a voltar pra casa num horário fixo; se eu quero fazer uma janta pra alguém, eu acabo sendo mais chato com a limpeza do que eram comigo – e acabo me policiando muito mais, em nome dessa liberdade, do que eu era punido antigamente.

Eu fujo cada vez mais de relacionamentos para não prestar contas a ninguém, e quando vejo, me escondo muito mais de muito mais gente – então passo a buscar relacionamentos que me deem mais liberdade, e vejo que me prendo à minha insegurança, em nome de uma liberdade que eu exigi. Porque não adianta estar só ficando se eu ainda vou dormir meio nhé porque ela está na balada – e todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite.

Eu entro num emprego que exige pouco de mim, para que eu não seja obrigado a trabalhar muitas horas por dia, e fugir da prisão que é um trabalho que me toma mais de 10 horas por dia, mas as 8 horas que passo dentro desse horário se tornam um tédio tão grandioso que eu chego em casa esgotado e a única coisa que eu consigo pensar é na minha cama (e nos lençóis que eu precisava lavar, mas ainda não consegui). No cúmulo da mediocridade, o meu serviço me cansa pela sua chatice, não pelo seu volume, e demoro três horas pra fazer algo que poderia ser feito em 15 minutos, e quando sou criticado por isso, meneio a cabeça – eu não mereço esse trabalho chato, esse salário de miséria que mal dá pra pagar as contas nem mesmo essa dor de cabeça que me acompanha desde… quando?

Saí da igreja dos meus pais, pra fugir das regras que me impuseram, de um relacionamento comandado por pessoas que não sabem nem meu sobrenome completo, de uma vida regrada que é mais fácil esconder meus erros do que tentar acertar e caí num círculo vicioso que eu não consigo mais definir o que é minha expressão de liberdade, o que é minha necessidade de mostrar que não estou preso numa religião opressora e o que é esse vazio aqui dentro de mim que eu não deveria ter, gente?

Eu descobri que não importa do que você quer se libertar, nem para que você quer ser livre, mas como você se libertará. Porque é o processo que vai te deixar livre de verdade.

Livre de quê? Para quê?

Categoria: Opinião
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