/off. Dusk’s outset vem do inglês, início do pôr-do-sol, e é o segundo capítulo da saga Lorea & Piotr. O começo, é aqui/
(Lorea)

O dia passara rápido. Depois de (não muita) insistência, Lorea convenceu Piotr a ir para as docas. Na verdade, ele não estava tão afim de… de… nada. Nunca tinha visto Piotr tão facilmente convencível assim, o sono realmente deixara o garoto meio bobão.

Quando chegaram, o Sol já descia, refletindo-se no mar, deixando-o meio alaranjado, dando uma aparente camada de faíscas à superfície do mar. Tanta beleza, tanta poesia, a deixaram meio tonta. Era como se pudesse sentir Gus ali, em cada suspiro, em cada estalar das árvores distantes. Aquela presença, antes reconfortante começou a tornar-se desconfortável, dando calafrios. Segurou o braço do ucraniano mais forte, quase agarrando-se nele.

Se ele reclamou, não sentiu – estava tão ocupada olhando à sua volta, procurando o motivo de tanta inquietude, tanto medo. Estava quase ouvindo-o, e por mais que sonhara com isso, sonhara com sua presença, após a morte, por mais que desejara tê-lo eternamente, a possibilidade de realmente ele estar falando, ali, estar vendo tudo, o simples imaginar que tudo isso poderia ser realidade, a dava tremores. Sentiu como se seu corpo não a obedecesse mais, e não conseguia sequer dar mais um passo; seus olhos começaram a revirar, sem foco – via borrões de um Piotr, misturados à relva e ao mar – de repente as faíscas do mar começaram a saltar, tentando atingí-la, machucá-la.

Por reflexo, desvencilhou-se de Piotr, protegendo o rosto com as mãos, soltando um gritinho de agonia, enquanto caía. Enquanto caía. Caía. Parecia ser eterno, não sentia nunca o chão chegar – e agradecia por isso. Sabia que quando chegasse ao chão, o baque ia doer – quanto mais demorasse, melhor seria adiar aquela dor. Mas, em contrapartida, quanto mais tempo passava caindo, maior era o aperto no peito, mais se contraía seu coração, a ponto de implodir; e se caísse, sabia que aquela ia dor ia se espalhar pelo seu corpo. Não sabia o que era pior, e não ter o poder de escolha não parecia muito reconfortante – a agonia da dúvida era ainda pior.

Quando já estava quase desfalecendo, de tanta dor, de repente, tudo acabou. Aquela fantasia foi se desvencilhando, ao mesmo tempo que sentia algo envolvente ao seu redor – podia ver as faíscas serem interrompidas por um escudo azul claro, quase brilhante; não bem um escudo, era como se fosse uma… cortina. Enquanto as faíscas caíam no chão e desapareciam, a sua visão começou a voltar a ter foco; as cortinas azuis começaram a se dissipar, assim como as faíscas – e os sons voltaram a fazer algum sentido.

Era como se estivesse voltando a sentir – sua pele arrepiava em certos pontos, com um toque suave, não sabia bem de quê, mas era algo reconfortante, que lhe trazia paz. Sentiu ondas de calafrios, enquanto começava a perceber que ainda estava suspensa no ar, segura por algo que não a deixara cair; e começou a aperceber-se de certos detalhes, como a delicadeza com que sua cabeça era mantida acima do nível do corpo, a força e leveza do braço que segurava praticamente todo o seu tronco, com a mão espalmada no meio de suas costas, a dureza e frieza do chão, em seus tornozelos, sujos com a terra molhada.

Até que notou ainda estar com os olhos fechados. Parecia ter se esquecido de como abri-los. Não sabia para onde deveria mexer, exatamente o que mexer, e, para piorar, como mexer. Sentiu que a sentaram no chão, escorando suas costas em algo duro, firme, ao mesmo tempo que retiravam seus cabelos do rosto. Tentou agradecer, mas a única coisa que saiu de seus lábios foi um princípio de gemido, inexprimível.

Foi silenciada com um toque em seus lábios, toque este que se desenvolveu, e percorreu toda sua face, voltando aos seus lábios. Como por reflexo, ela entreabriu-os, levada por aquele movimento, sentindo o vento invadir a sua boca, aquele toque gelado invadindo sua garganta, e, de repente, viu que tinha parado de respirar.

Tossiu algumas vezes, até conseguir reunir forças, para respirar, ainda pela boca – era como um recém nascido, aprendendo em minutos o que levava anos a ser adquirido. Tinha vagas lembranças de ter andado, ter respirado, ter conversado, mas aquilo parecia ser tão distante, tão… outra pessoa.

Ainda respirava só pela boca, quando seguraram sua mão – não tinha como diferenciar esquerda de direita, mas ao menos, conseguiu corresponder ao toque. Pelo menos pra ela, ela havia correspondido, apertado aquela mão com toda força que tinha, pedindo ajuda – e tentou gritar novamente.

Dessa vez, com a boca já aberta, e a garganta já acostumada com fluxos de ar, o seu grito só não foi ouvido, pela falta de força – e desmanchou-se em mais um gemido frustrado. Nessa hora quase desistiu. E como se sentissem a sua frustração, deram-lhe um beijo na testa. E, com este beijo, ela conseguiu levantar o braço, e colocá-lo no ombro da pessoa, seja quem fosse.

Não era capaz de se lembrar onde estava, com quem estava, muito menos do que tinha acontecido, ou do que tinha visto. Todas suas forças estavam concentradas em avançar – nesta hora não se lembrava de docas, de faíscas ou cortinas azuis. Toda célula do seu corpo que a respondia estava empenhada em voltar ao funcionamento normal do corpo.

Fez menção de abrir os olhos, e teria até conseguido, se não tivesse sido cegada por uma luz tão forte, mas tão forte, que a fez virar a cabeça – e o corpo junto. E quase caiu mais uma vez, mas aqueles braços a puxaram para mais perto, e agora conseguia sentir todo o corpo daquela pessoa. E, no susto, acabara começando a respirar pelas narinas, que foram invadidas com um perfume doce, suave – o qual a lembrava de alguma coisa. Não sabia o que era, mas era algo bom.

Inspirou mais forte, enchendo os pulmões, e suspirou longamente.

_Relaxa.

Foi uma voz que a inundou por completo. Não sabia de onde tinha vindo, mas ecoou por toda sua volta, e a acalmou. Não sabia por que, mas ela sentia que deveria se entregar completamente a essa voz. Como se entregasse todo o seu destino a uma voz, tão distante, mas ao mesmo tempo tão próxima. Enquanto estivesse ali, ela estaria a salvo.

_Porque você não volta?

Era a voz de novo. Mas, voltar pra onde? Como assim, voltar? Porém, depois que a voz falou, pareceu meio óbvio. É lógico que ela tinha que voltar. Pra onde? Pra onde ela viera, oras. Pra lá.

_Devagar, tranqüila. Respira fundo, e tente abrir os olhos – O.k., vamos nessa. Respirou, segurou o ar dentro do peito e abriu, lentamente os olhos. Enquanto abria, aquela luz cegante voltou a feri-la, mas mesmo assim ela não parou. Abriu os olhos até quase a metade, vislumbrando apenas alguns vultos, etéreos, sem forma – e fechou os olhos novamente.

Talvez, normalmente, se sentiria impaciente pela sua incapacidade; mas essa incapacidade, que deveria ser frustrante, era, pelo contrário, um refúgio. Um refúgio da sua vida, das suas dores, dos seus sentimentos. Ela se refugiara dentro de si mesma, do abismo que havia entre os seus sentimentos.

Expirou o ar, e abriu os olhos novamente, na mesma velocidade. Dessa vez, foi até o final. Piscou uma, duas vezes. Os olhos continuaram abertos, embora ainda desfocados. Via o vulto da pessoa, e viu que ela estava com o braço no seu ombro. Não conseguia identificar se era homem ou mulher, apenas via que o vulto era humano.

_ Reaprender a enxergar é difícil, leva um tempo. Fica tranqüila, isso acontece. Você vai demorar um pouco a entender, a lembrar mais ou menos o que aconteceu, e vai demorar um pouco mais pra conseguir falar. É como se estivesse nascendo de novo, de fato. Primeiro a ouvir; depois a enxergar. Daí, para os movimentos, ficar de pé, andar. Aí sim, a falar. Isso é bom, faz bem. Faz a gente dar valor às coisas na vida. Coisas tão banais quanto o simples ver. O existir. Bem vinda de volta, Lori.

Enquanto a pessoa falava, a sensação de tonteira ia passando, e levou a mão livre aos olhos, mesmo sem ter muito controle sobre ela. Era o que aquele menino dissera – sim, era um rapaz; ela ainda não tinha muito controle sobre o seu corpo, era como se a ordem que o seu cérebro enviava demorasse alguns minutos para ser reconhecida pelo braço, e esse ainda a interpretasse de qualquer jeito.

Gemeu mais uma vez, mais longamente; e o rapaz a abraçou.

_Quer ficar de pé? – perguntou, e, sem esperar resposta, ajudou-a a levantar-se. Não bem levantar-se. Ela estava praticamente escorada nele, com as pernas tão bambas que não seria capaz de dar um passo em qualquer direção, sem cair de cara no chão. O esforço de manter-se apoiada quase acabou com seu fôlego, deixando-a ofegante.

Mas ela estava em pé. Firme. Com Piotr ao seu lado. É, era o garoto. Mais uma vez. E, sem saber como poderia expressar a gratidão, o abraçou. Mais uma vez. Como já fizera uma vez. Piotr estava ficando bom, em protegê-la. Ou ao menos parecia.

[LP] Dusk’s Outset pt. III

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