Nos reinventamos. Recriamos a roda, tentamos fazê-la quadrada, tentamos fazê-la triangular, e no final das contas descobrimos que a melhor forma de fazer uma roda rodar é fazendo ela redonda. Cansamos da igreja tradicional. Dos hinos antigos, das vestes sacerdotais e dos papéis de pastor, diácono e presbíteros.

Fizemos movimentos. Não éramos mais igrejas, éramos Igreja. Lá, podíamos ir mais longe – fazer coisas que a burocracia eclesiástico-institucional inviabilizava. Nos envolvemos em lutas importantes: fomos contra o voto de cabresto – ganhamos fama no país inteiro ao lutar contra as influências e coações pastorais que influenciavam eleições.



Mostramos como era terrível que um pastor tivesse poder de definir as eleições através dos votos de suas ovelhas e como era maléfico dar espaço de culto para candidatos. E estamos nessa luta até hoje.

O problema é que tentamos fazer uma roda quadrada – tentando ensinar as pessoas a refletir criticamente. Um processo que dói, um processo que é difícil, e que acaba envolvendo muito mais do que apenas uma reunião dominical (ou em qualquer outro dia da semana, afinal não somos igreja, mas durante a semana é complicado, sábado à noite tem outras coisas pra fazer e aí sobrou ele mesmo, o domingo): envolve a família, envolve educação formal, envolve estudos de filosofia e sociologia, matérias que nem em três anos de ensino obrigatório conseguem se provar importantes para seus estudantes. É impossível libertar pessoas e ensiná-las a pensar por si próprias quando o próprio contexto social que elas se encontram inviabiliza o tempo necessário para isto – e quando a nossa própria agenda política se põe no caminho.

Tentamos fazer uma roda triangular – e nos diferenciamos, em cursos de formação política com vieses de esquerda e de direita, para que as pessoas pudessem compreender como uma doutrina social ou outra poderiam auxiliar a alcançar fins que seriam de interesse da Igreja (com i maiúsculo, não é mesmo?). E não se engane: ambos movimentos eclesiásticos, tanto de direita quanto de esquerda, tem essa intenção: a agenda da esquerda busca dar dignidade através de políticas públicas; a agenda da direita busca dar dignidade através da liberdade e auto-determinação. O escopo é o mesmo, e são igualmente válidos. Mas mesmo assim, criamos problemas – não é todo mundo, da mesma forma, que está disponível, interessado ou que vê a importância desse envolvimento.

Foi quando arrendondamos nosso projeto de roda, e ficamos tão felizes por ele funcionar que não paramos pra pensar no que diabos estamos fazendo. As recentes cartas, manifestos e posturas, de todos os lados, mostram que o voto de cabresto ainda é uma realidade muito forte dentro das igrejas e movimentos eclesiásticos.

Se anos atrás lutávamos contra uma liderança que falava “vote em FULANO, porque Deus está com Ele”, hoje nos vemos em um jogo mais sujo: falamos em indiretas, nas entrelinhas. “Convocamos a assembleia dos santos a exercer sua cidadania terrena à luz de sua cidadania celestial”, “como cristãos, rejeitamos e denunciamos com veemência a corrupção, a iniquidade, a impunidade e o ataque ao Estado Democrático de Direito” – tudo isso ligado a um espiritualismo condenável, de orações, jejuns e até mesmo avivamentos.

Reinventamos a roda – mas trazemo-la mais maligna, mais dissimulada. Enfim, mais hipócrita.



Leia:

O Manifesto da Teologia Brasileira;

O Manifesto da Missão na Íntegra.

Manifestos cristãos na política e a reinvenção da roda

Categoria: Igreja
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