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O patinho feio ficou bonito. A órfã pobre se tornou princesa. Crescemos e amadurecemos ouvindo histórias sobre pessoas completamente perdidas, no fundo do poço, que se reergueram. O adolescente que sofria bullying e era trancado no armário da escola se tornou um multi-milionário. A mulher com obesidade quase mórbida que é triatleta. Nos inspiramos nessas histórias do ensino básico ao superior. O jovem advogado que pegou uma causa milionária quase perdida e fez sua fortuna de primeira. O gestor que revolucionou a empresa onde trabalha e quadruplicou seus ganhos pessoais numa trajetória ascendente fenomenal. O ator de uma peça da esquina que tropeça e cai num musical da Broadway.

À nossa volta as pessoas estão sempre ganhando, vencendo. Perdeu 35kg usando Herbalife e foi pago por isso. Investiu 100 dólares no eToro e hoje tem retornos semanais que beiram os quatro dígitos. A riqueza, a beleza, a vitória, todas elas ao nosso alcance. O mito capitalista da meritocracia vive forte, mas vive tão forte a ponto de fazermos questão de fingirmos que acreditamos nele – e de tando fingirmos que acreditamos, acabamos acreditando mesmo. Acreditamos piamente que tenhamos que vencer, independente do que seja esse algo, e que uma vez vencendo, seremos melhores daqueles que nós ultrapassamos pelo caminho. Na riqueza, na beleza, na santidade, nos relacionamentos.

Nos enganamos dizendo que iremos começar a dieta, que iremos economizar dinheiro, que iremos fazer isto ou aquilo, mas no fundo no fundo, ficamos chateados por não estarmos lá no fundo do poço para podermos subir na vida. Se não somos ricos, pelo menos é mais belo ser miserável do que ser medíocre. O miserável conseguiria se reerguer, o medíocre tem medo de perder o que já conquistou na tentativa de ganhar mais.

Conseguimos tornar a mediocridade o pecado mais sujo da pós-modernidade. É mais feio ser o cristão de banco do que o cristão glutão, ou o cristão prostituído – um apelo contra a rigidez da igreja consegue muito mais adeptos do que um apelo contra a insensatez de seus membros, ou contra a violência doméstica. Porque mais do que ter medo que descubram nossos defeitos, temos medo de sermos reconhecidos como conformados.

Nessa gincana pela vida mais bonita, mais vencedora, alçamos à cargos maiores na igreja, buscamos ir mais profundamente nos nossos relacionamentos, damos voltas e voltas para conseguir uma melhor posição no mercado de trabalho, fazemos dívidas para ir um pouco mais longe na viagem de férias (mesmo que tenhamos que vender quase metade dessas férias) e acabamos largando mão das frivolidades da vida.

Na busca pela vida melhor que a dos meus vizinhos, um sorvete não é apenas um pote de sorvete. São 17 reais a menos na conta poupança, são 3cm a mais na cintura, são 18 likes a mais no instagram. Ao postar uma foto de namoradinhos, são cento e tantos likes, uns 16 comentários e 3 ou 4 pedras do recalque alheio das inimigas. Uma foto de estudos, já são pelo menos umas 80 curtidas e 7 ou 8 mensagens de força, além de todos os pontos ganhos em respeito e confiança alheios. Vivemos uma vida de RPG. Fazemos nossas escolhas frente ao nosso destino como rolamos os dados para o Mestre que comanda o que acontecerá. Fazemos escolhas baseadas em benefícios e retornos sociais. Esquecemos que somos, vivemos, convivemos, namoramos e criamos seres humanos. Não estatísticas. Não reais. Não quilômetros viajados. Não memórias – muito menos as falsas, que insistimos em plantar em nós mesmos.

Um apelo à mediocridade, como única salvação em contraponto a uma sociedade utilitarista. A uma sociedade de vencedores. A uma sociedade de vidro.

Um apelo à mediocridade, como única reveladora do nosso verdadeiro caráter. Da nossa verdadeira face. E que uma vez reconhecidos como medíocres, possamos nos ajudar a caminhar, uns aos outros, uns com os outros, uns como os outros. Todos os patinhos feios que não eram cisnes, mas apenas patos de péssima aparência física. Todos os quatro-olhos espinhentos que não eram gênios, nem se tornaram milionários, mas quatro-olhos com rostos esburacados e famílias comuns. Todos os advogados com carro popular que, advogando, conquistaram novos carros populares com o passar dos anos. Todos atores suburbanos que apresentaram peças não-tão-boas assim para um público não-tão-grande-assim e não-tão-refinado-assim. Mas que consigamos olhar a vida que temos com orgulho do que fazemos. Das pipas que soltamos, quando pequenos, mesmo que por 5 minutos. Das vezes em que não perdemos de maneira nã0-tão-humilhante assim no MMORPG, e da fase 78 no Candy Crush. Da paçoquita de sobremesa e das mãos que nos recebem quando encontramos alguém que nos tem como queridos. As amizades conquistadas, todas tão medíocres como nós, e o passado que não-nos-dá-tanto-orgulho-assim.

Sejamos felizes conosco mesmos. Pelos 100 gramas que perdemos em dois meses. Pelo bombom da Erlan que ganhamos de um tio. Pelo lugar vago no coletivo. Pela linha de código que salvou o dia no trabalho. Pelos sorrisos conquistados entre a saída de casa e o retorno. Sejamos felizes com nossa mediocridade. E que ela nos leve aonde nós vamos, e queiramos de fato, ir. Não empurrados, constrangidos. Mas livres.


Mediocridade e o Conto do Vencedor

Categoria: Opinião
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