Mal cheguei a vê-la, na verdade. A gente é uma porcaria mesmo, fica na maior ansiedade por meses a fio, trabalha, dá o sangue, faz todas as juras do mundo, passa todas aquelas horas de viagem num ônibus apertado, sem conforto com a poltrona que tem a INCRÍVEL curvatura de 15º, come uma coxinha mais óleo que modelo fotográfico de esportes pra no final das contas, quando chegar lá, os olhos fazerem aquilo com a gente.


Borrou minha vista toda, só de olhar e ver o seu vulto. Meu olho marejou, e eu não pude mais aguentar tudo aquilo que eu guardava dentro de mim por tanto tempo, e junto com elas, desceu também meus joelhos, e fiquei ali, de joelhos no chão duro e frio de uma rodoviária de interior, chorando silenciosamente de alegria, enquanto ela me fazia aquela cara de só-você-mesmo, enquanto se divertia e segurava as suas próprias lágrimas – ela sempre foi mais forte do que eu. Chegou devagarinho, do mesmo jeito que ela chegou na minha vida, anos atrás, e ficou na minha frente, acariciando a minha cabeça.

Ah, como ela sabia o que fazer. Como suas mãos mexendo no meu cabelo me tiravam de mim e conseguiu secar as lágrimas e me trazer um conforto que eu não sentia desde a última vez que a tinha visto. Em poucos segundos ela me deu a força necessária pra levantar, e fazer o que ela menos esperava.

Esse abraço. Esse cheiro suave dos cabelos dela, que ela com muita luta contra si mesma ainda deixava assim. O peito dela subindo e descendo, tentando controlar as emoções e reações. As suas mãos que quase tremendo, relutavam a acreditar que eu estava lá, recusavam a aceitar que aquele sonho era verdade. E que era a última vez que eu teria ido de forma definitiva. Agora, eu tinha ido pra ficar. Agora, eu estava lá pra sempre. Bem guardado, no peito inquieto dela. De onde, por mais longe que eu estivesse, eu nunca iria sair.

Aquela tinha sido a nossa aliança. Aquele tinha sido nosso compromisso. Aquela era a nossa vida a partir daquele momento.

O fim da introdução

Categoria: Contos de Domingo
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