Que institucionalizaram a chatice, todo mundo já percebeu. Mas meu coração dói cada vez que vejo que a chatice chegou ao futebol de vez. Não se pode torcer pela Seleção, porque ela é da CBF, não é do Brasil. Não se pode comemorar um título, porque ele é roubado, e meu time ganhou mais que o seu na década de 60. Não se pode comemorar uma vitória por W.O., porque em 1942 o seu time também perdeu por W.O. (sério, gente? Esse é o melhor argumento de vocês?).

De W.O. não vale, bobão =(

O futebol se tornou um esporte rabugento, e não é aquele rabugento estiloso igual a pôquer ou xadrez. O futebol é aquele cara que não esperou 40 anos pra ficar velho e já resmunga toda vez que vê alguém com um pouco mais de felicidade que ele gostaria.

Desculpem-me vocês, que, fundamentados nos argumentos de Seleção-do-Ricardo-Teixeira-e-do-Marín-torturador (argumentos que são até válidos), não torcem pro Brasil nos jogos da Copa do Mundo. Desculpem-me vocês que não torcem pro Brasil no futebol porque essa é a única vez que todo mundo é patriota, de quatro em quatro anos. Eu estou me lixando pra isso – eu assisto futebol pra me divertir.

Porque é muito bom juntar os amigos, fazer um churrasco e assistir um jogo da Copa – com o Brasil ganhando ou perdendo. Xingando o Dunga ou pedindo a volta dele. Isso é futebol, todo mundo ser técnico ao mesmo tempo.

O que deve ter tornado o futebol um esporte tão rabugento no Brasil deve ser a tal da obrigação que o país tinha que vencer todos os jogos. Cada derrota do Brasil – eu lembro quando o país perdeu pra Honduras, em 2001, quando o Felipão era o técnico e bom… Amigo, a crise apertou.

A partir daí, foi só ladeira abaixo. Escândalos da MSI, da Parmalat e alguns outros menores já tinham minado a confiança e o respeito pelo futebol – e como mulher repetidamente traída pelo marido, os torcedores se fecharam cada vez mais e se tornaram muito mais céticos.

Não existe título que não seja comprado, erro de juiz que não seja intencional ou lesão que não seja encomendada. Ídolos viraram mercenários, rivais viraram antis e, se o meu time não ganhar, que ninguém vença (o que é uma lógica meio idiota, afinal alguém precisa vencer).


Uma vitória não é mais uma vitória – a torcida não quer mais futebol-arte, futebol-moleque, futebol uma bicicleta e me voy. A torcida quer resultados, quer gols, estatísticas e perfeição. A torcida não quer ganhar, quer que os outros percam – e quando não perdem, se enfurecem tal como aquele avô em festa de natal que não conseguem aguentar a alegria dos netos quando ganham os presentes que tanto sonharam a temporada inteira – e pedem silêncio pra ver a novela.

Não se pode comemorar um título. Ou ele foi roubado, ou não é importante, ou – por favor, parem de falar disso e serem chatos. Enquanto escrevo isso, o Corinthians começou a jogar a final que ele se sagraria Campeão Mundial há pouco mais de quatro horas – e já tem gente falando que a comemoração tá irritante de tão longa.


Quatro horas, pra comemorar um título que era esperado há 12 anos. Quatro horas de buzinas, quatro horas de foguetes. Isso é tão pouco – e vocês já estão reclamando. Deixem o futebol renascer, pelo amor de Deus. Deixem as crianças comemorar os brinquedos novos, os campeonatos novos e larguem essa cara fechada pra lá. Não se tornem um avô rabugento antes dos 30 anos. O futebol pede pela magia de volta.

O futebol virou um tio rabugento em festa de Natal.

Categoria: Opinião
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