Muito se diz, muito se afirma e várias teorias bizarras se criam sobre o como e o porquê a galera foi parar na rua, ainda mais com esses pedidos e cartazes que estão por aí. Uns dizem que é uma direita golpista manipulada, outros farejam o comunismo se infiltrando pelas veias da nação, e ainda há os céticos que só acham que é um novo tipo de balada que tá na moda.

Mas por mais que todas teorias conspiratórias políticas tentem afirmar, o grito das manifestações nas ruas não é de ovelhas manipuladas por uma direita golpista com péssimas intenções, nem de uma horda esquerdista furiosa atrás de um novo território para uma Revolução Soviética. É um grito de frustração geral.


Não que não seja um grito político – mas é um sentimento muito mais profundo do que as ciências políticas sozinhas seriam capazes de explicar – vai além da própria sociologia. O grito que se ouve nas ruas, não é de uma revolta popular que quer X ou Y. Não são 20 centavos, não é a PEC 37, não é uma cura gay ou um estatuto de nascituro. É uma frustração de um povo abandonado.

E só essa frustração explica a violência contra membros de partidos. Só um povo desesperado, acuado, com medo, reage tão violentamente para não voltar para a sua prisão. É como um animal recém-libertado que faz de tudo para não precisar voltar pra jaula. Range os dentes, morde, ataca, avança. O instinto de sobrevivência de um povo, que não que tenha acordado – mas que desatou a chorar compulsivamente com uma arma de fogo na mão, e não sabe diferenciar amigos de inimigos.

Da mesma forma, os gritos apáticos de “sem violência” frente à barbárie, ao vandalismo e ao choque entre os filiados a partidos e os outros é o mesmo choro contido de quem é violentado por aqueles que deveriam ser sua família. É aquele choro da criança que vê seus irmãos ou seus pais brigarem, daquela mesma criança que as lágrimas escorrem durante a noite, quando a sua cama tem alguém mais do que deveria ter.

Somos todos apenas um bando de órfãos. Órfãos de governos, órfãos de irmãos. Órfãos como povo. Somos grandes moleques de rua, que, quando ganhamos algo, não sabemos repartir, mas protegemos desesperadamente como se valesse mais do que a nossa própria vida (ou a vida de outra pessoa). Aprendemos cedo demais que a vida é dura, que se precisamos de alguém pra confiar devemos confiar em nós mesmos e que as coisas são como elas sempre serão,

E não queremos mais isso – mas também, não conseguimos acordar desse pesadelo.

Afinal, o gigante acordou ou está revirando na cama?

O grito dos órfãos

Categoria: Opinião
93 views