Depois do show do Iron Maiden, da polêmica que todo show do Iron Maiden traz (banda satânica, cujos integrantes usam preto, cantam sobre o número da besta e comem morcegos vivos no palco*), começou a mania – ora, se a gente tá falando bem de alguém, necessariamente precisamos falar mal de outra coisa, senão o ciclo não completa, senão o universo entra em pane e Deus precisa reiniciar o universo e começar tudo de novo e tudo começou com o big bang BAAANG!

Então é claro, os cristãos reformados de Facebook, cujo Sola Scriptura inclui trechos descontextualizados de Calvino, Washer e porque não um pouco de Osho e sabedoria popular que ninguém sabe onde exatamente está na Bíblia, mas com certeza está lá em algum lugar? Esses mesmos, eu sei que você tem amizade com pelo menos um desses, se você não for, por sinal, resolveram que seria uma boa hora pra criticar o Rodolfo.


Afinal, Raimundos era uma banda que fazia parte da vida de quase todos os pré-adolescentes e adolescentes nos anos 90, e a saída de Rodolfo Abrantes foi o fim técnico da banda – que continuou (ou continua) como zumbi por aí. A conversão de Rodolfo ao protestantismo foi o fator determinante pra mudança na vida dele, e ele não achou espaço para a banda dentro da vida que se propôs a viver.

Então, parte do mundo, principalmente os crentelhos protestantes reformados metidos a besta, entendeu que o Rodolfo Abrantes se converteu, parou de fazer sexo, usar drogas, encontrou Jesus e falou pra todos os seus antigos amigos de mundo que eles todos iriam para o inferno.

Mas não foi lá bem isso que aconteceu, é claro que não. E é óbvio que nenhum dos crentelhos reformados de Facebook se dignou a pensar ou até mesmo (veja só) a consultar a Bíblia (pode até ser A Mensagem, cara) sobre o assunto porque, afinal, isso é o conselho que aquele seu (ex) pastor quadrado daria quando você ainda era um alienado que dava o dízimo.

Qual a diferença entre o baterista do Iron Maiden que se converteu e continuou a tocar na banda e o vocalista do Raimundos que se converteu e abandonou a carreira artística secular? Simples: eles são pessoas diferentes.

Vejam só, eu estou ruminando esse post desde que fui num show/pregação do Rodolfo Abrantes aqui em Uberlândia, se não me engano no final do ano passado (gratuito, por sinal).

O negócio é que o Rodolfo estava com a vida de ponta cabeça. Quase suicida, enfiado com a cabeça nas drogas, perdendo a mulher que amava (ou um dia tinha amado) e caindo na depressão (parece bem com alguém que morreu esse ano, né). O que ele precisava era respirar – e não tinha como respirar dentro do Raimundos – ou ele pulava fora ou teria o mesmo final do Chorão, pelo contexto que ele estava envolvido. Não é uma questão de religiosidade, mas de abstinência.

Ora, a Bíblia diz que somos livres – somos livres para fazermos as coisas que não resultem em pecado. Da mesma forma que, por exemplo, o meu limite de bebida é um limite X, o de alguém é dois goles de Heineken. E se esse alguém não consegue parar na primeira metade do copo de Heineken, burro seria de continuar indo em lugares e vivenciando situações que o levassem a consumir Heineken – ele não tem domínio próprio, não sabe se controlar ainda. E então o mínimo que essa pessoa deveria fazer, para não pecar, é parar de frenquentar o boteco da esquina com os amigos que conseguem beber a mais que ele e o incentivam a beber um pouco mais.

As cartas de Pedro falam muito bem sobre isso. Clamar por liberdade sem ter a responsabilidade para lidar com ela é ser escravo do pecado. Viva para ser livre, mas não use a sua liberdade para fazer o mal – seja aos outros, seja a si mesmo.

 Uma escolha. Se certa ou errada, acho que não há como definir. Uma escolha como todos nós fazemos, todos os dias. Algumas mais radicais que outras. Mas eu acho muito estranho um mundo no qual cristãos zombam de cristãos porque estes estão determinados a pecar o mínimo possível. Talvez nós pudéssemos Rodolfar um pouco, e nossa vida não fosse tão medíocre. Ou talvez, pensei que já tivéssemos parado de usar uns aos outros como parâmetros de vida para usar a Cristo – afinal todos nós somos medíocres igualmente, mas de maneiras diferentes, certo?

Discordo do Rodolfo em muitas coisas? Sim, claro. De sua teologia? Um tanto. De não gostar de tirar fotos com as pessoas e falar isso no microfone? Totalmente, acho babaquice pura. Por sair do Raimundos? Não.



*eu sei

O que o baterista do Iron Maiden tem que Rodolfo Abrantes não tem?

Categoria: Igreja
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